RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL NUM PROJETO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM O USO E DESCARTE DE MEDICAMENTOS PELA COMUNIDADE ESCOLAR

Ronualdo Marques1, Claudia Regina Xavier2



1Prof. do Estado do Paraná. Mestre em Ensino de Ciências pelo PPGFCET - Programa de pós-graduação em Formação Científica, Educacional e Tecnológica da UTFPR - Universidade Tecnológica Federal do PR. Curitiba, PR.<ronualdo.marques@gmail.com>.

2 Prof.ª Dr.ª do PPGFCET - Programa de pós-graduação em Formação Científica, Educacional e Tecnológica. Departamento de Química e Biologia da UTFPR, Curitiba, PR. <cxavier@utfpr.edu.br>.

Resumo

A Educação Ambiental como possibilidades de unificar saberes no contexto escolar contribui para formação de cidadãos críticos e atuantes na preservação do Meio Ambiente. Este estudo exibe uma discussão sobre a realização de um Projeto de Educação Ambiental tendo como tema gerador o uso e descarte de medicamentos, deste modo o objetivo foi investigar a percepção dos estudantes com o uso e descarte de medicamentos e o grau de informação a respeito de suas implicações em relação á saúde pública e/ou ao Meio Ambiente e assim promover ações que alcançasse a comunidade escolar a fim de sensibilizar, conscientizar e orientar para o correto destino final. O estudo foi desenvolvido em 2018, com 225 alunos, do Colégio Estadual Newton Ferreira da Costa em Curitiba - PR. Pôde-se concluir que a temática dos medicamentos contribui para a Responsabilidade socioambiental com o desenvolvimento de ações que possibilitam a minimização dos impactos ambientais negativos, potencializando discussões que emergem das relações entre os seres humanos, sociedade e natureza.

Palavras-chave: descarte de medicamentos, impactos ambientais, educação ambiental.



SOCIO-ENVIRONMENTAL RESPONSIBILITY IN A PROJECT OF ENVIRONMENTAL EDUCATION WITH THE USE AND DISPOSAL OF MEDICINES BY THE SCHOOL COMMUNITY

Abstract

The Environmental Education as possibilities to unify knowledge in the school context contributes to the formation of citizens who are critical and active in the preservation of the Environment. This study presents a discussion about the accomplishment of an Environmental Education Project with the generative theme of the use and disposal of medicines, in this way the objective was to investigate the students' perception with the use and disposal of medicines and the degree of information regarding its implications in relation to public health and / or the environment and so promote actions that reach the school community in order to raise awareness, awareness and guide to the correct final destination. The study was developed in 2018, with 225 students, from the Newton Ferreira da Costa State College in Curitiba - PR. It was concluded that the thematic of medicines contributes to socio-environmental responsibility with the development of actions that allow the minimization of negative environmental impacts, enhancing discussions that emerge from the relationships between human beings, society and nature.

Keywords: drug disposal, environmental impacts, environmental education.



1. Uma breve introdução de onde partimos



Os medicamentos têm um papel de relevância em nossa sociedade, dada sua importância no combate das enfermidades bem como de proporcionar o prolongamento da vida humana. No entanto, são também precursores de agravos à saúde, quando mal utilizados ou usados para fins diferentes de sua indicação terapêutica, (Ueda et al., 2009), pois os medicamentos podem ser agentes tóxicos quando usados de forma errada.

Com a evolução dos medicamentos, além das vantagens no combate às doenças existem os problemas advindos de sua fabricação e utilização. As sobras de tratamentos anteriores, ou mesmo dispensação de medicamentos em quantidade superior ao tratamento devido e prescrição incompleta ou incorreta, juntamente com a impossibilidade de fracionamento de alguns desses produtos (EICKHOFF; HEINECK; SEIXAS, 2009), podem causar o seu acúmulo e posterior perda do prazo de validade.

O Brasil é um dos maiores consumidores de medicamentos do mundo, que agregada a uma cultura de automedicação, a fácil aquisição desses produtos e ao incentivo da mídia, geram um uso excessivo e, com isso, o acúmulo nas residências (BRASIL, 2009). Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em 2018 o Brasil ocupa a posição de sexto maior mercado farmacêutico no ranking internacional, ficando atrás dos Estados Unidos, da China, do Japão, da Alemanha e da França. Estima-se que pelo crescimento acelerado que até 2022 o Brasil ocupe a quinta posição ultrapassando a França. O acesso a farmácias e drogarias e a facilidade na aquisição de medicamentos no popularmente conhecido "balcão da farmácia" promovem um aumento no consumo de medicamentos pela maioria da população brasileira.

Fernandes e Petrovick (2004) afirmam que o acúmulo ocorre devido ao incentivo da mídia e a facilidade de aquisição que tornam o uso de medicamentos rotineiro, fazendo com que a população se considere isenta dos riscos inerentes à manutenção dos mesmos.

As aquisições de medicamentos pela população nas drogarias ou farmácias devem ser feitas com as devidas orientações de um médico, nestes estabelecimentos é dever do farmacêutico realizar a dispensação correta, explicando a posologia do medicamento e esclarecendo dúvidas. O acúmulo de medicamentos nas residências incentiva a automedicação e o descarte inapropriado e, desta forma, configura risco à saúde e ao meio ambiente (GASPARINI; GASPARINI; FRIGIERI, 2011).

Contudo, a falta de informações quanto ao descarte correto dos medicamentos vencidos e/ou inutilizados pela população geram um descarte inadequado. Conforme Gasparini et al., (2011), o descarte inadequado é feito pela maioria das pessoas por falta de informação e divulgação sobre os danos causados pelos medicamentos ao meio ambiente e ainda por carência de postos de coleta.

Sendo assim a temática dos medicamentos contribui para orientação, sensibilização e conscientização e a promoção da Educação Ambiental (EA) na comunidade escolar, visto que a Educação Ambiental é um processo contínuo e permanente que deve atingir todas as fases do ensino formal e não formal; além de examinar as questões ambientais do ponto de vista local, regional, nacional e até internacional, avaliando suas causas, consequências e sua complexidade (DIAS, 2004). Temos que a Educação Ambiental interfere em nossas vidas e discuti-la favorece a compreensão da realidade e a participação social. Jacobi (2003) corrobora ainda ao destacar que a EA anseia por “uma nova forma de encarar a relação do homem com a natureza, baseada numa nova ética, que pressupõe outros valores morais e uma forma diferente de ver o mundo e os homens” (JACOBI, 2003).

Ao considerar a temática do uso e descarte de medicamentos para discussão no contexto escolar na Educação Ambiental, partimos da concepção que a união de um número cada vez maior de pessoas no mundo que consomem cada vez mais produtos farmacológicos tende a elevar de modo significativo a quantidade de resíduos que são lançados ao meio ambiente todos os dias. Os medicamentos é um tipo de resíduo que impacta fortemente na saúde pública e no meio ambiente é o seu descarte de forma incorreta pode contaminar água e solo, que nos levam a seguinte reflexão: para onde vão tais substâncias?

O consumidor é uma peça chave na solução do problema, mas, para que esse papel seja exercido de forma consciente e absoluta, é necessária a educação juntamente com a consciência ambiental e o acesso à informação ambientalmente correta, para que assim, com essa informação, possa exercer de forma plena a defesa da sustentabilidade e a preservação do meio ambiente (VETTORAZZI; VENAZZI, 2008; BUENO et al., 2009).

Temos que a responsabilidade socioambiental no contexto escolar “não deve ser adotada apenas pela exigência da legislação, ou mesmo o modismo do termo sustentabilidade na mídia, mas, sobretudo, deve estar pautada na verdadeira Educação Ambiental que visa refletir a realidade e promover mudanças, que transformam meros receptores de conhecimento em cidadãos críticos capazes de refletir sobre sua realidade” (MARQUES et al, 2017, p. 2).

Marques et al., (2017) afirma que o “desenvolvimento da temática Educação Ambiental no contexto escolar contribui para a construção do conhecimento científico de forma contextualizada, utilizando ferramentas que permitam aos alunos exercitarem a capacidade de pensar, refletir e tomar decisões, iniciando assim um papel de amadurecimento, tendo em vista as inúmeras inter-relações que o ser humano mantém com o ambiente e vice-versa e as demandas que isso gera para a sua formação como cidadão” (MARQUES, et al., 2017, p. 3).

A solução deste problema passa por uma Política de Educação Ambiental, com campanhas no ambiente escolar com amplitude para a população, elucidando a importância do descarte em locais adequados e o risco de não fazê-lo. Uma das medidas eficazes que se discute ainda seria a adoção obrigatória em todo o país do fracionamento de medicamentos, em cuja embalagem irá constar apenas a quantidade correta para o tratamento, evitando possíveis sobras, assim a população poderá obter fármacos na quantidade ideal para o tratamento que deseja (BORRELY et al., 2012).

Tendo em vista a realidade do consumo de medicamentos em nosso país, a destinação final que é dada aos medicamentos e as consequências à saúde da população e ao meio ambiente, essa pesquisa teve por objetivo investigar a percepção dos estudantes com o uso e descarte de medicamentos bem como o nível de informação a respeito de suas implicações em relação á saúde e/ou Meio Ambiente e assim promover ações na comunidade escolar a fim de sensibilizar, conscientizar sobre o correto descarte de medicamentos.



2. A Logística Reversa e o Gerenciamento dos Resíduos de Saúde no Brasil



O mercado nacional e internacional de medicamentos movimenta bilhões de reais, envolvendo tanto a parte de produção, através das indústrias nacionais e internacionais, quanto à distribuição e o consumo desses medicamentos por toda a sociedade. Contudo, essa produção de medicamentos muitas vezes provoca um grande acúmulo de resíduos sólidos.

No Brasil existe uma grande diversidade de regulamentações e iniciativas nos estados e municípios de recolhimento, devolução, doação e descarte de resíduos de medicamentos pela população. Isso se deve ao fato de ainda não se ter uma regulamentação específica no âmbito nacional relacionada ao descarte e destinação final ambientalmente adequada de resíduos de saúde descartados pela população.

Até a promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n.º 12.305, de 02 de agosto de 2010), esses resíduos sólidos eram negligenciados pelo poder público, legisladores e administradores, o mesmo fato ocorria com o descarte de medicamentos, que muitas vezes é realizado sem o atendimento dos critérios ambientais.

Após a promulgação da Lei nº. 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, com a finalidade de preservar a saúde pública e proteger e melhorar a qualidade do meio ambiente, o gerenciamento de resíduos sólidos tomou um novo rumo no Brasil. Esta lei, também, torna-se integrante da Política Nacional do Meio Ambiente e articula-se com a Política Nacional de Educação Ambiental, regulada pela Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, com a Política Federal de Saneamento Básico, regulada pela Lei nº 11.445, de 2007, e com a Lei nº. 11.107, de 6 de abril de 2005 que aborda sobre o tratamento e à disposição final dos resíduos dos serviços de saúde (BRASIL, 2010).

O Ministério da Saúde e o Ministério do Meio Ambiente tratam dos resíduos sólidos de origem farmacêutica. Os órgãos de vigilância sanitária e ambiental são responsáveis pelos instrumentos legais, pelo fomento de pesquisas e pela fiscalização, para garantir que as atividades geradoras de resíduos dessa natureza lhes deem a destinação adequada (FALQUETO; KLIGERMAN; ASSUMPÇÃO, 2010). Esses órgãos possuem o mesmo objetivo, que é a preservação da saúde pública e ambiental através de medidas de controle dos medicamentos oferecidos à população.

Com o intuito de promover uma ação coletiva entre fabricantes, é discutida constantemente a logística reversa, um assunto de grande importância para medidas que preveem o destino final dos medicamentos coletados. A logística reversa tem como objetivo em todo território nacional a adoção do correto descarte de medicamentos e da reutilização (que necessita de estudos aprofundados), medida que visa à diminuição de medicamentos descartados de forma indevida, estimulando o consumo sustentável a fim de reduzir os impactos ambientais. Esta medida está incluída na Política Nacional de Resíduos Sólidos (SEMINÁRIO, 2012).

No dia 08 de agosto de 2013, foi aprovado pelo Comitê Orientador para Implantação dos Sistemas de Logística Reversa (CORI), o edital para elaboração de acordo setorial para implantação de sistema de logística reversa de resíduos de medicamentos. Com o objetivo de garantir a destinação correta de medicamentos e suas respectivas embalagens, após o uso pelo consumidor (GEBRIM, 2013).

Segundo Gebrim (2013)

Logística reversa é um instrumento de desenvolvimento econômico e social, caracterizado pelo conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento e reciclagem, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada. Acordo setorial é um ato contratual, firmado entre o poder público e fabricantes, importadores, distribuidores ou comerciantes, tendo em vista a implantação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto.

Os principais agentes que geram resíduos de medicamentos são as indústrias farmacêuticas e, distribuidores, farmácias, drogarias e hospitais. As indústrias farmacêuticas são geradoras de uma quantidade considerável de resíduos sólidos devido à devolução e ao recolhimento de medicamentos do mercado, ao descarte de medicamentos rejeitados pelo controle de qualidade e perdas inerentes ao processo (FALQUETO et al., 2010).

Os distribuidores, farmácias, drogarias e hospitais se enquadram em regulamentos técnicos descritos pela ANVISA e CONAMA, que consideram que estes atores são geradores de resíduos de serviços de saúde de todos os serviços relacionados com o atendimento à saúde humana ou animal, drogarias e farmácias de manipulação e distribuidores de produtos farmacêuticos. Assim, eles devem elaborar o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), a ser feito por profissional registrado no conselho da classe (FALQUETO et al., 2010). Contudo esses estabelecimentos comerciais como farmácias, drogarias e centros de saúde não são obrigados por lei a recolher medicamentos (UEDA et al., 2009).

De acordo com Aligleri (2009) evidencia que as empresas “necessitam aceitar e comprometer-se com as consequências e impactos de suas decisões e ações, além de responder as demandas de todos os afetados pelas suas atividades” (ALIGLERI, 2009, p. 9).

Os resíduos da cadeia farmacêutica são encontrados tanto em instituições relacionadas aos serviços de saúde quanto em posse dos indivíduos nos domicílios. Sabe-se que, atualmente, os resíduos gerados pelos hospitais e postos de saúde estão sujeitos a um sistema de gerenciamento, assim, há grande importância em informar e conseguir bons resultados para que a população saiba descartar os medicamentos vencidos ou sem utilidade em ambiente próprio, ou seja, nas farmácias, unidades de saúde, hospitais que participam do processo de coleta desses produtos químicos (KAVAMOTO, 2011).



3. Responsabilidade socioambiental: um olhar para o descarte de medicamentos



A expressão responsabilidade socioambiental condiz com estratégias de sustentabilidade que além do desempenho financeiro tem também a preocupação com os efeitos sociais e ambientais. Compromete-se com o Meio Ambiente e com a razão política de comprometimento que especifica a razão de ser da empresa colaborando com a melhoria da existência humana, através de seus produtos e serviços (LAVILLE, 2009, p. 27).

Para Ashley (2002), responsabilidade socioambiental pode ser definida como o compromisso que uma organização deve ter para com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetem positivamente. E ainda, na mesma linha de pensamento, Eon (2015), comenta que a responsabilidade socioambiental esta ligada a posturas comportamentais e ações que promovem o bem estar da sociedade, tanto no ambiente interno quanto externo.

Para Morais (2016) responsabilidade socioambiental é a atitude de assumir um compromisso de cuidar dos recursos disponíveis para alcançar resultados amplos na questão de impactos ambientais, tendo a sociedade, empresas e governo, como parceiros, sendo este último fundamental para a estimulação dos demais.

Assim a responsabilidade socioambiental vem ganhando espaço nas discussões mundiais, devido à maior conscientização tanto pela sociedade quanto pelas empresas. Essas últimas consideram a responsabilidade socioambiental somada a sua atuação econômica (GARCIA, 2002).

Dessa forma, a responsabilidade socioambiental deve ocorrer desde as empresas que fazem a venda de medicamentos ficando responsabilizadas pelo seu recolhimento, bem como a orientação e conscientização da população para o descarte correto dos mesmos. Segundo Alvarenga e Nicoletti,

a população tem sua parcela de responsabilidade no processo devendo estar esclarecida e envolvida no processo de conscientização da geração de resíduos bem como da importância do uso racional de medicamentos como sendo uma das medidas necessárias a diminuir as sobras decorrentes de aquisição desnecessária ou do não cumprimento do esquema terapêutico proposto (ALVARENGA e NICOLETTI, 2010, p. 1).

Então, pode-se dizer que a condição da saúde está relacionada com o contexto socioambiental. Se há um ambiente limpo e sadio para conviver, logo será também propício à saúde, pois conforme Alvarenga e Nicoletti (2010), além da geração de resíduos o descarte doméstico de medicamentos são questões para ser amplamente discutidas e estudadas em nível de saúde pública em que é necessária a responsabilidade coletiva para minimizar o uso excessivo de medicamentos pela população.

Neste sentido, o espaço escolar com função de produção de conhecimento e de transformação social tem a importância do cuidado no que se refere aos aspectos sociais, econômicos e ambientais, evidencia-se também a importância da conscientização dos consumidores de produtos e serviços para a atuação mais responsável no que diz respeito às atitudes do presente que possibilitam a manutenção de um ambiente saudável para aqueles que virão no futuro, sabendo respeitar os direitos próprios e os de toda comunidade, modificando suas relações com o meio ambiente tanto individual como coletivamente a partir dos conhecimentos adquiridos a partir do que conhecemos por Educação Ambiental (REIS; SEMÊDO; GOMES, 2012).

No entanto, todos têm o direito de viver em um ambiente saudável, mas para isso é preciso à colaboração do coletivo na preservação e na manutenção dos recursos naturais. Para tanto, as ações essenciais consistem em preservar e cuidar, para alcançar melhores condições de vida. Para que esses cuidados com o meio se transformem em ações concretas, é preciso conscientização e mudanças de atitudes.

Portanto, entende-se que, por meio da Educação Ambiental, é possível desenvolver um trabalho de sensibilização e responsabilidade socioambiental a partir da utilização e descarte de medicamentos no contexto escolar, em que agregue significados para mudanças atitudinais disseminando essas práticas e propague esses conhecimentos para minimização dos impactos que os medicamentos podem ocasionar ao ambiente.

Como forma de contextualizar as ações no espaço escolar, foi desenvolvido e aplicado um Projeto de Educação Ambiental a partir da responsabilidade socioambiental discutindo a problemática socioambiental do uso e descarte de medicamentos de forma incorreta e promovendo uma campanha para o recolhimento de medicamentos vencidos e para a destinação correta em postos que realizam adequadamente a deposição final destes por meio de parcerias.



4. Metodologia



O estudo foi desenvolvido no Colégio Estadual Newton Ferreira da Costa em Curitiba-Paraná, no período de Maio a Dezembro de 2018 com uma amostra constituída de 285 alunos, estudantes do Ensino Fundamental e Médio do Colégio Estadual Newton Ferreira da Costa em Curitiba - PR.

A pesquisa se dá na perspectiva da Pesquisa Participante. Borda (1988) estabeleceu alguns princípios metodológicos da Pesquisa Participante começando com Autenticidade e Compromisso. Autenticidade no sentido de produzir um saber que parte do saber do seu sujeito-objeto, constituído na prática comunitária, demonstrando com transparência e honestidade um compromisso com o saber a ser construído contribuindo com os princípios específicos da Ciência sem a necessidade do disfarce como sujeito de origem da área delimitada para o estudo.

Brandão (2006) compreende a pesquisa participante como um processo compartilhado de desconstrução, construção e reconstrução de conhecimentos na ação transformadora e emancipadora. De forma resumida, a pesquisa participante integra quatro propósitos assim definidos por ele:

a) ela responde de maneira direta à finalidade prática a que se destina, como meio de conhecimento de questões a serem coletivamente trabalhadas; b) ela é um instrumento dialógico de aprendizado partilhado e, portanto, [...] possui organicamente uma vocação educativa e, como tal, politicamente formadora; c) ela participa de processos mais amplos e contínuos de construção progressiva de um saber popular e, no limite, poderia ser um meio a mais na criação de uma ciência popular; d) ela partilha, com a educação popular, de toda uma ampla e complexa trajetória de empoderamento dos movimentos populares e de seus integrantes (BRANDÃO, 2006, p. 46).

A Pesquisa Participante começa por reconhecer que há uma relação estreita entre ciência social e intervenção na realidade com vistas a promover a superação das dificuldades de um determinado grupo social. Isso significa dizer que a Ciência não tem o fim em si mesma, mas é um instrumento de questionamento sistemático para a construção do conhecimento do cotidiano e do destino humano (MINAYO, 2001; BRANDÃO, 2006).

Por ser crítica-dialética, a Pesquisa Participante busca envolver aquele que pesquisa e aquele que é pesquisado no estudo do problema a ser superado, conhecendo sua causa e construindo coletivamente as possíveis soluções. Para a Pesquisa Participante, os saberes dos indivíduos construídos no cotidiano da vida comunitária são partes importantes no processo de construção do conhecimento (BRANDÃO, 2006).

As atividades foram divididas estrategicamente em três etapas: a primeira fase foi de sensibilização e sondagem por meio de um Questionário Inicial, onde os participantes responderam um questionário no google drive com objetivo de conhecer o nível de conhecimento dos mesmos em relação ao uso e descarte de medicamentos. Posteriormente, foi solicitado aos alunos que conversassem com suas famílias sobre os principais medicamentos que são utilizados por eles, bem como as percepções e práticas com as sobras dos medicamentos, modos de descarte e seu destino final.

Na segunda fase do projeto foram realizadas aulas expositivas, dialogadas em que foram trabalhadas as concepções sobre o uso e o descarte de medicamentos no ambiente, bem como os efeitos nocivos para degradação ambiental e as consequências para os recursos naturais e os seres vivos. Utilizamos as rodas de conversa para poder compreender as experiências e vivências dos participantes e traçar o perfil dos participantes e suas famílias em relação ao uso e descarte de medicamentos que pudessem contribuir de forma eficaz para abranger toda comunidade escolar numa ação coletiva.

Após conhecer o perfil e relação dos estudantes e de suas famílias sobre os medicamentos, foi realizado uma Sequência Didática interdisciplinar nas disciplinas de Biologia, Química e Educação Física discutindo sobre a importância e responsabilidade quanto ao uso dos medicamentos, os perigos da automedicação, os efeitos biológicos no organismo, assim como os impactos negativos ocasionando danos ao ambiente. A Sequência Didática de forma atrair o interesse dos discentes se deu com o entendimento dos impactos nos seres vivos e no Meio Ambiente, utilizando como propostas a produção de charges, folders, banners, vídeos que retratassem a preocupação com o uso e o descarte crescente do uso de medicamentos no Brasil.

Posteriormente, o entendimento da compreensão dos efeitos ao metabolismo e fisiologia dos seres vivos foi proposto que esse conhecimento alcançasse um maior número de pessoas. Assim chegamos a terceira fase com a produção de banners, folders, e caixas para coleta de medicamentos para o dia do desafio inaugurando o colégio como um ponto de coleta contínuo que pudesse abranger e orientar a comunidade escolar a forma correta de descarte dos medicamentos vencidos ou sem uso, alertando-os sobre os perigos de se ter medicamentos em casa e o uso indevido dos mesmos.

Na quarta fase inaugurou-se o ponto de coleta de medicamentos, com a campanha por meio de banners, distribuição de folders tanto impresso quanto pelas redes sociais como facebook e instagram, WhattsApp em que reúne informações para sensibilizar a comunidade escolar para o descarte correto dos medicamentos vencidos e orientando para fazer parte desta campanha.

Para verificar a eficácia de aplicação do projeto de sensibilização sobre a responsabilidade social quanto à utilização e descarte de medicamentos, foram realizadas rodas de conversa para avaliar de forma exploratória os conceitos aprendidos pelos grupos, e a participação na divulgação da campanha para a comunidade escolar no Colégio Estadual Newton Ferreira da Costa.

A roda de conversa como instrumento de trabalho não foi escolhida sem antes nos depararmos com a necessidade de propiciar à nossa pesquisa um caráter de cientificidade, o que implica caracterizá-la como de natureza qualitativa e determinar sua posição como abordagem legítima da busca do conhecimento científico, posto que esse tipo de pesquisa “[...] é um meio para explorar e para entender o significado que os indivíduos ou os grupos atribuem a um problema social ou humano” (CRESWELL, 2010, p. 26).

Após essa etapa foi firmado que o grêmio estudantil e professores fomentaram a campanha para recolhimento de medicamentos vencidos em parceria com a Secretária Municipal de Saúde em que o colégio se tornará um ponto de coleta de medicamentos, e estendendo para a coleta de pilhas, baterias, visando sensibilizar sobre a importância do descarte correto destes para a manutenção de um ambiente saudável evitando riscos de contaminação aos seres vivos.



5. Resultados e Discussão



O Projeto de Educação Ambiental com a temática sobre o uso e descarte correto de medicamentos se iniciou no dia 05 de Maio que é lembrado por ser o Dia Nacional de do uso Racional de Medicamentos. A data foi criada para alertar a população quanto os riscos à saúde causados pela automedicação. Tendo como objetivo ressaltar o papel do uso indiscriminado de medicamentos e a automedicação como principais responsáveis pelos altos índices de intoxicação por remédios. Vê se importante marco pra pesquisa, pois partindo do pressuposto que é um problema geral quando se retrará o uso indiscriminado de medicamentos e considerando ainda que “a automedicação traz riscos à saúde, pois a ingestão de substâncias de forma inadequada pode causar reações como dependência, intoxicação e até a morte” (BRASIL, 2015).

Ao iniciarmos o projeto partindo da importância de debater assuntos sobre o uso e descarte de medicamentos, foi realizado um diagnóstico inicial com aplicação de um questionário inicial em que os participantes pudessem responder sobre a relação e concepções sobre o uso de medicamentos, os estudantes participantes de faixa etária entre 16 e 19 anos, sendo 62% do sexo feminino e 38% do sexo masculino.

Verificou-se primeiramente a relação dos estudantes com a automedicação como apresentado na Figura 1.

Figura 1: A relação dos estudantes quanto à prática da automedicação.

Fonte: Autores

Constatou-se a partir dos resultados que a maioria dos alunos em algum momento ou repetidamente tem o hábito de automedicação sendo que 30% dos participantes afirmam que tem o hábito de automedicação, 44% dos participantes responderam que “as vezes” já se automedicaram e apenas 22% afirmam que “nunca” ou “não” tem o hábito de se automedicar e 4% “não sei o que é isso” ou seja, desconhecem o que seja a automedicação.

Ao discutir os dados com os estudantes os mesmos afirmam que grande parte destes são comprados com facilidade em farmácias sem indicação ou receitas médicas, prática essa que é destacada por eles induzindo a automedicação. Veem-se esses relatos como uma preocupação constante em que já apontava há muito tempo por Pacheco (1978), Garrafa (1983) apontavam que pelo menos 35% dos medicamentos adquiridos no Brasil era feitos através de automedicação.

A utilização de medicamentos é uma questão social, e que se faz presente na maioria das residências, entretanto se torna alarmante a preocupação em relação aos problemas oriundos destes medicamentos, entre eles, a automedicação, intoxicação, desperdício e o descarte incorreto destes medicamentos feito pela população (CAMILLO; IOB; PETRY, 2013).

Entretanto, se o brasileiro tende a se automedicar, é também porque não encontra disponibilidade dos serviços de saúde mais acessíveis, precisa ficar horas em uma fila e, às vezes, esperar dias e até meses para ser atendido por um médico. O baixo poder aquisitivo da população e a precariedade dos serviços de saúde contrastam com a facilidade de se obter medicamentos, sem pagamento de consulta e sem receita médica em qualquer farmácia, onde, não raro, se encontra o estímulo do balconista interessado em ganhar uma comissão pela venda. Embora o alto consumo e o consumo de medicamentos de forma inadequada tenham sido observados também entre as camadas mais privilegiadas da sociedade, uma vez que essa prática se dá pela herança cultural, de forma instintiva sem qualquer base racional, pela facilidade de acesso, dentre outros.

A grande porcentagem de informantes que possui medicamentos em suas residências podem confirmar a facilidade de aquisição dos medicamentos. Na maioria dos países industrializados, encontramos medicamentos de uso mais simples e comum (analgésicos, antitérmicos, etc.) disponíveis em farmácias, drogarias e supermercados, podendo ser obtidos sem necessidade de receita médica (CARAMELLI et al., 2001).

De acordo com Medeiros, Moreira e Lopes grande parte dos,

medicamentos prescritos e adquiridos pela população acabam acumulando-se nas residências, seja de modo intencional ou não. Essas sobras habitualmente são descartadas no lixo comum, ou pelo esgoto, ou são guardadas, formando a chamada 'Farmácia Caseira'” (MEDEIROS, MOREIRA e LOPES, 2014, p. 2).

A facilidade da aquisição de medicamentos ou por não terminar os tratamentos de forma correta que grande parte da população brasileira possui medicamentos em sua residência, acumulando-os de forma a constituir o que se pode denominar de farmácia caseira. Estes resultam das sobras de tratamentos finalizados, dos que são comprados em quantidades desnecessárias e são guardados para serem utilizados futuramente (OLIVEIRA, 2012).

Muitas vezes esse armazenamento não é adequado, ficam expostos a altas temperaturas ou em ambientes úmidos. E quando é necessário o seu consumo, na maioria das vezes não é avaliada a validade e aspecto do medicamento e quando é verificada a data de validade e aspecto e, julgado não ter condições, seu descarte acaba ocorrendo diretamente no lixo doméstico, esgoto ou descartado em terrenos baldios.

Porém, o grande investimento da mídia em propagandas, a facilidade de aquisição e o uso corriqueiro dos medicamentos por grande parte dos pacientes, proporcionaram o acúmulo desses produtos nas residências, isentando os usuários dos riscos inerentes à manutenção dos mesmos. É importante que se realize a revisão periódica dos medicamentos que constituem a farmácia caseira, pelo menos duas vezes por ano, pois os medicamentos vencidos e aqueles cujo uso já ocorreu, devem ser descartados para evitar possíveis intoxicações ou ingestão errada do medicamento por troca (FERNANDES; PETROVICK, 2004).

No entanto, observa-se no relato dos participantes que “a informação quanto ao procedimento correto de descarte de medicamentos não utilizados ou vencidos é desconhecida por grande parte da população” (VETTORAZZI; VENAZZI, 2008).

A partir da compreensão dos estudantes quanto ao hábito ou prática da automedicação, investiga-se qual sua percepção com o uso ou descarte desses componentes medicamentosos como apresentado na Figura 2.

Figura 2: Percepção sobre a sobra de medicamentos após o término do tratamento.

Fonte: Autores

Verificou-se que 62% dos participantes afirmam que percebem a sobra de medicamentos após o término do tratamento e 38% não prestam atenção. Aproximando da amostra da pesquisa de Marques e Xavier (2018) em que 63% dos participantes tem a percepção de sobra de medicamentos e 37% acabam por não prestar atenção.

Ao ter a compreensão sobre a sobre de medicamentos após tratamento ou uso de medicamentos para medidas paliativas tem-se ainda a necessidade de averiguar o que são feitos com as sobras destes medicamentos como apresentados na Figura 3.

Figura 3: Prática com a sobra de medicamentos após o tratamento

Fonte: Autores

Temos que 66% dos participantes deixam os medicamenos para usar em outro momento o que potencializa a automedicação dentro de processos paliativos ou curativos, e 15% “não sabem” o que é feito com a sobra dos medicamentos, temos ainda que 11% dos participantes afirmam que a sobra de medicamentos são “descartados no lixo comum”, e 2% para cada um dos itens informados tais como, “levam para unidades de saúde para devolução”, “dão para terceiros” ou “descartam no vaso sanitário”.

Durante o tratamento urgente ou crônico, as pessoas adquirem medicamentos que muitas vezes não são consumidos por completo e acabam por ser armazenado para um possível consumo posterior, seu próprio ou de conhecidos. Muitos desses produtos sobram após o tratamento e acabam sendo descartados com o lixo doméstico ou esgoto comum (UEDA et al., 2009).

Estudo da ANVISA levantou o porquê das sobras de medicamentos na casa das pessoas e concluiu que existem vários motivos, onde os principais são:

(i) dispensação de medicamentos além da quantidade exata para o tratamento do paciente; (ii) apresentações não condizentes com a duração do tratamento; (iii) não implantação do fracionamento de medicamentos pela cadeia farmacêutica; Interrupção ou mudança de tratamento; (iv) distribuição aleatória de amostras-grátis; (v) gerenciamento inadequado de estoques de medicamentos pelas empresas e estabelecimentos de saúde; (vi) carência de informação da população relacionada à promoção, prevenção e cuidados básicos com sua saúde (ANVISA, 2015).

Com o aumento expressivo no Brasil do consumo de medicamentos, temos pontos positivos como vantagens no combate às doenças existem os problemas advindos de sua fabricação e utilização. No entanto, tem se uma preocupação constante sendo levantada atualmente sobre as sobras de tratamentos anteriores, ou mesmo dispensação de medicamentos em quantidade superior ao tratamento devido e prescrição incompleta ou incorreta, juntamente com a impossibilidade de fracionamento de alguns desses produtos (EICKHOFF; HEINECK; SEIXAS, 2009), podem causar o seu acúmulo e posterior perda do prazo de validade.

Partindo da concepção que a sobra dos medicamentos após tratamento estão no prazo de validade, investigou-se com os estudantes sobre a percepção com os medicamentos vencidos em suas residências como apresentamos na Figura 4.

Figura 4: Percepção sobre os medicamentos vencidos

Fonte: Autores

Constatou-se que apenas 9% dos participantes têm a percepção em relação aos medicamentos vencidos e que 49% não tem o hábito de verificação e somado a este 42% que podem ou não verificar sobre os prazos de validades de medicamentos armazenados em suas residências. Trazendo um importante número para a desconstrução de hábitos e práticas que podem ocasionar consequências ao próprio organismo.

O acúmulo de medicamentos que na maioria das vezes acarreta o vencimento dos mesmos pode ocorrer por causa de falhas na continuidade do tratamento onde o usuário compra o medicamento e não segue corretamente até o fim. No caso de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, existe a possibilidade de não adesão ao tratamento por parte do usuário principalmente por causa dos efeitos indesejáveis da droga ou custo dos fármacos (BRUM et al., 2007), além de sobras de tratamentos anteriores cujos medicamentos não ofereciam possibilidade de fracionamento sendo vendidos em quantidade maior do que o prescrito.

Segundo Ferreira et al., (2005) manter estoque de medicamentos não consumidos nas residências é um fator de risco à saúde pela possibilidade de intoxicações provocadas por ingestão acidental ou pela automedicação, além disso, pode ocorrer diminuição da eficiência e segurança dos medicamentos causada pela falta de cuidados com a farmácia caseira (BUENO; WEBER; OLIVEIRA, 2009).

Para Fanhani et al., (2006) é importante a verificação da data de fabricação e do prazo de validade, porque estes prazos representam a garantia de que o produto esteja em condições de consumo, caso armazenado adequadamente, até a data de validade. Além disso, evita o armazenamento de medicamentos vencidos que podem ser responsáveis por possíveis intoxicações ou trocas.

É importante destacas que após o início da utilização do medicamento, a validade do produto poderá divergir do prazo de validade impresso na embalagem original dependendo das condições de armazenamento, pois após a violação da embalagem o medicamento é exposto a agentes externos que podem resultar em algum tipo de alteração.

Deste modo, após a conclusão de um tratamento, o correto é desprezar os medicamentos que restarem, especialmente quando se tratar de colírios, xaropes e outras preparações extemporâneas. Além disso, recomenda-se que seja descartado todo medicamento que o paciente não utilizar ao término de um ano (FERNANDES e PETROVICK, 2004 apud FANHANI et al., 2006).

A partir dessas informações traçou o perfil dos participantes sobre a destinação dos medicamentos vencidos em suas residências como apresentamos na Figura 5.

Figura 5: O que é feito com os medicamentos vencidos em sua casa?

Fonte: Autores

Verificou-se que o lixo comum é a principal forma de descarte de medicamentos vencidos para 46% dos participantes, em outros estudos o lixo comum é o principal destino nas residências no Brasil, como demonstra a porcentagem 56% dos participantes na pesquisa de Marques e Xavier (2018). De 56,87% dos entrevistados da pesquisa de Bueno, Weber e Oliveira (2009) no município de Ijuí - RS. Silva (2005) apontou que 83% dos entrevistados em seu estudo descartavam os medicamentos fora do prazo de validade no lixo domiciliar comum. Temos ainda 82,8% dos entrevistados no estudo de Ferreira et al., (2005) que utilizam o lixo doméstico para efetuar descartes de medicamentos vencidos; contudo quando colocados no lixo estão trazendo riscos à saúde e ao ambiente, pois de acordo com Cruz et al., (2017), estudos comprovam que mais de 200 produtos farmacêuticos foram identificados nos sistemas de água doce no mundo, podendo contribuir com o desenvolvimento da resistência antimicrobiana.

Observa-se que 35% dos estudantes não sabem o que é feito com os medicamentos vencidos reafirmando os estudos de Vettorazzi e Venazzi (2008) quando constataram que

á informação quanto ao procedimento correto de descarte de medicamentos não utilizados ou vencidos é desconhecida por grande parte da população.

Temos que 2% jogam no vaso sanitário e 13% entregam em algum órgão de saúde de Curitiba, o que é correto conforme a RDC – Resolução da Diretoria Colegiada 44/09 que institui quais os estabelecimentos que podem participar de coleta coletiva de fármacos vencidos (BRASIL, 2009). E ainda temos que 4% já utilizaram os medicamentos mesmo estando com o prazo de validade vencido. O consumo indevido de medicamentos, principalmente os de data de validade expirada, pode levar ao surgimento de reações adversas graves, intoxicações, entre outros problemas, comprometendo decisivamente a saúde e a qualidade de vida dos usuários (ANVISA, 2011).

Anda segundo informações do Ministério da Saúde (2014), “pode trazer consequências graves à saúde, como reações alérgicas e dependência, além disso, o hábito pode aumentar a resistência de microrganismos e inibir a eficácia dos remédios” (BRASIL, 2014).

O significativo consumo de medicamentos pelos brasileiros também resulta em elevado descarte destes produtos, a exemplo do ano de 2009, onde estimou-se um montante entre 10 a 28 mil toneladas jogados no lixo doméstico por estarem vencidos ou terem sobrado após uso (FALQUETO; KLIGERMAN, 2013).

O problema é sério, pois o descarte aleatório, seja no lixo comum ou na rede pública de esgoto, traz como consequência a contaminação da água e do solo, afetando a saúde humana e animal (FALQUETO; KLIGERMAN, 2013).

Ao conhecer sobre relação com a prática dos participantes, investiga-se se os participantes já receberam alguma orientação sobre o armazenamento e descarte de medicamentos como apresentado na Figura 6.

Figura 6: Ter orientação sobre o armazenamento e o descarte de medicamentos.

Fonte: Autores

A investigação sobre os participantes ter recebido alguma orientação sobre o armazenamento e descarte de medicamentos foi dada numa escala de 1 a 5, onde se tem que 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo e nem discordo; 4 – concordo parcialmente e 5 – concordo totalmente; obteve-se 27% de participantes que “não concordo e nem discordo”, 26% que “discordo totalmente”, 20% que “concorda parcialmente”, 18% que “concordam totalmente” e 9% que “discorda parcialmente”. Temos que efetivamente que apenas 18% dos participantes já receberam informações sobre a maneira correta para armazenamento e descarte desses medicamentos e 26% que nunca recebeu qualquer tipo de informação ou orientação quanto aos cuidados com medicamentos.

Para Bueno et al., (2009), o consumidor é de fundamental importância para a solução do problema, mas para que este papel seja exercido de forma consciente e absoluta faz-se necessária a implantação de políticas públicas de educação, juntamente com conscientização ambiental e o acesso à informação correta de eliminação desses produtos, para que assim, possa exercer de forma plena a defesa da sustentabilidade.

Um dos grandes fatores para minimização e redução de medicamentos nas “farmácias caseiras” devido ao acúmulo de medicamentos devido ao término de tratamento ou sobra após o mesmo se dá por uma questão ainda não posta em prática pelos atuais distribuidores aos consumidores que é o fracionamento dos medicamentos, assim se investigou qual a opinião dos participantes sobre a venda dos medicamentos pela dosagem de acordo com a prescrição médica, conforme apresentado na Figura 7.

Figura 7: Venda de medicamentos por fracionamento de acordo com a prescrição médica

Fonte: Autores

A opinião dos participantes sobre a venda de medicamentos pudesse ser vendidos na dosagem exata conforme prescrição médica, ou seja, seguindo o fracionamento de medicamentos, foi dada numa escala de 1 a 5, onde se tem que 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo e nem discordo; 4 – concordo parcialmente e 5 – concordo totalmente. Obteve-se que 38% dos participantes “nem concordam e nem discordam” sobre a questão da venda de medicamentos por fracionamento; 31% dos participantes “concordo totalmente” sobre a venda na dosagem de acordo a exatidão de medicamentos de acordo com o tratamento prescrito pelo médico; 24% “concordo parcialmente”; 5% “discordo parcialmente”; 2% “discordo totalmente”. Tem-se um grande problema hoje ao considerar as sobras de tratamentos anteriores, ou mesmo dispensação de medicamentos em quantidade superior ao tratamento devido prescrição incompleta ou incorreta, juntamente com a impossibilidade de fracionamento de alguns desses produtos (EICKHOFF; HEINECK; SEIXAS, 2009), podem causar o seu acúmulo na residência dos usuários e posterior perda do prazo de validade.

Ao avaliar os números, temos uma questão de orientação e uma importante discussão que podem influenciar o mercado global de medicamentos em que é preciso cautela, mas é preciso debater e repensar sobre a questão do fracionamento, visto que seria um avanço para a redução dos medicamentos que acabam inutilizados e acabam tendo como destino final o lixo comum acarretando impactos ambientais negativos.

As causas do excedente de medicamentos merecem ser tratadas com a devida atenção, uma vez que estes não terão outro destino senão o descarte. A destinação final dos medicamentos é tema relevante na saúde pública em razão das diferentes propriedades farmacológicas dos medicamentos, que, inevitavelmente, se tornarão resíduos e não poderão mais ser utilizados (FALQUETO; KLIGERMAN; ASSUMPÇÃO, 2010).

As próprias farmácias poderiam disponibilizar o fracionamento de alguns produtos, proporcionando maior acessibilidade à população e, consequentemente, diminuindo o descarte de medicamentos de forma irresponsável. Por isso, foi ressaltado durante a visita às empresas que apoiaram a ideia do descarte de medicamentos, que a divulgação e a extensão da venda fracionada de medicamentos seriam medidas importantes para reduzir o descarte desnecessário (PINTO et al., 2014).

O desrespeito ao consumidor é evidente pelas indústrias farmacêuticas, pois muitas ainda não se adequaram à regulamentação do Decreto nº 5.775/2006, que determina que sejam produzidos medicamentos com o fracionamento dos produtos. Assim, as farmácias, para atenderem a seus clientes e não serem contrárias ao decreto disponibilizam alguns produtos com venda fracionada, evidenciando o compromisso com o consumidor e com o meio ambiente (JOÃO, 2011).

Buscamos compreender se os participantes desta pesquisa já receberam orientações sobre a coleta dos medicamentos vencidos ou sobra após tratamentos como apresentados na Figura 8.

Figura 8: Informações sobre a coleta de medicamentos em estabelecimentos de Curitiba

Fonte: Autores

Considerando que Curitiba – PR, possui um grande quantitativo de estabelecimentos de saúde, como farmácias, hospitais, postos de saúde, UPA, etc, buscou-se saber se os participantes já foram informados sobre a existência de algum tipo de coleta ou coletor de medicamentos que não tem mais uso ou vencidos. Foi dada numa escala de 1 a 5, onde se tem que 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo e nem discordo; 4 – concordo parcialmente e 5 – concordo totalmente. Obteve-se que 49% dos participantes “discordam totalmente”, ou seja, desconhecem qualquer orientação que tenham sido orientados em unidades de saúde em Curitiba – PR; 16% “não concordam e nem discordam” sobre ter recebido informações; 13% “discorda parcialmente, 13% “concorda parcialmente” e apenas 9% dos participantes “concorda totalmente”, evidenciando a necessidade de se ter uma campanha contínua em relação à orientação e descarte de medicamentos.

Partindo que o Paraná é referência na Logística Reversa de medicamentos desde 2012, na qual foi promulgada a Lei Municipal 13.978/12 e Lei Estadual 17.211/12 que serviu de modelo para a implantação da logística reversa de medicamentos em todo país e com participação de aproximadamente 50 estabelecimentos ligados ao ramo da saúde (PARANÁ, 2014).

Silva (2016) em sua pesquisa verificou-se grandes avanços em alguns bairros de Curitiba – PR, fundamentado a partir das Leis que regulamentam sobre a logística reversa de medicamentos no Paraná, no entanto aponta que “é preciso que as atenções sejam voltadas para os perigos e consequências que esta categoria de resíduos pode ocasionar ao Meio Ambiente por meio de conscientização seja da população, seja das classes profissionais envolvidas. Por fim, é necessário que haja maior rigor do poder público no que se refere a fiscalização e ao cumprimento das obrigações instituídas por meio da legislação vigente” (SILVA, 2016, p. 113).

É discutido constantemente pelo Ministério da Saúde e órgãos competentes no Brasil sobre os riscos ocasionados tanto pela automedicação assim também como ao meio ambiente. Assim se faz necessário entender à percepção dos estudantes sobre o descarte de medicamentos no ambiente como apresentados na Figura 9 e descritos abaixo com afirmações dos mesmos.

Figura 9: Percepção sobre o descarte de medicamentos pode prejudicar o Meio Ambiente.

Fonte: Autores

A percepção dos estudantes quanto ao descarte de medicamentos diretamente no ambiente ocasionando a degradação ambiental ou prejuízos ao meio, foi dada numa escala de 1 a 5, onde se tem que 1 – discordo totalmente; 2 – discordo parcialmente; 3 – não concordo e nem discordo; 4 - concordo parcialmente e 5 – concordo totalmente. Obteve-se 53% dos participantes “concorda totalmente”; 20% “concorda parcialmente” e 27% “não concorda e nem discorda”, representando que a maioria tem a percepção que o descarte incorreto pode causar danos ambientais e assim prejudicar o Meio ambiente.

Ainda buscou-se inferências com os participantes em que poderiam afirmar quais problemas o descarte de medicamentos pode ocasionar ao ambiente, obtendo os seguintes resultados como apresentado na Figura 10 e nas descrições afirmadas pelos estudantes.

Figura 10 - Conhecimento sobre descarte de medicamentos causa impactos ao ambiente

Fonte: Autores

Temos que 56% dos participantes da pesquisa tem a compreensão sobre os efeitos nocivos no ambiente que pode causar consequências tanto aos recursos naturais como a manutenção e ao equilíbrio da vida no planeta. Obteve-se ainda que 29% desconhecem qualquer impacto que seria promovido pelo descarte de forma errônea no ambiente e 15% acreditam que não. Aponta-se a necessidade de trazer a temática para o debate no contexto escolar visto que 44% dos estudantes desconhecem qualquer fator de impacto dos medicamentos ao ambiente.

Dos 56% dos participantes que compreendem que o descarte de medicamentos pode ocasionar impactos negativos ao ambiente são expressos nos seguintes dizeres “Por se tratarem de compostos químicos, os medicamentos podem trazer danos ao meio ambiente, tais como poluição do solo, da água, dentre outros”, “Remédios vencidos quando ingeridos por humanos podem causar efeitos indesejados e se descartado de maneira errada pode contaminar agua e animais prejudicando todo o ecossistema, sem falar de mutações que podem ocorrer em animais ao ingerir certas substancias”, Medicamentos descartados pelo esgoto contribuem com a poluição da água e medicamentos descartados pelo lixo comum podem poluir o solo”, “Hormônio, dificultam o tratamento da água, Acredito que o descarte incorreto pode causar problema, principalmente se forem jogados em lixo comum, dos quais tem pessoas que mexem e cachorros”, “Acredito, pois assim como qualquer coisa descartada de forma errada na natureza, pode vir a prejudicar o meio ambiente de alguma forma”.

Segundo Viana et al., (2016, p. 59), “as alterações no ambiente causadas por atividades antrópicas podem ser negativas, destruidoras ou degradadoras dos recursos naturais”. O descarte no Meio Ambiente pode ocasionar inúmeros impactos, um deles é a contaminação de reservas de água limpa que ainda restam. De acordo com Medeiros, Moreira e Lopes (2014, p. 3), “os fármacos podem afetar os organismos vivos por rotas metabólicas e moleculares, perturbação hormonal de organismos, causada por contraceptivos e a resistência bacteriana causada por antibióticos”. Esta contaminação em parte pode ocorrer além do descarte incorreto de sobras de tratamento e medicamentos vencidos, mas também se deve àquilo que é excretado pela urina e pelas fezes após metabolismo destes produtos no corpo humano. (ZAPPAROLI et al., 2011; ALMEIDA e WEBER, 2005; BILA e DEZOTTI, 2003).

A preocupação em relação a estes compostos está nos possíveis efeitos na saúde humana e no ambiente, incluindo espécies animais. Substâncias químicas suspeitas de causar alteração no sistema endócrino estão potencialmente associadas a doenças, como o câncer de testículo, de mama e de próstata, à queda da taxa de espermatozoides, deformidades dos órgãos reprodutivos, disfunção da tireoide e alterações relacionadas com o sistema neurológico (Carvalho et al., 2009). Além dos interferentes endócrinos, outra preocupação dos cientistas, é com o grupo dos antibióticos. O uso desenfreado de antibióticos acarreta dois problemas ambientais: um, é a contaminação dos recursos hídricos e o outro, é que alguns micro-organismos criam resistência a esses fármacos.

Os participantes deste projeto participaram de rodas de conversas, palestra e debates com o intuito de compreender sobre os cuidados com o próximo e também respeitar o ambiente e assim buscar meios que pudessem melhorar a qualidade de vida e se perceberem como agentes responsáveis pela manutenção do meio onde vivem. A partir da constatação que a população abordada, em sua maioria, não pratica hábitos coerentes em relação ao consumo e descarte de medicamentos ou ainda pelo descarte deficitário.

Para sistematizar o conhecimento científico visto a luz da teoria sobre as implicações do descarte incorreto no ambiente de medicamentos, iniciou-se as ações com os participantes na comunidade escolar com a produção de folders, banners, coletores de medicamentos para usarmos na campanha de coleta de medicamentos que pudessem abranger um maior número de pessoas e que fossem distribuídas de forma impressa e digital por meio de redes sociais, e-mail, WhatssApp, etc. Posteriormente foi inaugurado o ponto de coleta de medicamentos vencidos a partir da comunidade escolar com o ensejo de que os alunos, grêmio estudantil pudessem dar continuidade da campanha de recolhimento de medicamentos para destinação final correta como se mostra na Figura 11.

Figura 11: Materiais de divulgação sobre descarte de medicamentos.