A natureza universal sustenta a vida de todos os seres. (Dalai Lama)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 76 · Setembro-Novembro/2021
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O Eco das Vozes
18/08/2021 (Nº 76) CUIDANDO DO JARDIM TAMBÉM CUIDO DE MIM
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CUIDANDO DO JARDIM TAMBÉM CUIDO DE MIM

Adriana Backes

Ilustração: Rhebeca Morais



Alguns, ou talvez, muitos de nós, tivemos histórias de infância passadas em jardins. Você teve essa vivência? Que memórias você tem guardadas consigo desse tempo? Como elas refletem em você e em sua vida, agora? Você não teve essa vivência? Gostaria de ter tido? Ou está tendo agora?

Quando eu era criança tive a imensa alegria de viver em meio a muitos jardins. Entre eles, os jardins da casa da minha avó e da minha casa, onde passei a maior parte do tempo da minha infância. Trago comigo boas recordações do que vivi nesse tempo e nesses lugares. E agora gostaria de compartilhar com você.

Havia um jardim com árvores rodeadas por muitas flores dentro de canteiros contornados por imensas pedras. Nesses canteiros havia muitas borboletas. Então fiz casinhas para aconchegá-las e para cuidar delas. Do outro lado desses canteiros haviam corredores de muitas flores, de muitas cores, desenhos e aromas. Caminhava e corria entre essas flores, admirando o colorido e os bichinhos que eu encontrava: joaninhas, borboletas, besourinhos, centopéias, formiguinhas e vagalumes que brilhavam à noite.

No jardim da minha casa, havia rosas, lírios, palmas, manacá cheiroso, E também as queridas marias-sem-vergonha, cujas cápsulas ou "bombinhas de sementes”, eu estourava em meus dedos e via as sementes sendo lançadas de volta pro solo do jardim, de onde viriam mais e mais florezinhas. As pétalas dessas mesmas florzinhas, eu utilizava tanto para colorir minhas unhas, quanto para colorir e enfeitar os “bolos” de barro que eu confeccionava nas minhas brincadeiras de casinha.

Neste mesmo território eu também convivia com a magia e o sagrado. Colhia florzinhas e colocava em vasos num altar que eu mesma havia preparado para as fadinhas e os anjinhos que na minha concepção de criança, eram seres mágicos que viviam nesse jardim. Eu acreditava que estavam ali comigo e que de alguma forma, estávamos conectados. Havia ainda as árvores que eu abraçava, escalava, até chegar no último galho e lá ficava conectada com o azul do céu, muito próxima as nuvens.

E comer frutas no pé? Uma experiência gastronômica sem igual. Talvez se iguale aos piqueniques onde estendíamos as toalhas nos gramados. E com muita leveza, liberdade e satisfação compartilhávamos os nossos lanches feitos por nossas mães, pais, tias e tios ou avós: bolos, sucos, sanduíches, pão com nata e schmier (doce de frutas, geléia), cucas, linguiças, spritzbier (refrigerante natural fermentado de gengibre e limão).

Costumava acordar cedinho com o canto dos passarinhos, para um novo dia de aventuras e brincadeiras. Observava feliz os primeiros raios de sol chegando ao jardim. Era como se estivessem me dizendo: “Vem comigo! ” E sempre que eu podia eu ia!!! Adorava quando o vento também dava o seu passeio pelo jardim, passando por mim, sentindo seu carinho na minha face, vendo ele brincar com as folhas das árvores, dançando com as que se encontravam no chão, rodopiando com elas em pequenos “redemoinhos”. Adorava quando caía uma chuvinha, que meu pai chamava de “chuva de ouro”. Uma chuvinha que vinha de mansinho e regava as plantinhas com delicadeza, deixando no ar aquele cheirinho de terra molhada. E depois admirava todas aquelas florzinhas, folhagens e árvores de “banho tomado” e renovadas!

Quanta alegria em semear e depois ver um brotinho saindo de dentro da terra! Tratava como se fossem meus bebezinhos! Depois via o seu desenvolvimento, abrindo as folhinhas, momento esse, que para mim era quando minhas plantinhas bebês viravam crianças e se tornavam mais “independentes".

Observava o desenrolar das folhas de samambaia, as trepadeiras escalando os muros e cercas e os botões das flores desabrocharem. Sentia o aroma das flores. Em especial das rosas, que reinavam poderosas, dos manacás cheirosos, que me encantavam com suas florzinhas roxas e branquinhas num mesmo arbusto, e das flores de laranjeira que me faziam sentir acolhida e tranquila.

Como criança, que eu era, eu só sabia que era muito feliz e me sentia leve, livre e solta no jardim. Não sabia que lá também, de forma muito natural e muito espontânea, eu meditava, contemplava, vivendo o momento aqui e agora, me banhava de vitamina D, do sol, e N (Natureza) que vinha do solo, fazia aromaterapia e me exercitava enquanto corria, caminhava, subia, me pendurava e me enroscava nos galhos das árvores.

Brincava e cuidava do jardim. E hoje sei que enquanto cuidava do jardim eu cuidava de mim. E continua cuidando da minha criança interior.

É essa vivência e esse cuidado que desejo oferecer e compartilhar com todas as crianças. Um jardim para as infâncias.

E aqui quero expressar minha eterna gratidão à minha mãe e ao meu pai que me proporcionaram e me permitiram ser uma criança na natureza! Além de me ensinarem desde pequenina (na década de 70) a separar o que sobrava. Resíduos orgânicos já eram considerados muito valiosos por meus pais que os enterravam para adubar a terra. Eles sempre cultivaram uma horta, com legumes, verduras e tubérculos. E sempre compartilhavam o excedente com os vizinhos ou parentes.

Deixo dito que todos os benefícios que aqui relatei e ainda muitos outros, têm sido cada vez mais estudados e comprovados pela ciência. Muitos especialistas de diferentes áreas (medicina, educação, psicologia...) têm defendido e receitado a natureza para crianças e para os adultos também. Seja a natureza de um jardim, de um bosque, de uma floresta, de uma horta, de uma praça, de um parque… Todas têm amplas possibilidades e todas são natureza! Nós também somos natureza!

E por fim, sei que o meu amor e envolvimento com a educação ambiental, com o Parcão e com o Projeto Criança e Natureza, além do desejo profundo que sejam instituídos e respeitados plenamente os direitos da natureza e os direitos dos povos originários, tradicionais e também das crianças e adultos que vivem nas cidades, vem primeiramente dessa vivência na infância e em seguida com o conhecimento científico e crítico que fui adquirindo na minha formação acadêmica e continuada.



Ilustração: https://www.instagram.com/rhebedraws/





Ilustrações: Silvana Santos