CONVERSÃO DE GRAMADO EM SÍTIO AGROECOLÓGICO URBANO: EFEITOS NA ECOLOGIA E NA PAISAGEM



José André Verneck Monteiro

educativo@live.com

Licenciado em Pedagogia na Fundação Universidade do Tocantins, Especializado em Educação Ambiental na Universidade Candido Mendes, Mestre em Práticas em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/Global MDP, Mestrando em Agricultura Orgânica PPGAO UFRRJ/EMBRAPA/PESAGRO 2019-2021. Publica no Instagram @jardim_vital



Resumo

Este relato de experiência contém a síntese dos princípios e práticas adotados no delineamento, implantação e manutenção de um sítio agroecológico, idealizado com ênfase em tecnologias de impacto socioambiental positivo e de baixo custo, destinado à provisão sustentável de alimentos, em um lote urbano com 360 m2, situado no município de Macaé/RJ, Brasil. Em sequência são detalhadas cada etapa do trabalho realizado entre janeiro/2020 a fevereiro/2021. Nos primeiros dez meses a partir da implantação, foram os mais expressivos efeitos observados na ecologia e na paisagem: a)descompactação e revitalização do solo à base de compostagem aeróbica de biomassa vegetal associada a ação de invertebrados; b) uso de galinheiro móvel para fertilização dos canteiros destinados aos policultivos; c) substituição parcial de gramíneas pela implantação de um acervo etnobotânico com aproximadamente 80 espécies vegetais; d) adubação realizada quinzenalmente, por via foliar, mediante pulverização de biofertilizante diluído (1:10 água), obtido por compostagem em baldes; e) registrada a presença de 40 diferentes invertebrados, incluindo melíponas dos gêneros Bombus, Tetragonisca e Plebeia, além denotável população de espécies atuantes no controle biológico de Aedes aegipty; f) foram observadas 12 espécies da avifauna durante pousio, forrageamento e nidificação no local; g) houve aumento da ocorrência de anfíbiose répteis (calangos e lagartixas); h) nenhum exemplar de caramujo-gigante foi observado no sítio; i) apartir do 50º dia decorrido do início da implantaçãoo sítio originou safras crescentes e sortidas de alimentos, em porções suficientes para dieta básica pessoal e partilhas com a vizinhança; j) sementes crioulas de variedades incomuns de milhos e tomateiros silvestres foram cultivadas no sítio e parte de suas descendentes foram distribuídas entre agricultores locais; k) a irrigação foi realizada manualmente, com água tratada e potável, somente nos períodos de estiagem, com média de lâmina d’água limitada a 5/l/m²/dia; l) houve perda parcial de acervo vivo de hortaliças em dezembro, por excesso de chuvas e em janeiro por altas temperaturas e estiagem prolongada que coincidiu com abastecimento inconstante de água; m) a transição agroecológica desenvolvida no sítio impulsionou outras iniciativas locais como um sistema agroflorestal linear e um bananal. Estas páginas compõe a contribuição elaborada a convite de Berenice Gehlen Adams para a Seção Sementes, na 74ª Edição da Revista Educação Ambiental em Ação, que é inspirada pelo tema Educação Ambiental para repensar sobre nossa responsabilidade, e motivada pela frase de Thomas Fuller: “Nós nunca sabemos o valor da água até que o poço esteja seco”.

Palavras-chave: sementes, agrobiodiversidade, solo degradado, educação ambiental, feijão-borboleta.



Noção de paisagem

A idealização de paisagens requer atenta percepção das características que compõem o mosaico de ambientes e estruturas, a diversidade de habitantes e culturas, condições climáticas, de solo e relevo, bem como o tipo de relações que serão favorecidas entre os seres e uma área, de qualquer dimensão, rural ou urbana.

Há inúmeras definições científicas, líricas, empresariais e populares para o termo paisagem. Neste ensaio absolutamente tudo compõe a paisagem. Tudo o que se pode perceber e assimilar por intermédio dos sentidos humanos, inclui os elementos e detalhes, visíveis ou não, que estão ao redor de quem os percebe, os interpreta e nota seus estímulos.

Cada ser é capaz de compreender a paisagem ao seu próprio modo, porém há meios de condicionar a atenção para aspectos minuciosos de cada ambiente, da mesma forma que a sinalização orienta e a publicidade direciona as pessoas a adotar sentidos e comportamentos.

Ao modo de uma lupa, a interpretação ambiental é um recurso educacional que enfatiza a observância de micro e macro cenários, favorecendo a construção de significados em múltiplas camadas da percepção cognitiva sobre espacialidade, abrangência e temporalidade da paisagem,bem como as correlações que se estabelecem a partir de suas peculiaridades e modos de uso.



Natureza ou semáforo?



Um exercício simples que permite a reflexão sobre questões de sustentabilidade urbana, qualidade e planos para a vida pessoal consiste em criar e comparar parâmetros a partir de suas convicções e preferências, para compreender suas próprias percepções sobre o meio urbano e o meio rural. E isso pode ser bem variável até mesmo entre membros de uma mesma família, que convivem juntos por toda vida, num mesmo lugar.

A história de vida e as predileções de cada pessoa influenciam seu estado de receptividade ou aversão às coisas da roça ou da metrópole. É normal constatar, no convívio, que há quem sinta o chão como extensão de seu corpo e fonte de alimentos, enquanto outras pessoas preferem azulejar o quintal. Uns agradecem pela sombra, outros reclamam por varrer as folhas caídas da árvore.

Os distintos modos de notar e manejar o ambiente são agentes construtores da cultura e ajudam a explicar a sociedade de um lugar. Civilizações primitivas declinaram e até se extinguiram a partir do esgotamento dos recursos ambientais de onde viveram.

Enquanto no meio rural se observa predominância de paisagens agrícolas, como os remanescentes florestais, áreas de uso agropecuário ou áreas de mínimo uso humano, no ecossistema urbano predominam as paisagens pavimentadas, edificadas, com alta densidade populacional de pessoas, reduzido número de formas de vida silvestre, relativamente pouca água natural, terra disponível e menos gente dedicada a plantar comida.

Viver com saúde e qualidade é uma decisão pessoal que pode ter origem na escolha de propósitos e o tipo de dieta. Em sentido amplificado a dieta não é somente aquilo que se come ou bebe. É também o que se assiste, ouve, lê, as pessoas com quem convive, os temas aos quais se condiciona o pensamento e a criatividade. Nutrir-se também significa estar conectado e consciente de tudo o que afeta ao corpo: físico, emocional e espiritual (ou religioso, para quem prefira assim designar). A paisagem também é parte da dieta.

A prática da sagrada agricultura acompanha e expandiu a evolução humana nos recentes dez mil anos. Hoje a população mundial é estimada em 7,7 bilhões de pessoas. É preciso alimentar tanta gente, e para isso é necessário que mais pessoas desenvolvam conexão, com intenso esforço mental e físico diário, sol, suor, poeira, chuva, lama, formigas, minhocas, estrume, manejo de sementes, ferramentas, equipamentos de proteção e tudo o mais que compõe o universo agrícola.

Mesmo em pequenos espaços é possível cultivar alimentos suficientes para diversificar a dieta da família e dos animais que se cria, o que na cidade tem sido cada vez menos praticado. O ato de colher requer cuidar, então comprar suprime o cultivar, por escolha ou condição, por falta de terra ou tempo.

A domesticação de animais também evoluiu junto à agricultura. Então o ato de cuidar, natural do ser humano, passa a ser dedicado à família, às plantas e aos animais. No ambiente rural tipicamente brasileiro a criação de animais é principalmente voltada à alimentação, transporte de pessoas ou força motriz para apoiar a execução de trabalhos humanos. Já no ambiente urbano os principais animais criados cumprem funções de companhia, vigilância e até de coleção em cativeiros domésticos.

No campo, a partir de tratamentos simples, os dejetos (animais e humanos) podem ser aplicados como fonte natural de fertilização para lavouras. Nas cidades a destinação de dejetos, resíduos, rejeitos e a purificação de águas sempre serão desafios para se preservar a qualidade ambiental e saúde da população, em razão do volume de detritos gerados o tempo todo. As questões jurídicas, empresariais, sociais e culturais relacionadas à água são complexas e envolvem tantos interesses que não caberiam nesse parágrafo. Água é essencial à vida.

Em ecossistemas equilibrados os animais encontram condições favoráveis para se alimentar, repousar, migrar, procriar e se desenvolver com saúde, em plenitude normal para cada espécie. Observar a fauna em seu habitat é uma experiência incrível que auxilia a compreender vários aspectos da vida. Nas cidades há muitos animais nas ruas em situação de abandono, disponíveis para quem se sentir motivado a praticar a adoção consciente. Apenas servir ração e água pelas calçadas não priva os animais da vulnerabilidade aos maus tratos, zoonoses, desconforto emocional, atropelamentos, etc. Inclusive, a ração servida pode ser aproveitada por ratazanas, estimulando sua procriação.

Várias espécies animais, nativas ou exóticas, vêm se adaptando tão bem às condições urbanas que até ocasionam infestações severas e prejuízo material. Há relatos de cupins roendo e se alimentando de fibra ótica, colônias de formigas habitando computadores, migrando por entre tomadas e eletrodutos alcançando o topo em edifícios com mais de vinte pavimentos. Há gente dando milho a milhares de pombos. Focos domésticos de criação de mosquitos que causam epidemias. Baratas, moscas e ratazanas se proliferando por falta de estrutura adequada para disposição e recolhimento de resíduos. Cada vez mais frequentes, as infestações por caramujos-gigantes têm causado prejuízos em jardins e hortas.

As infestações são indicadores de desequilíbrio ecológico, o que pode ocorrer em vários níveis, inclusive ser resultante de manejo ambiental inapropriado, prejudicando a população de espécies que realizam o controle biológico de pragas. Apenas para citar uma praga comum no Brasil e seus vários agentes biológicos de controle: marimbondos, aranhas, lagartixas, beija-flores, libélulas, sapos, pererecas e rãs são alguns dos animais devoradores de larvas e/ou mosquitos. Não é à toa que as raquetes, telas anti-inseto, redes para pesca ou repouso, até a internet são inspiradas em teias de aranha. A natureza é fonte de soluções e motivações.

Quando as pessoas eliminarem os focos de proliferação de Aedes aegipty, e as condições ambientais forem favoráveis às populações dos outros animais que atuam no controle biológico do mosquito, estarão resolvidas as medidas preventivas para dengue, febre amarela e chikungunya. Isso representa uma ação estratégica, em rede, a favor da saúde coletiva, com economia de raquetes, ventiladores e principalmente, sem venenos.

É mais frutífero optar por gastar dinheiro com saúde e qualidade ambiental, do que ser obrigado a gastar com doenças.O ser humano se considerasuperior na escala evolutiva, sendo capaz de atuar de modo inteligente, e intervir, juntamente com outros organismos, no controle biológico do mosquito, ao plantar jardins e evitando deixar superfícies com água limpa e parada, sem precisar comer diariamente tantos mosquitos nem usar qualquer spray que prometa ser terrível, só contra os insetos.

Áreas revestidas por vegetação têm melhor capacidade de absorver as chuvas e formar mananciais. Alguns desastres ocasionados por chuvas intensas são potencializados por urbanização excessiva, ocupação e impermeabilização desordenada do solo, supressão de vegetação nativa. Ou seja, o desastre não é causado pela chuva e sim pelas ações humanas no lugar, que o tornaram inapto a suportar a chuva intensa. Sempre choveu antes, mas a estrutura urbana não está sendo adequada para usufruir da chuva como um benefício. Para muitas populações em áreas de risco a ocorrência de uma tempestade tropical típica de verão pode significar alagamento, desmoronamento, prejuízos materiais, até óbito.

A formação de ilhas de calor é bem mais notável onde há menos vegetação e mais edificações aglomeradas. Onde as correntes de vento fluem impregnadas pela umidade liberada pelas plantas e sem tantos obstáculos como os prédios, resfriam as superfícies com melhor desempenho. Mas o vento cumpre muitas outras funções para além de velejar, gerar movimento e energia elétrica ou refrescar concreto e asfalto. A sensação térmica corporal é regulada pelas brisas. Esse fenômeno pode estimular para que mais pessoas busquem estar ao ar livre e sintam essa conexão.

O desafio proposto à ciência não é apenas de se conseguir engarrafar o vento. É mantê-lo em movimento até que a garrafa seja reaberta, o que somente será possível se em seu interior houver árvores. As vidraças absorvem parte da insolação e do calor e irradiam parte dessas energias para o que estiver próximo.

Os vidros de superfície espelhada reduzem a absorção e a ampliam a irradiação de luz e calor. Os modelos mais modernos de habitação e automóveis têm vidros espelhados e dispositivos de controle de fluxo, temperatura e umidade do ar. Nas casas e carros mais simples essa regulagem é realizada abrindo ou fechando as janelas (quando anda faz vento e refresca, parado aquece).

Fora do edifício e do automóvel, o reflexo do sol nos vidros vai migrando e aquecendo superfícies ao redor. Onde há muitos edifícios envidraçados e automóveis, esse zigue-zague de reflexos solares eleva a temperatura ambiental. Para ilustrar ludicamente essa típica cena de centros urbanos, imagine-se praticando exercícios numa sala de espelhos, tendo uma lanterna ligada em uma das mãos e na outra um secador de cabelos. A luminosidade e o vento aquecido estarão sendo dirigidos em várias direções. É quase isso o que acontece, bem menos divertido para os seres que habitam essas ilhas de calor.

Nos ambientes naturais ou pouco antropizados a composição florística é mais rica, bem como é mais notável a capacidade de regeneração espontânea da vegetação após alguma perturbação.

O repertório de espécies vegetais utilizado no paisagismo urbano é geralmente associado às espécies mais rústicas, limitando a arte em relação à diversidade florística disponível, em especial de espécies nativas.

As plantas que habitam as áreas públicas precisam mesmo ser muito resilientes. Elas sobrevivem a inúmeros outros fatores extenuantes e debilitantes, além das ilhas de calor urbano, tais como: água clorada (ou sede, se não chover), manejo e adubação deficientes, competição com plantas infestantes, pastejo, infestações por pragas e acometimento por doenças, senilidade, vento canalizado pelas quadras e vias de alto tráfego, iluminação noturna de postes, faróis e anúncios luminosos, poeira de asfalto e combustíveis, inundações, “banhos” de veículos passando em poças e respingos de óleo automotivo.

Alguma vez já observou de perto a mancha multicor que se movimenta no asfalto molhado? Os resíduos de óleos e graxas que pingam dos veículos também poluem e contaminam com metais pesados o solo, os rios e os mares.

Há condutores de veículos concentrados apenas na própria direção a seguir, sem notar as circunstâncias que afetam aos pedestres, ciclistas, outros motoristas e tudo o mais que há na paisagem que o envolve. As faixas de vegetação praianas vêm sendo suprimidas de um lado pela especulação imobiliária e pelo outro lado vem sendo atropeladas pelo hábito de trafegar com veículos em cima de restingas.

Há um limite de sensatez que permite discernir, mesmo sem placas, que praia não é lugar de carro.Há bastante coerência em usufruir das praias sem precisar de máquinas, sem poluir, suave.

Andar, nadar, remar, plantar, brincar e celebrar a vida são atos comuns na raiz cultural e no DNA do povo brasileiro. A típica expressão “programa de índio” talvez se refira a essa busca por estar no ambiente natural e trocar energias sublimes. No ambiente científico a biofilia vem sendo estudada desde 1984. Pé na areia é orgânico e gratuito!

O ajardinamento de áreas públicas é prejudicado também por vandalismo como pisoteio, extração (roubo da planta inteira), despejo de resíduos, e atos aparentemente inofensivos se esporádicos, porém danosos quando frequentes. Pisar as plantas já é um deslike na selfie com as flores. Nem sempre abraçar a estátua é demonstração de admiração à arte, respeito ao artista ou a quem se lhe dirigiu a homenagem por meio da obra artística.

Jardins não são sanitários para animais de estimação. O pisoteio frequente, a composição química dos excrementos e o ato de “ciscar ou soterrar suas obras” repetidamente, diariamente, vários animais por dia fazendo o mesmo ato, afetam negativamente o jardim. Por uma questão instintiva os animais são atraídos pelos múltiplos odores impregnados e aproveitam o passeio para delimitar seu território. Como não têm polegar opositor que lhes atribua habilidade de usar lápis, registram sua presença de outras formas e o ciclo danoso se repete. Não basta recolher no saquinho e jogar na lixeira. A conduta consciente é impedir o acesso dos animais aos jardins. Os “pets” agem por instinto animal, as pessoas podem agir com bom senso e respeito ao patrimônio alheio, o bem comum, a civilidade.

Nas cidades há conglomerados de pessoas vivendo no habitat que suas condições lhe permitem, nem sempre higiênicas, confortáveis e seguras. Áreas de risco continuam a ser edificadas para habitação humana. O tipo de ordenamento urbanístico e arquitetônico adotado nas recentes quatro décadas priorizou a verticalização das unidades habitacionais, a substituição de áreas verdes por vias de tráfego ou estacionamento de automóveis.

O estilo de vida cosmopolita disponibiliza menos tempo dedicado à fruição das fontes naturais de alimentação e lazer contemplativo. Em suma, são desafiadoras as condições de vida nas cidades grandes, não está fácil pra ninguém a qualidade do ar, da água e dos alimentos, a tendência da estrutura urbanística, inexistência ou ineficácia de políticas públicas realísticas. Esse conjunto de fatores projeta adiante: à medida que as populações crescem, piora a condição de vida nas cidades, os recursos ambientais se tornam cada vez mais escassos e aumenta a geração de resíduos.

Tal fluxo é evidente no Brasil desde a colonização, e se intensifica no século XIX com a industrialização e franca expansão urbana: a cada indústria instalada, maior demanda de trabalhadores. A cada polo de indústrias instalado, as cidades que as sediam passam a apresentar elevação populacional. Mais indústrias, menos áreas verdes, mais pessoas, mais resíduos, e o já tradicional subdimensionamento da estrutura para atender às necessidades básicas humanas.

Opostamente a esse cenário, a paisagem pode ser construída de modo a contribuir para o alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (PNUD, 2021).

Os parâmetros adotados neste trabalho, em comparação dos meios rural e urbano, são ilustrativos de cenas realísticas, e representam o cotidiano para milhares de pessoas que vivem no continental território brasileiro.

A busca por qualidade de vida tem inspirado o desenvolvimento de inúmeras tecnologias de impacto socioambiental positivo, as quais estão disponíveis para replicação em ambientes domiciliares e empresariais a baixo custo monetário.

Tais iniciativas com foco em promover sustentabilidade social, ambiental e financeira tiveram impulso no Brasil principalmente, a partir da realização da Rio92, e hoje são amplamente difundidas com o auxílio das tecnologias de informação e comunicação como a internet e os sistemas de educação à distância.



Agroecologia urbana

No campo há maior oferta de alimentos frescos ou minimamente processados. Na cidade os alimentos industrializados são a maioria. A expressividade e a modalidade da paisagem agrícola de cada ecossistema – rural ou urbano – têm influência direta na segurança alimentar e nutricional de suas populações.

As zonas urbanas e periurbanas dos municípios tem mais espaço dedicado aos automóveis, do que para hortas e pomares.Apaixonado por carro, como todo brasileiro é uma condição real só para quem pode optar por utilizar ou não, o transporte coletivo. Entre se alimentar ou sustentar o custo de um automóvel há quem escolha a bicicleta.

A paisagem agrícola instalada nos centros urbanos é muito mais representada pelo ajardinamento das unidades habitacionais e vias públicas, praças e parques, do que exatamente pela produção de alimentos. Significa dizer que há muito mais investimentos em aspectos cosméticos do que essenciais.

A memória do folclórico jardim da vó é repleta de flores, verduras, temperos, chás e medicinas caseiras, tudo junto e misturado, em cada canto do quintal, ou em vaso ou lata. Para quem nasceu no século passado talvez tenha recordações de que havia uma cultura de hortas nos subúrbios, que juntas compunham o que já foi denominado como cinturão verde das cidades.

Nas feiras livres era mais comum adquirir alimentos diretamente de quem os cultivava e vendia. Atualmente o mais comum é que nas feiras se encontre muito mais alimentos, contudo a predominância é de lotes fracionados, adquiridos em centrais de abastecimento, e por vezes sem qualquer conhecimento da origem nem o tipo de manejo adotado para a cultura desses alimentos. Adquirir alimentos em feiras agroecológicas é uma forma de prestigiar às famílias que vivem da terra.

Todo jardim ornamental tem potencial para ser jardim comestível e abrigo de agrobiodiversidade. O tipo de manejo adotado pode contribuir para essa expansão de conceito. Toda planta cumpre inúmeras funções ecológicas, porém algumas espécies vegetais além de possuir valor estético e colaborar para o equilíbrio ambiental, também possibilitam outros empregos em favor das pessoas.

Por essa ótica, os jardins podem conciliar senso estético com funcionalidades, e ainda oferecer utilidades como alimentos, fármacos, condimentos, fibras, pigmentos, e toda sorte de matérias primas vegetais que são usufruídas pela humanidade ao longo de sua trajetória, relação da qual tratam os estudos em etnobotânica.

Na prática, se observa que há cada vez mais gente buscando informação para cultivar alimentos em casa. Os princípios e práticas agroecológicas podem contribuir para o êxito da iniciativa e originar gratificantes colheitas. A transição do modo convencional de produção de alimentos para sistemas agroecológicos representa um salto na qualidade ambiental, potencializa a promoção da saúde humana consubstanciada com desenvolvimento econômico integrado em circuitos curtos de comercialização.

Essa transição agroecológica é favorecida por mais de três décadas de avanço no conhecimento sobre eficiência energética, irrigação, manejo do solo a partir de compostagem orgânica, cobertura dos canteiros com palha sortida, consórcios entre espécies, rotação de culturas, preparo de caldas naturais, conservação de agentes de controle biológico de infestações e pragas, intercâmbio de sementes crioulas, e a amplitude de possibilidades culinárias à base de vegetais.

Plantas podem ser chamadas de mato, até se conhecer sua nomenclatura científica, por meio da qual se pode obter bastante informação sobre cada espécie.

Hoje o conhecimento gerado e atualizado pela comunidade científica mundial está disponível a todos nos bancos de dados botânicos. Isso é um privilégio para quem busca ampliar seu repertório alimentar aproveitando os benefícios das milhares de espécies de plantas já estudadas, das quais alguma de suas partes pode servir à alimentação humana, crua ou em diferentes preparações.

Do mato ao prato, as plantas acompanham a humanidade por uma longa jornada ancestral de evolução dos sentidos. Hoje temos a oportunidade de ampliar nosso repertório alimentar e nutricional, exercitando a criatividade culinária, tendo como principal ingrediente o uso sustentável da agrobiodiversidade.

O experimento descrito a seguir detalha as etapas iniciais da conversão de um gramado em sítio agroecológico urbano, as tecnologias e os insumos aplicados no manejo dos policultivos de alimentos, e influência observada na ecologia da paisagem local. O período de realização das atividades compreendeu janeiro/2020 desde o preparo das mudas, até janeiro/2021 com a redação deste manuscrito.



Área de trabalho

Um casebre condominial em lote de 360 m2(Figura 1), situado na área periurbana do município de Macaé, na localização 41º51'26" W 22º21'58" S.

Figura 1. Área do ensaio experimental destinado à conversão de gramado em sítio agroecológico urbano, e análise de sua influência na ecologia da paisagem local. O ponto branco na porção central da imagem se refere à localização: 41º51'26" W 22º21'58" S. Imagem gentilmente elaborada pelo Professor Doutor Daniel de Albuquerque Ribeiro, a partir do arquivo de Google Earth, que ilustra a condição da área anterior ao início deste ensaio.



O imóvel estava inativo, seu uso prescindia reparos, regularização eletro-hidráulica e higienização. O contrato de aluguel, por doze meses, foi celebrado em abril/2020, tendo como principais propósitos a moradia em bairro menos populoso, para cumprimento do distanciamento social desde o início da pandemia, bem como providenciar condições para conclusão do ensino remoto, dos ensaios experimentais e a dissertação em curso no Programa de Pós-graduação em agricultura orgânica – PPGAO UFRRJ/EMBRAPA/PESAGRO (MONTEIRO et all, 2019).

A cobertura vegetal predominante no terreno era constituída por grama esmeralda e braquiárias em profusão, por séries de semeadura, ao longo do período em que a casa permaneceu sem alugar. Ambas vigorosas gramíneas, com suas raízes atingindo 15-25 cm de profundidade no solo.

Em frente à fachada frontal da casa há duas árvores antigas de sansão-do-campo (Mimosa caesalpiniifolia), e um exemplar de maracujá-doce (Passiflora edulis). Essas plantas haviam sofrido poda drástica de rebaixamento da copa antes do aluguel do imóvel, estando à ocasião desprovidas de ramos e folhas.

O solo estava visivelmente pobre em matéria orgânica, bem compactado, basicamente uma mescla de saibro e barro aplicada na terraplenagem durante o loteamento (Figura 2). A prospecção e coleta de amostras só foram possíveis com uso vigoroso de picareta e enxadão.



Figura 2. Aspecto geral do solo na seção central do terreno, antes da implantação do ensaio experimental.

O terreno é limitado para as ruas por mureta de alvenaria, revestido por chapisco, encimado por alambrado de tela metálica com 160 cm de altura total. O limite com os dois vizinhos contíguos é muro de alvenaria chapiscado, com 2 metros de altura. Na porção central do lote a insolação média é de 10h/dia.

Na área externa do lote a calçada mede 130 cm de largura, com perímetro de 60 metros lineares, perfazendo um total de 78 m2. Esta área de uso público é revestida por grama esmeralda e nela já haviam sido plantadas espécies arbóreas, que estavam em início de desenvolvimento: nêspera (Eriobotrya japonica), limão-cravo (Citrus × limonia), lichia (Litchi chinensis), tamarindo (Tamarindus indica), noni (Morinda citrifolia), graviola (Annona muricata), ipê-amarelo (Handroanthus sp.), palmeira-areca (Dypsis lutescens) e um mamoeiro (Carica papaya).

O lote é situado em esquina, foi planificado à máquina com suave declive a partir da fachada posterior do casebre, formando uma seção brejosa, no mesmo sentido do hidrômetro e da tubulação de efluentes em fluxo à rede pública de coleta. Em média, o lote é situado 30 cm acima do nível de asfaltamento das vias, as quais têm drenagem superficial por bueiros e galerias pluviais, independentes da rede de efluentes sanitários.

O croqui elaborado a partir do estudo preliminar de situação do imóvel, da fonte de águae do conjunto arbóreo é observado na Figura 3.

Figura 3. Estudo preliminar do imóvel para delineamento do sítio agroecológico urbano. Abril/2020.

O abastecimento (inconstante) de água potável e o tratamento de esgoto são realizados pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos CEDAE. No imóvel há um conjunto de três caixas d’água funcionando como reservatório, com capacidade total de armazenar até 8 mil litros. Sobre a casa há um reservatório para 500 litros, para abastecê-lo e para irrigação, foi instalada uma bomba de recalque com ½ HP.

A eletricidade é fornecida pela ENEL (127V). A rede de iluminação pública é provida de postes altos e bem distribuída, com lâmpadas amarelas de iodo, favorece inclusive o trabalho ao anoitecer. O recolhimento de resíduos sólidos do bairro ocorre três vezes por semana. Não há coleta seletiva.

A quadra na qual se situa o terreno é ladeada por uma faixa de dutos subterrâneos da Transpetro, que atravessa todo o bairro. A superfície dessa faixa de dutos é coberta por vegetação espontânea com predominância de capim. A manutenção dessa área consiste em roçagem e varrição da palhada, a cada 90 dias, em média. Alguns moradores têm realizado ações pontuais de arborização e ajardinamento nas bordas dessa faixa verde.

Cena comum em diversas localidades do bairro, nessa área também se observa com frequência a presença de caramujo-gigante (Achatina fulica), além de cães e gatos deixados soltos, revirando lixo e empreendendo caça a animais silvestres que habitam esse corredor de biodiversidade.

O terreno, objeto desse estudo, é indicado pela seta branca na porção mediana à esquerda da Figura 4.

Figura 4. Panorama geral da faixa de dutos subterrâneos da Transpetroque atravessa o bairro Horto, em Macaé/RJ. O lote destinado à implantação do sítio agroecológico é indicado pela seta na porção mediana, à esquerda da imagem.



Transição



No período entre junho/2018 até setembro/2019, os experimentos em curso foram estruturados em Cabo Frio/RJ, tendo como sede um terreno que estava até então inativo, e foi alugado para implantação de um sistema agroecológico litorâneo. Com o êxito desse sistema e da rede de parceiros foi possível conciliar as atividades de pesquisa com a manutenção integral do imóvel alugado, do acervo vivo constituído e ainda custear as despesas acadêmicas através da comercialização dos alimentos produzidos, in natura e em preparações elaboradas e ofertadas pelo Autor em eventos e feiras artesanais (MONTEIRO, 2019).

Porém, em razão de embaraços imobiliários, e entre herdeiros, se dissolveu a confiança nas informações recebidas sobre o estado civil do imóvel, sendo o melhor rescindir o contrato e a fé na parceria, desconstruir a estrutura já implantada, requalificar o escopo da pesquisa junto à Universidade, arcar com os prejuízo se providenciar outro local para manutenção do acervo vivo, que começou a ser preparado para a transição desde outubro/2019.

Após avaliar propostas de parceria em distintas localidades, este imóvel em Macaé demonstrou viabilidade para nele reiniciar o sistema e prosseguir nos estudos, como sempre com recursos próprios já que no Brasil não há bolsa-pesquisa disponível para a modalidade Mestrado profissionalizante. Cada aluno (a) é responsável pela sustentabilidade de seus experimentos, pelos custos acessórios à pesquisa, pelo cumprimento de módulos e disciplinas, além da própria sobrevivência durante o curso.

As tratativas de rescisão do contrato em Cabo Frio e a celebração do contrato em Macaé foram concluídas simultaneamente no início de março/2020, poucos dias antes de ser oficialmente anunciadas no Brasil as primeiras medidas mitigatórias voltadas à contenção do coronavírus.

Conjuntamente, a mudança de área, a pesquisa em curso e as condições do imóvel à época representavam uma valiosa oportunidade de vivenciar um estado de quarentena agroecológica, repleto de aprendizagens sobre saúde integral, gestão do tempo e sustentabilidade na prática.



Instalação

O frete para Macaé ocorreu no início de abril/2020. Foi planejado de acordo com as normas das barreiras sanitárias montadas nos limites dos municípios, mas por razões inimagináveis ao planejamento, o tempo gasto para percorrer apenas 80 km foi bem maior que o estimado.

Em razão da temperatura elevada à ocasião e das longas retenções de tráfego, houve perda de acervo vivo, porém com chances de recuperação de espécies em hortas de parceiros, quando fosse possível novamente o deslocamento.

A primeira quinzena no imóvel foi dedicada à higienização, reparo e regularização de abastecimento por água e eletricidade, levantamento planialtimétrico do terreno e construção de mobília artesanal para organização de pertences, ferramentas e instrumentos.

As memórias e catarses registradas no diário de campo e as fotografias feitas com a câmera do telefone celular antigo são o substrato principal desse relato.



Prospecção

Em condições suficientes de habitabilidade foi possível prospectar melhor as aptidões da área e elaborar um rudimentar plano para seu ordenamento e manejo agroecológico, pautado pelos seguintes fatores: ponto de acesso à água; tipo de solo e vegetação existente; formato e relevo do terreno; disposição da casa e das tubulações; circuito desejável de pessoas;projeção de sombras e canalização de vento pelos muros vizinhos; o acervo de sementes e mudas em cultivo; a sequência de operações destinadas aos experimentos do PPGAO, e principalmente,as ferramentas, insumos, materiais e mão-de-obra disponíveis.

Sendo nítido que simplificar a irrigação com economia de água seja um fator decisivo para o êxito da agroecologia urbana, neste sítio se priorizou iniciar os policultivos na seção próxima às caixas d’água e expandir o trabalho em dinâmica espiral pelas bordas,em direção ao centro do terreno, em fluxo assemelhado ao percurso descrito na Sequência de Fibonacci (Figura 5).



Figura 5. Sequência de Fibonacci. Imagem: Google.



Atuação

Práticas agroecológicas representam um conjunto infindável de soluções sustentáveis e integradas, resultantes da fusão do conhecimento popular com a pesquisa científica, o que possibilita adequá-las às diferentes regiões, aos materiais disponíveis em cada lugar, à experiência das pessoas dedicadas às tarefas e o tamanho da equipe.

As intervenções feitas no sítio, apresentadas a seguir, representam o empenho dedicado aos policultivos, simultaneamente aos exercícios físicos regulares, banhos de sol e chuva prescritos pela medicina popular e pela ciência médica para fortalecimento do sistema imunológico.

Os tópicos seguintes tratam de algumas das tecnologias de impactos socioambiental positivo, de baixo custo e alta simplicidade para aplicação em agroecologia urbana. As imagens foram selecionadas buscando-se evidenciar o reaproveitamento de materiais originados no próprio terreno, o fluxo de insumos, a geração de forças por cada uma das estações de trabalho e o uso criativo de recursos obtidos por doação da vizinhança.



Berçário de plantas

O acervo vivo foi preparado e acondicionado em Cabo Frio, com antecedência, de modo a suportar o transporte e alguns dias até se organizar espaços, parcialmente sombreados e próximos às caixas d’água, para acomodar e irrigar os vasos.

Nesse intervalo as plantas foram cuidadas no interior da casa a fim de reduzir a desidratação já ocasionada pelo tempo de frete estendido pelas barreiras sanitárias.

Outra providência foi aproveitar os dias chuvosos e nublados para semeadura em vasos e bandejas, das variedades hortícolas disponíveis no comércio local. Enquanto as mudas cresciam e se adaptavam ao clima local os canteiros estavam sendo preparados para receber as jovens habitantes (Figura 6).

Figura 6. Berçário das plantas pioneiras a integrar o acervo etnobotânico do sítio agroecológico urbano em formação no município de Macaé/RJ. Maio/2020.



Irrigação

A irrigação do sítio, durante o primeiro semestre, foi realizada com uso de regador de crivo fino, com capacidade para até 5 litros. A água é captada de um tanque para uso geral na área de serviços externa.

Em seguida a frequência de chuvas reduziu, as temperaturas se elevaram e se passou a utilizar mangueira e esguicho regulado para névoa fina. A rega é sempre reduzida, pela frequência e volume nas épocas chuvosas, e também pela disponibilidade limitada de água tratada.

Sempre que possível a água é reaproveitada após seu uso no tanque. As primeiras águas de enxágue de roupas são usadas para descarga sanitária e higienização do banheiro. A partir dos próximos enxágues, quando não mais se formam bolhas ao torcer a roupa, essa água tem sido aproveitada para limpeza geral, para irrigação das árvores frutíferas e da grama no passeio público.



Compostagem

As gramíneas do quintal foram aparadas por roçadeira com lâmina rasa, poucas semanas antes do recebimento das chaves do imóvel (Figura 7A). Para iniciar a compostagem no local, toda a palha foi varrida, se procedeu à remoção de touceiras de capim, retirada e destinação de detritos e obtenção de amostras de solo em diferentes seções do sítio. Em seguida toda a palha foi amontoada e empilhada rente ao muro (Figura 7B).

Figura 7. (A)varrição das gramíneas aparadas; (B) empilhamento da palhada varrida na extensão do muro para a inoculação com invertebrados e microrganismos benéficos à compostagem. Abril/2020.

A essa palhada se procedeu à inoculação de 60 kg do substrato vivo trazido de Cabo Frio, contendo milhares de indivíduos de animais invertebrados que atuam como decompositores de matéria orgânica, tais como minhocas, tatuzinhos e gongolos, de diferentes idades. Essa pilha foi irrigada semanalmente nos períodos de estiagem e revirada quinzenalmente para aeração, que agiliza os efeitos da compostagem. Após aproximadamente 70 dias o material já estava bem fragmentado e foi então utilizado para aplicação nos canteiros de policultivos.

Desde então, é um ato contínuo adicionar matéria orgânica vegetal ao sítio, com biomassa que estiver disponível gratuitamente, como aparas de grama, poda de arbustos, folhas varridas, sobras de cozinha. São distribuídos baldes com tampa, retornáveis, entre vizinhos parceiros da compostagem. Os baldes foram obtidos por doação em panificadoras. Geralmente continham margarina (maiores) e mistura para pão de queijo (menores).

A cobertura contínua por palha sortida preserva umidade por mais tempo no solo, reduzindo a necessidade e a frequência de irrigação. Manter o solo coberto por palha também atenua os impactos da chuva na terra, melhorando a fixação de nutrientes próximos à superfície e na zona das raízes alimentadoras das plantas.

Os solos mais argilosos e degradados tendem a rachar nos períodos de seca. Essas rachaduras do solo causam danos às raízes. Coberto sempre por palha o solo tem menos tendência a rachar. E nos períodos chuvosos os solos argilosos apresentam drenagem insatisfatória. A adição de matéria orgânica melhora também a permeabilidade. Já os solos arenosos têm pouca retenção de umidade e nutrientes. A palha não falha. É leve para carregar e espalhar.

A inserção de biomassa nos sistemas agroecológicos tropicais impulsiona seu desenvolvimento, sobretudo em seu início. É uma reprodução assistida do que acontece no ambiente, as plantas extraem nutrientes no solo a convertem em biomassa que volta pro solo e nesse ciclo contínuo a vida se renova. Espalhar palha não atrapalha, só ajuda.

As aparas de grama que chegam ao sítio acondicionadas em sacos recebem porções de substrato mais antigo, então os sacos são deixados fechados para repousar ao ar livre por uns 60 dias. Nesse ínterim a palha fermenta e aquece. Quando resfria já pode ser espalhada sobre os canteiros de policultivos.

Para tratamento de resíduos provenientes da cozinha (do sítio e de vizinhos doadores) foi construída uma série de composteiras, a partir de baldes reaproveitados de margarina, obtidos na padaria do bairro (Figura 8). Cada composteira é provida de reservatório e torneira para obtenção do biofertilizante líquido, o qual é diluído (1:10 água) e pulverizado quinzenalmente nos policultivos para adubação por via foliar.



Figura 8. Série de composteiras artesanais para tratamento de resíduos provenientes da cozinha, confeccionadas a partir do reaproveitamento de baldes usados para margarina. Cada composteira é provida de reservatório e torneira para dreno do biofertilizante líquido. A superfície externa dos baldes foi levemente lixada e recebeu pintura à látex PVA.



A combinação de tratamentos palha no solo + biofertilizante nas folhas tem apresentado resultados satisfatórios. A depender da quantidade de habitantes de uma residência, e da quantidade de sobras da cozinha, pode-se ir aumentando a série de composteiras em ação.

A compostagem é uma solução segura, eficaz e definitiva para o tratamento ideal de resíduos vegetais e o excedente de adubo que não for utilizado em seu local de elaboração pode ser comercializado, o que contribui para geração de renda para a agricultura familiar (MONTEIRO, 2016).



Remoção de gramíneas

Para facilitar a substituição parcial de áreas gramadas por canteiros destinados aos policultivos, se adotou a técnica conhecida por abafamento, que na prática consiste em privar as plantas de luminosidade, assim enfraquecendo-as e facilitando sua retirada e o preparo do solo para a cultura que se preferir implantar.

Tanto a grama esmeralda quanto as braquiárias predominantes na áreasão gramíneas providas de estruturas de propagação vigorosas, seu sistema de raízes se aprofunda e ramifica profusamente, suportam bem a herbivoria e sobrevivem aos períodos de seca, voltando a rebrotar com força assim que melhorem as condições ambientais.

As gramíneas são plantas monocotiledôneas que apresentam alto metabolismo e desenvolvimento acelerado. Enquanto atingem porte adulto e maturidade reprodutiva para se espalhar com milhares de sementes, são hábeis transformadoras de energia solar em biomassa. Muitas espécies também usam de seu vigor para se propagar rastejando pelo solo, como a grama esmeralda. Então é possível, por meio da compostagem, aproveitar boa parte dessa matéria orgânica vegetal repleta de energia para nutrir outras plantas de modo sustentável.

As gramíneas são plantas de alto sucesso ecológico e econômico. Atualmente as mais importantes fontes de energia na forma de amido e açúcares que nutrem o sistema agroalimentar global provêm de quatro espécies de gramíneas: milho, trigo, arroz e cana. O bambu é um outro recurso natural renovável, com uma multiplicidade incrível de usos, há milênios por povos tradicionais, principalmente da Ásia.

Todos os bambus também são da família das gramíneas (POACEAE). A grama esmeralda é como um bambuzal em miniatura. Observe de perto como ambas as plantas apresentam estruturas semelhantes e se expandem em várias direções formando uma densa rede, subterrânea e acima do solo.

A grama esmeralda é capaz de atravessar as bordas de asfalto e fendas na alvenaria e em concreto. Em canteiros férteis e irrigados se alastra rapidamente e prejudica o cultivo de hortaliças (sufocamento). A razão de se proceder ao coroamento da grama ao redor de outras plantas não é apenas estético. Há inclusive cintas plásticas delimitadoras de grama que minimizam a mão-de-obra para contenção do gramado em direção aos canteiros e edificações, porém a qualidade do material é proporcional ao seu custo. Se for frágil não resistirá às intempéries e vai se fragmentar logo, causando poluição.

Claro, o trabalho é parte do gramado. Em estádios esportivos “padrão FIFA” alguns gramados são irrigados diariamente, aparados em dias alternados e fertilizados quinzenalmente. Consegue orçar o custo disso tudo? Sem problemas, o futebol movimenta bilhões, de torcedores, marcas esportivas e cervejarias. Juntos, têm dinheiro bastante para manter o tapete verde e explodir rojões no clímax da modalidade: gol.

Canteiros centrais de avenidas revestidos por grama requerem frequentes operações de roçagem, varrição, ensacamento, transporte de aparas ensacadas e sua destinação adequada mobiliza equipes gigantes, queima combustível nas roçadeiras e veículos em operação e tudo isso ainda tumultua o trânsito local.

Nesses locais a intervenção paisagística poderia privilegiar outros grupos de plantas herbáceas rasteiras ou arbustos, de espécies rústicas, floríferas, capazes de sombrear o solo e dessa forma se economizaria muito trabalho (e dinheiro) dedicado a aparar gramados. Não faltam opções botânicas.

O Brasil é o habitat da maior biodiversidade vegetal do mundo, com mais de 50 mil espécies de plantas conhecidas pela ciência, das quais mais de 2 mil espécies vegetais são classificadas como ameaçadas de extinção. Enquanto a prospecção botânica continua revelando espécies novas a população brasileira vê cada vez menos espécies nativas no paisagismo público, o qual deveria ser exemplar para valorização da biodiversidade local.

Para se ter noção da força vital das gramíneas e de sua importância ecológica basta imaginar as savanas africanas sendo devoradas e pisoteadas por rebanhos sucessivos de milhares de herbívoros, e se recuperando plenamente após cada temporada de migração e pastejo desses animais. Atualmente algumas das principais gramíneas cultivadas em regiões tropicais para pasto do gado são variedades melhoradas a partir de material genético de vários capins nativos da África.

Por esse conjunto de fatores pode se dizer que as gramíneas competem em condições de superioridade e vantagem em relação às plantas menos providas de tantos mecanismos de sobrevivência e geração de descendentes. Equivale afirmar que a presença de gramíneas muito próximas pode prejudicar severamente o cultivo de alimentos das variedades mais frágeis e vulneráveis à competição por água, nutrientes, insolação e espaço físico para seu desenvolvimento. Sendo assim para o sucesso dos policultivos era imprescindível o enfraquecimento das gramíneas e suas raízes, sem remover junto com elas a fina camada fértil disponível apenas na superfície do solo do sítio.

O abafamento foi realizado recobrindo-setrechos do relvado com camadas de papelão poliondas, recolhido gratuitamente em caixas descartadas por estabelecimentos comerciais do bairro. Sobre as camadas de papelão são apoiados objetos mais pesados (tijolo, tábua, rochas ou equivalente) de modo a evitar que o vento desloque a “tampa” (Figura 9A).

Em uma seção do terreno se recobriu o solo com um pedaço de lona plástica, que foi doada por um pintor de paredes, após a realização de um serviço na vizinhança (Figura 9B). Nessa área especialmente o processo de abafamento foi mais rápido pois além de privar as gramíneas de insolação, a lona aquece mais ao sol e cumpriu também função impermeabilizante, reduzindo a umidade e agilizando o enfraquecimento das gramíneas sob o plástico. A ressalva sobre o uso de lona plástica é a possibilidade de fragmentação e poluição ambiental, além do custo financeiro.

O papelão é mais fácil de se obter gratuitamente e por ser de origem vegetal, quando se fragmenta rapidamente é incorporado ao solo. Antes de espalhar o papelão sobre o solo é recomendado retirar as fitas adesivas e eventualmente os grampos metálicos. Esse material incrível e versátil faz por merecer o título de porcelanato agroecológico. É útil para abafar plantas infestantes, atenuar a textura lamacenta em solos argilosos úmidos, reduzir a temperatura superficial em solos arenosos, auxilia a estruturar e arejar pilhas de compostagem (intercalando-se camadas de papelão entre as camadas de palha).

Figura 9. (A) técnica de abafamento de gramíneas com uso de papelão poliondas; (B) técnica de abafamento de gramíneas com uso de lona plástica e papelão poliondas. Ambas são modalidades destinadas a privar de luminosidade as gramíneas de modo a enfraquecê-las e facilitar sua substituição por canteiros de alimentos.

A cobertura do solo cria condições favoráveis para miríades de organismos, em especial invertebrados, fungos e bactérias seletivas por ambientes sombreados e úmidos. Durante sua jornada esses seres realizam um trabalho incrível em prol da revitalização do solo.

O tempo necessário para o abafamento das gramíneas é variável em cada ambiente, sendo interessante observar semanalmente sob a camada “tampa” o progresso da iniciativa. As gramíneas começam a ter as folhas amarelecidas pela ausência de luz, depois tornam-se marrons. Neste ensaio, em média após 45 dias da cobertura, o solo recoberto por papelão já apresentava condições mais amenas para as etapas seguintes de preparação dos canteiros destinados aos policultivos alimentícios.



Aviários

A criação de algumas galinhas colabora de várias formas para o sucesso dos sistemas agroecológicos, quer seja pelo gentil convívio com as aves e os aprendizados sobre comportamento e bem estar animal; o aporte à nutrição proporcionado pelos ovos caipiras; o apoio natural que as aves oferecem à fertilização e descompactação do solo; o aproveitamento de resíduos de cozinha para dieta delas reduz o desperdício, e também pelo controle biológico que as aves realizam quando passeiam pela área antes da implantação dos policultivos.Neste sítio a adoção de apenas três galinhas jovens foi suficiente para cumprir satisfatoriamente a essas funções.

Para seu manejo integrado foram implantados dois tipos de recintos: um estático e um móvel.

O recinto estático tem estrutura simples e leve, que permite sua fácil remoção e eventual reinstalação em outro local, caso seja necessário. Foi erguido utilizando-se o apoio de ripas de madeira fincadas no solo para esticar um retalho de rede de proteção de janelas (obtido por doação). O portão de acesso é um estrado de ripas atado a uma estaca. Uma seção de tela metálica (sobra de construção) completa a vedação afixada ao muro por pregos (Figura 10).

Esse ambiente foi criado junto às caixas d’água para que as galinhas mantenham a área “capinada”, facilitando o acesso aos registros e também para aproveitar as sombras que são projetadas, em diferentes horários, pelas caixas d’água em conjunto com o encontro dos muros vizinhos.