Nada pode substituir o contato com a natureza para o desenvolvimento da consciência ambiental [...] (Genebaldo Freire Dias)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 77 · Dezembro-Fevereiro 2021/2022
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15/12/2021 (Nº 77) EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ESCOTISMO: APLICAÇÃO DE COMPOSTAGEM
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ESCOTISMO: APLICAÇÃO DE

COMPOSTAGEM

Rafaela de Godoy1, Margareth Lumy Sekiama2

1Centro de Ciências Agrárias - CCA, Universidade Federal de São Carlos-Araras

e-mail: arafaella@hotmail.com

2Departamento de Desenvolvimento Rural - DDR, Universidade Federal de São Carlos-Araras

e-mail: margareth@ufscar.br

Resumo: Compostagem é uma forma alternativa de reciclagem de resíduos orgânicos, capaz de reduzir o impacto ambiental gerado pelo resíduo domiciliar. Como resultado desse processo, obtém-se um composto rico em nutrientes que pode ser utilizado para adubação do solo. Mesmo reconhecendo a importância desse processo, apenas uma parcela mínima dos resíduos orgânicos são compostados no Brasil (0,3%), e ainda, poucos trabalhos são realizados visando analisar a eficiência de diferentes métodos de construção de composteiras, principalmente quando levasse em conta a compostagem como ferramenta para educação ambiental. Dessa maneira, este trabalho teve por finalidade testar diferentes tratamentos com a presença ou não de minhocas no desenvolvimento de compostagem. Para isso, durante quatro meses foram medidos tempo de decomposição, umidade e pH do solo das diferentes composteiras: (1) caixa vazada com minhocas; (2) caixa vazada sem minhocas; (3) caixa fechada com minhocas; e (4) caixa fechada sem minhocas. Todo o trabalho foi realizado em conjunto com o Grupo Escoteiro Santa Cruz, UDAM e Banco de Alimentos de Rio Claro/SP, que participaram ativamente da construção do projeto. Dessa maneira, além de testar a eficiência das composteiras, através de análises laboratoriais, também foi possível envolver jovens neste trabalho e utilizar dessa ferramenta para educação ambiental. Foi possível verificar que as caixas fechadas tiveram maior acúmulo de líquido na parte inferior. Pode-se constatar também, que o tratamento com a caixa fechada e com minhocas, ocorreu um melhor processo de decomposição, tendo um pH de 7,96 e 51,56% de umidade. Além de avaliar as diferentes composteiras, esse trabalho possibilitou a sensibilização e elucidação da forma correta de reaproveitamento de resíduos aos jovens envolvidos no trabalho, de forma a viabilizar com baixo custo o processo de tratamento domiciliar. Nesta perspectiva, destaca-se a necessidade de que mais trabalhos possam ser desenvolvidos com este grupo de escoteiros, reforçando a necessidade da compostagem domiciliar como forma de redução de impactos ambientais.

Palavras-chave: reciclagem de resíduos, composteiras, compostagem domiciliar, escoteiro.

Abstract: Composting is an alternative way of recycling organic waste, capable of reducing the environmental impact generated by household waste. As a result of this process, a nutrient-rich compost is obtained that can be used for soil fertilization. Even recognizing the importance of this process, only a minimum portion of organic waste is composted in Brazil (0.3%), and still, few studies are performed to analyze the efficiency of different methods of construction of compost pans, especially when taking into account the composting as a tool for environmental education. Thus, this work aimed to test different treatments with the presence or absence of earthworms in the development of composting. For this, during four months, decomposition time, moisture and pH of the soil in different compost bins were measured: (1) empty box with worms; (2) empty box without worms; (3) closed box with worms; and (4) closed box without worms. All the work was done together with the Santa Cruz Scout Group, UDAM, and the Rio Claro/SP Food Bank, which actively participated in the construction of the project. In this way, besides testing the efficiency of the compost bins, through laboratory analysis, it was also possible to involve young people in the process and use this tool for environmental education. It was possible to verify that the closed boxes had a greater accumulation of liquid at the bottom. It can also be seen that the treatment with the closed box and with worms, there was a better decomposition process, with a pH of 7.96 and 51.56% humidity. In addition to evaluating the different compost bins, this work enabled the sensitization and elucidation of the correct form of waste reuse to the young people involved in the work, in order to enable a low-cost home treatment process. In this perspective, we highlight the need for more work to be developed with this group of scouts, reinforcing the need for home composting as a way to reduce environmental impacts.

Keywords: waste recycling, composters, home composting, scout.

Introdução

O Movimento Escoteiro (ME) foi fundado pelo General Robert Baden-Powell, em

1907, na Inglaterra. Tendo início no Brasil em 1910, um grupo de oficiais vindos da Europa, fundaram a primeira associação escoteira que se espalhou por todo território, até que em 1924, foi criada a União dos Escoteiros do Brasil. Atualmente, são mais de 100 mil escoteiros, de 671 cidades que reúnem 1.480 Grupos Escoteiros (GE); (ESCOTEIROS DO BRASIL, 2019).

O Escotismo se tornou um movimento mundial educacional e social para crianças, jovens e adultos, sem fins lucrativos. Esse movimento de educação não-formal, incentiva os escoteiros a se desenvolverem com a comunidade, contribuindo para a formação de uma significativa cidadania no Brasil. Há uma divisão conforme a faixa etária dos jovens, sendo: Ramo Lobinho (entre 6,5 e 10 anos); Ramo Escoteiro (entre 11 e 14 anos), Ramo Sênior (entre 15 e 17 anos); e Ramo Pioneiro (a partir dos 18 anos, e até os 21 anos incompletos), a partir dessa etapa, o jovem pode seguir a vida escoteira no papel de voluntário, como escotista ou dirigente. Todas as áreas de desenvolvimento (físico, intelectual, social, afetivo, espiritual e de caráter) são trabalhadas com base nas características individuais de cada uma dessas fases. O ME valoriza a participação de pessoas de todas as etnias, credos e condições sociais de acordo com seu propósito, princípios e método escoteiro (NUNES E DOMINGOS, 2012; ESCOTEIROS DO BRASIL, 2019).

Dentro do GE, os jovens são estimulados a desenvolverem atividades de preservação do meio ambiente, aprendendo a importância e responsabilidade de suas ações dentro da sociedade em que estão inseridos, e também no contexto global. (PAOLILLO E IMBERNON, 2009; NUNES E DOMINGOS, 2012; ESCOTEIROS DO BRASIL, 2019).

A Educação Ambiental (EA), segundo a Política Nacional de Educação Ambiental - Lei nº 9795/1999, Art. 1º, configura os processos pelos quais, indivíduos e sociedade desenvolvem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências direcionadas à conservação do meio ambiente para uma melhor qualidade de vida e de sua sustentabilidade.

A Educação Ambiental é uma dimensão da educação, é atividade intencional da prática social, que deve imprimir ao desenvolvimento individual um caráter social em sua relação com a natureza e com os outros seres humanos, visando potencializar essa atividade humana com a finalidade de torná-la plena de prática social e de ética ambiental. (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental, nº 116, Seção 1, Art. 2°, pág. 70).

No Brasil, segundo dados de pesquisa Nacional de Saneamento Básico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são recolhidas cerca de 180 mil toneladas diariamente de resíduos sólidos, sendo estes, resultantes de atividades urbanas, industriais, de serviços de saúde e rurais. (TERRA, 2019). Conforme IBGE (2010), cerca de 50% dos resíduos sólidos gerados, são de materiais orgânicos, como restos de podas, alimentos, etc. De acordo com a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, somente 0,3% dos resíduos que chegam nos aterros, lixões ou unidades de triagem, é direcionado às unidades de compostagem existentes no Brasil (BRASIL, 2015).

A compostagem é um processo de decomposição de matéria orgânica realizado por microrganismos aeróbicos, na presença de condições ideais para que os microrganismos consigam se desenvolver, como aeração, umidade, temperatura, pH, relação carbono e nitrogênio, granulação e tamanho da leira, resultando na liberação de nutrientes como Nitrogênio, Potássio, Fósforo, Cálcio e Magnésio se transformando em nutrientes minerais (DE AQUINO, 2005; WANGEN, 2010). Dependendo do ambiente e de suas condições, o processo pode variar entre poucos dias a algumas semanas (OLIVEIRA et. al., 2004; BRITO, 2006).

Segundo Kiehl (1998), os materiais passam por três fases até serem decompostos, sendo elas: (1) A primeira fase, chamada de fitotóxica, é marcada pelo início da decomposição da matéria orgânica. Se caracteriza pelo desprendimento de calor, vapor d’água e CO2; (2) A segunda fase, chamada de semicura ou bioestabilização, onde há a elevação gradativa da temperatura, resultante do processo de biodegradação. Nessa fase, há uma intensa e rápida degradação da matéria orgânica, elevando assim a temperatura e fazendo com que os microrganismos patogênicos sejam eliminados; e (3) A terceira fase, denominada de maturação ou humificação, é quando o substrato orgânico foi em sua maior parte transformado. Nesta fase, a maioria das moléculas biodegradáveis foram transformadas. Corresponde ao estágio final da degradação da matéria orgânica, quando o composto propriamente dito adquire as propriedades físicas, químicas, físico-químicas e biológicas desejáveis (Figura 1).

Além das bactérias, que são encontradas em maiores quantidades durante o processo, outros microrganismos como fungos, protozoários e nematoides estão presentes. De acordo com a etapa em que se encontra a compostagem, ocorre variação no número de espécies destes microrganismos e na intensidade que os mesmos decompõem a matéria orgânica (KIEHL, 1998; BRIETZKE, 2016).

Também podem ser utilizadas minhocas no processo de compostagem, que juntamente com sua microflora intestinal, auxiliam na decomposição da matéria orgânica, originando o húmus. Esse processo é chamado de vermicompostagem e seu produto resultante é chamado de vermicomposto. Além de triturar as partículas orgânicas, as minhocas também possibilitam a aeração do meio, visto que sempre estão em movimento. Estando em condições adequadas para seu desenvolvimento, as minhocas podem decompor vários tipos de resíduos sendo estes, preferencialmente, os menos ácidos e de odor menos intenso. As espécies mais utilizadas em compostagens são exóticas no Brasil, sendo elas a Lumbricus rubellus (minhoca-vermelha), Eisenia fetida (vermelha-da-califórnia), Allolobophora caliginosa (minhoca-do-campo) e Lumbricus terrestris (minhoca-da-noite), sendo todas originarias da Europa (BARLEY, 1959; FRAGOSO et. al., 1999; JAMES et. al., 2010; CARLESSO et. al., 2012; GAMINO, 2018).

A matéria orgânica é extremamente benéfica ao solo, fornecendo-lhe macro e micronutrientes como Nitrogênio, Fósforo, Potássio, Zinco e Boro, melhorando sua capacidade tampão através da correção da acidez e ajudando a reter nutrientes, que são aproveitados pelas plantas. Além disso, pode fornecer ao solo uma maior capacidade de aeração, absorção e armazenamento de água, atraindo microrganismos, diminuindo os prejuízos causados por agroquímicos e pesticidas e aumentando a transição de cátions no meio (OLIVEIRA et. al., 2004).

O processo de compostagem é flexível, podendo ser feito em pequena e larga escala. Sua construção envolve a escolha dos materiais, do local em que vai se estabelecer e da seleção do sistema de compostagem. Há 4 tipos de compostagens que podem ser feitas, são elas: (1) por leira, onde os compostos são postos no interior de uma estrutura com as laterais e a base preparadas com cobertura vegetal seca, e depois cobertas com as mesmas, sob condições ideais de temperatura e umidade, para decompor os resíduos; (2) vermicompostagem, processo que utiliza minhocas para transformar resíduos orgânicos em composto; (3) vegana, que não utiliza minhocas, o processo de transformação ocorre apenas com a presença de microrganismos; e

(4) elétrica, que se utiliza da energia elétrica para triturar, desidratar e filtrar todo o resíduo orgânico transformando-o em pó seco (TEIXEIRA, 2004; AQUINO, 2005; PENSAMENTO VERDE, 2017).

A problemática do descarte inadequado de resíduos sólidos orgânicos, pode trazer sérios prejuízos para o ambiente e a sociedade. Neste sentido esse trabalho tem sua importância social e ambiental, por ser desenvolvido junto a um grupo de escoteiros e esses se tornarem disseminadores dos aprendizados para a comunidade. Com relação à questão ambiental, a compostagem de resíduos sólidos orgânicos gerados principalmente em residências, faz com que seja possível a ciclagem natural de nutrientes, ou seja, os resíduos que seriam descartados e levados para lixões ou aterros, voltam para o solo como fonte de nutrientes para a prática de jardinagem e horticultura.

Metodologia

Foi avaliada quali-quantitativamente a eficiência do trabalha, para se obter uma compreensão mais ampla, por meio das interpretações de opiniões e percepções dos envolvidos, assim como foram feitas avaliações de dados (RAMOS, 2013; KIRSCHBAUM, 2013). A pesquisa bibliográfica foi importante, sendo utilizada como base os dados encontrados em artigos, livros e revistas científicas, e também de campo, por meio da montagem e manutenção da compostagem.

O experimento com a composteira foi realizada na União de Amigos (UDAM), localizada na cidade de Rio Claro/SP. O local funciona como uma sub-sede do GE Santa Cruz. A UDAM é uma organização da sociedade civil, beneficente, sem fins lucrativos, considerada de utilidade pública pelo município de Rio Claro”, fundada em 18/04/1964 (UDAM, 2019). Esta entidade atende crianças, jovens e adolescentes em situações de vulnerabilidade social (UDAM, 2019).

O projeto contou com parcerias, como a do instrutor social da UDAM, Guilherme Carnier, o qual fez a doação de minhocas-da-Califórnia, e do Programa Banco de Alimentos Nutricional e Sustentável, que conta com a parceria da Prefeitura de Rio Claro e da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, o qual tem como um dos objetivos, o combate da fome reduzindo o desperdício de alimentos para populações amparadas por entidades sociais por meio de doações de alimentos considerados adequados para o consumo humano, porém não comercializáveis (UDAM, 2019). A Insígnia Mundial do Meio Ambiente (IMMA) do escotismo, faz parte do programa educativo que busca melhorar a consciência ambiental e compreensão do ambiente que circunda os jovens. O jovem que receber essa insígnia deve realizar uma atividade que faça com que ele possa “Explorar e Refletir” a respeito de 5 grandes temas: (1) garantir ar e água limpos para todas as espécies; (2) preservar habitats naturais e biodiversidade; (3) diminuir a emissão de substâncias perigosas no meio ambiente; (4) adotar as melhores práticas ambientais; e (5) prevenir riscos ambientais e desastres naturais (ESCOTEIROS DO BRASIL, 2011; GRUPO ESCOTEIROS UNISELVA, 2019). Desta forma, o projeto de compostagem foi realizado juntamente com a parceria da pioneira, Isabella Nunes, do GE Santa Cruz.

Primeiramente, foi feita uma introdução pela pioneira utilizando apresentação de slides sobre a IMMA às tropas escoteiras (20 indivíduos) e sênior (8 indivíduos), mostrando seu objetivo e etapas a serem cumpridas. Posteriormente, a compostagem foi apresentada para os mesmos, por meio de slides, abordando sua funcionalidade, etapas, montagem, manejo e resultados finais esperados.

Os materiais utilizados para a compostagem foram provenientes de reaproveitamento, sendo duas caixas plásticas vazadas (Figura 2) utilizadas em colheitas e transporte de verduras e duas caixas fechadas (Figura 3) utilizadas em abatedouros e laticínios. Desta forma, para montagem das composteiras o custo foi reduzido e os materiais utilizados eram de fácil acesso aos participantes do projeto.

Foram realizados dois tratamentos de forma que cada tratamento utilizou um tipo de cada caixa e a presença de 20 minhocas (Figura 4), o outro tratamento também contendo um tipo de cada caixa e sem minhocas. Para essa atividade foi solicitado que os escoteiros trouxessem materiais ricos em carbono e em nitrogênio (mencionados anteriormente), contando juntamente com a colaboração do Banco de Alimentos para o fornecimento de resíduos orgânicos.