Nós nunca sabemos o valor da água até que o poço está seco. (Thomas Fuller)
ISSN 1678-0701
Volume XIX, Número 74
Março-Maio/2021
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31/03/2021 (Nº 74) VOLUNTARIADO COMO INSTRUMENTO DE GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO, UTILIZANDO O PARQUE ESTADUAL ILHA ANCHIETA COMO ESTUDO DE CASO.
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VOLUNTARIADO COMO INSTRUMENTO DE GESTÃO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO, UTILIZANDO O PARQUE ESTADUAL ILHA ANCHIETA COMO ESTUDO DE CASO.

Hayla Paixão Vieira Viveiros¹, Priscila Saviolo Moreira², Lucas Citele Candido², Humberto Gallo Jr.³



¹ Pós - Graduação, Gestão Ambiental, Universidade Estácio de Sá. E-mail: haylapaixao@gmail.com. (35) 99203-3637.

² Gestora da Unidade de Conservação Parque Estadual Ilha Anchieta. Av. Plínio de França, 85 - Píer Saco da Ribeira, Ubatuba/SP. CEP: 11.680-000. E-mail: prisaviolo@gmail.com. (12) 99635-0447

² Monitor Ambiental da Unidade de Conservação Parque Estadual Ilha Anchieta. Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Praça do Oceanográfico, 191. CEP: 05508-120. Cidade Universitária, São Paulo (SP) - Brasil. E-mail: lucascitele@gmail.com. (13) 98206-0780.

³ Instituto Florestal. Viveiro Florestal de Taubaté, Rodovia Oswaldo Cruz, km14. Taubaté/SP. CEP: 12096-010. E-mail: humbertogallojr@gmail.com. (12) 99763-3499.



RESUMO: O Programa de voluntariado do Parque Estadual Ilha Anchieta (PEIA) ocorre desde 1995 sendo um dos pontos fortalecido dentro da gestão nos últimos anos. O objetivo do projeto é avaliar a importância do programa de voluntariado como ferramenta de gestão, utilizando o PEIA como estudo de caso. Desta forma, foi feito um levantamento nos arquivos da Unidade de Conservação (UC), nas fichas de inscrição dos voluntários e o relatório final elaborado pelos mesmos. Foi enviado um questionário aos voluntários por meio do Google Forms, para levantar informações, como: Região de origem, curso, instituição, as atividades que mais gostou de desenvolver na UC, pontos positivos e negativos do programa, entre outros. Também foi aplicado um questionário via Google Forms aos funcionários da UC, de forma a levantar a opinião dos mesmos em relação ao programa, o quanto auxilia o seu trabalho nos períodos de maior fluxo de visitantes e os pontos negativos e positivos da presença dos voluntários na UC. Nos 24 anos de ocorrência do programa, participaram 229 voluntários, em 63 turmas, de 155 Universidades diferentes, sendo que 64,19% atuaram nos últimos 5 anos (2015 a 2019). Nota-se a grande importância do Programa para o Parque, voluntários e funcionários, que destacam a troca de informações e experiências como ponto positivo. Os pontos negativos levantados estão relacionados a infraestrutura e alimentação, sendo necessário que a Fundação Florestal tenha um olhar mais amplo ao Programa, buscando melhorias para que se alcance a excelência do programa e promoção a nível nacional.

Palavras-chave: Voluntário; PEIA; Questionário; Gestão; Unidade de Conservação.



ABSTRACT: The Volunteer Program the Anchieta Island State Park (PEIA) has been running since 1995, being one of the strengthened points within the management in recent years. The objective of the research is to evaluate the importance of the volunteer program as a management tool, using PEIA as a case study. Thus, a survey was made in the archives of the Conservation Unit (UC), in the registration forms of the volunteers and the final report prepared by them. A questionnaire was sent to the volunteers through Google Forms, to gather information, such as: birth town, course of study, university, the activities that they most liked to develop at UC, positive and negative points of the program, among others. A questionnaire via Google Forms was also applied to UC employees, in order to raise their opinion in relation to the program, how much it helps their work in periods of greater flow of visitors and the negative and positive points of the presence of volunteers in the UC. In the 24 years of the program, 229 volunteers participated, in 63 groups, from 155 different Universities, 64.19% of who participated in the last 5 years (2015 to 2019). We note the great importance of the Program for the Park, volunteers and employees, who highlight the exchange of information and experiences as a positive point. The negative points raised are related to infrastructure and food, making it necessary for the Forestry Foundation to take a broader look at the Program, seeking improvements in order to achieve program excellence and be acknowledged at the national level.

Keywords: Voluntary; PEIA; Quiz; management; Conservation Unit.



  1. INTRODUÇÃO

O governo brasileiro protege as áreas naturais por meio das Unidades de Conservação (UCs), podendo assim, em longo prazo, manter os recursos naturais. A promulgação da Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000 instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), estabelecendo os critérios e normas para criação, implantação e gestão das UCs (BRASIL, 2000). A Lei possibilita uma visão de conjunto das áreas naturais a serem protegidas e conservadas estabelecendo mecanismos que regulamentam a participação da sociedade na gestão das UCs, potencializando a relação entre o Estado, os cidadãos e o meio ambiente. Permite assim, que seja garantido a todos o direito constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado para presentes e futuras gerações, por meio da implantação e consolidação de UCs (MMA, 2000).

Atualmente, existem no Brasil 2.201 UCs registradas no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC), totalizando uma área de 2.544.917 Km² de área protegida, sendo 18,08% de área continental e 26,34% de área marinha (CNUC/MMA, 2018).

Os Parques naturais possuem duplo objetivo: A preservação da natureza e o uso público. Segundo a Lei nº 9.985/2000, que institui o SNUC, os parques têm como objetivo principal a conservação da diversidade biológica, ao mesmo tempo em que devem promover a visitação e interpretação ambiental, recreação e turismo em contato com a natureza. Desta forma, diferente de outras modalidades de áreas protegidas, os parques possuem a “missão” de compatibilizar a proteção da biodiversidade e uso público (FRONTIN, 2016).

A limitação de recursos e a burocracia na gestão dos parques pelo poder público dificultam que esses ecossistemas naturais cumpram suas funções ecológicas e sociais, sendo comum que existam apenas no papel, que se encontrem “fechados” ao público ou que funcionem de forma bastante precária. Em 2015, foi realizada uma auditoria onde o Tribunal de Contas da União (TCU) avaliou a gestão de 1.120 áreas protegidas da América Latina, sendo 453 localizadas no Brasil. O estudo constatou o baixo aproveitamento do potencial econômico, social e ambiental dessas áreas, e, dos 13 indicadores de desempenho analisados, o “Uso Público” foi o que teve pior resultado. De acordo com o TCU, o Uso Público corresponde a “práticas de visitação com objetivos educativos, esportivos, recreativos, científicos e de interpretação ambiental, que dão ao visitante a oportunidade de conhecer, atender e valorizar os recursos naturais e culturais existentes” (BEATRIZ, 2016).

Os Parques (Nacionais, Estaduais ou Municipais) são UCs de Proteção Integral, que protegem 4,3% do território nacional (BRASIL, 2000). Os Parques Estaduais constituem unidades de conservação, terrestres e/ou aquáticas, normalmente extensas, destinadas à proteção e conservação dos ecossistemas, pesquisa e turismo (FF-SP, 2000).

A Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo (Fundação Florestal), é um órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente do Governo de São Paulo, criada com o objetivo de conservar, manejar e ampliar as florestas do estado de São Paulo. Atualmente a Fundação Florestal (FF) é responsável pela gestão de 102 unidades de conservação sendo 34 na categoria de Parques Estaduais (FF-SP, 2000).

O PEIA está localizado no estado de São Paulo, situado no município de Ubatuba, protegendo a segunda maior ilha do Litoral Norte do Estado, sendo uma UC terrestre, do Grupo de Proteção Integral. Possui uma área de 828 ha com 17Km de costões rochosos e 7 praias de águas cristalinas (FF-SP, 2000). Criado através do Decreto Estadual 9.629 de 23 de março de 1977, o PEIA tem como objetivos: Proteção e conservação dos ecossistemas naturais; Desenvolvimento de pesquisas científicas; Realização de atividades de educação ambiental e de recreação em contato com a natureza. Neste sentido, oferecem atividades relacionadas ao ambiente natural, como caminhadas ecológicas, práticas de mergulho e contemplação da paisagem exuberante. Além disso, o público visitante pode apreciar também um rico patrimônio histórico cultural (FF-SP, 2000). Sendo uma das UCs mais visitadas do estado de São Paulo, onde a média de visitação nos últimos anos foi de aproximadamente 44 mil pessoas por ano.

O trabalho voluntário no Brasil é regulamentado através da Lei Federal n° 9.608/98 (Diário Oficial da União). A FF permite a atuação de voluntários em 86 UCs através da Portaria Normativa FF/DE n° 035/2010. Esta normativa cria o Programa de Voluntariado dando as diretrizes necessárias para atuação dos mesmos. Tal Programa tem os objetivos de: Possibilitar a atuação de voluntários e grupos de interesse para auxiliar na gestão e manejo das UCs; Fortalecer a gestão da UC em função da adoção de um modelo de gestão participativa; Fortalecer a cidadania, valores e crenças da sociedade; Capacitar e potencializar a formação técnica e científica dos cidadãos interessados em atuar na questão ambiental; Conservar, preservar e valorizar o patrimônio ambiental e cultural (FF-SP, 2010).

O Programa de Voluntariado nas UCs contribui para o desenvolvimento do papel de cidadão, pois permite que a sociedade participe de forma mais ativa na gestão pública, neste caso, na preservação do patrimônio natural. Trata-se de uma via de mão dupla, na qual tanto a UC quanto o voluntário são beneficiados (CASTRO, R.; 2002).

Este último, além de adquirir conhecimento e experiência, obtém crescimento pessoal, já que tem a oportunidade de conviver com diferentes pessoas, de diferentes idades, formações e experiências de vida. Permite ao voluntário uma vivência com as comunidades locais, onde se é possível ter uma troca de conhecimentos muito rica. Além de aprender como uma UC funciona, desde a administração/gestão até aos serviços básicos, como limpeza e organização. Possibilita ver na prática conteúdos abordados em sala de aula (GARCÍA, R. J., 2002).

Já a UC tem um reforço na sua grade de funcionários nos períodos de maior fluxo turístico, mão de obra para as manutenções, mais pessoas para desenvolver atividades de educação ambiental com os visitantes, além de tudo, os jovens são sonhadores e inovadores e acabam trazendo conhecimentos e ideias novas para melhorias da UC. Além de despertar o interesse em desenvolver trabalhos de pesquisa científica na UC (CASTRO, R., 2002; GARCÍA, R.J., 2002).

O voluntário é toda pessoa física que, por solidariedade e responsabilidade, doa seu tempo, trabalho e talento para ações que beneficiam outros e melhoram a vida de todos. Voluntariado é um movimento espontâneo de cidadãos em mutirão ou individualmente, que se engajam em ações solidárias, comprometendo-se em criar condições para que possam beneficiar a sociedade (FF-SP, Portaria Normativa 035/2010).

O trabalho tem como objetivo apresentar a importância do Programa de Voluntariado como ferramenta de gestão em UCs, utilizando o PEIA como estudo de caso. Mapear e caracterizar os voluntários que já passaram pelo PEIA; Levantar os aspectos positivos e negativos do programa; Levantar as atividades desenvolvidas pelos voluntários no programa; Avaliar o nível de conhecimento e importância do programa para a gestão e funcionários do PEIA e Indicar necessidades de atualização e alterações na Portaria Normativa FF/DE 035/2010.



  1. MATERIAL E MÉTODOS

Foi realizado um levantamento de dados por meio de arquivos existentes no PEIA, dos voluntários que já participaram do programa de voluntariado. A partir desses dados, foi feito contato via e-mail e/ou redes sociais para aplicação de questionários semiestruturados via Google forms (Apêndice 1). O questionário semiestruturado combina perguntas fechadas com perguntas abertas, onde o respondente tem a possibilidade de discorrer sobre o tema abordado (MIRANDA, 2009).

Também foi aplicado um questionário (Apêndice 2) via Google forms aos funcionários do PEIA a fim de levantar a opinião dos mesmos com relação ao programa de voluntariado, com o intuito de avaliar o nível de conhecimento, importância e satisfação de cada setor com o programa e como cada setor pode auxiliar ou influenciar no programa.

A vantagem do questionário se dá no fato da presença do investigador ser dispensável para que o respondente contribua com as questões. Além disso, essa ferramenta consegue atingir várias pessoas ao mesmo tempo, facilitando a obtenção de um “n” amostral significativo, assim, contribuindo para abranger um área geográfica mais ampla (MIRANDA, 2009).

A pesquisa se enquadra em uma pesquisa descritiva, quantitativa, de amostragem probabilística. Os métodos de pesquisa quantitativas, de modo geral, são utilizados quando se quer medir opiniões, reações, sensações, hábitos e atitudes de um universo (público alvo) através de uma amostra que o represente de forma estatisticamente comprovada. Isto não quer dizer que ela não possa ter indicadores qualitativos (MANZATO; SANTOS, 2012).

Desta forma, os questionários foram analisados buscando reunir informações que caracterizem o Programa de Voluntariado, os Voluntários e a Unidade.

A elaboração dos dados compreende: Seleção, categorização e tabulação. A seleção dos dados buscou ter uma exatidão das informações obtidas, tendo como objetivo corrigir tanto falhas como excesso de informações. A categorização dos dados foi realizada mediante um sistema de codificação ou transformação dos dados em símbolos, que auxilia e facilita a contagem e tabulação dos resultados obtidos, além de facilitar e transformar dados qualitativos em quantitativos. Já a tabulação consistiu em dispor os dados em tabelas e gráficos, com o objetivo de facilitar a representação e a verificação das relações entre os dados. O questionário foi montado levando em consideração a tabulação dos dados (MANZATO; SANTOS, 2012).

Para caracterizar o Programa de Voluntariado foi realizado um levantamento, utilizando os relatórios entregues ao fim de cada programa, do número de edições que existiram na UC, quais as atividades foram desenvolvidas, qual período de dias os voluntários passaram na unidade, palestras e treinamentos que os voluntários receberam. Também foi realizada a análise dos questionários aplicados de forma a determinar os pontos positivos e negativos levantados pelos voluntários, com o objetivo de uma possível melhoria do programa por meio da instituição. Todos esses dados foram organizados em uma planilha de Excel, sendo possível gerar gráficos para uma melhor visualização dos dados levantados.

A caracterização dos voluntários foi feita por meio de questionários e fichas de cadastro do PEIA, os voluntários que já participaram do programa puderam ser caracterizados quanto à idade, sexo, curso, Universidade (Pública ou Particular), região de origem e por qual meio de divulgação ficou sabendo do programa de voluntariado.

Foram utilizadas Nuvens de palavras para analisar as considerações finais dos relatórios, respostas do questionário, tais quais: Pontos positivos e negativos do programa; Por que se inscreveu no programa; Importância do programa para o voluntário; O que falta para o programa ser de excelência; Se o funcionário acredita que exista uma troca de aprendizados entre eles e os voluntários.

O site utilizado para a construção da nuvem de palavras foi https://www.nubedepalabras.es/, para que a nuvem fosse gerada, foi necessário retirar os conectivos das respostas dadas pelos ex-voluntários e funcionários. É um site simples de ser utilizado, na aba arquivos tem a opção de escrever as palavras ou carregar arquivos, inserindo as palavras desejadas, é só clicar em aplicar que o programa gera a nuvem, após gerada, é possível configurar o formato desejado, a fonte e cor das palavras.

Deve-se ressaltar que a análise da nuvem de palavras não exclui a análise individual das respostas, sendo necessário entender todo o contexto que cada voluntário quis expor.

Para analisar os dados gerados a partir do questionário relacionado a pontuação que os ex-voluntários dariam a cada atividade desenvolvida no programa, foi utilizado uma pontuação que iria de 0 a 5, onde 0 seria a atividade que o voluntário não atuou, desta forma, a nota mais baixa seria 1, e 5 seria a atividade onde o voluntário mais gostou de atuar, sendo assim a nota mais alta.



  1. RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 CARACTERIZAÇÃO DO PROGRAMA

3.1.1 Número de turmas e de relatórios produzidos

Os levantamentos realizados no arquivo do PEIA revelou que ao longo de 24 anos, tem-se o registro de 63 turmas participantes no programa de voluntariado na Unidade. Destas, a primeira turma ocorreu em 1995 com a participação de 5 integrantes da Universidade Federal de São Carlos - SP e a última turma ocorreu em fevereiro de 2019, com 18 integrantes de Universidades e cursos variados. Sendo 44 turmas compostas por apenas um voluntário.

Observou-se uma inconstância na realização do programa e uma lacuna de ocorrência entre os anos de 2005 a 2012 ou ausência de registros nos arquivos da unidade. O número de participantes manteve em sua maioria a participação de apenas 1 voluntário por turma, tendo um aumento significativo a partir de 2015. Não sendo possível saber se não houve voluntariado neste período ou se os dados não foram registrados na Unidade.

Até o ano de 2015 os relatórios eram entregues impressos ou realizados a próprio punho e encontram-se arquivados nas pastas da Unidade. Esta forma de armazenamento não é mais recomendada, tendo em vista a maior possibilidade de perda dos documentos, seja por desorganização das pastas ou pela ação do tempo no material. A partir de julho de 2015 esses relatórios passaram a ser entregues via digital, ficando salvos no computador da UC e no HD externo utilizado para Backup, diminuindo assim a chance de perda e promovendo uma maior facilidade para organização e acesso dos dados. Os relatórios são de extrema importância para o registro da ocorrência do programa de voluntariado na UC, indicando as atividades desenvolvidas e trazendo o ponto de vista do grupo de voluntários e também as experiências pessoais de cada indivíduo. A escrita dessas experiências, deve funcionar também como uma forma direta de avaliação e retorno à gestão sobre as problemáticas do programa e suas possibilidades de melhoria. Desde o ano de 2015, os arquivos das turmas passaram a demonstrar um padrão de registro, sendo enumeradas e contendo a quantidade de participantes, nomes e contato dos mesmos, sendo assim, propõe-se que a unidade siga o padrão existente em relação a numeração das turmas e escrita dos relatórios finais de atividades.

Foram levantados 60 relatórios das 63 turmas que passaram pelo programa, por meios dos relatórios foi possível construir uma nuvem de palavras (Figura 1) a partir das considerações finais sobre o programa levantado pelos voluntários.

Nessas considerações é possível ver pontos positivos, pontos negativos e sugestões de melhorias. Dentre os pontos negativos, os mais citados são a necessidade de manutenção no alojamento e cozinha utilizada pelos voluntários além da necessidade de manutenção das placas fotovoltaicas existentes e da micro central hidrelétrica, para que seja possível ter energia em mais momentos do dia. Além da questão da alimentação que sempre é citada como um aspecto negativo, pois a alimentação básica disponibilizada pela unidade na maioria das turmas não foram suficientes ou eram poucas as opções de itens disponibilizadas pela unidade. Nota-se que nas duas últimas turmas (Janeiro e Fevereiro de 2019) os itens básicos foram suficientes. Como pontos positivos a disponibilidade e interação dos funcionários aparece em destaque, sempre dispostos a ajudar e ensinar em todas as atividades desenvolvidas na unidade, as atividades propostas pela unidade também sempre aparecem como ponto positivo, além do programa permitir um crescimento pessoal e profissional e o contato intenso com a natureza.

Figura 1 - Nuvem de palavras das considerações finais levantadas pelos voluntários nos relatórios (Fonte: Arquivo gerado pelo programa nubedepalabras).

3.1.2 Atividades desenvolvidas

As atividades desenvolvidas ao longo dos anos de programa foram levantadas por meio dos relatórios, foram observadas 182 atividades diferentes, essas atividades foram agrupadas em 27 atividades, esse agrupamento foi feito, pois percebeu-se que a mesma atividade era descrita com nomenclaturas diferentes. Essas atividades foram representadas por meio de uma tabela (1), onde é possível visualizar o número de vezes que cada atividade ocorreu ao longo de todos os programas registrados.

Por meio do questionário, foi possível levantar quais atividades os voluntários mais gostaram de atuar e qual eles menos gostaram, as atividades que estavam presentes no questionário para avaliação eram: Apoio ao programa de pesquisa; Apoio aos monitores; Catalogação e organização da biblioteca; Controle de acesso ao aquário natural; Controle de acesso às trilhas; Manutenção; Monitoramento de praias; Monitoramento de resíduos; Roteiro Histórico-Cultural; Tabulação e digitação de dados e Trilha interpretativa do engenho. Essas atividades foram selecionadas, pois atualmente são as atividades que mais ocorrem no programa e por meio da avaliação dos relatórios foi possível perceber que também são as que mais ocorreram ao longo do programa. Dentre essas atividades, as que apareceram com uma maior porcentagem na nota 5 (nota máxima) foram: Apoio aos monitores com 62,4%, Trilha interpretativa do engenho com 55,2% e Roteiro Histórico-Cultural com 54,4% Já as atividades que apareceram com uma maior porcentagem na nota 1 foram: Tabulação e digitação de dados com 6,8% e Catalogação e organização da biblioteca com 5%. E as atividades que aparecem com maior porcentagem na nota 0, ou seja, que não foram desenvolvidas, são Apoio ao programa de pesquisa, com 43,2% e Monitoramento de resíduos, com 40,8%.

Considerando as atividades desenvolvidas ao longo das 63 turmas, é notável que algumas ocorrem com maior frequência, principalmente no que tange o Programa de Uso Público da Unidade, que possui demanda em todos os meses do ano. Nos períodos de baixa temporada de visitação, destacam-se atividades ligadas a manutenção e trabalhos administrativos.

Visto que as atividades da UC são selecionadas de acordo com a demanda de cada período, sugere-se que atividades relacionadas ao Programa de Uso Público como: Realização de Receptivo; Roteiro Histórico-Cultural; Monitoramento de Praias e Embarcações; e Trilha Interpretativa do Engenho sejam realizadas nos períodos de maior fluxo de visitantes. Já as atividades relacionadas ao Programa de Pesquisa, atividades administrativas e manutenção de trilhas e estruturas devem ocorrer nos períodos de menor fluxo de visitantes na UC.

Nota-se que o controle de acesso ao aquário natural ocorreu em poucas turmas do programa, este fato se dá, devido a Portaria Normativa FF/DE 267/2017 que regulamenta esse controle ter sido assinada em 20 de dezembro de 2017 e, por consequência, a primeira turma a realizar essa atividade foi a ocorrida em janeiro de 2018. Entretanto, identificou-se o registro de controle e monitoria no atrativo em anos anteriores ao vigor da referida normativa (2012 e 2015), isso demonstra que a preocupação com o ordenamento do atrativo já se expressava dentro dos programas de voluntariado.

Recomenda-se que seja fomentado aos voluntários a possibilidade de retorno em períodos específicos como feriados e datas comemorativas para realização de atividades específicas de acordo com a necessidade da Unidade, como vem ocorrendo, onde voluntários individuais permanecem por um período de tempo na Unidade desenvolvendo atividades de pesquisa ou demandas levantadas pela UC. Sugere-se ainda que a Unidade desenvolva uma forma de atuação voluntária à distância, de modo em que os voluntários continuem a desenvolver atividades que auxiliem a gestão de suas casas. Dentre as possíveis atividades pode-se exemplificar: Elaboração de material informativo para visitantes, embarcações, alunos de escolas da região; Escrita de projetos de monitoramento e educação ambiental; Análise de dados gerados pela Unidade; Análise dos questionários dos próximos voluntários extraindo suas críticas e sugestões.

Tabela 1 - Atividades que foram desenvolvidas ao longo do programa (Fonte: Arquivo próprio).

Atividades

Identificação da atividade

Venda de passaportes

1

Elaboração do Plano de Gestão de Riscos e Contingências

2

Visita em outras UCs

3

Apoio ao Programa de Uso Público

4

Tenda Oceano

5

Venda de livros

6

Apoio ao Programa de Fiscalização

7

Elaboração de Informativos

8

Controle de Acesso ao Aquário Natural

9

Apoio ao Administrativo

10

Roteiro Histórico-Cultural

11

Controle de Acesso às Trilhas

12

Cobrança de Ingressos

13

Organização da biblioteca

14

Apoio ao Programa de Interação Sócio-Ambiental

15

Tabulação de Dados

16

Limpeza das praias

17

Confecção e Instalação de Placas Informativas

18

Monitoramento de Resíduos Sólidos

19

Monitoramento e Interpretação de Trilhas

20

Manutenção de estruturas

21

Aplicação de Questionários

22

Monitoramento de Praias

23

Educação Ambiental

24

Apoio ao Programa de Pesquisa

25

Apoio aos Monitores

26

Manutenção de Estruturas

27



Gráfico 1 - Número de vezes que as atividades foram desenvolvidas ao longo do programa (Fonte: Arquivo próprio).

3.1.3 Divulgação

Por meio do questionário, foi possível levantar por qual meio de divulgação o voluntário ficou sabendo do Programa de voluntariado do PEIA, a forma de divulgação que apresentou maior porcentagem de indicações, foi amigos, com 52,8%, seguido pela Faculdade (15,2%) e Redes Sociais (11,2%), a que apresentou menor porcentagem de divulgação foi o site da Fundação Florestal, com 2,4% (Gráfico 2). Quanto a opção internet esta se refere a pesquisas sobre o voluntariado em ferramentas de busca digital.

É notório que os voluntários que passam pelo programa recomendam a experiência a seus amigos, demonstrando a elevada porcentagem em relação às demais opções, já a falta de divulgação do programa por parte da FF fica comprovada com a baixa adesão de voluntários por este meio de divulgação.

O site da Fundação Florestal não possui uma aba para o programa de voluntariado nas Unidades de Conservação e quando se pesquisa no site “programa de voluntariado”, aparecem notícias relacionadas, sendo a mais recente de janeiro de 2019, sobre a programação especial de férias do Parque Estadual Ilha Anchieta. A divulgação institucional é de fundamental importância, portanto, há a necessidade de melhorias no site da Fundação Florestal, incorporando uma página sobre o programa de forma a trazer esclarecimentos sobre o funcionamento do mesmo, as UCs com programa ativo, contrapartidas de cada unidade e a forma de inscrição. Atualmente a inscrição no programa é realizada através do site www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/programadevoluntariado/, o voluntário deve clicar na aba cadastro, preencher os formulários e enviá-los via e-mail para voluntariado@fflorestal.sp.gov.br com cópia para a unidade que deseja voluntariar.

Atualmente o PEIA conta com um cadastro formulado através do Google forms, pois esta ferramenta facilita a análise das fichas de cadastro e mantém um banco de recebimento de inscrição e dados disponível 24 horas.

Considerando que atualmente as plataformas digitais são os principais canais de comunicação e informação dos jovens, sugere-se a criação de uma rede social para o Programa de Voluntariado da Fundação Florestal, com o intuito de divulgar o programa, levar informações pertinentes e tirar dúvidas frequentes sobre os programas que ocorrem nas UCs. Ainda, é necessário a criação de uma rede social para o PEIA de modo a demonstrar as especificidades do programa na Unidade, pode-se buscar a parceria de ex-voluntários para a criação de conteúdos e temas pertinentes ao programa e, durante os programas, realizar um quadro de dia-a-dia dos voluntários e do programa, atraindo cada vez mais a atenção do público externo e ampliando os locais de abrangência da divulgação.

De forma a ampliar a divulgação por parte dos ex-voluntários, recomenda-se que os mesmos sejam capacitados a realizar uma palestra básica sobre o PEIA e seu programa de voluntariado. Também deve-se capacitar os funcionários e fomentar junto às instituições de ensino públicas e privadas a ida destes às semanas temáticas, simpósios e congressos para ministrar palestras, principalmente em outras regiões do País, visando atrair um público maior de outros estados e regiões.

O presente trabalho também será uma forma de divulgação do programa, já que se pretende publicá-lo em forma de artigo e apresentá-lo em Congressos, Mesas redondas e outras atividades possíveis.

Gráfico 2 - Como o voluntário ficou sabendo do Programa de voluntariado do PEIA (Fonte: Questionário aplicado aos ex-voluntários via Google forms).


3.2 CARACTERIZAÇÃO DOS VOLUNTÁRIOS

3.2.1 Número de participantes, gênero, idade, local de origem, instituição e curso

Por meio das fichas de cadastro do PEIA, relatórios e questionários, foi levantado um número total de 229 ex-voluntários, do ano de 1995 até fevereiro de 2019, destaca-se que 147 são dos últimos cinco anos. Deste número, conseguiu-se o contato de 141 ex-voluntários, onde 115 responderam o questionário, aproximadamente 50% do N total de ex-voluntários. Observou-se que 62% dos ex-voluntários são do gênero feminino, com faixa etária maior (40%) dos 21 aos 23 anos, idade em que provavelmente a maioria está na fase final da graduação e busca adquirir experiências profissionais, vivenciar na prática conhecimentos adquiridos em sala de aula, adquirir horas complementares e até mesmo se inspirar para o desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso. Sugere-se uma maior divulgação por parte da Unidade e da Fundação Florestal sobre os critérios de participação no programa, difundindo que o programa é aberto também para os que já se formaram ou estão realizando a pós graduação.

Os dados apresentam que 92% dos ex-voluntários provém da região Sudeste, sendo 84% do estado de São Paulo, a proximidade das cidades com a Unidade facilita o transporte desses voluntários até Ubatuba, já que não há subsídio para o translado, fato que dificulta a vinda de voluntários de cidades e estados mais distantes. Sugere-se que a instituição disponibilize ajuda de custo de translado ao menos da cidade de São Paulo para Ubatuba, o que diminuirá o custo dos voluntários e possibilitará que um maior número de voluntários de outras regiões participem do programa.

Como o estado de São Paulo é o mais frequente no programa, consequentemente suas instituições de ensino aparecem à frente na participação do programa. As instituições que mais tiveram participação através de voluntários na unidade são: UNESP (35), USP (31) e UFSCAR (27). Diferenciando a participação entre instituições públicas e privadas a predominância de participação das instituições públicas é notável (75%) e, destas, a predominância são de federais (66%) seguidas de estaduais (32%) e municipais (2%). Portanto, sugere-se que a Unidade crie parcerias e projetos com as instituições, fomentando que ocorram mais trabalhos de campos das disciplinas no Parque e nesses momentos seja feita a divulgação do programa, o que também contribui para uma aproximação entre a academia e o PEIA e consequentemente aumentam as possibilidades de realização de pesquisas.

A predominância dos cursos das áreas das Ciências Biológicas (52%) e das Ciências Exatas e da Terra (15%) é justificado considerando o ambiente em que a Unidade está inserida, entretanto considerando o caráter multidisciplinar do local todas as demais áreas têm muito a agregar ao programa. Sendo assim, há a necessidade de divulgação para os cursos das demais áreas, traçando estratégias de atração a esses perfis de voluntários.

Gráfico 3 - Regiões do Brasil de origem dos ex-voluntários (Fonte: Questionário).




3.3 ANÁLISE DOS QUESTIONÁRIOS DOS EX-VOLUNTÁRIOS

O questionário foi elaborado por meio do Google forms e enviado a 141 ex-voluntários do PEIA por meio de e-mail, redes sociais principalmente Whatsapp, 115 ex-voluntários responderam o questionário, que ficou disponível para ser respondido em um prazo de 33 dias. Por meio deste questionário, é possível observar e levantar algumas informações importantes para a Unidade, como o motivo que levou os voluntários a se inscreverem no programa, quais pontos positivos e negativos sobre o programa eles poderiam levantar, qual a importância do programa para o voluntário, de que forma o programa pode atingir sua excelência, além de outras informações que permitem a caracterização dos ex-voluntários.



3.3.1 Motivo que levou o voluntário a se inscrever no programa

Quando questionado aos ex-voluntários qual motivo os levou a se inscrever no programa (Figura 2), os destaques foram para a vontade de conhecer e vivenciar uma UC, ter um maior contato com a gestão de uma UC e entender como ela funciona, a possibilidade de trabalhar com Educação Ambiental, adquirir novos conhecimentos, colocar em prática conhecimentos adquiridos em sala de aula, crescimento pessoal e profissional, explorar novos lugares e conhecer novas pessoas. Possibilita discorrer que muitos dos motivos dispostos é reflexo do sistema educacional praticado na maioria das Universidades. Onde o aprendizado sobre as áreas de preservação ambiental é apresentado apenas no conceito teórico, sendo poucas as instituições que buscam realizar a vivência em uma UC e efetivamente entender e expor a gestão e realidade de uma unidade de conservação.

Sugere-se que o PEIA busque uma aproximação com as Universidades, levando as possibilidades de pesquisas e a atuação de docentes e discentes na Unidade. Deve-se aproveitar as instituições que desenvolvem regularmente atividades de estudo do meio na UC para estas aproximações, usando os espaços de diálogo para explicar sobre a gestão e o programa de voluntariado e sua atuação na Unidade.



Figura 2 - Nuvem de palavras sobre qual motivo levou o voluntário a se inscrever no programa (Fonte: Arquivo gerado pelo programa nubedepalabras).

3.3.2 Pontos positivos

Com relação aos pontos positivos (Figura 3) levantados pelos ex-voluntários, a organização do programa tem um notório destaque, sendo relacionada com a existência do cronograma de atividades apresentado durante a semana de adaptação e a própria adaptação (conhecimento do meio) que é de fundamental importância para a realização das atividades. As atividades desenvolvidas ao longo dessa semana são divididas em atividades de reconhecimento e atividades teóricas e práticas dos trabalhos a serem desenvolvidos o que traz mais segurança aos voluntários na condução dos trabalhos, bem como, melhora a qualidade do trabalho desenvolvido. Ainda cabe ressaltar que há um cuidado por parte da gestão em manter o máximo de informações impressas disponíveis para consulta dos voluntários.

A organização dos alojamentos e alimentação também são destaques de pontos positivos do programa, tendo em vista que os voluntários recebem orientações e auxílio para elaborar cronogramas de limpeza, cardápios semanais, responsabilidade na elaboração das refeições e na destinação dos resíduos.

A solicitude dos funcionários para com os voluntários também se destaca. Este ponto positivo é de extrema importância para a execução das atividades, tendo em vista que promove uma maior sensação de segurança aos participantes do programa, já que em qualquer dúvida ou adversidade os mesmos se sentem confortáveis em pedir ajuda. Esta aproximação com os funcionários também promove uma enriquecedora troca de conhecimento, considerando que muitos atuam a anos na Unidade, principalmente os funcionários do setor de vigilância, os mesmos conseguem passar diversas informações aos voluntários, especialmente sobre as mudanças ocorridas na UC e nas gestões.

Outro item que merece destaque são as palestras ocorridas ao longo do programa. Essas palestras são ministradas por diversas instituições que contemplam diferentes áreas do conhecimento, tais quais, Projeto Mantas do Brasil, Projeto Tamar, Instituto Argonauta, Aquário de Ubatuba, Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte, entre outros, o que possibilita aos voluntários um maior conhecimento e amplia a rede de contatos e os horizontes de novos possíveis voluntariados. Entretanto sugere-se que o quadro de palestrantes seja renovado ao longo dos programas, possibilitando novos contatos e aprendizados aos voluntários que retornam ao programa, aos funcionários que eventualmente participam das palestras e aproximando a Unidade de outras instituições, buscando também novas parcerias.

A pluralidade da turma no que tange às áreas de conhecimento dos voluntários também foi destacado nas respostas, pois permite uma troca de saberes e experiências entre os mesmos. Este fato é interessante, considerando que a organização das turmas é realizada pelo parque para que haja essa heterogeneidade, sendo assim, sugere-se que a composição das turmas se mantenha obedecendo essa diversidade.



Figura 3 - Nuvem de palavras dos pontos positivos do programa (Fonte: Arquivo gerado pelo programa nubedepalabras).