Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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Relatos de Experiências
15/03/2022 (Nº 78) USO DE PLANTAS MEDICINAIS ENTRE IDOSOS DO MUNICÍPIO DE BOTUCATU: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL NÃO FORMAL
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USO DE PLANTAS MEDICINAIS ENTRE IDOSOS DO MUNICÍPIO DE BOTUCATU: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL NÃO FORMAL

Aline Praxedes Mesquita¹; Stefano Fais Gomes²; Gabriela de Jesus Faggiotto³

¹Licenciada e bacharelada em Ciências Biológicas, UNESP (Instituto de Biociências – campus de Botucatu), amesquita@floravida.org.br

²Licenciado em Ciências Biológicas, UNESP( Instituto de Biociências – campus de Botucatu), sgomes@floravida.org.br

³Graduanda do curso de Ciências Biológicas, UNESP (Instituto de Biociências – campus de Botucatu), gabrielafaggiotto@hotmail.com.br



Resumo

O presente trabalho tem por finalidade contribuir para a reflexão sobre a inserção do idoso na construção de sociedades sustentáveis a partir do relato de experiência do projeto Jequitibá, desenvolvido pelo Instituto Floravida no município de Botucatu (SP). O projeto ocorre semanalmente através de atividades de caráter participativo, buscando o resgate do papel político-social do idoso. A educação ambiental é utilizada como estratégia e revelou as plantas medicinais como problemática geradora das discussões e intervenções. O projeto tem evidenciado a importância do papel deste público para construir no presente um futuro de sociedades sustentáveis em que seja reconhecido o valor da diversidade de conhecimentos emergidos das experiências de vida dos idosos, de forma que seus saberes populares sobre os usos de plantas medicinais dialoguem com o saber científico.

Palavra chave: plantas medicinais. Educação ambiental.



Summary

The present work aims to contribute to the reflection on the insertion of the elderly in the construction of sustainable societies from the experience report of the Jequitibá project, developed by the Floravida Institute in the municipality of Botucatu (SP). The project takes place weekly through participatory activities, seeking to rescue the political-social role of the elderly. Environmental education is used as a strategy and revealed medicinal plants as a problem that generates discussions and interventions. The project has highlighted the importance of the role of this public to build in the present a future of sustainable societies in which the value of the diversity of knowledge emerging from the life experiences of the elderly is recognized, so that their popular knowledge about the uses of medicinal plants dialogue with scientific knowledge.

Key word: medicinal plants. Environmental education.



INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é uma significativa tendência do século XXI, está ocorrendo em todas as regiões do mundo, e tem revelado implicações que são importantes e de longo alcance nos mais variados domínios da sociedade. De acordo com projeções do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), “uma em cada nove pessoas no mundo tem 60 anos ou mais, e estima-se um crescimento para um em cada cinco por volta de 2050”. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há aproximadamente 20 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, cerca de 10% da população brasileira. Em 2025 esse número poderá chegar a 32 milhões, passando a ocupar o 6º lugar no mundo em número de idosos.

No cenário global de avanços capitalistas neoliberais a capacidade produtiva dos indivíduos é engrandecida em relação a outras dimensões humanas, de forma que aqueles que não estão inseridos no mercado de trabalho sofrem um processo de dessocialização e abalo na sua identidade. Neste contexto, a autora Simone de Beauvoir (1990) trouxe contribuições importantes sobre a perda do valor social dos idosos, que é reduzido a um elemento descartável perante a sociedade produtiva:

A não atribuição de uma função social, o que leva ao velho se sentir incapaz; as mudanças de função na sua convivência familiar, no seu trabalho e na sua sociedade, em geral, onde o velho deverá se adaptar a essas novas funções; a aposentadoria é outro fator importante que poderá levar o idoso a se isolar e deprimir, por talvez já se sentir descartável, impotente; juntamente com a perda da autonomia, independência, perdas sentimentais e até econômica; a falta de relacionamento com amigos, familiares e novos vínculos sociais e o enfrentamento de novos problemas como a violência, a distância, os problemas financeiros, os maus tratos, as doenças.(BEAUVOIR, 1990, p.38)

Veras e Caldas (2004), complementam, atribuindo a ciência o papel de produto e sustentáculo do desenvolvimento da sociedade moderna, impulsionadora do processo do capitalismo global. Afirmam, ainda, que por um lado muitos benefícios foram alcançados por intermédio do conhecimento científico, mas por outro, a ciência silenciou outras formas de saber. A tradição e a sabedoria dos anciãos perderam valor frente à palavra da ciência e os idosos tem, geralmente, sua sabedoria ignorada ou até ridicularizada.

Silveira (2009) esclarece que os instrumentos democráticos intencionam o resgate da cidadania dos indivíduos, “respeitando suas experiências acumuladas, seus valores e costumes tradicionais, dando-lhes plenas condições de viver com dignidade”. Entretanto, grupos minoritários como os idosos são marginalizados das decisões políticas e tem seus direitos humanos comprometidos, conflitando com as disposições constitucionais. Assim, a inclusão dos idosos nos processos educacionais deve priorizar sua cidadania, visando o desenvolvimento da capacidade de ampliar conhecimentos, a capacidade crítica, a autonomia, a autoconfiança e a criatividade para elegerem suas prioridades.

A formação para a terceira idade deve reforçar a capacidade realizadora do idoso, seu conhecimento e sua sabedoria. Com isso, eleva-se a autoestima, abandona-se a perspectiva assistencialista e relacionam-se os conhecimentos e informações ao cotidiano vivenciado pelo grupo, ressaltando sua relevância. (SILVEIRA, p. 38-39, 2009.)

Na linha do pensamento crítico da educação, Paulo Freire (1986) explicita o potencial da educação de capacitar indivíduos a investigar, desvendar e compreender contradições da sociedade na perspectiva de transformá-la. O processo educativo denominado conscientização que a prática educativa crítica percorre parte da superação do conhecimento imediato da realidade em busca de sua compreensão mais elaborada. “Assim, conscientização é um processo de ação concreta e reflexão histórica que implica opções políticas e articula conhecimentos e valores para a transformação das relações sociais.” (Tozoni, p.106, 2006)

Tozoni (2006) trata dos temas ambientais como temas geradores para a educação ambiental, acrescentando a dimensão da educação ambiental à reflexão sobre o processo de conscientização descrito por Freire:

Ao incorporar o tema ambiental, o processo da educação conscientizadora tem como objetivo a transformação das relações entre os sujeitos e desses com o ambiente, estabelecidas pela historiadas relações sociais. A educação ambiental como mediadora dessas relações se estabelece sobre a idéia de conscientização, na articulação entre conhecimentos, valores, atitudes e comportamentos, se puder promover a transformação radical da sociedade de hoje rumo à sustentabilidade, também radical, que implica transformar a relação dos sujeitos com o ambiente, compreendendo-o social e histórico” (TOZONI, p.106, 2006)

Segundo Bertoncello et al. (2003) os trabalhos de educação ambiental com idosos podem contribuir para resgatar seu papel político-social, proporcionando condições de mudanças de comportamento frente aos problemas ambientais visando à melhoria da qualidade de vida. Em estudo realizado por Miranda (2007) a autora conclui que “a possibilidade de atuar nas práticas ambientais ampliaria a autonomia nos grupos de terceira idade, numa ação social que poderia beneficiar o próprio idoso e o ambiente no qual ele se insere.”

Assim, a educação ambiental deve ser crítica, transformadora e emancipatória:

Critica na medida em que discute e explicita as contradições do atual modelo de civilização, da relação sociedade-natureza e das relações sociais que ele institui. Transformadora, porque ao pôr em discussão o caráter do processo civilizatório em curso, acredita na capacidade da humanidade construir um outro futuro a partir da construção de um outro presente e, assim, instituindo novas relações dos seres humanos entre si e com a natureza. É também emancipatória, por tomar a liberdade como valor fundamental e buscar a produção da autonomia dos grupos subalternos, oprimidos e excluídos.” (QUINTAS, p.132, 2004)

O aumento da longevidade populacional e envelhecimento influenciam diretamente o setor de saúde. Nota-se, que o uso das plantas medicinais é tão antigo quanto a humanidade, sendo no passado o principal meio terapêutico conhecido para tratamento da população. A partir do conhecimento e uso popular, foram descobertos alguns medicamentos utilizados na medicina tradicional. Esse conhecimento, mantido por meio da tradição oral, é considerado para muitos como alternativa para o tratamento de doenças ou manutenção da saúde. O resgate deste conhecimento pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas através de estudos realizados pela ciência formal, como também para a valorização e ampliação destes saberes populares emergidos de uma convivência íntima com a natureza. (FIRMO, 2012.) Considerando a relevância socioambiental e o interesse revelado pelos idosos acerca deste tema, justifica-se sua escolha como tema gerador dos encontros.

De acordo com o último Atlas do Desenvolvimento Humano, divulgado em 2013 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), a expectativa de vida no Município de Botucatu é de 77 anos, superior à média estadual (75,7 ano) e nacional (73,9 anos), configurando um dos melhores índices de longevidade do País.

Considerando o contexto global e local e a escassez de projetos que atendam esse público no município de Botucatu, o Projeto Jequitibá tem se proposto a trabalhar de uma maneira a estimular o envelhecimento ativo, a inclusão social, a saúde preventiva, o bem-estar do idoso, e a socialização através da educação ambiental. O Projeto surge no ano de 2016 com um grupo de Idosas que eram atendidas pontualmente por nossas ações, em parceria com o Centro de Referência Assistencial (CRAS). Atualmente desenvolve atividades com dois grupos de idosos, totalizando 40 atendidos, de duas instituições: Aconchego e CRAS.

O projeto Jequitibá tem por objetivos: (I) Propiciar atividades de lazer, sensibilização, reflexão e diálogo, ampliando o tempo de vivência com a natureza e estimulando a alimentação saudável e (II) Resgatar, valorizar e ampliar o conhecimento dos idosos sobre o uso de plantas, sobretudo PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e plantas medicinais, preservando sua identidade e contribuindo com a segurança alimentar.



DESENVOLVIMENTO

O Instituto Floravida é uma organização civil sem fins econômicos, de direito privado que atua desde 2002 na esfera socioambiental. Possui a missão de contribuir com a transformação socioambiental das comunidades inseridas em suas iniciativas, promovendo a educação em defesa da vida.

O Projeto Jequitibá surge no ano de 2016 com um grupo de Idosas que eram atendidas pontualmente por nossas ações, em parceria com o Centro de Referência Assistencial (CRAS). Como em todas as ações do Instituto Floravida, foi realizado um Diagnóstico Participativo e constatado que não havia projetos na cidade de Botucatu que abordassem a temática socioambiental com os Idosos e, a partir daí, demos início ao planejamento e levantamento dos temas de interesse a serem trabalhados. Definimos, então, a realização de um encontro mensal abordando as temáticas de Manejo de Plantas, Oficina de Fitopreparados, Problemas relacionados à Automedicação e Segurança Alimentar.

O projeto, que até então era considerado um piloto, foi executado ao longo do ano de 2016 e foi um sucesso de aprovação tanto pelas Instituições envolvidas, quanto pelos educandos e educadores. Em 2017 devido à repercussão do projeto e interesse do público em participar, decidimos ampliar o atendimento e executar o projeto de maneira contínua, tendo em vista a necessidade de o trabalho educativo ocorrer em tempo suficiente para que habilidades, ideias, valores, símbolos, hábitos, atitudes e conceitos sejam de fato internalizados como segunda natureza, considerando que, para Saviani (2012), “a continuidade é, pois, uma característica própria da educação”. Com o maior envolvimento da equipe no planejamento e execução das atividades, conseguimos firmar parcerias fundamentais para o avanço do projeto, como os CRAS, Centro De Convivência Do Idoso Aconchego, Faculdade de Ciências Agronômicas UNESP, Faculdade de Medicinas-UNESP, e Instituto de Biociências-UNESP.

Atualmente trabalhamos quinzenalmente com dois grupos de idosos, totalizando 40 atendidos, onde desenvolvemos um processo educativo atrelado à promoção de saúde, inclusão social, bem-estar e socialização do Idoso.

No início do ano de 2018 realizamos atividades de caráter exploratório com os dois grupos atendidos, visando identificar o tema gerador a partir da aproximação com a história pessoal de cada integrante. Partindo dos relatos de vivências rurais e usos das plantas em algum momento da vida pelos idosos e idosas, adotamos as plantas medicinais como “tema gerador” de discussões para a produção de conhecimentos, alcançados por meio de diálogos e em busca da relação entre a teoria e prática, o pensar e o fazer. (FREIRE,1985)

O conhecimento sobre plantas medicinais provém das práticas sociais tradicionais, sendo assim, os idosos carregam consigo informações preciosas recebidas de seus ancestrais e podem contribuir no resgate dessas informações sujeitas a se perderem no tempo (VENDRAMINI, 2008 apud SARTORI 2004) e que “servem de subsídio para o conhecimento do potencial medicinal da flora nacional, auxiliando na discussão da questão do uso e manutenção da biodiversidade” (NETO, p.72, 2012).

Após a definição do tema, as atividades a serem desenvolvidas foram planejadas com a equipe formada pelos cuidadores de idosos, assistente social e psicólogo de cada instituição atendida; mestrandos do programa de pós-graduação da UNESP FCA e a equipe de educação ambiental do projeto (coordenação, educadora e estagiários).

A dialogicidade e participação permearam os encontros através de atividades diversificadas que buscaram estabelecer uma relação de confiança e respeito entre o grupo, valorizando a trajetória de vida de cada integrante como ponto de partida para o diálogo de saberes populares e científicos, visando tanto a ampliação da compreensão inicial sobre o tema como a intervenção na realidade de cada grupo.

Os públicos dos dois grupos apresentam características singulares, portanto, o planejamento das atividades levou em conta as limitações e potencialidades de cada grupo:

1) Grupo Aconchego: O Centro de convivência do Idoso Aconchego atua há 18 anos no atendimento de idosos que apresentam limitações físicas, cognitivas e/ou comportamentais, este trabalho destaca a peculiaridade da instituição em atender os idosos e sua família. O Projeto Jequitibá iniciou sua atuação na instituição no ano de 2018, a partir da seleção do grupo pelo psicólogo do Aconchego, que identificou os idosos e idosas com cognitivo preservado e com interesse em trabalhar a temática socioambiental. Desde então, atuamos com cerca de 20 idosas e idosos realizando atividades que permeiam a temática de plantas medicinais, plantas alimentícias não convencionais e trabalhos manuais que envolvam artesanato e reciclagem. Vale destacar que durante o ano foi notável a crescente participação dos integrantes nas discussões e decisões do grupo. As atividades em rodas evidenciaram a empolgação dos idosos em compartilhar os conhecimentos e vivências que emergiam durante o trabalho com a terra. Apesar da heterogeneidade do grupo, que incluí desde idosos com histórico rural de vida e trabalho, como idosos que tiveram como cenário de sua trajetória de vida o meio urbano, com pouco contato com o meio natural, as atividades tiveram grande adesão dos participantes. Uma avaliação feita no final do ano de 2018 revelou a satisfação dos integrantes com as atividades realizadas e o desejo de cultivar no espaço do encontro gêneros alimentícios e de ampliar os conhecimentos sobre plantas alimentícias não convencionais.

2) Grupo CRAS: O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) é o sistema governamental responsável pela organização e oferta de serviços da Proteção Social Básica nas áreas de vulnerabilidade e risco social. O Projeto Jequitibá atua desde 2016 com dois CRAS da cidade de Botucatu, durante esse período as avaliações sobre o projeto foram muito positivas, além disso, no diagnóstico realizado junto aos participantes, constatamos que a grande maioria dos atendidos viveu em algum momento de suas vidas na zona rural em intenso contato com a natureza e com o trabalho rural, por isso o trabalho com esse grupo é fundamental para proporcionar bem-estar e esse reencontro com a temática de interesse. O perfil deste grupo é mais ativo, o que facilitou que explorássemos outros espaços do bairro e da cidade. Ao longo do ano de 2018 as atividades, que nos anos anteriores aconteciam majoritariamente no espaço do instituto, migraram para a sede do CRAS, localizada no bairro das idosas integrantes do grupo. A aproximação do projeto com a realidade do bairro desvelou possibilidades de reflexões mais próximas das questões locais, cotidianas e históricas do grupo. Ao longo do ano pudemos visitar as residências de algumas das integrantes dos grupos, com o intuito de reconhecer nos quintais as plantas que estas utilizam e mapear possíveis intervenções nestes espaços. As visitas aos quintais geraram discussões acerca das mudanças de hábitos alimentares e de medicalização nos últimos anos com o progresso da urbanização. O fortalecimento da rede de trocas tanto de experiências como de mudas e receitas foi notável e culminou em encontros repletos de histórias e reflexões.

Levando em consideração o perfil de cada grupo, as atividades contaram com os seguintes pilares metodológicos:

  1. Estruturação do grupo

As dinâmicas propostas no primeiro momento tiveram como foco a construção e fortalecimento de vínculos entre o grupo, estimulando o resgate e compartilhamento das histórias pessoais relacionadas à temática de uso de plantas medicinais através de rodas de conversa, utilizando como ferramentas atividades sensoriais, músicas, poesias e visita ao jardim de plantas medicinais localizado no Instituto Floravida.

Este momento foi fundamental para estabelecer um ambiente de confiança e respeito para que os diálogos ocorressem horizontalmente, de forma a construir conhecimentos coletivamente, reconhecendo a relevância dos saberes populares para a sociedade e para a ciência, assim como, as contribuições da ciência para assegurar a eficácia e segurança no uso das plantas medicinais.

  1. Rodas de Partilha

Durante as rodas de partilha, a problemática da automedicação foi evidenciada, havendo, inclusive, relatos de intoxicação que em casos graves levaram a internação por conta do uso inadequado de plantas medicinais. Esta problemática gerou discussões acerca da dualidade percebida no uso dessas plantas: se por um lado, as plantas medicinais representam uma prática terapêutica acessível financeiramente, por outro, seu uso é pouco orientado pelos profissionais da saúde – tornando a prática perigosa, sem indicação da dosagem e forma de preparo adequadas e das interações medicamentosas conhecidas. Vale ressaltar que em alguns encontros com o grupo do CRAS estavam presentes duas agentes de saúde do bairro, que contribuíram para a reflexão e reconheceram a importância de integrar o uso dessas plantas às atividades do posto de saúde. As discussões acerca desta problemática evidenciou a necessidade de capacitar os profissionais de saúde do bairro para orientar o uso das plantas medicinais à população.

Outra questão muito presente durante as rodas de conversa diz respeito às consequências do avanço da urbanização na qualidade de vida e na degradação ambiental. Grande parte das integrantes de ambos os grupos viveram durante a maior parte de suas vidas na zona rural e, a princípio, alguns relatos sobre a vida na roça eram marcados por valores depreciativos, associando a vida rural à dureza, pobreza, ignorância, etc. No decorrer dos encontros foi possível observar mudanças positivas na qualidade dos discursos, que passaram a revelar os aspectos da vida que haviam se perdido com a saída do campo. Recordaram-se com nostalgia dos tempos “em que não existia fome, tudo que se comia era plantado e preparado pelas próprias mãos” (frase enunciada por uma das integrantes do grupo durante roda de conversa). A valorização dos conhecimentos adquiridos durante suas trajetórias de vida no campo deslocou os discursos depreciativos em direção ao fortalecimento da autoestima e empoderamento dos sujeitos do grupo, motivando-os na busca por transformações de seu meio no resgate dos valores e saberes ancestrais que vêm sendo substituídos pelos de interesse do mercado, pouco comprometido com a qualidade de vida do meio e dos seres que nele habitam.

  1. Levantamento dos usos de plantas medicinais

Durante os encontros visitamos ambientes estratégicos visando provocar a emersão de lembranças e saberes relacionados às práticas com plantas medicinais, tais como: quintais, horta comunitária do distrito de Rubião Junior, jardim de plantas medicinais do Instituto Floravida e Parque Municipal. Além disso, a presença de espécies medicinais durante todos os encontros também contribuíram para motivar a partilha dos saberes populares.

Após cada atividade provocadora, as vivências e saberes foram compartilhados em roda objetivando a socialização destas informações e valorização da trajetória de vida dos integrantes. Durante as rodas é que a temática ambiental escolhida como tema gerador se desdobra em reflexões mais profundas acerca das relações socioambientais vivenciadas pelo grupo.

Utilizando-se de uma tabela, as informações compartilhadas em cada encontro foram registradas. Estes dados foram utilizados para ampliação e validação do conhecimento popular compartilhado e também para compor o material de divulgação organizado posteriormente. A estrutura desta ferramenta, utilizada nos registros cotidianos do projeto, pode ser observada na tabela 1:

Tabela 1. Estrutura da ferramenta utilizada para recolher as informações durante os encontros.

Nome

(integrante que descreveu o uso)

Planta (Nome Popular)

Parte da planta que utiliza

Utilização

Forma de preparo








  1. Integração com a universidade

A fim de aprofundar e ampliar os conhecimentos sobre as plantas medicinais, promovemos oficinas ministradas por mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Agronomia/Horticultura da Faculdade de Ciências Agronômicas - UNESP, Campus de Botucatu em que foram abordados os temas: fito preparados, automedicação e cultivo das plantas medicinais. As mestrandas participaram ativamente tanto do planejamento das atividades, quanto da execução do projeto ao longo do ano, trazendo contribuições essenciais que enriqueceram a construção coletiva de conhecimento.

Os momentos de confronto e diálogo entre os saberes populares e científicos intencionaram superar a monocultura de saberes e promover uma ecologia de saberes (SANTOS, 2002).

Planejamento e execução de Intervenções.

Os conhecimentos apreendidos durante os encontros foram sistematizados em uma cartilha que contou com uma versão virtual e exemplares impressos, que serão distribuídos pelo município. O conteúdo da cartilha abrange informações relevantes sobre as dez espécies mais utilizadas pelos grupos, abordando as ações medicinais, formas de colheita e preparo adequadas, parte da planta utilizada no preparo, ilustrações botânicas, além dos desenhos e poesias elaborados pelos integrantes do grupo durante os encontros. O conjunto de dados que compuseram a cartilha estão descritos na tabela 2, e em anexo encontra-se imagens de algumas partes representativas da cartilha já diagramada (Anexo 2).

Além disso, foram construídas duas espirais de ervas (Foto 1): uma em cada local de encontro do grupo, facilitando o acesso dos integrantes do grupo e demais frequentadores destes espaços às espécies de uso relatado pelos grupos. Os canteiros em espiral ou espirais de ervas, sugeridos por Bill Mollison, no livro Introdução à Permacultura (MOLLISON, 1991), foram construídos utilizando tijolos e sobras de construções disponíveis no espaço. Os canteiros abrigam ervas medicinais, aromáticas e condimentares. A construção em espiral possuí vantagem estética, de aproveitamento de espaço, já que é ocupado de forma tridimensional, e vantagem de eficiência, com a intersecção entre ambientes iluminados, sombreados, secos e úmidos e com a otimização do uso da radiação solar e da água, e das interações entre as plantas.

A construção tanto destes canteiros como os de outros formatos foram realizadas em mutirões, com a participação das famílias, funcionários das instituições e outros frequentadores dos espaços. Vale ressaltar que as atividades realizadas em mutirões, apesar da baixa aderência da comunidade local, atraíram atores sociais locais que possibilitaram o intercâmbio de saberes entre as diferentes gerações, nos indicando o potencial deste tipo de atividade na mobilização da população e trazendo reflexões sobre estratégias para atrair o público local para se envolverem nestas ações.

CONCLUSÃO

Concluímos que o trabalho de educação ambiental com idosos contribui com a promoção da qualidade de vida e autoestima destes uma vez que possibilita um espaço de socialização e valorização de suas experiências de vida. Sendo que a adoção da temática de plantas medicinais, além de contribuir para a ampliação dos conhecimentos populares e científicos dos envolvidos, revelou-se uma ferramenta eficaz na geração de discussões e consequente construção de autonomia no enfrentamento das problemáticas emergidas durante o diálogo de experiências.

O viés participativo das atividades insere o idoso ativamente na transformação de seu contexto local, despertando reflexões sobre a crise do modelo civilizatório que estamos a enfrentar, crise que dá sentido à busca de uma sociedade sustentável na qual os idosos têm seu papel político-social reconhecido.

REFERÊNCIAS

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BERTONCELLO, S.L.; SCAPOL, M.E.S.; PINTO, G.C.F.; TOZONI-REIS, M.F.C.; DINIZ, R.E.S. Educação Ambiental e terceira idade: análise de um processo de conscientização. In: Encontro de pesquisa em educação ambiental – EPEA, 2., 2003. São Carlos . Anais... São Carlos, 2003. 1 CD-ROM.

BRASIL, Atlas. Atlas do desenvolvimento humano no Brasil 2013. Acesso em 17/01/2018, v. 22, 2016.

BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Brasília, [2010]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br

FIRMO, Wellyson da Cunha Araújo et al. Contexto histórico, uso popular e concepção científica sobre plantas medicinais. Cadernos de Pesquisa, 2012.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1985.

FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (UNFPA). Envelhecimento no século XXI: celebração e desafio.

JOÃO, A. F.; SAMPAIO, Â. A. Z.; SANTIAGO, E. A.; et al. Atividades em grupo: alternativa para minimizar os efeitos do envelhecimento. Textos sobre Envelhecimento, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, p. 1-10, 2005.

MIRANDA, É. S., Schall, V. T., & Modena, C. M.. Representações sociais sobre educação ambiental em grupos da terceira idade. Ciência & Educação, 13(1), 15-28, 2007.

MOLLISON, Bill et al. Introduction to permaculture. Tyalgum, Australia: Tagari Publications, 1991.

NETO, Germano Guarim. O saber tradicional pantaneiro: as plantas medicinais e a educação ambiental. REMEA-Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, v. 17, 2006.

QUINTAS, José Silva. Educação no processo de gestão ambiental: uma proposta de educação ambiental transformadora e emancipatória. Identidades da educação ambiental brasileira. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, p. 113-140, 2004.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista crítica de ciências sociais, n. 63, p. 237-280, 2002.

SAVIANI, Dermeval. Política educacional brasileira: limites e perspectivas. Revista de Educação PUC-Campinas, n. 24, 2012.

SILVEIRA, Nadia Dumara Ruiz; BORTOLOZZO, M. C.; CARVALHO, D. M. A pessoa idosa: educação e cidadania. São Paulo, 2009.

TOZONI-REIS, Marília Freitas de Campos et al. Temas ambientais como temas geradores: contribuições para uma metodologia educativa ambiental crítica, transformadora e emancipatória. Educar em revista, 2006.

VENDRAMINI, Patrícia Fernandes; DE CAMPOS TOZONI-REIS, Marília Freitas; MING, Lin Chau. O uso de plantas medicinais entre idosos: uma parceria de saberes em educação ambiental. REMEA-Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, v. 20, 2008.

VERAS, R. P.; CALDAS, P. C. Promovendo a saúde e a cidadania do idoso: o movimento das universidades da terceira idade. Ciência & Saúde Coletiva, MoranguinhosRJ, v. 9, n. 2, p. 423-432, 2004



Palavras-Chave: fitoterapia; medicina popular; terceira idade.

Anexo 1. Fotos dos encontros ocorridos com ambos os grupos durante o ano de 2018.

Foto 1. Espiral de Ervas Medicinais no CRAS Rubião Júnior

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.



Foto 2. Registro ilustrado das plantas medicinais utilizadas (Grupo do CRAS)

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.



Foto 3. Visita ao quintal da Dona Bete (Grupo CRAS)

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.



Foto 4. – Dona Margaria durante a o plantio na espiral de ervas (Grupo Aconchego).

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.

Foto 5. Oficina de Fitopreparados (Grupo Aconchego).

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.



Foto 6. Oficina de produção de mudas e semeadura – Instituto Floravida.

Fonte: Acervo do Instituto Floravida.

Tabela 2. Conteúdo sistematizado para elaboração da cartilha de Plantas medicinais, contendo as dez espécies medicinais mais citadas pelos grupos.

Nome Popular

Nome Botânico

Parte Utilizada

Forma de Preparo

Via

Uso

Indicações

Interações Medicamentosas





Hortelã

Mentha villosa

Folhas

Tintura 100g em 1 L de álcool 70% e Infusão

Oral

Infantil e Adulto

Flatulência, parasitoses intestinais e cólicas abdominais.

Interage com tratamentos de reposição estrogênica, potencializando seus efeitos positivos e negativos.

Cidreira Capim-santo,

Capim-limão;

Capim-cidró;

Capim-cidreira;

Cymbopogon citratus

Folhas

Infusão: 1-3g (1 a 3 colheres de chá) em 150mL (xícara de chá)

Oral

Infantil e Adulto

Cólicas intestinais e

uterinas.

Quadros leves de

ansiedade

e insônia, como

calmante suave,

exclusivamente quando

frescas

Pode aumentar o efeito

de medicamentos

sedativos (calmantes)

Guaco

Mikania glomerata /

Mikania laevigata

Folhas

Infusão: 3 g (1 colher

de sopa) em 150 mL

(xícara de chá)

Oral

Infantil e Adulto

Gripes e resfriados,

bronquites alérgicas

e infecciosas, como

expectorante

Pode interagir com

anti-inflamatórios não

esteroidais

Rubim

Leonurus sibiricus

Planta toda

Tintura: 100 g de planta seca e moída em 1L de etanol 70%, deixar em maceração por 20 dias

Oral


Processos inflamatórios em geral, hipertensão arterial leve e retenção de líquidos


Babosa

Aloe vera

Gel mucilaginoso

das folhas

Gel 10% e pomada

10%

Tópico

Adulto

Cicatrizante

__

Alecrim

Rosmarinus

officinalis

Folhas

Infusão: 2-6 g (1-2

col. de sopa) em 150

mL (xíc. de chá)

Tópico/Oral

Adulto

Distúrbios

circulatórios, como

antisséptico e

cicatrizante Dispepsia (distúrbios

digestivos) e como

anti-inflamatório

__

Canela

Cinnamomum

verum

Casca

Decocção: 0,5-2 g (1

a 4 col. de café) em

150 mL (xíc. de chá)

Oral

Adulto

Falta de apetite,

perturbações digestivas

com cólicas leves,

flatulência (gases) e

sensação de plenitude

gástrica

__

Gengibre

Zingiber officinale

Rizoma

Infusão / Decocção:

0,5 - 1 g (1 a 2 col.

de café) em 150 mL

(xíc. de chá)

Oral

Infantil e Adulto

Enjoo, náusea e

vômito da gravidez,

de movimento e pósoperatório.

Dispepsias

em geral

Evitar o uso em pacientes

que estejam usando

anticoagulantes

Alfavacão

Ocimum gratissimum

Folhas

Tintura: 100 g de planta seca e moída em 1L de etanol 70%, deixar em maceração por 20 dias

Oral


Afecções respiratórias em geral

Pode potencializar os efeitos dos agentes hipoglicemiantes (como a insulina e sulfonilureia). Pode ser associada com a cúrcuma e guaco nos processos patológicos respiratórios. Para melhorar a produção de leite materno, usar o chá de alfavaca com funcho.

Macela

Achyrocline

satureioides

Inflorescência

Infusão: 1,5 g (1/2 col.

de sopa) em 150 mL

(xíc. de chá)

Oral

Infantil e Adulto

Má digestão e cólicas

intestinais; como sedativo

leve; e como antiinflamatório

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Anexo 2. Fragmentos da Cartilha pronta com diagramação.