APONTAMENTOS SOBRE A FORMAÇÃO DOCENTE EM TEMPOS DE CRISE AMBIENTAL

Jordana Belem Rodriguesi

Cláudia Mariza Mattos Brandãoii



RESUMO

O texto aborda atividades pedagógicas articulando arte, educação ambiental e formação docente, as quais incentivaram as/os participantes a relacionarem imagens do cotidiano urbano às crises climáticas. Os resultados revelaram a importância da sensibilidade, da imaginação e da reflexão crítica na formação de professores, em relação aos desafios socioambientais contemporâneos.

Para quem transita pelas redes sociais com um olhar atento, é fácil perceber que vivemos um momento crítico no que se refere a eventos climáticos extremos. Basta observar com mais atenção as inúmeras notícias que ali circulam, referentes ao Brasil e ao mundo. Como pano de fundo, é possível identificar os fundamentos do mundo colonial ocidental, as desconexões nas relações que temos com o mundo natural, com os nossos corpos e os de outrem. Ou seja, cotidianamente recebemos sinais sobre a necessidade de mudar a mentalidade que motiva comportamentos destrutivos.

O objetivo deste texto é discutir sobre atividades desenvolvidas com uma turma da disciplina “Educação Ambiental”, do curso de Pedagogia, da Universidade Federal de Pelotas. A proposta surgiu da compreensão de que as crises climáticas não se configuram apenas como um problema ambiental, sim, elas resultam de questões sociais, culturais, políticas e educativas, que atravessam diferentes dimensões da vida contemporânea, exigindo novos modos de pensar a formação humana e as práticas docentes. Para isso, foram propostos atravessamentos entre temas relativos à arte, à educação do sensível e à educação ambiental, convidando os participantes a refletir sobre a cidade na qual vivem, no entendimento de que integramos uma grande teia da vida que está sendo reconfigurada. Buscando estimular novas relações entre corpo-cidade-natureza, discutimos o espaço urbano como território de produção de sensibilidades, sentido, significado, imaginários, memórias e aprendizagens.

O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico, não porque os humanos queiram. (Santos, 2023, p. 18).

A definição de Antônio Bispo sobre a cidade nos ajuda a repensar criticamente sobre os modos de vida e os modelos de desenvolvimento vigentes. Em prol de tal abordagem, consideramos que os campos da arte e da educação ambiental constituem espaços potentes de produção de sentidos, formação sensível e construção singular e coletiva do conhecimento. Referi-mo-nos a um terreno fértil para o desenvolvimento de uma pedagogia transformadora (Freire, 1974), comprometida com a formação de sujeitos capazes de problematizar o mundo e participar ativamente da sua transformação.

No mundo contemporâneo, vivemos cercados por imagens de todos os tipos, sendo que somos, ao mesmo tempo, espectadores, consumidores e produtores dessas imagens, sobretudo por meio da fotografia. Com a democratização proporcionada pelas novas tecnologias, o ato fotográfico é cada vez mais praticado. Entretanto, a potência do exercício da linguagem em si, aliada à leitura crítica e reflexiva do seu produto, as imagens, ainda são pouco explorados nos ambientes educativos. Logo, entendemos que para estimular outros pensares sobre o espaço urbano, a fotografia é uma excelente aliada das práticas pedagógicas.

Embora a produção massiva, a criticidade sobre as imagens fotográficas é pouco exercitada, visto que a leitura de imagens ainda não é um dos focos principais do ensino na educação básica, ficando restrita à área da arte/educação. A aliança entre a linguagem fotográfica e todos os componentes curriculares abre um leque imensurável de possibilidades, proporcionando experiências transdisciplinares. Paulo Freire (1974) e Gaston Bachelard (1996) nos ajudam a pensar acerca de uma educação imaginante, ou em modos de ser professor(a) que extrapolem os imaginários estereotipados que já não fazem sentido nas salas de aula contemporâneas. Imaginário, de acordo com Durand (1998), é uma grande “bacia semântica” onde repousam as imagens que orientam a nossa percepção do mundo, dando sentido e significado ao que nos cerca, através da razão e do corpo sensível. Logo, uma educação pautada no exercício do olhar, que nos faça imaginar outras possibilidades a partir do que já está dado é uma via para qualificar a formação docente.

Da mesma forma, é importante refletir sobre as próprias histórias de vida, sobre como nos constituímos durante o percurso formativo, possibilitando a construção de conhecimento acerca de si (Josso, 2002). Marie-Christine Josso (2002) enfatiza a potência das experiências de vida como ferramenta formativa, revelando que ser professor(a) não é uma condição fixa, mas um processo contínuo de construção, reflexão e reinvenção. A docência é atravessada pelas histórias, memórias e vivências dos sujeitos, tornando-se um percurso permanente de formação.

A ideia de imaginário discutida por Gilbert Durand (1998) destaca o papel das imagens simbólicas para a constituição do pensamento, da cultura e das formas de compreender a realidade. O imaginário não se limita à fantasia ou à imaginação individual, mas à narrativas e representações que conduzem nossas perceções e ações no mundo em que vivemos. Portanto, essa perspectiva torna-se relevante para pensar os processos de criação, mediação e formação estética em artes, bem como para compreender como construímos sentidos e significados sobre a cidade, natureza, educação e crises climáticas.

Na cidade, só havia a escola escriturada. Não havia outras escolas, escolas da inspiração ou da brincadeira. Quando as escolas escrituradas chegaram ao nosso território, foi de uma forma muito acelerada. A escrita queria, a qualquer custo, se instalar e passar a ser a linguagem predominante. (Santos, 2023, p. 24).

Mais uma vez recorremos ao apoio de Antônio Bispo, para abordar a importância do exercício de outras linguagens no ambiente escolar, dentre elas, a fotográfica, para assim sobrepujar a “escola escriturada”. Ou seja, durante as atividades aqui abordadas, mais do que discutir sobre as questões de nosso interesse, promovemos experiências articulando conhecimento, sensibilidade e reflexão crítica, e possibilitando a construção de afetos, percepções e sentidos, para docentes em formação, exercitando outras possibilidades de escritas.

Para a atividade prática, que contemplou o exercício da linguagem fotográfica, foi solicitado que cada um/a registrasse manifestações da arte urbana na cidade onde residem (pixos, grafites ou lambes) simbolizando o entendimento pessoal sobre os conteúdos discutidos nos encontros anteriores e nas suas experiências de vida. Após, cada um/a elaborou um pequeno texto justificando a escolha e relacionando com o tema educação ambiental.

Em suma, neste texto nos referimos a uma proposta pedagógica que estimulou a produção artística como campo de resistência, invenção e criação de novos imaginários, contribuindo para que a educação se constitua como espaço de formação integral diante dos desafios impostos pelas recorrentes crises contemporâneas. Ao deslocar os estudantes para além da sala de aula, estimulamos o olhar sobre o cotidiano e a construção de leituras críticas acerca das visualidades urbanas. Nesse sentido, a fotografia foi compreendida não apenas como técnica de registro, mas como prática de investigação, interpretação e produção de conhecimento, cujo produto, a imagem, resulta como uma síntese simbólica do vivido

Ao longo do desenvolvimento da atividade, algumas/ns participantes tiveram dificuldade para estabelecer relações simbólicas entre as manifestações visuais urbanas e a temática da proposta. Essa dificuldade evidenciou limites relacionados à leitura crítica das imagens e à mobilização do imaginário como recurso interpretativo, o que pode ser compreendido como reflexo de uma formação historicamente marcada pela fragmentação dos saberes e pela valorização de estereótipos como referenciais para a interpretação da realidade. Tal situação pode indicar um enfraquecimento das capacidades imaginativas e simbólicas que permitem aos sujeitos estabelecer conexões entre diferentes experiências, imagens e contextos (Durand, 1998).

Ao incluir o deslocamento urbano na prática, nós viabilizamos uma proposta metodológica que aproximou a atividade das experiências vividas, possibilitando o surgimento de narrativas mais conectadas às memórias, afetos e percepções. Nesse movimento, é possível observar uma aproximação com as contribuições de Josso (2002), para quem os processos formativos ganham potência quando os sujeitos conseguem relacionar conhecimentos acadêmicos às suas próprias trajetórias de vida, como comprova o depoimento referente à Figura 1:

A escolha dessa imagem se relaciona diretamente com a reflexão sobre o ser professor em tempos de crise climática, pois evidencia como a escola, a arte e a educação podem atuar juntas na construção de consciências críticas e sensíveis. As peças do quebra-cabeça simbolizam a diversidade humana, os modos diferentes de perceber, aprender e existir no mundo elementos fundamentais quando pensamos em Educação Ambiental. Diante de uma crise climática que exige ações coletivas, interdependentes e solidárias, o mural lembra que ninguém enfrenta o planeta sozinho, e que a união das diferenças é essencial para transformar a realidade (Participante A, 2025).



Figura 1: Fotografia da participante A.

Fonte: Acervo da pesquisa.

A reflexão evidencia que a formação de professores em tempos de crises climáticas extremas exige muito mais do que a compreensão de conceitos relacionados ao meio ambiente. É necessário promover processos educativos capazes de desenvolver sensibilidade, pensamento crítico, imaginação e compromisso ético diante dos desafios contemporâneos.

Imagem 7

Figura 2: Fotografia da Participante B, 2025.

Fonte: Acervo da pesquisa.

Escolhi este mural que representa duas crianças observando e registrando o mundo ao seu redor. Interpreto essa imagem como a expressão do papel do professor em tempos de crise climática, que é alguém que incentiva a curiosidade, o pensamento crítico e o olhar atento para as transformações ambientais. As crianças com câmeras simbolizam os estudantes atuais que precisam aprender a ver, compreender e atuar diante das mudanças do planeta, inclusive fazendo um bom uso das tecnologias. (Participante B)

Essas justificativas nos ajudam a comprovar que o exercício consciente da linguagem fotográfica possibilita também deslocar a experiência para o âmbito da criticidade reflexiva.

O imaginário na educação, em diálogo com a fotografia, atua como dispositivo de produção de conhecimento, sentido e significado. Bachelard (1996) adentra no campo da experiência poética, discutindo acerca da capacidade de um registro fotográfico despertar afetos, memórias e sonhos. Logo, a imagem deixa de ser apenas um registro e passa a provocar e potencializar uma experiência imaginativa. Juremir Machado da Silva (2006) considera o imaginário como um reservatório, como uma impressão digital do ser no mundo. Nessa perspectiva, acreditamos que a fotografia também pode ser considerada como um reservatório de sentimentos, lembranças, experiências e significação da vida, pois “o imaginário é uma educação existencial dos sentidos e da percepção” (Silva, 2006, p. 32).

A experiência revelou a importância de abordagens pedagógicas que valorizem os imaginários, as vivências e as experiências dos estudantes como elementos constitutivos dos processos de aprendizagem. Ao reconhecer o cotidiano como espaço legítimo de investigação e produção de conhecimento, a atividade possibilitou a construção de leituras mais significativas sobre as relações entre docência, arte e educação ambiental. Também foi possível compreender que a dificuldade inicial apresentada pelos estudantes constitui um dado relevante da própria pesquisa, pois evidencia a necessidade de fortalecer práticas educativas voltadas à leitura crítica das imagens, à formação estética e ao desenvolvimento da imaginação simbólica. Pensar o “ser professor(a)” nesse contexto implica reconhecer a docência como prática ética, estética e política.



Referências

BACHELARD, Gaston. A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.

DURAND, Gilbert. O imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio de Janeiro, DIFEL, 1998.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação. 1. ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2002.

SILVA, Juremir Machado da. As tecnologias do imaginário. 2a ed. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006.









iMestra em Artes Visuais, doutoranda em Artes (PPGArtes/UFPel), é licenciada em Artes Visuais. É pesquisadora do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq).

jordanabelem90@gmail.com

iiArtista/Professora/Pesquisadora. Doutora em Educação, com Pós-Doutorado em Criação Artística Contemporânea (UA, PT), é Mestre em Educação Ambiental. Professora associada da Universidade Federal de Pelotas, lotada no Centro de Artes, atuando no curso Artes Visuais – Licenciatura e no Programa de Pós-Graduação em Artes. Líder fundadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq).

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