Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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Arte e ambiente
04/06/2014 (Nº 48) REFLEXÕES SOBRE CEGUEIRAS À LUZ DO IMAGÉTICO MUNDO CONTEMPORÂNEO
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REFLEXÕES SOBRE CEGUEIRAS À LUZ DO IMAGÉTICO MUNDO CONTEMPORÂNEO

 

 

Tatiana Brandão de Araujo[i]

Cláudia Mariza Mattos Brandão[ii]

 

 

Resumo: No artigo desenvolvemos uma reflexão acerca de diferentes modos de ver o mundo, a partir das relações estabelecidas por José Saramago na obra “Ensaio sobre a Cegueira”.  

 

 

            O fato de que convivemos em um mundo permeado por imagens é inquestionável, e esse assunto está na pauta de muitas das discussões acerca da educação no país. É um tema que, embora seja muito abordado pelos profissionais da educação na atualidade, sempre merece a nossa atenção.

Falar sobre a instância do visível requer uma atenção para o que não é enquadrado pelas imagens, o fora de campo. Mulheres e homens são ensinados desde cedo a entender o mundo através de uma perspectiva, desta forma aprendem a ler a sociedade e os outros a partir desse único ponto de vista. No entanto, essa única leitura - constituída como um conhecimento supostamente verdadeiro - é uma forma de cegueira. Portanto, embora rodeados por um complexo mundo visual, nem sempre os sujeitos estão capacitados a decodificar os textos não-verbais, aceitando passivamente uma interpretação geral, norteadora de mentalidades e comportamentos. Isso, pois:

                       

Vivemos a abundância das imagens que não temos mais como imaginar, isto é, de nos apropriar pelo trabalho da memória. O tempo moderno caracteriza-se pelo espetáculo que não significa outra coisa que o esquecimento programado das imagens assim que elas aparecem sobre as telas de nossos instantes vividos (BAVCAR, 2005, p.156).

 

            A afirmação do fotógrafo cego Evgen Bavcar nos ajuda a pensar no status que as imagens alcançaram no mundo contemporâneo Ocidental, destacando o fato de que qualquer imagem relaciona-se a algo, criando com o espectador uma relação dialógica. Desde o primeiro momento em que abrimos os olhos armazenamos imagens em nosso cérebro (APKON, 2013) com base nas relações estabelecidas no momento da recepção e nossa memória, sendo que sempre essas imagens estarão sujeitas a uma interpretação pessoal. A questão é que mesmo sem pensarmos sobre as imagens que chegam até nós, o nosso cérebro estabelecerá essas relações, muitas vezes, não pensamos racionalmente no que desencadeou tal fato. O desafio que se coloca é pensar nos mecanismos utilizados para causar tais reações.

O entendimento das imagens como articuladoras de diálogos é fundamental para a compreensão desses textos não-verbais como integrantes de discursos. O problema colocado por Apkon é que somos “bombardeados” imageticamente a todo instante, sem termos tempo para refletir sobre o visto. Relacionado a esta questão está a ideia de Espetáculo, articulada por Guy Debord: “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 1997, p.14). E se considerarmos que o livro foi escrito na década de 1960, podemos refletir sobre o impacto de suas ideias hoje. Nas sociedades contemporâneas os sujeitos não têm escape frente ao Espetáculo, logo, é fundamental a consciência acerca do fato de que as mensagens espetaculares não têm caráter natural ou verdadeiro, e que devemos desconstruí-las desvelando outros caminhos para além do espetáculo.

Se as imagens são vestígios de luz, como apontou Bavcar, é possível relacionar o seu pensamento à discussão que José Saramago apresenta em seu romance ”Ensaio Sobre a Cegueira” (2005), no qual metaforicamente relaciona o impacto das imagens/luz sobre os nossos olhos como causa de uma cegueira provocada pelo excesso de luz/visualidade.

 

 

1.1 A Cegueira Branca

 

Num movimento rápido, o que estava á vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos (SARAMAGO, 1995, p.12).

 

            Assim Saramago descreve o primeiro homem a ficar cego, na crise abordada no romance. Na ficção elaborada pelo autor uma cegueira atinge a humanidade, provocando o caos no mundo todo. As pessoas inicialmente contaminadas pelo mal, com origem desconhecida, são colocadas em uma espécie de prisão, isoladas do resto da sociedade, e somente uma personagem não é contaminada, permanecendo assim até o final da história. Dentre tantas discussões propostas pelo autor, destacamos a sua ideia de “cegueira” e o motivo pelo qual os “doentes” não tinham sua visão eliminada por uma escuridão, mas sim por uma “imagem” branca, leitosa, um clarão de luz.

José Saramago deixa claro no texto que não se trata de uma “cegueira de trevas”, e que ela tem uma especificidade, um motivo que a leva a criar uma intensa luminosidade ao invés de tornar tudo escuro. E em inúmeras partes do romance, o autor nos apresenta situações em que, devido à cegueira, outros sentidos são mais estimulados. Essa noção pode ser comum se pensarmos na cegueira física, porém, o escritor direciona a discussão no sentido da percepção do que nos rodeia, não somente as coisas e as representações, mas também as pessoas.

E qual seria a causa disso tudo? Sobre o que a “cegueira branca” nos leva a refletir? E por que no final do livro, temos os personagens retomando a visão? O autor português nos apresenta uma situação, mas não afirma que não existe saída. Sendo assim, podemos pressupor que existe um caminho para além da cegueira. Através das relações apresentadas ao longo da obra é possível entendermos que a “cura” está em utilizarmos o sentido da visão de modo mais amplo, não apenas vendo as coisas que nos rodeiam, mas percebendo-as em suas integridades, tentando entender o que os textos visuais propõem aos espectadores.

Jacques Aumont considera que “a percepção visual é o processamento, em etapas sucessivas, de uma informação que nos chega por intermédio da luz que entra em nossos olhos” (2012, p.16). Isso indica um dos fatores da argumentação proposta por Saramago, pois se as imagens nos chegam através da luz, e vivemos em uma sociedade cada vez mais povoada por elas, a causa do problema é exatamente o fato de não refletirmos criticamente sobre essas produções. A “visão é mais do que visão física: ela envolve uma forma de compreensão ou de pensamento” (BARBARAS, 2005, p.69). Portanto, se todas as imagens estabelecem diálogos com os espectadores, então, ignorar a intrínseca potência discursiva de sua natureza dialógica consiste em aceitar os discursos imagéticos como verdades absolutas.

Desde o início José Saramago deixa claro que essa “cegueira branca” não é um problema individual, mas sim social, pois como afirma durante o texto, “não há cegos, mas cegueiras” (1995, p.308). A “cegueira branca” é fruto de uma educação restritiva, que não investiga o impacto formativo das imagens que provocam o nosso olhar. Somos receptores passivos, cegos pelo excesso de luz produzida pelas imagens, e como são tantas, não conseguimos ir além da superfície.

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem” (SARAMAGO, 1995, p.310). Esse diálogo acontece no final do romance, depois que os personagens já recuperaram a visão. É interessante ressaltar que esta é uma das últimas falas do livro, como se apesar da recuperação da visão, a cegueira de certa forma continuasse. O problema abordado pelo autor no livro é muito mais grave do que uma questão de ter a capacidade de enxergar, e por isso ele pondera sobre o fato de que a possibilidade de leitura com “novos olhos” ainda seja uma experiência a ser aprendida.

Uma cena marcante do romance descreve a personagem que enxerga em uma igreja, quando percebe que todos os santos estavam com os olhos cobertos. Outras interpretações são cabíveis à situação, mas aqui vamos pensá-la a partir da afirmação: “as imagens vêem com os olhos que as vêem” (SARAMAGO, 1995, p. 302). Ou seja, sem o espectador para interagir com o texto visual, o mesmo perde o sentido. E tal afirmação pode ser relacionada com uma frase de Jacques Aumont, quando diz: “não há imagem sem percepção de uma imagem” (2012, p.72). Afinal, para que servem as imagens em um mundo de cegos?

“Quanto aos museus, é uma autêntica dor de alma, de cortar o coração, toda aquela gente, gente, digo bem, todas aquelas pinturas, todas aquelas esculturas sem terem diante de si uma pessoa a quem olhar” (SARAMAGO, 1995, p.232). Nessa passagem ele nos alerta para o fato de que as obras de arte resultam da expressão de um ponto de vista, portanto, é necessária a presença do interlocutor/espectador para que o diálogo se efetue. Assim sendo, o autor destaca o fato de que precisamos ser menos passivos frente aos textos visuais, necessitamos interagir com os mesmos e tentar compreender o que estes nos dizem sobre a sociedade e sobre a pessoa que o produziu. Questionar as imagens, tentar lê-las nas especificidades das linguagens que as tornam visíveis, não é um requisito banal, deve ser algo ensinado desde a infância, visto que elas nos acompanham praticamente desde o nascimento.

 

 

1.2 Sobre os modos de ver

 

            Pode ser um consenso que as imagens estão espalhadas por todos os lugares, e que é impossível nos desvencilharmos delas. Porém, de que forma nos relacionamentos com as mesmas? Ficamos esperando por textos explicativos? O que acontece muito (em livros, revistas, publicidade, etc) é que as imagens vêm acompanhadas da palavra, sendo que geralmente a segunda explica a primeira. Ou seja, muitas vezes dependemos das palavras para nos guiarem na leitura da imagem, portanto, o significado da produção imagética fica a cargo do autor do texto verbal, limitando, assim, o poder comunicativo dos textos não-verbais a explicações simplificadas. E nessa equação, a imagem fica relegada a ilustração das palavras, perdendo sua força plural de significados.

            Como afirma Lucrécia Ferrara, “o texto não-verbal é uma experiência quotidiana, a leitura não-verbal é uma inferência sobre essa experiência” (2002, p.13), esclarecendo que assim como toda a produção de imagens parte do ponto de vista pessoal do autor, os espectadores ao interpretá-las o farão a partir de sua bagagem cultural. “A imagem não é então uma coisa, é uma relação com outra coisa” (WOLF, 2005, p.21), portanto, sua produção nunca deve ser considerada neutra, e deve ser pensada inserida em um contexto. Cabe a nós tentarmos entender os possíveis significados que são produzidos no campo visual. Isso, pois:

 

... as imagens estão cada vez mais abandonadas a si mesmas, a seu próprio poder de representar, e criam a ilusão fundamental de não representar, de não ser imagens fabricadas, de ser simples reflexo, transparente, aquilo que elas mostram, de emanar diretamente, imediatamente, daquilo que elas representam, de ser o puro produto direto da realidade, como outrora acreditávamos que emanavam diretamente dos deuses que representavam (WOLF, 2005, p.43).

 

            Já sabemos que elas não “emanam dos deuses”, e não podemos esquecer que a noção do real sempre é ideológica (AUMONT, 2012). A defesa de um real único e abrangente acarreta a legitimação de uma realidade em detrimento de outras. E nesse imaginário transformado em verdade, diferenças são apagadas e um número considerável de narrativas é relegado ao silêncio das representações. Como Jacques Aumont nos lembra, “ao copiar, nós fabricamos” (2012, p.211), então nem aquelas imagens que seriam supostos registros podem ser entendidas como retratos fiéis. Elas serão sempre recortes, fragmentos de uma realidade.

            Como ressalta John Berger, “nós nunca olhamos para apenas uma coisa; nós sempre estamos olhando para a relação entre as coisas e nós mesmos” (1972, p.2). As imagens sempre nos despertam sensações, memórias, relações, mesmo que não estejamos pensando racionalmente sobre elas, sendo que “apesar de toda imagem incorporar uma forma de ver, a nossa percepção ou apreciação de uma imagem depende também da nossa própria maneira de ver” (id., p.5). Portanto, além da imagem não existir sem um espectador, e será somente nessa troca que ganhará sentido, a leitura depende da pessoa que refletiu sobre o texto. Logo uma imagem pode suscitar diferentes respostas, sendo assim, ela não possui um significado fixo.

Se como Berger discute, cada imagem possui um modo de ver, durante a História existiram modos de ver que foram silenciados, sujeitos questionadores que foram colocados à margem das sociedades. Foi apenas no século XX que sujeitos marginalizados conseguiram ter suas falas autorizadas, através das quais foi possível expressar outros “modos de ver” o mundo e as pessoas, desafiando a base de uma sociedade hierarquizada na qual o homem branco e heterossexual residia como a referência da produção do olhar. Ou seja, nos referimos a artistas que independente da linguagem utilizada procuram até hoje desconstruir as normas. São mulheres e homens que através de suas produções artísticas demonstram o quão frágeis são as naturalizações.

Como afirmou Renaud Barbara (2005), existe uma invisibilidade constitutiva da visão, afetando a nossa percepção acerca dos discursos que repousam por detrás das imagens. E essa invisibilidade diz muito também sobre o que estamos vendo a todo instante, pois “em vez de acrescentar ao visível outro visível, as artes visuais tentam mostrar a essência da visibilidade, ou seja, a sua dimensão de invisibilidade, no seio e por meio do visível” (BARBARAS, 2005, p.78). Mas o problema não está apenas nas imagens em si:

 

... mas sim no excesso de sua produção e no novo sentido que se quer dar a elas. As imagens sempre exigiram de nós tempo para ver, o tempo lento da vidência e da evidência, isto é, o tempo necessário para o desvelamento das idéias contidas em cada uma delas (NOVAES, 2005, p.11).

 

             Stephen Apkon (2013) alerta para o fato de que dedicamos mais tempo às palavras do que às imagens, e não percebemos o poder que as mesmas têm na sociedade atual. Se as imagens estão mediando as relações interpessoais, é imprescindível compreender as mesmas enquanto textos, com códigos próprios, que precisam ser decodificados pelos espectadores, pois muitas vezes elas estão impregnadas por normas sociais excludentes (NOVAES, 2005).

Sendo assim, num mundo permeado por injustiças sociais, agressões ambientais e desajustes nas relações interpessoais, o entendimento de que as imagens visuais revelam a identidade dos sujeitos sob o ponto de vista do artista num tempo-espaço que lhe é próprio, é um requisito que consideramos fundamental para o respeito às diferenças. E isso está diretamente relacionado ao entendimento de que o ser humano é um dentre os muitos que compõem a “teia da vida”. A partir da experiência de decodificação dos textos não-verbais os sujeitos são sensibilizados/despertados para outros/novos modos de compreensão do mundo ao redor, e estimulados em seus processos de subjetivação. Portanto, refletir sobre a visualidade contemporânea é (re)significar o que somos, com base no mundo por nós (re)construído cotidianamente, fisicamente ou no âmbito das ideias, ou seja, no âmbito das mentalidades que geram comportamentos, um assunto de interesse aos estudiosos da educação ambiental.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

APKON, Stephen. The Age of the Images: Redefining Literacy in a World of Screens. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013.

AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas, SP: Papirus, 2012

BARBARAS, Renaud. O Invisível da Visão In NOVAES, Adauto (org.). Muito Além do Espetáculo. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.

BAVCAR, Evgen. A Imagem, vestígio desconhecido da luz. In NOVAES, Adauto (org.). Muito Além do Espetáculo. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005

NOVAES, Adauto. A Imagem e o Espetáculo In NOVAES, Adauto (org.). Muito Além do Espetáculo. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005.

FERRARA, Lucrécia D’Aléssio. Leitura Sem Palavras. Editora Ática: São Paulo, 2002.

SARAMAGO, José. Ensaio Sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 

 

 



[i] Bacharel em História, mestranda em Literatura, Universidade Federal de Santa Catarina. É pesquisadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). tati.vs.86@gmail.com

 

[ii] Doutora em Educação, mestre em Educação Ambiental, professora do Centro de Artes/Artes Visuais – Licenciatura, da Universidade Federal de Pelotas. É coordenadora do PhotoGraphein - Núcleo de Pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq). attos@vetorial.net

Ilustrações: Silvana Santos