PANC: TRADIÇÃO E SOBERANIA ALIMENTAR À MESA, UM CONHECIMENTO EMANCIPADOR A SER RESGATADO

Adriana Backes

Claudia Marisa Vogel

Tiago Barbosa Macedo



... Deixa o mato crescer em paz

Deixa o mato crescer

Deixa o mato

...

Deixa (É fruta do mato)

Escuta o mato crescendo em paz (É fruta do mato)

Escuta o mato crescendo

Escuta o mato

Escuta (Escuta)”



Música de Antonio Carlos Jobim



Iniciamos o texto com referência a um fragmento da música de Antonio Carlos Jobim, falando em deixar crescer o mato em paz! A música toda faz uma referência ampla à fauna e à flora da nossa floresta, floresta, dos povos tradicionais. Uma música muito emblemática e cada vez mais atual, mas aqui vamos um recorte e nos referir a “deixar o mato crescer” em nossas terras, hortas e cidades! E explicamos: muito do que consideramos matos e inços, são matos de comer, de beber, de colocar no prato, ou matos medicinais. No entanto, com a nossa falta de conhecimento e desconexão com a rica diversidade da nossa flora brasileira e de outros países, arrancamos tudo, ou simplesmente ignoramos.

Um exemplo que mexeu muito conosco foi a de um mato que conhecíamos como trança de cigana, e que tem uma linda florzinha azulzinha e que regularmente arrancávamos de nossas hortas e quintais ao fazemos uma “capina” e uma “limpeza”, sem deixar uma pra “contar história”. Ao iniciarmos os nossos cursos neste ano de 2020 sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), iniciando o mergulho nesse universo, eis que nos deparamos com ela! Ficamos atônitos e encantados com o que aprendemos: ela era nada mais, nada menos do que a trapoeraba (Commelina sp) que era comestível! Tendo um sabor parecido com o da ora-pro-nóbis, podendo ser saboreada e utilizada na preparação de diversos pratos: omeletes, refogados, ensopados, fritadas, suflês, no enriquecimento de pães, tortas e salgados, no arroz e feijão, e no que mais a nossa criatividade mandar! Só devemos ter o cuidado de usar as folhas escaldadas, refogadas, cozidas e não as utilizarmos cruas. Já, as suas lindas florzinhas azuis, podemos usar cruas em saladas, ou para finalizarmos um prato com flores, cores e muita delicadeza. Mas, as descobertas não pararam por aí não!

Ela é uma planta rica em proteínas, fibras e sais minerais como cálcio, magnésio e zinco. Na medicina popular ela é conhecida pelo seu uso para evitar retenção de líquidos, eliminar toxinas do organismo, na prevenção do envelhecimento precoce, por auxiliar na melhora de cistites e inflamações do aparelho urinário e por possuir ação anti-inflamatória e anti reumática. Ou seja, do status de mato ela subiu ao status de super planta!

Trapoeraba . Foto: Adriana Backes

Assim enveredamos pelo mundo das PANC. Muitas delas foram, ou ainda são, muito utilizadas convencionalmente por povos originários ou tradicionais, e também por nossos ancestrais, como nossos bisavós ou avós. Mas, muito dessa sabedoria popular foi se perdendo, ou deixada de lado quando a população trocou florestas e campos pela cidade e passou-se a consumir mais alimentos introduzidos pela colonização europeia e, com o passar do tempo, alimentos cada vez menos diversos. Empobrecendo a variedade de ofertas, ao mesmo tempo que se oferecem cada vez mais produtos processados e industrializados encontrados em vendas, armazéns e mercados.

Em resumo, aprendemos que as PANC possuem valor nutricional diferenciado e muitas vezes superior àqueles encontrados nas chamadas hortaliças “convencionais”. Estudos também apontam que elas possuem compostos nutracêuticos. O termo é uma combinação dos termos "nutrição" e "farmacêutico". Estuda os componentes fitoquímicos presentes capazes de trazer benefícios à saúde.

O valor nutricional destas plantas é variável, podendo conter desde teores significativos de sais minerais, vitaminas, fibras, ácido fólico, carboidratos e proteínas. Além de, em muitos casos, reconhecidos efeitos funcional e /ou nutracêutico. Um exemplo bastante conhecido entre nós é o da ora-pro-nóbis, chamada de “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas.

Além de nos fornecerem uma gama de nutrientes, o fato de muitas delas, especialmente as espontâneas, estarem adaptadas a terrenos menos férteis, sem irrigação e manejo, especialistas defendem que as PANC se adaptarão melhor à crise climática. Também não há necessidades de defensivos agrícolas. Se dão muito bem em agroflorestas.

É sempre importante ressaltarmos que as fontes de conhecimentos e estudos para o reconhecimento e a correta utilização das PANC devem ser fidedignas, a fim de como deve ser toda a busca de conhecimentos. E assim foi a nossa pesquisa, cuja bibliografia citamos abaixo, enfatizando que o livro considerado “uma bíblia” nessa área é o livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) No Brasil dos autores, Valdely Kinupp Harri Lorenzy lançado pelo Instituto Plantarium em 2014. Também deixamos registrado que a Embrapa disponibiliza cursos e vídeos com excelentes materiais sobre as PANC, sendo que destacamos os vídeos com o pesquisador Nuno Madeira, alguns dos quais também se encontram listados nas referências bibliográficas.

O estudo e as descobertas sobre as PANC confirmam o quão sábia, abundante e cheia de vida é a natureza com toda a sua biodiversidade. O conhecimento liberta: como tolerar a fome quando os recursos que nos cercam são abundantes e estão à nossa disposição? Então: todos mãos à obra!

Fotos de alguns preparos: