A responsabilidade social e a preservação ambiental significa um compromisso com a vida. - João Bosco da Silva
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 85 · Dezembro-Fevereiro 2023/2024
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06/09/2023 (Nº 84) EMPRESAS CEARENSES APOSTAM NA SUSTENTABILIDADE PARA RESSIGNIFICAR O CONCEITO DE MODA
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EMPRESAS CEARENSES APOSTAM NA SUSTENTABILIDADE PARA RESSIGNIFICAR O CONCEITO DE MODA

A indústria da moda movimenta trilhões por ano e gera milhões de empregos no mercado global, mas também cria problemas de poluição e desperdícios que precisam ser enfrentados em nome da sustentabilidade. Reúso de produtos e reciclagem podem ser parte da solução

2 de setembro, 2023

Larissa Viegas, fundadora da marca cearense Ziguezá, e a sócia Carol Farias (Fotos: Edimar Soares)

Candice Machado
economia@ootimista.com.br

A moda é uma indústria poderosa. Movimenta US$ 1,5 trilhão por ano em todo o mundo, gerando cerca de 9 milhões de empregos diretos e indiretos somente no Brasil, segundo dados do Relatório Rio Ethical Fashion 2021 (REF 2021), produzido a partir do maior fórum de moda sustentável da América Latina.

Por outro lado, o setor enfrenta uma questão ambiental significativa. De acordo com levantamento divulgado em 2022 pela Global Fashion Agenda, a indústria da moda é a segunda mais poluente, produzindo mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis em anos recentes, sendo superada apenas pela indústria petrolífera.

O levantamento revela ainda que a produção de roupas deve crescer substancialmente, com a expectativa de 60% de aumento em oito anos. Além disso, pesquisa publicada em 2023 pelo Statista Research Department projeta uma produção global do mercado de vestuário de 193,93 milhões de peças em 2027.

O REF 2021 também destaca que a indústria têxtil consome muita energia, agrotóxicos, produtos químicos e água. Uma única calça jeans, por exemplo, pode beber mais de 5 mil litros desde a plantação até o consumidor. Essa trajetória poderia encontrar um fim diferente com a adoção da economia circular, estrutura em que todos os materiais e suas partes são devolvidos ao ciclo produtivo por meio da reciclagem ou reutilização.

Aquele produto que vai chegando ao fim do ciclo de vida se transforma em outro material, no caso da reciclagem, ou passa por uma transformação para virar um produto mais valoroso, no caso do upcycling, o que traz ganhos ambientais, econômicos e sociais”, avalia Áurio Lúcio Leocádio da Silva, doutor em administração e pesquisador em comportamento do consumidor e sustentabilidade.

Vida longa

Transformar um produto em outro mais valoroso exige modificar a cultura da moda instantânea. “O conceito de upcycling tem a ver com dar valor aos materiais utilizados. Paga-se um pouco mais caro em uma peça, mas ela terá uma vida muito mais longa, uma durabilidade maior”, avalia Larissa Viegas, fundadora da marca cearense Ziguezá, ao lado da sócia Carol Farias.

A empresa trabalha com modelagens para crianças de 6 meses a 5 anos e busca uma produção com zero resíduos. “A gente tenta ao máximo. Todo resíduo, ou seja, excesso de tecido, tem dois destinos. Ou viram acessórios como babador, scrunchies, xuxinhas e faixa de cabelo, ou doamos o que não conseguimos aproveitar em produtos nossos para instituições que trabalham com retalhos”, conta Viegas.

A marca também promove um projeto chamado Zigue-Volta, incentivando a devolução de roupas usadas para serem transformadas ou doadas para organizações não governamentais (ONGs). Os pais devolvem roupas que não cabem mais nos seus filhos e recebem desconto em outro produto. “O upcycling também tem ligação com o social. Eu penso que esse conceito tem tudo a ver com sustentabilidade e economia criativa”, reforça Larissa.

Economia circular

Justiça social é um pilar fundamental dos negócios sustentáveis e também está na gênese da Vida BR, empresa cearense de vestuários que recicla garrafas PET em tecidos e também pratica o upcycling, transformando produtos retornados por seus clientes em ecobags, por exemplo.

Aos dez anos de idade, Rafael Studart, CEO da empresa, visitou com seus pais uma localidade do Ceará afetada pela seca. “Foi muito impactante, voltei para casa agradecendo pela minha água, cama, teto, queria que outras pessoas pudessem viver essa transformação. Eu tinha isso em mente quando decidi lançar a Vida BR “, afirma.

Em 2012, 18 anos depois, ele promoveu uma campanha por meio das redes sociais que destinava o dinheiro da venda de roupas para o fornecimento de água e alimento às populações do sertão cearense que passavam pela pior seca dos últimos 50 anos. Ali nasceu a Vida Br.

Hoje, seus principais produtos são os vestuários sustentáveis com efeito especial na luz solar, uma tecnologia inspirada na fotossíntese e que permite ao tecido exibir suas cores quando a luz do sol bate sobre ele. Além disso, todas as etiquetas são de papel-semente.

Temos parcerias com costureiras em situação de vulnerabilidade, com os costureiros da população carcerária do Presídio de Itaitinga e também com dependentes químicos em tratamento, que produzem o nosso papel-semente. Uma das principais vantagens da economia circular é ver a mudança, a transformação nas pessoas e no meio ambiente”, observa.

Rafael Studart, CEO da Vida BR (Foto: Divulgação)

Confira dicas para um negócio sustentável, lucrativo e livre de greenwashing

Investir em uma empresa sustentável possui inúmeras vantagens, é bom para o meio ambiente e fundamental para o mercado. O desafio é saber equilibrar o propósito financeiro com compromissos ambientais e  socioeconômicos

Empresas buscam lucro. Toda atividade humana gera impacto. A questão é saber como equilibrar o propósito financeiro ao compromisso ambiental e  socioeconômico. Conversamos com o professor Áurio Lúcio Leocádio da Silva, doutor em administração pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador em comportamento do consumidor e sustentabilidade, para indicar caminhos essenciais a quem deseja ter um negócio lucrativo e livre do greenwashing, que na tradução literal significa “lavagem verde”, ou seja, uma espécie de maquiagem ambiental.

Analisar a cadeia de valor da empresa

É preciso investigar as atividades primárias da empresa, aquelas relacionadas ao que entrega ao mercado, em busca do seu diferencial. “Pode ser o marketing, o sistema de compra e venda, a logística, o próprio produto. Feita essa análise, identificado o diferencial, aí é possível pensar uma ação sustentável relacionada a essa área de grande fortaleza. Isso potencializa resultados em termos de imagem, competitividade e, claro, lucratividade, pois oferece produto ou serviço reconhecido que, além de tudo, pode ser também sustentável”.

Mapear o perfil do consumidor 

Uma segunda dica é analisar o perfil do cliente; seja ele uma empresa, ou consumidor final. Isso permite identificar que tipo de investimento pode gerar maior impacto, de forma mais valorosa, para esse público. “Assim, é possível transformar esse investimento sustentável em um investimento de alta rentabilidade. A tendência é que os consumidores, clientes e empresas se disponham a pagar mais, pois percebem esse valor associado que a empresa oferece”.

A empresa precisa comunicar aquilo que faz 

Investimentos sustentáveis precisam ser conhecidos pelo público. “Sem essa comunicação, não há percepção do que é feito. Sem a percepção, não é possível rentabilizar os investimentos. É imprescindível mostrar investimentos reais e resultados reais, apontar a contribuição daquela ação para a sustentabilidade. É fundamental que a comunicação seja verdadeira, constante e intensiva a esse respeito”.

Implementar um negócio sustentável é um processo contínuo 

Essa continuidade é fundamental para que os procedimentos sustentáveis não sejam vistos como algo pontual, feito somente para ganhar a visibilidade. “Uma empresa só pode ser ‘mais sustentável’ ou ‘menos sustentável’. Há uma graduação, e o empreendimento opta por ações comprometidas, mas é preciso que elas tenham constância. Que permitam traçar um histórico do que vem sendo feito desde o início”.

Garantir licenças e adequação ambiental 

Os procedimentos que estão em lei precisam ser cumpridos. “Esse é um cuidado obrigatório. Não se pode implementar um projeto sustentável e infringir procedimentos legais. Erros dessa natureza geram efeito contrário. Um investimento sustentável pode passar a ser visto como danoso à sociedade. É preciso encarar os trâmites legais como parte do processo, não como algo que existe para atrapalhar. O que atrapalha é o descuido com os processos legais”.

Fonte: https://bitlybr.com/guxxi

Ilustrações: Silvana Santos