ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
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Relatos de Experiências

13/03/2019LOURINHA E SUA TURMA: OS QUADRINHOS COMO METODOLOGIA DE ENSINO EM TEMÁTICAS SOCIOAMBIENTAIS  
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LOURINHA E SUA TURMA: OS QUADRINHOS COMO METODOLOGIA DE ENSINO EM TEMÁTICAS SOCIOAMBIENTAIS

Mauricio de Oliveira Silva1

1 Mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. m.osilva@hotmail.com

RESUMO: As histórias em quadrinhos (HQs) e tirinhas estão presentes na infância de milhares de pessoas pelo mundo, são empolgantes, despertam a leitura e incentivam a imaginação, além disto, existem historietas mais ácidas quanto a questões políticas, sociais, existenciais etc. Por muito tempo foi vista com maus olhos pelos educadores e pais, porém ganhou força após a LDB (1996) encorajar sua utilização e com a criação de gibitecas, a partir deste momento várias áreas tem investigado e utilizado as HQs em seus estudos. O objetivo deste relato de experiência é descrever uma atividade de confecção de histórias em quadrinhos de um aluno do Ensino Fundamental de uma escola pública de Itapebi - BA (2001), enquanto estudante e fazer uma correlação com a Agenda 2030 e sua influencia em sua formação em Licenciatura em Ciências Biológicas durante suas atividades pelo Programa Interdisciplinar de Bolsa de Iniciação a Docência - PIBID (2014-2017). Para a preparação deste trabalho, utilizou-se de uma análise ex-post-facto correlacional. Os personagens, inspirados em clássicos dos HQs infantis foram baseados na fauna e flora, com ênfase nas espécies brasileiras, e as historietas têm leituras socioambientais, com o título Lourinha e Sua Turma divididas em seis subtítulos. A releitura e correlaçao da atividade mostram que os quadrinhos produzidos em 2001 ainda fazem sentido sobre as leituras socioambientais atuais e que casam com a Agenda 2030. Quanto à ligação a formação docente, as influências da produção de HQs promoveram uma análise crítica sobre os problemas socioambientais da época, e que durante a participação no Pibid, o autor buscou inspiração nesta vivência para avaliar os seus alunos de forma mais diversificada. Ao preparar as avaliações do projeto Pibid sempre foram levadas em conta esta criação e a imaginação, buscando formas de avaliações mais flexíveis, não que o método aula expositiva e prova não seja válido, mas que não seja apenas o método escolhido. As aulas com dinâmicas diferentes, como as HQs, permanecem na memória dos educandos e influenciam positivamente na formação científica, cultural e cidadã dos envolvidos, ao mesmo tempo vence a tradicionalidade dos métodos avaliativos criando novas possibilidades. Práticas inovadoras e métodos avaliativos como as HQs e os utilizados no Pibid (2014-2017) são enriquecedores e abrem um leque de possibilidades na educação, incentivando na reflexão, crítica e busca ao desenvolvimento sustentável, articulado na educação para a conquista dos pilares Economia, Meio Ambiente, Política e Sociedade em busca de uma sociedade mais justa para todos.

PALAVRAS-CHAVE: Agenda 2030. Avaliação. Meio ambiente.

LOURINHA E SUA TURMA: THE COMIC BOOK AS A TEACHING METHODOLOGY IN SOCIO-ENVIRONMENTAL THEMES

ABSTRACT: Comic books and comic strips are present in the childhood of thousands of people around the world, are exciting, awaken the reading and encourage the imagination, in addition, there are more acidic stories about political, social, existential issues etc. For a long time it was seen with bad eyes by educators and parents, but gained strength after LDB (1996) to encourage its use and with the creation of gibitecas, from this moment several areas have investigated and used the comics in their studies. The purpose of this experience report is to describe a comic book activity of a student of the Elementary School of a public school in Itapebi - BA (2001), as a student and to correlate with Agenda 2030 and its influence on its formation in graduation in Biological Sciences during its activities by the Programa Interdisciplinar de Iniciação a Docência - PIBID (2014-2017). For the preparation of this work, a correlation ex-post-facto analysis was used. The characters, inspired by the classics of children's comics were based on fauna and flora, with emphasis on Brazilian species, and comic strips have social and environmental readings, with the title Lourinha e Sua Turma divided into six subheadings. The re-reading and correlation of the activity shows that the comics produced in 2001 still make sense on the current socio-environmental readings that marry Agenda 2030. As for teacher training, the influences of the production of comics promoted a critical analysis of the socio-environmental problems of the time, and that during the participation in Pibid, the author sought inspiration in this experience to evaluate his students in a more diversified way. In preparing the evaluations of the Pibid project, this creation and the imagination have always been taken into account, searching for more flexible forms of evaluation, not that the lecture method and proof is not valid, but that it is not just the chosen method. Classes with different dynamics, such as comics, remain in the students' memory and positively influence the scientific, cultural and citizen training of those involved, at the same time overcoming the traditionality of evaluation methods creating new possibilities. Innovative practices and evaluative methods such as the HQs and those used in the Pibid (2014-2017) are enriching and open up a range of possibilities in education, encouraging reflection, criticism and the search for sustainable development, articulated in education for the conquest of the pillars Economy, Environment, Politics and Society in search of a more just society for all.

Keywords: Agenda 2030. Assessment. Environment.

1. INTRODUÇÃO

As histórias em quadrinhos - HQs e tirinhas estão presentes na infância de milhares de pessoas pelo mundo, são empolgantes, despertam a leitura e incentivam a imaginação, além disto, existem historietas mais ácidas quanto a questões políticas, sociais, existenciais etc. como exemplos pode-se citar Mafalda, criada pelo argentino Quino e Armandinho, criado pelo ilustrador brasileiro Alexandre Beck, ambos fazem sérias análises sobre a humanidade.

Entretanto, por muitos anos estas criações eram desacreditadas pela maioria dos educadores e intelectuais, à semelhança de outros países, as HQs no Brasil não escaparam da sina de serem considerados produto cultural de segunda classe que devia ser objeto de desconfiança por parte de pais e educadores (VERGUEIRO e RAMOS, 2009). Por muitos anos, as mesmas eram consideradas infantis demais ou estimulantes a violência em crianças e adolescentes, o que por vezes ainda ocorre nos tempos modernos o que podemos verificar em outros produtos destinados a essas idades como os jogos eletrônicos e as metalinguagens produzidas pelos memes nas redes sociais.

Uma nova concepção acerca das HQs se reflete na presença de tal gênero em livros didáticos elaborados na década de 80 (FERREIRA, 2015). Inicialmente, a colaboração para a entrada das HQs nas escolas foi através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996) cujo texto ressaltava a importância da aprendizagem de linguagens contemportâneas e diversificadas para a formação do educando nos ensinos fundamental e médio (VERGUEIRO e RAMOS, 2009).

Por seguinte, profissionais de diversas áreas têm percebido como os quadrinhos podem ser relevantes no desenvolvimento educacional e aflora as vantagens na leitura das crianças (SANTOS e GANZAROLLI, 2011). No gênero discursivo das HQs há a presença dos signos linguísticos e visuais, pois nelas estão presentes a linguagem verbal e a linguagem não-verbal, os signos possuem o papel de auxiliar o homem a interpretar a realidade que o cerca e estão presentes em toda parte (SILVÉRIO e REZENDE, 2017). Desta forma, o gênero HQ apresenta linguagem e situação reais de uso, pois narra um fato fictício com finalidades diversas: entreter, criticar, ensinar, entre outras (FAGUNDES; SILVA e SILVA, 2017).

Ações de educação com o uso de HQs mostram-se inovadoras e despertam ao pensamento crítico, como exemplo, a promotora de Meio Ambiente de Vitória da Conquista - BA, Karina Cherubini, criou um projeto que foi institucionalizado pelo Ministério Público da Bahia, de um jornal chamado Eco Kids e Eco Teens que é um projeto de criação e circulação de um informativo sobre meio ambiente, voltado e preparado por alunos das escolas de ensino fundamental, públicas e privadas, custeado por infratores ambientais, em cumprimento de pena alternativa (BRASIL, 2015) e como ação no ano de 2018, o jornal lançou um concurso de HQs sobre a Unidade de Conservação Parque Municipal Serra do Piripiri (CHERUBINI, 2018), o que exemplifica bem um uso das historietas na Educação para a Sustentabilidade.

Atribuído às questões socioambientais, no ano de 2015 foi aprovado a Agenda 2030, Transformando Nosso Futuro: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), a Agenda 2030 é composta por 17 objetivos e 169 metas. Leva em conta o legado dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e procuram obter avanços nas metas não alcançadas. "Buscam assegurar os direitos humanos de todos e alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas. São integrados e indivisíveis, e mesclam, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental" (BRASIL a, 2015).

O objetivo deste relato de experiência é descrever uma atividade de confecção de histórias em quadrinhos de um aluno do Ensino Fundamental de uma escola pública de Itapebi - BA, enquanto estudante no Centro Educacional Professora Eloina Moraes Porto, realizada em 2001 como uma atividade de promoção de Educação para sustentabilidade, antes denominada Educação Ambiental, pela disciplina de Ciências por meio de uma análise da atividade proposta na época e a atual visão sobre esta intervenção seguindo as ODS (2015), além de fazer uma comparação como esta atividade influenciou em sua formação em Licenciatura em Ciências Biológicas durante suas atividades pelo Programa Interdisciplinar de Bolsa de Iniciação a Docência - PIBID (2014-2017).

A justificativa desta atividade é socializar a visão de um educando que participou de uma atividade criativa e lúdica com produção de História em Quadrinhos no Ensino Fundamental e como esta atividade estimulou no interesse com as ciências e em sua forma de ensino e avaliação como profissional educador.

2. METODOLOGIA

Para a preparação deste trabalho, utilizou-se de uma análise ex-post-facto, também chamada correlacional. Segundo Gil (2009) a tradução literal da expressão ex-post-facto é: "a partir do fato passado". Portanto, significa que neste tipo de pesquisa o estudo foi realizado após a ocorrência de variações na variável dependente. Nesse sentido tem-se uma investigação sistemática na qual o pesquisador não tem controle direto sobre as variáveis independentes, porque já ocorreram suas manifestações ou porque são intrinsecamente não manipuláveis (GOMES; SOUZA e SPERANDIO, 2011).

A ideia surge após a criação de uma história em quadrinhos pelo autor enquanto estudante do Ensino Fundamental em uma escola pública do município de Itapebi, cidade situada no extremo sul da Bahia. A proposta era apresentar problemas socioambientais na escola, município, país ou mesmo problemas mundiais e a partir disto apresentar uma proposta criativa de leitura deste fato em historietas.

A análise das HQs será feita de forma descritiva qualitativamente fazendo uma correlação com as Agenda 2030 (ODS) e com as atividades propostas durante o Programa Interdisciplinar de Bolsa de Iniciação a Docência (PIBID) e suas contribuições em metodologias de ensino criativas.

a) Caracterização das Histórias em Quadrinhos

Para a confecção dos quadrinhos foram criados os personagens com inspirações na Turma da Mônica, Digimon, Mafalda, Garfield, Pokémon e os personagens clássicos do Walt Disney da turma do Mickey Mouse. Intitulado como Lourinha e Sua Turma, as presentes HQs foram criadas pelo autor que lhes escreve no ano de 2001.

O livreto das histórias em quadrinhos foi organizado em seis historietas com temáticas diferentes, sendo elas referentes à Inteligência emocional na tirinha de título Fofa, Respeito às diferenças na tirinha Lourinha em Macarrão Dançarino, Bullying na tirinha Clodoaldo o Lerdão, respeito, tolerância e aceitação em O Clone Mal Feito da Lourinha, mudanças climáticas e meio ambiente em José em O Outono e por fim relacionamento interpessoal na estorinha Xuraca em O Acidente.

b) Processo criativo da criação dos personagens

Todos os personagens foram inspirados em clássicos das HQs infantis, o processo de criação foi iniciado antes mesmo da proposta da escola, sendo que o autor começou a desenhá-los aos oito anos de idade, nascidos como uma homenagem ao homônimo Maurício de Souza e sua famosa Turma da Mônica e quadrinhos da Disney, com super poderes dos animes Digimon e Pokémon.

Todos os personagens foram baseados em animais e vegetais da flora e fauna brasileira e mundial, mesclando características humanas, folclóricas, sociais e sentimentais expressando o cotidiano de crianças e adolescentes, com historietas divertidas e críticas.

c) Lista de personagens por ordem alfabética

Arainha: Como o próprio nome sugere, é baseado em uma aranha brasileira, a aranha-armadeira (Phoneutria bahiensis - Ctenidae), ela não tem nenhuma vestimenta. Super alegre e divertida tem uma personalidade cativante e amável. Tem seis anos de idade.

Clodoaldo: O personagem tem como inspiração um caracol (Leiostracus carnavalescus - Bulimulidae), usa uma camisa vermelha e uma bermuda laranja, tem uma personalidade irritativa fácil, porém seu raciocínio é lento, é tímido e de bom coração. Tem 10 anos de idade. Possui pernas e braços por estética antropomorfizada.

Clone: Nasceu de um experimento, quando surge na história tem o corpo deformado e composto de várias partes diferentes, Lourinha leva-a até seu amigo Farofa que utiliza sua máquina reconstituidora para organizar o Clone, assim como a Lourinha ela usa um vestido amarelo e como característica marcante tem um par de antenas na cabeça representando sua personalidade biônica. Tem dois anos de idade de criação, porém por ser biossintética apresenta a idade da Lourinha, de 12 anos. Curiosamente, a personagem é um periquito, mas composta por espécies diferentes, como a Lourinha é uma periquita-da-caatinga (Eupsittula cactorum - Psitacidae) com membros de ararajuba (Guaruba guarouba) e arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), ambas da família Psitacidae.

Escranilton: Inspirado em um bicho-pau (Otocrania imbe - Phasmatidae) é magro e elegante, muito brincalhão, porém às vezes faz bullying com os amigos sem pensar nas brincadeiras que está praticando, é um grande amigo de Clodoaldo. Usa uma camiseta vermelha com uma bermuda amarela, possui três antenas na cabeça diferentemente das espécies naturais que possuem duas. A quantidade de pernas também são adaptadas por características antropomorfizadas. Tem 12 anos de idade.

Farofa: É uma formiga (Dinoponera lucida - Formicidae), muito presente na região de Contendas do Sincorá, BA. É super inteligente, cientista, faz vários experimentos das mais diversas áreas e às vezes desenrola em situações complicadas com seus experimentos que saem do controle e gera diversas aventuras. É meio desajeitado e grande amigo da Lourinha. Suas características também foram antropomorfizadas para dois braços e pernas, diferente das formigas que possuem três pares de pernas. Tem 11 anos de idade.

Fofa: A personagem é baseada nas flores da onze-horas (Portulaca grandiflora - Portulacaceae), é caracterizada por usar uma camiseta amarela e uma bermuda laranja, tem a pele verde e as pétalas ao redor de sua cabeça são da cor rosa, representando uma das variedades da espécie, seu temperamento é ser chorona e muito simpática, tendo um controle interpessoal e intrapessoal bem desenvolvido. Tem 12 anos de idade. Tem poderes de plantas, esticando seus ramos (pernas e braços), produzindo aromas que podem fazer dormir e relaxar ou hipnotizar.

José: é um periquito (Eupsittula cactorum - Psitacidae) irmão gêmeo da Lourinha, tem grandes experiências em culturas diversas, além de conhecer as artes místicas e ter poderes sobrenaturais de manipulação da realidade. É sábio, amigo e muito empático. Usa uma roupa baseada nas cores da bandeira do Brasil, com camiseta amarela e bermuda azul acompanhada de sapatos amarelos. Tem 12 anos.

Lourinha: uma periquita (Eupsittula cactorum - Psitacidae). É a líder da turma, muito amiga, justa, alegre e divertida. Possui super-força, voa muito bem e é uma grande altruísta. Sábia, empática, possui grande habilidade em lidar com pessoas e com seus sentimentos. Seus poderes estão ligados a manipulação da natureza e dos quatro elementos. Tem 12 anos.

Rosinha: Irmã mais nova de Fofa. Tem as mesmas habilidades da irmã mais velha, baseada em um girassol (Helianthus annuus - Asteraceae), suas pétalas em torno da cabeça são amarelas e usa vestido laranja. Tem nove anos de idade.

Xuraca: é uma amarílis ou açucena (Hippeastrum hybridum - Amaryllidaceae), sua cabeça é um bulbo representando a família botânica Amaryllidaceae. Prima de Fofa e Rosinha. É estressada e animada, adora festas e moda, tem personalidade forte e divertida. Usa vestido amarelo com sapatos da mesma cor. Seus poderes são de crescimento e expansão do corpo, controla o crescimento de vegetais ao seu redor podendo controlá-los a seu belo prazer. Tem 14 anos de idade, é a mais velha dos personagens.

d) O PIBID como formação docente

O Programa Interdisciplinar de Bolsa de Iniciação a Docência (PIBID) é ligado ao governo federal e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. O autor do presente trabalho participou do programa entre os anos de 2014 a 2017 e realizou atividades de ensino no CEEPS Adélia Teixeira. Como ligação a produção de HQs durante sua formação docente ficou a marca por métodos de avaliação mais flexíveis, incentivando a crítica, a imaginação e a criatividade.

Durante os anos de permanência no Pibid foram apresentados alguns trabalhos com os temas trabalhados, sendo eles: Iniciação a docência: a interdisciplinaridade no espaço escolar (FERRAZ et al., 2014), O ensino de biossegurança em escola de formação profissional (SILVA; SILVA; LIMA, 2015), Desenvolvimento sustentável: uma abordagem interdisciplinar em escola de ensino médio profissional (SILVA et al., 2015), Preconceito social e étnico-racial na escola: uma experiência no Pibid interdisciplinar (VIANA et al., 2017), Debates sobre os riscos das drogas e suas formas de prevenção: um projeto do Pibid interdisciplinar (SILVA e FERREIRA, 2017) e por fim, O uso da interdisciplinaridade no ensino de primeiros socorros no ensino médio profissionalizante: um relato de experiência (OLIVEIRA et al., 2017). Todas essas intervenções têm como característica marcante o uso de métodos avaliativos por meio de criatividade, análise crítica e construção de significados e significantes.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A escolha de uma líder por uma personagem feminina foi proposital, a Lourinha (Figura 1) lidera o time de personagens. Como apontado pelos objetivos da Agenda 2030, que não existia na época, a ideia principal abraça o 5º objetivo de "alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas" (BRASIL a, 2015), em seu artigo 5.5 'garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, econômica e pública' (BRASIL a, 2015). Ter a personagem como um ícone de força, poder e influência garante ao leitor uma visão de empoderamento feminino, valorização e equidade de gênero.

Fi.gura 1 - A personagem Lourinha nasceu com a ideia original de empoderamento feminino, representando as meninas, inspirada em Mônica do Maurício de Souza e Mafalda do Quino. Fonte: Arquivo pessoal, 2001

A primeira HQ intitulada Fofa (Figura 2) é formada por três quadrinhos e expõe a personagem comendo uma refeição, ao alimentar-se reage de forma exagerada ao alimento de gosto ruim, por fim fica triste ao refletir sobre o alimento que ela havia preparado. A intenção da historieta é instigar a reflexão sobre os erros e acertos do dia-a-dia, incentivando o desenvolvimento da inteligência intrapessoal (entre as 9 inteligências propostas por Gardner).

Figura 2. Fofa. Fonte: Arquivo pessoal, 2001.

O relacionamento intrapessoal é a capacidade de autoconhecimento, autodomínio, autoafirmação e automotivação, é referente a forma como imaginamos, sentimos, e dizemos em nossa consciência e subconsciência. Esta voz interior pode interferir no nosso sucesso e tudo que podemos realizar. Quando mal trabalhado, "Muitos ficam duvidando de si mesmos, se sentem inseguros, incapazes e acabam fracassando ou muitas vezes ficam estagnados em seu próprio eu, e não buscam alternativas para modificar o contexto" (CAIC, 2014), atitudes que evidenciam um relacionamento intrapessoal pouco trabalhado e estimulado.

No artigo 4.7 da Agenda 2030 "garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis", neste sentido a inteligência intrapessoal é necessária na tomada de escolhas que favoreçam relações mais ricas e cultura de paz entre as pessoas e povos.

Em uma atividade proposta pelo Pibid, a inteligência intrapessoal está representada em uma HQ produzida por um aluno do 1º ano do ensino médio profissionalizante, onde o personagem socorrista deve ter um controle para seguir os passos necessários à prestação de primeiros socorros e atendimento pré-hospistalar, através dos passos "a) o de isolamento de área; b) ligar para pessoas qualificadas para pedir ajuda e c) iniciar a manobra de RCP" (OLIVEIRA et al., 2017), os autores consideraram pela leitura da ilustração em HQ que "o aluno realmente compreendeu o que foi passado nas aulas" (OLIVEIRA et al., 2017), colaborando com o pensamento do uso de métodos avaliativos variados, assim como quadrinhos, serem úteis na formação dos educandos.

Na segunda tirinha temos a historieta Lourinha em Macarrão Dançarino (Figura 3), mostra uma situação em que a personagem está iniciando sua refeição e os macarrões do seu prato começam a dançar, ela fica assustada e corre pela casa, até perceber um som de música de flauta e observar que seu irmão José está do lado de fora da casa "encantando serpentes com uma flauta" o que encantou também os fios de macarrão em seu prato e panela.

A leitura da historieta está ligada ao respeito à diversidade étnicas e regionalidades, o personagem José está fazendo um costume tipicamente dos países orientais representando um encantador de serpentes, Lourinha ao perceber a atividade reconhece e fica tranquila com a situação, respeitando seu costume e ignorando o fato de ter ficado assustada no início da tirinha.

Entre os objetivos da Agenda 2030 "Cooperaremos internacionalmente para garantir uma migração segura, ordenada e regular que envolva o pleno respeito pelos direitos humanos e o tratamento humano dos migrantes, independentemente do status de migração, assim como dos refugiados e das pessoas deslocadas" (BRASIL a, 2015), o presente objetivo sugere a cooperação entre as nações para que não haja discriminação entre os povos e respeito à diversidade de culturas. Além disto, o documento "Reafirma a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos, bem como de outros instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos e ao Direito Internacional (BRASIL a, 2015). Sublinha "as responsabilidades de todos os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, de respeitar, proteger e promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais para todos, sem qualquer tipo de distinção de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, propriedades, nascimento, deficiência ou qualquer outra condição" (BRASIL a, 2015).

Em comparação as atividades do Pibid, Viana et al., (2017) realizaram uma atividade intitulada A caixa de Pandora (com referência ao males guardados em um receptáculo), esta dinâmica é composta de uma pequena caixa com fichas, estas fichas são letras de músicas, tirinhas de HQs, poemas, reportagens etc. ao final de cada gênero literário da ficha seguia uma pergunta sobre preconceito étnico-racial. É possível mais uma vez perceber o uso de HQs e outros gêneros artísticos e literários na atividade proposta durante o Pibid.

Figura 3 - Lourinha em Macarrão Dançarino. Fonte: Arquivo pessoal, 2001.

Na terceira HQ, Clodoaldo o Lerdão (Figura 4), tem-se a narrativa de um típico bullying, onde o personagem Escranilton "atenta" (expressão baiana para pirraçar, intimidar) Clodoaldo por uma característica pessoal, no caso a lentidão do caracol, facilmente pode-se transferir esta situação a uma pessoa. Aproveitando-se desta característica, Escranilton consegue chegar ao último quadrinho antes de Clodoaldo o acompanhar e coloca o "fim" encerrando a historieta, não havendo uma punição clássica das fábulas. O bullying sempre esteve presente na sociedade, aqui se repete o objetivo da responsabilidade de respeitar, proteger e promover os direitos humanos sem quaisquer distinções (BRASIL a, 2015). A atividade do Pibid, a Caixa de Pandora (VIANA et al., 2017) também está ligada, pois muitas vezes o bullying surge por um tipo de preconceito, uma atitude de bullying pode mesmo evoluir para um crime de racismo, xenofobia ou discriminação.

Em um desdobramento diferente, em uma atividade pibidiana, Silva, Silva e Lima (2015) propuseram uma atividade de criatividade aos alunos, após aulas de primeiros socorros, biossegurança e riscos ocupacionais pediram aos alunos que fizessem um gênero literário para expressar o que aprenderam nas aulas e um dos alunos criou a paródia-fábula A Cigarra e a Formiga Socorrista, inspirada no clássico conto A cigarra e a Formiga, neste caso a lição de moral está presente no final e os autores afirmam que "estas atividades promovidas após as aulas e treinamentos provam que os alunos aprenderam e despertaram para a escrita, a imaginação e a criatividade" (SILVA, SILVA e LIMA, 2015).

Figura 4 - Clodoaldo o Lerdão. Fonte: Arquivo pessoal, 2001.

A terceira historinha intitulada O clone mal feito da Lourinha (Figuras 4, 5 e 6) conta como Lourinha conheceu Clone, um clone que foi feito baseado na nossa heroína. A historieta começa com Lourinha, Rosinha e Arainha passeando no bosque quando tomam um susto ao encontrar Clone, na imagem ela é toda desfigurada por ter sido feito de forma errada. Ao perceber a situação, Lourinha grita Clone dizendo que poderia ajudá-la; enquanto Rosinha e Arainha despedem-se. Lourinha leva Clone até seu amigo Farofa, que usa sua máquina para "consertar" Clone. A historinha é composta por três páginas (p. 5-7).

Figura 4 - O clone mal feito da Lourinha, 1ª parte. Fonte: Arquivo pessoal, 2001.