A primeira lei da ecologia é que tudo está ligado a todo o resto. (Barry Commoner)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 75 · Junho-Agosto/2021
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Arte e ambiente
08/06/2021 (Nº 75) A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA IMPULSIONANDO CONSCIÊNCIAS ÉTICAS
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A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA IMPULSIONANDO CONSCIÊNCIAS ÉTICAS



Cláudia Mariza Mattos Brandãoi





Resumo: O artigo propõe uma reflexão acerca da importância da experiência estética no cerne de inter-relações éticas. Na discussão, entende-se os processos e produtos da arte como mediadores de ações ecosóficas (trans)formadoras das cosmovisões, utilizando para isso obras dos artistas Jaime Lauriano e NeSpoon como representativas da problematização apresentada.



Considerando os jogos técnicos contemporâneos que originam as imagens, suas reverberações subjetivas e os processos educativos, é essencial refletirmos sobre o impacto de experiências estéticas na mudança de paradigmas comportamentais e de mentalidades. É possível conceituar esse fenômeno como resultante da implicação dos espectadores num campo de trocas fundado pelas imagens em sua recepção. Esse “jogo” exige a participação consciente dos envolvidos, proporcionada pela nossa habilidade de distanciamento crítico frente aos eventos/contextos. Sendo assim, é oportuno destacar a necessidade de privilegiarmos processos educativos que possibilitem a qualquer pessoa ser capaz de apreender os meandros das realidades, participando ativa e criativamente da vida cultural.

Trata-se, portanto, de pensar sobre processos pedagógicos em artes que viabilizem/estimulem a efetivação de experiências estéticas, as quais, além da melhor compreensão sobre a produção artística contemporânea, desencadeiam posicionamentos éticos e estéticos sobre a realidade imediata, caracterizando a educação como um exercício de cidadania. E tal ideário valoriza-se frente à realidade nacional, principalmente, no que se refere à situação pandêmica descontrolada, às agressões sistemáticas ao meio ambiente, à racialização das relações, dentre outras importantes questões.

Em muitas das práticas artísticas contemporâneas, nós identificamos o comportamento de um personagem criado pelo poeta Charles Baudelaire (1821 -1867), o Chiffonier, o sucateiro/trapeiro, uma figura que recolhe e coleciona os restos/rastros diários de uma cidade, o que ela descarta, perde ou despreza, compilando-os e transformando-os em poesia, em arte:

Aqui temos um homem - ele tem de recolher na capital o lixo do dia que passou. Tudo o que a cidade grande jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que destruiu, é reunido e registrado por ele. Compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai adotar a forma de objetos úteis ou agradáveis. (BENJAMIN, 1991, p. 78).

Tal postura concerne àqueles que recolhem e reorganizam os cacos da história para novas (re)construções poéticas, instigadoras de mentes e mobilizadoras dos corpos. Nesse sentido, são possíveis identificações do comportamento sucateiro em diferentes artistas brasileiros como, por exemplo, Jaime Lauriano, Dalton Paula e Denilson Baniwa, cujas produções problematizam questões referentes às heranças coloniais, dando visibilidade a detalhes infraordinários a partir de suas inspirações.

Esses são artistas cujas práticas resultam de exercícios de introspecção ativadores da imaginação criadora, como uma via de acesso ao real. Ou seja, refiro-me a obras que são produzidas na troca incessante entre as pulsões subjetivas e as intimações do meio social e cósmico, fazendo com eles problematizem esteticamente questões de coloniais.

O termo decolonial deriva de uma perspectiva teórica que faz referência às possibilidades de um pensamento crítico a partir dos subalternizados pela modernidade capitalista. Na esteira dessa perspectiva, identifica-se a tentativa de construção de um projeto teórico voltado para uma reflexão crítica e transdisciplinar sobre os fatos históricos. Além disso, essa é uma tendência que também se caracteriza como força política para se contrapor às tendências dominantes de perspectiva eurocêntrica, na elaboração do conhecimento histórico e social. Logo, é possível afirmar que tais obras de arte partem de uma perspectiva ética e estética, seja nas suas produções ou recepções.

Ao refletir sobre a proposta temática desta edição da Educação Ambiental em Ação, “Educação Ambiental para ações sustentáveis”, logo lembrei dos artistas citados e de suas produções. Como espectadora, identifico que tais obras de arte nos ajudam a articular pensamentos em prol de ações sustentáveis visando uma vida biológica, cultural e política, saudável, visto que tais questões são indissociáveis, o que fica muito claro no atual contexto pandêmico, em suas implicações e contradições.



  1. Visualidades Decoloniais

Através de suas obras, Jaime Lauriano (1985) nos convoca a examinar as estruturas de poder imbricadas na elaboração de uma história oficial, evidenciando as violentas relações perpetradas pelo Estado ao longo dos séculos, e que são estruturantes dos processos de subjetivação da nossa população. A sua produção traz à superfície traumas históricos submersos, propondo uma revisão e reelaboração coletiva dessa estória.

Na série “Pedras Portuguesas” (Figura 1), o artista destaca os nomes dos portos de origem dos navios negreiros: Angola, Costa da Mina e Moçambique, utilizando a técnica do calçamento português, ainda encontrado em muitas cidades brasileiras, inclusive na minha, Rio Grande (RS). Lembrando que as pedras portuguesas podem ser consideradas símbolos da invasão portuguesa, demarcando a chegada dos colonizadores no “Novo Mundo”. Além disso, era comum o emprego de mão de obra escrava na sua utilização para a pavimentação em terras brasileiras.



Figura 1: Jaime Lauriano, pedras portuguesas #1, pedras portuguesas, caixa de ferro e cimento, 100 x 150 x 10 cm, 2017.

Fonte: https://pt.jaimelauriano.com/

Portanto, podemos considerar que a série, composta por três obras, evidencia simbolicamente a centralidade do tráfico de escravizados para a “sedimentação” da colonização. Nesse sentido, no momento em que os espectadores têm contato com essa obra, eles são instigados a refletir sobre os milhões de africanos que perderam as suas raízes, sendo obrigados a assumir a “identidade” de pessoas escravizadas, “assentadas” à força, assim como as pedras portuguesas.

Lauriano nos propõe o jogo de uma experiência estética calcada na ética, em prol da consciência histórica. Suas obras estimulam reflexões que nos permitem sonhar com um futuro diferente, estruturado a partir do ideal de equidade, de respeito ao outro. Sendo assim, entendo “Pedras Portuguesas”, dentre tantas outras obras de arte, como peças capitais para a projeção de um devir sustentável, demarcando a importância da vida cultural amparada em um pensar ecosófico (GUATTARI, 1990).

E na disputa de narrativas propostas pelas formas estéticas, fica estabelecida a importância do papel instaurador e antropológico da imaginação, como uma marca inexorável das linguagens e das produções artísticas/simbólicas, seja para o artista ou para o espectador. A imaginação pode assumir concepções distintas, escancarando o antagonismo entre a criadora e a reprodutora. A imaginação criadora é autônoma, transgressora do real, aceitando “a natureza como uma fisionomia humana móvel” e produzindo de imagens “que seguem ao mesmo tempo as forças da natureza e as forças da nossa natureza” (BACHELARD, 1989, p.191). Por sua vez, a imaginação cópia, reprodutora, é autocentrada e massificadora, estancando o dinamismo criativo, impedindo a instauração do devaneio poético e a compreensão de que a realidade é uma potência do sonho (BACHELARD, 1996).



  1. Quando o banal conquista os “holofotes”

E no contexto da reflexão desenvolvida até aqui, quero também destacar as práticas de uma jovem artista contemporânea, polonesa, que tem produzido intensamente durante a pandemia, dando a ver a riqueza da vida cultural do seu contexto. Trata-se de NeSpoon (1999), uma artista que utiliza diferentes materiais, combinando cerâmica e graffiti em suas produções e instalações urbanas. Porém, o que mais chama a nossa atenção é o destaque que ela dá às formas dos bordados e das rendas tradicionais da sua região, como um meio de resgate das práticas de um antigo ofício manual, predominantemente feminino, e de certo modo esquecido.

Figura 2: NeSpoon, murais com padrão de renda local, Koniaków, Polônia, 2015 - 2017.

Fonte: http://www.experiencepoland.net/wp-content/uploads/2019/03/NeSpoon.07.jpg

Algumas de suas obras são pintadas diretamente sobre as superfícies, enquanto outras são feitas com argila ou bordadas e instaladas posteriormente.

A artista utiliza como suporte para os seus murais antigos edifícios, geralmente degradados, muros e calçadas, reproduzindo padrões característicos, seja através da técnica do estêncil ou da elaboração de peças e painéis de cerâmica. O seu trabalho ganhou visibilidade com os murais que executou na Polônia (Figura 2), e que se transformaram em projetos internacionais, realizados em diferentes países.

Todas as produções são feitas à mão pela artista ou por outras tradicionais, com as quais ela tem parceria. NeSpoon considera que a ceramicurbanarté o foco central de suas obras, já tendo instalado inúmeros objetos de cerâmica em paisagens urbanas e naturais de diferentes cidades (Figura 3). Ela acredita que nossos pensamentos moldam o mundo, e o seu apelido, que remete ao personagem Neo, do filme Matrix, demonstra a sua intenção de “dobrar” sua própria realidade e sobrepujar as limitações.

Figura 3: NeSpoon, intervenção com cerâmica, 2016.

Fonte: https://followthecolours.com.br/art-attack/nespoon-grafite-renda/

As produções de NeSpoon podem ser vistas em seu perfil no Instagram, @nes.poon, o que nos permite também acompanhar as suas andanças e intervenções. A beleza de seu trabalho é inegável, porém, o que mais se destaca é o resgate das produções manuais de pessoas anônimas. Ao reproduzir as formas tradicionais das bordadeiras da região, a artista reivindica para essas mulheres o reconhecimento de suas digitais na construção da história comunitária e na manutenção de uma tradição identitária.



  1. Considerações finais

Neste período, dedicado às celebrações ao meio ambiente, mas, principalmente, voltado às reflexões sobre o alcance destrutivo de nossas interações com o planeta, pondero necessárias as discussões sobre os meios que colaboram para a instauração de uma nova cosmovisão, biocentrada. Consciente das dificuldades/resistências que pontuam essa jornada, entendo a relevância da Educação Ambiental, seja formal, não-formal ou informal, e destaco que ela pode se efetivar através de múltiplos meios, inclusive, através da arte, seus fazeres e suas obras.

Reconheço que muitas pessoas, inclusive docentes, ainda consideram que a disciplina de Artes é um mero “penduricalho” nos currículos escolares, ignorando a potência de suas práticas e, por consequência, a importância dos sentidos e das subjetividades para a compreensão da complexidade das relações humanas, sociais, políticas e com a natureza. Entretanto, o mérito das atividades culturais e artísticas reside exatamente na possibilidade de democratização dos conhecimentos compartilhados, de estímulo à capacidade de reflexão crítica, contribuindo para o desenvolvimento cultural dos povos e a ampliação de hábitos sociais que favoreçam mudanças de atitudes e a compreensão das relações sistêmicas.

Os exemplos citados demonstram o engajamento ético de alguns artistas, cujas poéticas são estratégias de representação fundadas em posicionamentos e ações culturais que acenam para a organização dos setores sociais, culturais e políticos de cada contexto. As obras de Jaime Lauriano e NeSpoon são assim como fragmentos das histórias de cada um, que, dotados de nova roupagem, se apresentam aos olhares mobilizando as mentes.

Ao longo do texto busquei argumentar em prol da experiência estética como uma suspensão reflexiva, que permite o exercício de uma contemplação atenta aos detalhes comunicativos das imagens. Mais do que isso, ela pode propiciar o desnudar do palimpsesto visual contemporâneo, permitindo um entendimento mais abrangente dos acontecimentos ao nosso redor, das comunicações simbólicas que se multiplicam por todos os espaços, reais e virtuais, e das possíveis reverberações nas imaginações e seus imaginários.

Considerando a magnitude dos processos aqui problematizados, finalizo a escrita reiterando o alerta: a efetivação do campo de trocas estabelecido pelas imagens nem sempre é percebido conscientemente pelos envolvidos. E, nesse sentido, destaco mais uma vez a importância central de práticas pedagógicas em artes estimuladoras da percepção crítica desses processos comunicativos não-verbais para o desenvolvimento de consciências despertas, culturalmente ativas e interativas.



Referências:

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

_______. A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III. Charles Baudelaire - Um lírico no auge do capitalismo. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

GUATTARI, Felix. As Três Ecologias. Campinas, SP: Papirus, 1990.



iDoutora em Educação com pós-doutorado em Criação Artística Contemporânea, mestre em Educação Ambiental, professora do Centro de Artes, do curso Artes Visuais – Licenciatura e do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Artes Visuais, da Universidade Federal de Pelotas. É coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de PesquisaemFotografia e Educação (UFPel/CNPq).attos@vetorial.net

Ilustrações: Silvana Santos