ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
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Uma crônica, um artigo e algumas histórias!

13/03/2019
A NATUREZA DO HOMEM, O HOMEM DA NATUREZA.  
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A NATUREZA DO HOMEM,

O HOMEM DA NATUREZA.

Sabrina Gonçalves Raimundo

Esses tempos, depois de um dia bastante longo de trabalho, encontrei com um homem que vendia Santinhos na frente do metrô. Na mão dele estavam aqueles papéis com a figura de um santo católico e uma oração, cada um por R$1,00. Uns com a imagem de Santo Expedito e outros com a imagem de São Francisco. Ele me ofereceu os santinhos. Eu os neguei! Eu estava com pressa. Ele disse: "Moça, me ajuda? Eu preciso comer algo!". Eu engoli minha negação. Ela foi parar na minha reflexão. Engoli como se fosse uma pedra. Seca. Rochosa. Amarga. Fui a uma lanchonete, comprei um lanche e dei a ele. Dei o que pude comprar e um pouco de conversa. Mas, não dei por simpatia ao homem, dei por culpa. A rotina nos engole e nos faz ignorar a nossa própria espécie. Ninguém, nenhum ambientalista, nenhum educador ambiental, nenhum cidadão poderia estar tão indiferente ao Homo sapiens quanto estamos agora. Vez ou outra me pergunto quão primitivos somos, quase sempre é uma questão lutar ou fugir. Mas, vez ou outra também é preciso refletir. Algo que é bem pouco intuitivo e bem mais sábio. Uma mescla de instinto e saber, isso que somos. Homo sapiens.

Compreender a história do homem é estudar a natureza da vida e da complexidade dos sistemas que nos formaram. Nós, humanos, não começamos a ser a nossa essência na Revolução Industrial, ou quando criamos o fogo. Somos mesmo mais de 70 mil anos de história, e outros milhares de anos anteriores para nos tornarmos a espécie sapiens contemporânea. A humanidade não começa na agricultura, mas sim na célula que nos compõem quando ainda nem éramos Homo, nem o sapiens no qual nos tornamos.

As sociedades evoluíram, as civilizações territorializaram o planeta, guerrearam e disputaram o poder. Mas, antes disso tudo, muito antes, estávamos somente lutando pela sobrevivência. Não somos o hoje, nem o ontem e sequer os três mil anos das civilizações mais conhecidas. Somos, antes de mais nada, a natureza que nos compõem. Somos tão orgânicos quanto o meio que nos rodeia. Hoje, nos impomos sobre a dependência da natureza, mas somos tão parte da natureza quando outro ser vivo qualquer. Somos natureza! Querendo ou não, dependemos de uma natureza rica, complexa e equilibrada em torno de si.

A degradação dos elementos que nos cercam nos fadam ao fracasso como espécie. Biológica e socialmente, tudo o que somos é resultado de construção de milênios de história. Romper essa dependência com a natureza resulta em interferências caóticas, desordena os ciclos naturais que, ora introduz elementos estranhos, ora retira elementos essenciais do sistema, provocando os impactos ambientais. Impactos humanos. Impactos de origem social e até política.

Esse não é um discurso pró-paleolítico, o que trago é a reflexão do agora. Se somos em nós mesmos parte da natureza, interromper e desmedir ações significa, também, atingir a própria espécie. Se estamos, é por que também somos. Não é também discurso utilitarista, aqui ponho um ponto de interrogação para evidente ignorância sobre a nossa própria existência e sobre os laços que temos com a vida. Esta inquietação vem pela imensurável indiferença que prestamos ao outro e ao meio. Não que sejamos mais importantes, mas somos nós os detentores de capacidade cognitiva e da ciência, a única espécie capaz de, conscientemente, dar novas formas ao que está posto como pronto. Ao mesmo tempo, somos imensamente insignificantes e altamente dependentes das nossas próprias ações.

Não são tempos fáceis para qualquer óptica, para olharmos o humano no qual nos tornamos. Estamos em pleno cenário de flagelo humanitário. Degradamos o ser humano, seus valores e a nossa essencial relação de sujeição biológica. Abandonamos a natureza de dependência e colocamos à frente dela nossas necessidades fluídas. Estamos em tempos de alerta geral. Cuidado, o desumano está aí! Aliás, continua aí desde quando descobrimos nossas capacidades cognitivas. Contra nós mesmos, em favor da ganância que nos afasta do orgânico.

Estamos em tempos de Brumadinho, tempos de inúmeros suicídios, tempos de altos índices de depressão, de sofrimento por ansiedade, sofrimento por solidão e por pressões estéticas sobre a sociedade. Tempos que ainda temos jovens negros sofrendo por racismo e violências excessivas nas periferias de todo o Brasil. Em tempos de aprovação da violência e negação de uma sociedade de paz. Estamos (ou continuamos seguindo) em tempos de desumanização. Esses tempos chocam! Esses tempos nos fazem chocar por um minuto, e normalizar o absurdo no restante do tempo. Banalizamos o outro. A dor do outro é passageira. Tudo é passageiro. Os danos e as dores.

Se por um lado discute-se muito o que se propõem dentro da esfera socioambiental, a velocidade das providências e das prevenções ainda não acompanha o debate. É preciso debater. É preciso reconhecer que a nossa evolução histórica corre perigo pela nossa incapacidade de usar a nossa sapiência. Falar e colocar em nossa rotina pautas que compartilhamos entre nós, temas que tornam eficientes as resoluções dos problemas que nos apartam. Falar sobre o que somos e como vivemos também é fazer educação ambiental. É colocar o homem, não como antagonista da natureza, mas protagonista da nossa própria história natural e civilizatória. Nesse caso, falar sobre o negro, falar sobre o indígena, sobre a pobreza, sobre a sobrecarga dada às mulheres, falar sobre desigualdade é dar luz aos temas que afetam não somente a sociedade, mas a natureza.

A nossa dignidade humana requer respeito ao que somos quanto seres biológicos e sociais, não como caçadores ou coletores essenciais, mas como indivíduos cognitivamente capazes de transformarem e serem transformados. Será possível conservar a natureza enquanto um único jovem negro sofrer injúrias sociais. Será impossível viver em uma natureza saudável enquanto uma única pessoa não tiver sua vida preservada também. Afinal, o que queremos na essência é lutar ou fugir, somos sabedoria apenas quando não estamos com nosso sistema orgânico prejudicado. Ser Homo vem antes de ser sapiens, na história e na vida. Sobreviver é prioritário e instintivo.

Não quero dizer com isso que o ambiente natural é desimportante. Não, não é isso que quero transmitir. O que quero dizer é o homem é em si mesmo elemento natural e garantidor de sua própria natureza. Mas, porque falar disso agora? Em tempos de tantas discussões no campo do clima e dos impactos ambientais, quero ressaltar a urgência de incluir em nossas aulas, nossas conversas, nossas práticas e nossos encontros o ser humano como pivô. E por pivô não quero dizer centro, mas dizer capaz de armar estratégias, agente importante na base das ações sobre e pela construção do meio que o cerca.

Caso a nossa espécie chegue a se extinguir, é importante saber que o planeta continuará em sua dinâmica atividade. Aí, quem ou o que restará para contar nossa história? A nossa essência é de carbono, pura matéria cheia de energia. Nossa essência não está na velocidade da transformação dos elementos da natureza. Nossa essência está na capacidade de nos reinventarmos dentro daquilo que somos. A questão que fica é: o que realmente somos?

Não é possível que, em meio às tragédias, deixemos de lembrar que o homem está deixando de se sensibilizar consigo mesmo. E, claro, isso se reflete no que nós somos e fazemos conosco e com todos os outros elementos naturais. Por isso, que a nossa luta por um ambiente mais equilibrado comece no olhar, no perceber o outro, no sentir e no agir pelo outro. Não há natureza sem população. Nenhum ecossistema é fértil sem comunidade. Nada se torna teia sem a nossa inerente idiossincrasia. A educação ambiental é, antes de mais nada, uma contínua perseverança na humanidade, tanto como tecido social, quanto como tecido biológico. Ali existem milhares de células que pulsam a raiz primata e divergência de um simples polegar opositor.

Até então não vi mais o homem do Santinho, também não tenho ido muito àquele metrô. Mas, espero que da próxima vez, eu não me sinta culpada, mas me veja refletida. Que não seja a minha petulância e nem a minha pressa que me impeça de enxergar o anormal no comum da rotina. Olhar para o lado e enxergar o coletivo do qual faço parte é ver aquele que a rotina tenta tornar invisível.



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