Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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Reflexão
15/12/2021 (Nº 77) O SILÊNCIO LOCAL
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O SILÊNCIO LOCAL



Com as possibilidades de comunicação instantânea qualquer manifestação é passível de organização rápida. Chovem abaixo-assinados na caixa postal, as postagens em redes sociais com essas e aquelas imagens chocantes, além daquelas horrendas que começam com “sei que ninguém vai curtir, mas respeite”. Essa última é uma das mais perigosas que encontrei.

Ela é válida para situações socialmente aceitas ou quando alguém reclama seu direito, por exemplo, de estudar e não ser incomodado. Respeitar quem quer estudar é o mínimo que se pode fazer. Isso também pode se aplicar a algum gosto musical. Não curto música atonal e nem por isso vou desrespeitar quem gosta de ouvir. Aliás, um músico ótimo para conhecer esse tipo de música que não tem uma tonalidade preponderante é Arnold Schoenberg.

Agora, isso não pode ser aplicado a tudo e, principalmente, nesses tempos em que se persegue o politicamente correto. O uso indiscriminado de “se não curtir, respeite” induz à generalização no modo de pensar, aplica-se a tudo pelo peso da repetição do uso. Não concordo com quem tem a atitude de jogar lixo em qualquer lugar. Se alguém tem lixo ele deve dar o destino correto e pronto, isto é, não curto e não vou respeitar esse tipo de atitude.

Aí, um cínico outro dia disse que eu não podia desrespeitar as pessoas por terem essa atitude em relação ao lixo. Concordei e acrescentei que, dificilmente, iria estar com pessoas assim em outras situações. O comportamento em relação ao lixo é mais ou menos como em relação a outras tantas ações que causam um mal direto ou indireto a todos. E, principalmente, as que afetam as condições de vida.

Se um lugar que frequento alguém joga o seu lixo na calçada no final do dia, deteriorando as condições do local, existe uma ação direta de manifestar o "não curto, não frequentarei mais o lugar", e ainda buscar saber quando o problema será resolvido junto aos órgãos responsáveis pela fiscalização. Ou então, citar, como aqui, para chamar a atenção para o problema do lixo nas calçadas que continua aumentando.

E a questão do silêncio local? Esse é perigoso. Revela nossa acomodação, um respeito que o outro não merece. Voltando a nossa conectividade, o sinal da rede social toca, lá está uma postagem de uma ilha de plástico boiando no oceano. Vou lá e acesso à notícia, são poucas palavras e um link para participar de um abaixo-assinado para banir o plástico do uso cotidiano. Pronto, assinei, participei e aí?

E aí, nada. Amanhã, quase todas as pessoas vão ao supermercado e colocam todos os produtos em sacolas plásticas. Inclusive os produtos que não precisam. Ainda reclamam que para os de maior peso são necessárias duas sacolinhas para não arrebentar.

Localmente, vamos deixando passar pequenas coisas que se transformam em grandes problemas. Deixamos que joguem o lixo no chão, justificando que ainda precisam aprender. Depois o lixo estará nos bueiros, nos córregos e nos rios. É um respeito fraudulento porque a justificativa é evitar animosidade futura. Se a atitude não muda, então, só existe uma maneira, mostrar que não curte e quebrar o silêncio local.

De que adianta ficar escrevendo comentários sobre o lixo em situações distantes de nós? Só presenciei uma vez a pessoa defendendo jogar o lixo no chão dizendo: “eu pago meus impostos então que gastem para limpar”. Localmente, estamos deixando tudo como está, revelando com nosso silêncio que respeitamos, mesmo "não curtindo”, a atitude de quem joga seu lixo em qualquer lugar e não se sente responsável por ele.

Cláudio Loes

Ilustrações: Silvana Santos