A natureza universal sustenta a vida de todos os seres. (Dalai Lama)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 76 · Setembro-Novembro/2021
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Relatos de Experiências
08/06/2021 (Nº 75) BRINCANDO COM OS PEIXES: UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES RIBEIRINHAS NO AMAZONAS
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BRINCANDO COM OS PEIXES: UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES RIBEIRINHAS NO AMAZONAS

Edneia Miranda Cruz1, Josiele Viana Gomes2, Jozy Carla Tavarez de Brito3, Rayanna Graziella Amaral da Silva4, Samantha Aquino Pereira5

1 Licenciada em Ciências: Química e Biologia. Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia. Universidade Federal do Amazonas. Itacoatiara, Amazonas.

2 Licenciada em Ciências: Química e Biologia. Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia. Universidade Federal do Amazonas. Itacoatiara, Amazonas. Professora da Escola Maria Arruda, Urucurituba, Amazonas.

3 Licenciada em Ciências: Química e Biologia. Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia. Universidade Federal do Amazonas. Itacoatiara, Amazonas.

4 Mestre em Ciência e Tecnologia para Recursos Amazônicos. Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia. Universidade Federal do Amazonas. Itacoatiara, Amazonas. Professora do Centro Educacional de Tempo Integral Dom Jorge Edward Marskell, Itacoatiara, Amazonas

5 Professora do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia. Universidade Federal do Amazonas. Itacoatiara, Amazonas. Email: samanthacca1@gmail.com



Resumo

Na Amazônia a pesca representa a principal fonte de alimento e renda para a população. No entanto, a intensificação dos impactos antrópicos promove a degradação destas pescarias. Para conter essa degradação diversas estratégias conservacionistas são implementadas, incluindo ações de educação ambiental. A Educação Ambiental (EA) é fundamental nas propostas de conservação, na medida em que estimula a participação comunitária efetiva. Assim, apresentamos as ações de EA realizadas com crianças e adolescentes de comunidades ribeirinhas localizadas nos municípios de Itacoatiara e Silves, no Amazonas sobre a biologia dos peixes e a importância dos habitats para seu ciclo de vida, sensibilizando-os sobre a conservação dos peixes e dos ecossistemas, fundamental para garantir a segurança alimentar da polução local. Foram realizados quatro encontros ambientais reunindo crianças e adolescentes de quatro comunidades rurais. Observamos que as atividades lúdicas são ferramentas facilitadoras para interação e sensibilização dos participantes. E também, inspiradoras para os professores locais que observaram a interação das crianças em todas as atividades e como essas ações podem auxiliar nas estratégias de ensino-aprendizagem em sala de aula. Destacamos a importância da Educação Ambiental em ações e projetos contínuos para a conservação dos peixes em ambientes formais e não formais.

Palavras-chave: Sensibilização ambiental, peixes, envolvimento comunitário.

Abstract

In the Amazon, fishing represents the main source of food and income for the population. However, the intensification of anthropic impacts promotes the degradation of these fisheries. To contain this degradation several conservationist strategies are implemented, including environmental education actions. Environmental Education (EE) is fundamental in conservation proposals, as it stimulates effective community participation. Thus, we present the environmental education actions carried out with children and adolescents from riverside communities located in the municipalities of Itacoatiara and Silves, in Amazonas on the biology of fish and the importance of habitats for their life cycle, raising their awareness about the conservation of fish and ecosystems, essential to ensure food security for the local population. Four environmental meetings were held, bringing together children and adolescents from four rural communities. We observed that playful activities are facilitating tools for the participants' interaction and awareness. And also, inspiring for the local teachers who observed the interaction of the children in all activities and how these actions can help in the teaching-learning strategies in the classroom. We highlight the importance of Environmental Education in ongoing actions and projects for fish conservation in non-formal settings.

Key- words: Environmental awareness, fish, community involvement

Introdução


A bacia do rio Amazonas está entre os ecossistemas mais biodiversos do mundo, com cerca de 2200 espécies de peixes reconhecidas (ALBERT; REIS, 2011), muitas de grande importância tanto ecológica como economicamente para as populações ribeirinhas (Roosevelt, 1999). Essa região compreende um complexo de habitats incluindo lagos, canais secundários (igarapé) e floresta (igapó), que são periodicamente inundados pelo rio Amazonas. Este ambiente rico fornece a base para uma elevada produção de peixe e uma intensa atividade pesqueira (JUNK; SOARES; BAYLEY, 2007).

A pesca na região amazônica representa a principal fonte de alimento, renda e lazer para grande parte da população (BARTHEM; FABRÉ, 2004), principalmente, para as comunidades rurais, onde o pescado garante a segurança alimentar (DUGAN et al., 2002). No Amazonas, estimou-se o consumo médio de 600 g/dia de pescado (CERDEIRA; RUFFINO; ISAAC, 1997a; FABRE; ALONSO, 1998) representando a maior taxa média de consumo do mundo (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO), 2018). No entanto, os impactos antrópicos, incluindo a pesca excessiva e a fragmentação do habitat, promovem a degradação destas pescarias (PAULY; ZELLER, 2016), como por exemplo, a diminuição dos estoques pesqueiros. Para conter essa degradação foram propostas diversas estratégias conservacionistas, incluindo ações de educação ambiental.

A Educação Ambiental (EA) é fundamental nas estratégias de conservação, na medida em que estimula a participação comunitária efetiva. As atividades de EA, em geral, utilizam espécies bandeiras para sensibilizar a população estimulando relações de afetividade com intuito de provocar mudança de valores e atitudes em relação a esses animais (BRASIL INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS., 2016; VALLEJO-BETANCUR; PÁEZ; QUAN-YOUNG, 2018). No Amazonas, uma espécie importante para conservação é o pirarucu (Arapaima spp.), considerado uma espécie guarda-chuva e que tem grande importância cultural na região (CAMPOS E SILVA, 2016), embora a pesca seja proibida, a espécie sofre com a pesca ilegal (CAVOLE; ARANTES; CASTELLO, 2015). No entanto, ações de educação ambiental sobre a importância dessa espécie são restritas às Unidades de Conservação que fazem a co-gestão dos lagos com manejo comunitário da espécie (BARBOSA; GUIMARÃES; NEVES, 2019; GAMA, 2010).

Além do pirarucu, uma espécie-bandeira emblemática na região é o peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis), que devido à caça ilegal encontra-se ameaçado de extinção e está classificado como espécie vulnerável pela IUCN - União Internacional de Conservação da Natureza (WARMENBOL; SMITH, 2018). Atividades de educação ambiental foram realizadas no município de São Sebastião do Uatumã, no Amazonas, incluindo aulas expositivas e palestras, com estudantes do ensino médio de uma escola pública sobre a proteção do peixe-boi. Os alunos aprenderam sobre a dieta e a importância deste na cadeia alimentar e para o equilíbrio do ecossistema aquático. Após a sensibilização, os alunos se tornaram multiplicadores das informações para amigos e familiares (LOURENÇO; ROSA, 2018).

Os quelônios também representam um grupo de animais importantes culturalmente na região. O projeto “Pé-de-Pincha” é um projeto de conservação de quelônios desenvolvidos em diversos locais da Amazônia desde a década de 70, cujo objetivo é proteger os quelônios com envolvimento e participação ativa dos comunitários e executar ações de educação ambiental (ANDRADE, 2005). Atividades de EA realizadas pelo projeto demonstraram-se relevantes para a inserção das crianças e jovens nas ações do projeto, uma vez que as informações sobre as espécies são incorporadas no contexto em que vivem contribuindo para o fortalecimento da educação em ciências e a formação da consciência ambiental para proteção dos quelônios (SILVA et al., 2012).

Nesse sentido, atividades de educação ambiental na região enfatizando a importância dos peixes tanto para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos como segurança alimentar ainda são carentes na região. Ações de EA que abordem os peixes, recurso de importância cultural e econômica para a população local, facilitam a integração social da comunidade para atuar de forma participativa (FRANTZ; MAYER, 2014) nas estratégias de conservação dos recursos pesqueiros, bem como mostrar o papel e a responsabilidade da sociedade sobre o que ocorre no meio ambiente (MARQUES et al., 2014).

Assim, nosso projeto realizou encontros ambientais proporcionado ações de educação ambiental gerando informação para crianças e adolescentes de Itacoatiara e Silves, no Amazonas sobre a biologia dos peixes e a importância dos habitats para seu ciclo de vida, sensibilizando-os sobre a conservação dos peixes e dos ecossistemas, garantindo assim a segurança alimentar da população local.

Metodologia

Esse relato de experiência é resultado do projeto de extensão do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia, da Universidade Federal do Amazonas, intitulado: “Peixe nosso de cada dia: Educação Ambiental com jovens do Lago Canaçari, Silves-Amazonas”.

Área de estudo:

As atividades foram realizadas em quatro comunidades rurais dos municípios de Itacoatiara e Silves, no Amazonas, a saber: Comunidade São José Pampolha, São Sebastião, localizadas no município de Silves e Santa Fé e Santo Antônio fazem parte do território do município de Itacoatiara. Todas estão localizadas no Lago do Canaçari que possui aproximadamente 40 Km de extensão e largura média de 15 Km, perfazendo um total aproximado de 600 Km² . Esse lago pode ser comparado a uma grande bacia, com uma profundidade que varia entre 3m e 15m durante a vazante e a enchente, respectivamente. Na época da seca, surgem vários lagos que, transforma-se em um verdadeiro sistema de lagos menores, servindo de estratégia para reprodução de peixes, e contribuindo para a subsistência das comunidades localizadas ao longo do lago (JOHN, 2018) (Figura 1).

Figura 1. Localização das comunidades rurais dos municípios de Itacoatiara e Silves, no Amazonas.

Atividades de Educação Ambiental

Foram realizados quatro encontros ambientais nas comunidades, cada um em uma comunidade, abordando os temas sobre biologia, ecologia e importância da conservação das espécies de peixes mais importantes cultural e economicamente na região, pirarucu (Arapaima gigas), tucunaré (Cichla sp.) e tambaqui (Colossoma macropomum).

O primeiro encontro teve como objetivo trocar ideias sobre a biologia e ecologia dos peixes, destacando as características de peixes de água doce e enfatizando as características morfológicas como: tipo de revestimento, padrão de cor, posição dos olhos, existência ou ausência de dentes entre outros e relacionando-os com seu habitat. Após o bate-papo sobre essas características ilustradas com ajuda das imagens projetadas no computador, foi proposto um jogo de quebra cabeça para que elas montassem em equipe e descobrisse qual era a espécie, pirarucu e tucunaré. Ao final da montagem, as crianças foram estimuladas a destacar as características que ouviram durante o bate–papo e se sabiam outras e ainda, relatar a importância desta espécie para o meio ambiente.

No segundo encontro, chamado “Observar e Experimentar”, os participantes observaram as características morfológicas internas (brânquias, bexiga natatória, intestino, estômago e fígado) e externas (forma, coloração, nadadeiras, órgãos da cabeça e escamas), por meio de ilustrações e vídeos no computador. Ao final, os jovens receberam blocos de observações para desenhar as características que acharam interessantes e relatar seus saberes tradicionais sobre as espécies, por exemplo, foram estimulados a escrever uma história que viveu ou ouviu sobre algum peixe.

No terceiro encontro, foi realizado um jogo chamado “Quem sou eu?”, tinha como objetivo reforçar o conhecimento das características das espécies de peixes e outros animais comuns na região, por meio de perguntas pertinentes. Os jovens foram divididos em duplas para que pudessem responder algumas perguntas sobre determinada espécie. Um deles vira as costas para o parceiro, para lhe mostrar a figura que precisa descobrir (previamente presa em suas costas). O parceiro deve fazer perguntas aos demais participantes para ajudar a descobrir sua própria identidade (de acordo com a figura presa em suas costas). As perguntas devem ser respondidas apenas com “sim” ou “não”. Ambos os alunos devem se revezar fazendo perguntas. Quando um aluno descobrir a identidade do animal, o organizador deve prender outra figura nas suas costas, dando-lhe uma “nova identidade”.

No último encontro, foi realizada uma dinâmica chamada “Faz de Conta Quê”, em que algumas das crianças imaginaram ser um peixe, de sua escolha, e relataram a importância da conservação dessa espécie. Para finalizar, foi realizada uma exposição de desenhos e poesias elaborados pelos participantes.

Ao final foi elaborado um guia ilustrado sobre os peixes. O guia contém informações básicas sobre sistemática, biologia (alimentação e reprodução), ecologia e estado de conservação das seguintes espécies: tambaqui (Colossoma macropomum), pirarucu (Arapaima gigas), tucunaré (Cichla sp.), surubim (Pseudoplatystoma fasciatum) e jaraqui (Semaprochilodus sp.).

Resultados

Participaram desta pesquisa 22 crianças com idade entre 4 a 12 anos, moradores das quatro comunidades. Todas foram participativas nas atividades. Durante os encontros tivemos que elaborar atividades não previstas, porque não esperávamos crianças menores de 10 anos. Por esse motivo, incluímos nos resultados a participação delas nos encontros. Outro aspecto positivo observado durante os encontros foi a participação dos professores das escolas locais e dos pais que se envolveram e ajudaram seus filhos em todas as atividades propostas.

No primeiro encontro, as crianças estavam animadas para participar. Então, assistiram ao vídeo e ouviram as informações sobre características morfológicas dos peixes e após, montaram os quebra-cabeças. Dividimos em equipes, pois tinhas crianças pequenas que não conseguiam montar, mas queriam interagir. Assim, mesclamos as equipes. As alunas organizadoras e os pais ajudaram na interação entre os participantes das equipes (Figura 2).

Figura 2. Montagem do quebra-cabeça em grupos.

No segundo encontro, após ouvirem e assistirem o vídeo sobre as características internas dos peixes enfatizando a importância da cadeia alimentar para sobrevivência destes entregamos blocos de observações. Os participantes menores desenharam peixes e os maiores escreveram histórias de experiências que tiveram com peixes que acharam interessantes (Figura 3). Bloco de observações e relatos dos participantes