Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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Apresentação
15/03/2022 (Nº 78) EDITORIAL
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EDITORIAL DA 78ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO

Edição Março-Maio/2022



Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)



Adentramos para o ano de 2022 com grandes desafios e obstáculos para serem enfrentados (pandemia, guerra, injustiça social e ambiental...) e, a cada edição, nos sentimos mais responsáveis pela manutenção da qualidade de vida do mundo em que vivemos.

Diante de tantos desafios é possível compreender que a busca da mudança é um processo contínuo, assim como é o processo da própria vida, que acontece através de ciclos que se repetem, se repetem e se repetem, e nesta ciranda é muito comum repetirmos erros se não aprendermos com eles. Daí a importância da Educação!

Esta tendência de repetição ao erro também pode advir das nossas percepções equivocadas, uma vez que vivemos cada vez mais distantes de um modo de vida natural, que respeita os ciclos da natureza, desde o horário do despertar ao adormecer, até os nossos hábitos alimentares.

Todo este distanciamento da vida natural promove, portanto, alterações nos nossos sentidos e nem sequer nos damos conta disto. Acabamos por afetar a nossa percepção ambiental que estabelece vínculos afetivos com o ambiente vivido através das sensações, das impressões e dos laços afetivos construídos. Assim, conforme destaca o pesquisador Duarte Junior - que se dedica a estudar o saber sensível -, “vivemos num universo que pulsa no ritmo industrial, onde o tempo e o espaço estão cada vez mais comprimidos e fragmentados, ritmo este que não aceita os ritmos naturais básicos como o da respiração ou o batimento cardíaco, nem nosso contato com os ritmos gerais da natureza, do sol, da lua, das marés, das estações e menos ainda com os ritmos sociais marcados pelos rituais de passagem dos estágios da vida coletiva e a relação cultura-natureza”.

Esta edição que ironicamente é lançada no Dia do Consumidor – 15 de março – , cujo objetivo da data converteu-se para nos explorar mais ainda dentro desta cadeia de produção e consumo na qual estamos presos, é um convite à resistência, para que continuemos acreditando na força que busca o bem da coletividade e de toda vida no planeta. É um chamamento para que possamos viver com mais simplicidade, respeitando a natureza e seus ritmos que só nos favorecem com bem-estar. É um convite para respeitarmos a cultura, a educação, o nosso povo, a começar pelos povos indígenas que sofrem cada vez mais, quando o que apenas querem é viver de acordo com suas crenças e tradições e têm seus direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988.

Que possamos refletir, através do poema de uma escritora gaúcha – publicado recentemente em seu mural de uma mídia social –, sobre a situação na qual os indígenas se encontram, bem como toda a natureza.

O GRITO

Leda Noemi Mendes



Inocente, distraído, brincava o menino

No arvoredo cheiroso de seiva, pulava o macaco, trinava o sabiá

Aos bandos, voavam araras barulhentas

Chiava a cigarra, roncava a anta, dormitava a preguiça

Os peixes nadavam no leito fresco do rio

E a vida, contente, dançava entre as criaturas

Ali perto, porém, espreita um ser maligno

Que a natureza despreza e só o lucro venera

Achando-se dono de tudo, vomita fogo no capinzal

Queima a floresta, a aldeia, tudo que é animal

Urra a onça, geme o menino, berra o homem, chora a mulher

Um frêmito de dor perpassa a terra, a morte engole aves, crianças, vegetação

Destrói o presente, rouba o futuro, mata a esperança

Sozinha, eu grito, um grito fraco, sem fé na humanidade

Que este poema ecoe, para dar voz aos que sempre foram atacados covardemente - sem a menor chance de defesa. Agora, mais do que nunca, não podemos perder a fé na humanidade! Não permitamos que poucos “vermes” que fazem tamanho estrago emudeçam os gritos que nascem dessa triste realidade.

Em recente matéria, aos 91 anos, o cacique Raoni Metuktire desabafa: Eu vou contar isso para todos vocês ouvirem: O nosso governo não está melhorando nosso atendimento. Morreu muita gente. Fiquei muito triste. Já estou me recuperando da minha tristeza. O atendimento da saúde à população indígena não é bom aqui. Estou contando isso para vocês ouvirem. Há muito tempo, quando fui ao que se chamava CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Funai (finalizada em 2017), éramos bem atendidos. Os doutores chegavam na aldeia, davam o tratamento e voltavam. Os governos anteriores trabalhavam muito bem. Eu gostava dos trabalhos deles. Eu chegava e entrava no gabinete deles para tratarmos os assuntos. Naquele tempo, a Funai tratava (os povos originários) e nos recebia muito bem. Mas, agora não tem mais, acabou tudo. A Funai está sumindo. Hoje, a Funai não está mais gostando de nós. Não quer mais saber de nós. O presidente da Funai não está mais gostando de nós. Ele não quer saber de nós. Eu estou vendo isso. Assim que eu sair do luto, vou chegar nele, pegar a orelha dele para falar e ver se ele me ouve. É isso. Eu estou planejando assim. Sim, todos nós temos ouvidos para escutar a cabeça e colocar as ideias (Correio Brasiliense, 14/03/2022).

Que esta edição seja uma inspiração, um convite, um chamamento que toque nossas consciências para que sigamos fazendo a nossa parte - e mais um pouco - nesta jornada utópica que adentramos que é a de avistarmos uma vida que seja sustentável em todos os sentidos.

Berenice Gehlen Adams e Equipe Educação Ambiental em Ação.

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Ilustrações: Silvana Santos