Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
04/06/2012 (Nº 40) O homem, a arte e a natureza na “Toca do Koelho”
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O homem, a arte e a natureza na “Toca do Koelho”

 

O homem, a arte e a natureza na “Toca do Koelho”

 

Cláudia Mariza Mattos Brandão[i]

Amanda Ribeiro Corrêa[ii]

Carine Belasquem Rodriguez[iii]

Diana Silveira de Almeida[iv]

Juliano Silva Petitot[v]

Mariana Danuza Corteze[vi]

 

 

RESUMO: O presente artigo propõe um diálogo a respeito da relação entre arte e educação ambiental, a partir da apresentação da obra do artista gaúcho Hamilton Koelho e do projeto “Balena Australis” por ele conduzido.

 

 

Assim como as demais espécies, nós, humanos, mantemos com Gaia uma relação interativa, condicionada pela necessidade de sobrevivência e permanência enquanto espécie. No contexto de relações complexas que se traduzem em qualidade de vida, a particularidade que nos diferencia dos outros seres vivos é a capacidade de ação "consciente", por conseguinte cultural, no processo de intervenção ambiental. E é exatamente essa dita CONSCIÊNCIA que nos possibilita compreender o processo de desarticulação da vida natural no planeta vivenciado na contemporaneidade.

A força ativa que estabelece e conserva o equilíbrio e a ordem natural de tudo, a Natureza, está diretamente relacionada ao grau de aceleração da capacidade humana de criação cultural. Durante o desenrolar da história tais criações desenvolveram-se a partir das metas iniciais de comodidade e bem-estar, para, posteriormente, tornarem-se possibilidades de apropriação, de acúmulo de riquezas e de dominação dentro da própria espécie. E isso é evidenciado quando analisamos o agravamento no processo de degeneração dos recursos naturais, e os consequentes desequilíbrios ambientais que resultam do apogeu tecnológico.

Frente a essa realidade as idéias que ganharam espaço nos anos 60 e 70 do século XX, comprovam que o movimento ecológico não é somente fruto de mentes sonhadoras ou utopistas. Diante dos graves desafios que emergem neste início de século, as "utopias ambientalistas" retornam, e os ditos “sonhadores” são reconhecidos pela lucidez de suas idéias.

Não estamos discutindo neste artigo discursos ambientalistas restritos a problematizações acerca de comportamentos traduzidos em economia da água, reciclagem do lixo, consumo de energia ou contribuições para um desenvolvimento sustentável. O que pretendemos é traduzir em palavras e imagens a concretização de um ideal, o sonho de um artista consolidado em atos e obras que frutificam da imaginação criativa e do devaneio poético, assim como aconselha Gaston Bachelard (1989).

 

Mais do que uma educação “a respeito do, para o, no, pelo ou em prol do” meio ambiente, o objeto da educação ambiental é de fato, fundamentalmente, nossa relação com o meio ambiente. (SAUVÉ, 2005, p. 317)

 

            E a relação a qual se refere Lucie Sauvé ganha outra dimensão quando conhecemos melhor a obra e a vida do artista Hamilton Koelho, um gaúcho do extremo sul-rio-grandense, morador do Marco Zero do país, um Museu Atelier que leva o nome “Balena Australis”, localizado na Barra do Chuí - RS/Brasil.

Hamilton Koelho é artista plástico, natural de Santa Vitória do Palmar - RS/Brasil. Nascido em 1956, é graduado em gravura e escultura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em seu trabalho ele utiliza matérias naturais e objetos encontrados nas praias do extremo sul do Brasil, elementos diversificados trazidos pelas águas ao seu encontro. Em suas esculturas é comum a utilização de ossos de baleia (Figuras 1, 2 e 3), e vale ressaltar que as estruturas naturais são preservadas e reconsideradas em suas obras como formas plásticas. O artista intervém respeitando a configuração original da materialidade, suas linhas, curvas e texturas, sendo que em alguns casos são acoplados outros objetos que possuem também o mar como origem.

 

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Figura 1: Diana Silveira

Fotografia digital, 2012.

 

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Figura 2: Juliano Petitot

Fotografia digital, 2012.

 

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Figura 3: Carine Rodriguez

Fotografia digital, 2012.

 

A inspiração das esculturas de Koelho (Figura 4) reside nas formas orgânicas de ossos, restos de naufrágios, cordas, redes e tudo o que o mar trouxer para presenteá-lo. Assim, percebe-se a força sensível que as obras impõem, mesmo sendo construídas com restos mortais de animais. Embora remetendo à morte, nem sempre natural, a chegada desses ossos até a beira mar são ressignificados em vida poética no reencontro da matéria com a sensibilidade do artista. E é especial a posterior transformação desses materiais quando dispostos em um espaço onde o sensorial subjetivo analisará as formas naturais como prenúncios da vida criativa.

 

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Figura 4: Mariana Corteze

Fotografia digital, 2012.

 

Essa é uma observação e interpretação que ocorre lentamente quando adentramos nesse lugar tão peculiar. Ela acontece também pela percepção do espaço ao redor, um pedaço de terra longe de tudo, onde o vento e areia se encontram e reconfiguram a paisagem, nos dando a possibilidade de compreender a naturalidade da vida em sua essência. Como diz o artista, a arte em sua simplicidade não precisa ser entendida, apenas sentida. E nesse espaço as obras muitas vezes resultam de combinações ímpares, fruto da disparidade física que se unem na leveza do ato criativo (Figura 5).

 

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Figura 5: Cláudia Brandão

Fotografia digital, 2012.

 

O Museu esta sediado em uma edificação simples que se encontrava abandonada quando Koelho a ocupou. Era uma antiga base militar localizada há poucos metros da ponte fronteiriça entre Brasil e Uruguai, fazendo com que o artista seja conhecido como o primeiro ou o último morador do Brasil, dependendo do ponto de vista. A extensão total do terreno é de quatro hectares, e ao fundo podemos observar o Oceano Atlântico, a espraiar-se numa extensão de praia de quase duzentos e cinquenta quilômetros, por onde o artista transita em busca de sua matéria-prima. A casa é divida em algumas peças, por onde estão distribuídas suas obras de acordo com as épocas em que foram produzidas. As amplas janelas iluminam o interior e o integram ao ambiente natural circundante.

 

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Figura 6: Mariana Corteze

Fotografia digital, 2012.

 

O amplo espaço que se descortina ao olhar é pontuado por obras de arte (Figura 6), dando a impressão de expansão da própria construção. A “toca do Koelho” nos faz pensar: Afinal, onde se localiza a CASA? Ela necessariamente precisa ser delimitada por paredes? As paredes não são nada além do que delimitações e definições do lugar onde vivemos. Então, nesse lugar tão especial talvez a casa seja o próprio universo, sem quartos, sem paredes e, sim, a céu aberto.

Bachelard (1989) nos diz que a casa é o nosso primeiro universo. Vive a casa em sua realidade e em sua virtualidade através do pensamento e dos sonhos, e é ela quem abriga o devaneio. Ela protege o sonhador, nos permitindo sonhar em paz. E isso se confirma no Museu Atelier do mestre Koelho (Figuras 7 e 8). O universo/casa que lá se apresenta aos passantes é como que uma ilha de silêncio, paz e beleza.

 

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Figura 7: Diana Silveira

Fotografia digital, 2012.

 

 

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Figura 8: Amanda Corrêa

Fotografia digital, 2012.

 

Além da edificação do museu encontramos as instalações onde o artista reside e trabalha. É uma casa/atelier sonhada e construída com materiais achados na praia, em sua maioria pedaços de madeira que originalmente faziam parte do casco de um navio uruguaio que naufragou na costa gaúcha. Isso, sem falar em outras construções artesanais (Figura 9) que poetizam o olhar e as palavras de Bachelard, quando nos conta que “A cabana branca estava assentada no fundo de um pequeno vale formado por montanhas bastante altas; estava como que vestida de arbustos” (BACHELARD, 1989, p. 222).

 

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Figura 9: Carine Rodriguez

Fotografia digital, 2012.

 

Ainda nas imediações do museu, há uma construção de permacultura[vii] (Figura 10) não finalizada. Conta o artista que um artesão viajante - que por lá permaneceu por mais tempo do que o planejado - começou este projeto de casa construída a partir de galhos, barro e garrafas de vidro.

 

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Figura 10: Cláudia Brandão

Fotografia digital, 2012.

 

Os materiais são todos visíveis (Figura 11) e geram um resultado estético surpreendentemente rústico e em total acordo com esse lugar tão especial. Koelho comenta que a concretização desta ideia, desta construção como um centro de permacultura, permitirá o maior desenvolvimento do ambiente através da autogestão pretendida, visando uma imersão mais profunda dos visitantes nesse espaço.

 

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Figura 11: Amanda Corrêa

Fotografia digital, 2012.

 

O Museu Atelier trabalha para a ocupação do espaço de forma cultural e reflexiva. Para isso, a educação ambiental em seu amplo sentido é um tema privilegiado, na consideração da importância da estética no processo de formação integral do ser humano. Assim sendo, as portas do Museu Atelier Balena Australis estão abertas ao público em geral, sendo divulgado nas escolas e instituições educativas da região. Essa proposição abarca uma série de atividades e oficinas para estudantes de diversas séries e idades (Figura 12), possibilitando assim uma abordagem interativa entre arte, vida e educação. Essas experiências são mediadas pela companheira do artista, Malena Mesquita. Além disso, uma série de outros eventos culturais é sediada neste espaço.

 

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Figura 12: Amanda Corrêa

Fotografia digital, 2012.

 

            Para as pessoas que conhecem o local torna-se visível a indissociabilidade entre vida&trabalho estabelecida pelo artista. O espaço propõe um constante vivenciar o mundo a partir do trabalho, podendo este ser considerado como uma ação/movimento realizada para impulsionar algo a acontecer, e que poderá desencadear uma série de outros acontecimentos que já não dependem mais de quem o fez no principio. Assim, o espaço propõe experienciar relações a partir da convergência das diversidades naturais que ali se fazem presentes – a natureza, a arte, o homem e os animais – de forma que as próprias relações estabelecidas por estes componentes, quando pensadas em suas potências naturais, são capazes de tornar o ambiente autogestionável, a grande aspiração do artista.

            Este artigo é fruto de viagens de estudos realizadas pelos integrantes do PhotoGraphein – Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq à “Toca do Koelho”. Nela nós encontramos uma pessoa muito especial que dedica a sua vida à arte de ser humano na plenitude de sua potência criativa. Alguém que acredita no sonho como uma instância capaz de transformar a dura realidade do mundo caótico que nos rodeia. Hamilton Koelho nos mostra que a pesquisa acadêmica não precisa se restringir aos textos e discussões teóricas. Mais do que isso, com ele aprendemos a necessidade de fruir o mundo ao redor em sua intrínseca e complexa beleza, que, como um sopro de vida, nos impulsiona em busca do devaneio poético como um componente fundamental para a construção do conhecimento científico.

 

 

Referências:

 

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

 

Entrevista com Malena Mesquita. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=8gf1rA7o2gs&feature=related. Acesso 14 mai/2012.

 

O último brasileiro. ISTO É Independente. Disponível em: http://www.istoe.com.br/reportagens/33113_O+ULTIMO+BRASILEIRO. Acesso em 14 mai/2012.

 

O Homem e a Baleia. Documentário da TV Futura – Brasil. Disponível em:

http://www.youtube.com/watch?v=KMuNYFZI_K0&feature=related. Acesso em 10 mai/2012.

 

PAMPOLA, Sergio. O que é Permacultura?. Disponível em: http://www.permear.org.br/2006/07/14/o-que-e-permacultura. Acesso 14 mai/2012.

 

SAUVÉ, Lucie. Educação e Pesquisa. São Paulo, v. 31, n. 2, p. 317-322, maio/ago. 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/%0D/ep/v31n2/a12v31n2.pdf

 



[i] Mestre em Educação Ambiental, professora assistente do Centro de Artes, Universidade Federal de Pelotas, coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, grupo de pesquisa UFPel/CNPq. attos@vetorial.net

[ii] Licenciada em Artes Visuais (UFPel), pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq. amandarcorrea@hotmail.com

[iii] Licenciada em Artes Visuais (UFPel), pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq. cacabelasquem@yahoo.com.br

[iv] Acadêmica do curso de Artes Visuais – Modalidade Licenciatura (UFPel), pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq. dianasilveira_13@hotmail.com

[v] Acadêmico do curso de Artes Visuais – modalidade Licenciatura (UFPel), pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq. julianopetitot88@hotmail.com

[vi] Acadêmica do curso de Artes Visuais – Modalidade Licenciatura (UFPel), pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação, UFPel/CNPq. maricorteze@hotmail.com

[vii] Permacultura é uma espécie de construção que tem como característica a integração de sistemas ecológicos a fim de criar um sistema autossustentável. O termo permaculta foi criado na década de 70 por dois ecologistas australianos, Bill Mollison e David Holmgren, para referenciar “um sistema evolutivo integrado de espécies vegetais e animais perenes úteis ao homem” (PAMPOLA, 2006).

 

Ilustrações: Silvana Santos