Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
10/09/2018 (Nº 45) AS PINTURAS MURAIS DE EDUARDO KOBRA
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AS PINTURAS MURAIS DE EDUARDO KOBRA

 

 

Juliano Silva Petitot[i]

Cláudia Mariza Mattos Brandão[ii]

 

 

RESUMO: No artigo apresentamos algumas produções do artista de rua Eduardo Kobra, analisando-as como produções simbólicas que nos remetem aos modos de pensar e agir dos sujeitos contemporâneos

 

 

 

(...)Bachelard não fala do espaço apenas diurnamente, enquanto categoria física e matemática, espaço neutro, impessoal; resgata, no nível do imaginário poético e filosófico, o espaço enquanto lugar: situado, singular, povoado por lembranças pessoais, sítio de experiências, colorido por emoções datadas. Esse espaço, que se desdobra e singulariza em casa, concha, ninho, cofre, gaveta..., é cenário da vida do corpo, morada de afetos, fonte de poiesis artística ou filosófica, fundamento da natureza enquanto paisagem. (PESSANHA in: NOVAES, 1988, p.156)

 

 

 

A partir do pensamento bachelardiano é possível percebermos o espaço, em especial a paisagem urbana, como uma construção simbólica que frutifica dos modos subjetivos de ver (BACHELARD, 1993). Portanto, apreender o espaço, está mais para o plano simbólico do que para o real observado. E é nesse universo de interferências dos seres humanos sobre o espaço, construindo e re-construindo a paisagem, que demarcamos a importância da Street Art e de seus artistas. Isso, pois na amplitude do que abarcam:

 

 

Os símbolos que vemos na rua e nas paredes não estão em caso algum desvinculados do tempo a que dizem respeito. Quer seja sobre as ideias políticas, quer do que se entende como estético ou dos objectivos que se perseguem no momento, esses símbolos dão-nos, com frequência, uma solução, antes de que aquilo que representam se transforme em bem comum da cultura oficial. (STAHL, 2009, p.8)

 

 

Sendo assim, é possível afirmar que a atividade criativa que tem como suporte o espaço urbano, mais do que um expoente da criação artística, é um importante indicador histórico. E no contexto histórico contemporâneo a presença dos artistas de rua e de suas criações é fundamental para que no corre-corre cotidiano possamos refletir sobre o mundo ao redor. No rol de inúmeros artistas brasileiros escolhemos um em particular, o paulista Eduardo Kobra (1976), para através de suas produções discutirmos a presença da Arte no cotidiano das cidades contemporâneas, não como imagens que embelezam o ambiente, mas, sim, como exemplares da criatividade humana que nos instigam à reflexão.

 

 

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Figura 1: Eduardo Kobra

Mural Avenida 23 de Maio, 2009 – São Paulo

Fonte: www.eduardokobra.com

 

 

            Eduardo Kobra é um artista autoditada que começou como artista de rua aos onze anos de idade, pixando e fazendo graffiti. Na década de 90 Kobra adotou a pintura mural em suas práticas, na mesma época em que criou o Studio Kobra. Como um artista dedicado ao muralismo, desde então desenvolveu inúmeros projetos, dentre eles o que denominou “Muros da Memória” (2005), no qual pintou releituras de fotografias históricas da cidade de São Paulo (figura 1).

“Muros da Memória” é o maior mural produzido pelo artista, medindo aproximadamente 1.000 m², localizado na Avenida Vinte e Três de Maio (São Paulo, SP). O mural retrata cenas da década de 20, nas quais é possível perceber os trajes típicos, os carros e ainda as construções da época. Pintada em tons de preto e branco, a obra nos passa a impressão de uma fotografia antiga. Segundo declaração do artista em seu site, a ideia do projeto surgiu depois que visitou uma exposição de fotografias antigas em São Paulo, onde ele pode ver casarões e árvores antigas que hoje já não existem mais. Como ele próprio afirma: “Percebi que quase tudo havia se perdido, daí a ideia de reconstruir artisticamente e pintar o que eles haviam demolido, criando uma janela para uma cidade que já não existe mais” (Kobra).

Tais imagens convocam as histórias particulares entrelaçadas e contextualizadas na reconstrução do passado, possibilitando se identificar rastros da própria identidade. No final, o que vemos não é nem a fotografia em sua inércia, nem a realidade aprisionada no plano do papel sensível; é, sim, a imagem fotográfica traduzida nos termos da experiência do artista. A obra de Kobra se encontra em algum lugar entre as percepções, entre o que lembramos e o que aprendemos, entre o vocabulário comum e um feito por símbolos que movimentam/instigam formas de agir, viver e sentir, e que podem ser mobilizadas pelas demandas do meio.

            Quando admiramos “Muros da Memória” podemos entender as imagens como emanações de experiências passadas. Revisitando as imagens do passado, através da imagem fotográfica, o artista possibilita aos transeuntes atualizarem no presente suas recordações particulares, alargando e enriquecendo a percepção sobre o vivido. Reinterpretadas pelo artista, tais imagens inscrevem significações para além das aparências. Como suportes simbólicos evitam o silenciar da história, das vivências e descobertas, que possibilitam ao espectador a reflexão e a desconstrução dos fatos para novas reconstruções críticas.

 

 

 

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Figura 2: Eduardo Kobra

Mural “Tourada”, 2011 – São Paulo

Fonte: www.eduardokobra.com

 

 

Outro projeto muito conceituado de Kobra é o GreenPincel, iniciado em 2011. Nomeado como uma alusão a ONG Greenpeace, a produção é composta por uma série de murais através dos quais ele denuncia e aponta algumas atrocidades do ser humano com relação à natureza e aos animais, como podemos constatar no mural intitulado “Tourada” (Figura 2).

Nesse mural o artista retrata uma cena típica das touradas que acontecem, principalmente, na Espanha. Nele, o touro esta se rebelando contra o toureiro em situação muito diferente do que ocorre em tais ocasiões. Na direita do mural uma frase de alerta: “Não é arte, não é cultura, é TORTURA”. No lado esquerdo uma placa avisando: “APLAUSOS”, como se fosse uma forma de comemorar a vitória do touro. Ao centro percebemos que o touro, ainda com uma espada enfiada no nas costas, tem forças para empalar o toureiro com seu chifre. O touro esta com uma coroa na cabeça, passando a ideia de que dessa vez conseguiu reinar sobre a tortura. Mais abaixo um toureiro parece enxugar as lágrimas com a bandeira vermelha e amarela usada para chamar a atenção do touro.

Ainda dentro da mesma proposta encontramos outro mural bastante significativo e com uma linguagem visual muito acessível para aqueles que transitam pelo local, a Rua Alvarenga, no bairro Butantã em São Paulo (Figura 3).

 

 

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Figura 3: Eduardo Kobra

Mural Butantã, 2011 – São Paulo

Fonte: eduardokobra.com

 

 

Nesta pintura muralista se identifica a representação de sete chaminés de fábricas “produzindo” densas nuvens de fumaça, identificadas com bandeiras de diferentes países. No primeiro plano, os três principais países que mais poluem a camada de ozônio: Estados Unidos, China e Japão, colocados precisamente nessa ordem. No segundo plano é possível identificar as bandeiras da Alemanha, Rússia, Irã e Inglaterra, da esquerda para a direita. Na direita do mural se percebe a representação de um homem vestido com uma espécie de macacão e usando uma máscara de gás, numa clara alusão à poluição do ar e aos jogos políticos que impedem ações mais incisivas no sentido de amenizar uma realidade preocupante.

Como artefatos culturais as pinturas produzidas por Eduardo Kobra são representações que abarcam uma gama de questões sociais com ampla abrangência cultural. Isso aponta para as possibilidades dessas produções artísticas como amplificações dos sentidos daquilo que vemos e do que nos acontece. O artista produz trabalhos com forte impacto social, problematizando os modos de ser e viver contemporâneos, discutindo as questões ambientais a partir de um ponto de vista ético.

 

 

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Figura 4: Eduardo Kobra

Mural edifício Ragi, 2013 – São Paulo

Fonte: flickr.com/photos/studiokobra

 

 

Um dos últimos projetos desenvolvidos pelo artista foi a pintura na parede lateral do edifício Ragi, no início da Avenida Paulista, em homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer e aos quatrocentos e cinquenta e nove anos da cidade de São Paulo (Figura 4). Além dos murais Kobra também produz telas convencionais abordando as mesmas temáticas, e desenhos 3D dispostos em calçadas. Suas obras estão espalhadas por diversos países, sejam os murais nas ruas, ou outras produções que compõem os acervos de vários museus europeus.

As imagens de Kobra nos intimam e, muitas vezes, somos intimidados por elas. Elas nos provocam e nos expõem como animal symbolicum (CASSIRER, 1997), produtores de processos simbólicos que nem sempre são percebidos como organizadores do conhecimento, e elaboradores do espaço relacional e da própria paisagem. Assim sendo, interpretarmos as imagens produzidas pelo artista na sua interface com a memória cultural e suas representações, mobilizando questões fundamentais para a compreensão da própria condição humana e das produções culturais.

            A pertinência das ideias de Ernst Cassirer, ao problematizar as implicações simbólicas do pensamento na constituição do que nos faz humanos, expõe a complexidade das relações dos sujeitos contemporâneos com o mundo ao redor.  Mergulhados num mundo de imagens, fruto de nossos processos interativos e relacionais com o meio, fica difícil não aceitar que a faculdade da fala, que sempre ocupou uma posição de destaque nas relações humanas, não supera a capacidade poético-narrativa das imagens. A percepção da instância simbólica que as imagens de Kobra manifestam reivindica a nossa disposição a sonhar.  Reivindicando o direito ao sonho, estaremos recusando a imaginação cópia, e penetrando nos meandros da imaginação criadora, dinâmica, fundadora do devaneio e da compreensão de que a realidade é uma potência do sonho (BACHELARD, 1996).

 

Referências

 

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

_______. A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

PESSANHA, José Américo Motta. Bachelard e Monet: o olho e a mão. In: NOVAES, Adauto et al. O Olhar. São Paulo: Cia. das Letras, 1988, p. 149-166.

STAHL, JOHANNES. STREET ART. Alemanha: Ed. H.F. ULLMANN, 2009.

http://eduardokobra.com/ Acesso: 16/08/13.

http://www.galeriandr e.com.br/eduardo-kobra/ Acesso: 17/08/13.

http://www.flickr.com/photos/studiokobra Acesso: 16/08/13.

 



[i] Graduado em Artes Visuais – Modalidade Licenciatura, pesquisador do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação( UFPel/CNPq).

[ii] Doutora em Educação, mestre em Educação Ambiental, professora do Centro de Artes/Artes Visuais – Licenciatura, da Universidade Federal de Pelotas. É coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação( UFPel/CNPq) e do PIBID 3/UFPel, subprojeto Artes Visuais. attos@vetorial.net

Ilustrações: Silvana Santos