A natureza universal sustenta a vida de todos os seres. (Dalai Lama)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 76 · Setembro-Novembro/2021
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Reflexão
08/06/2021 (Nº 75) NÃO EXISTE FUTURO SUSTENTÁVEL SEM EDUCAÇÃO AMBIENTAL
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NÃO EXISTE FUTURO SUSTENTÁVEL SEM EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Luis Iglesias, Maria Vitória Monteiro, Renata Serapião e Thaís Chaves



Emancipação socioambiental é frustrada por políticas públicas datadas e insuficientes e formação falha de educadores e alunos

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Estamos diante de um forte retrocesso na agenda ambiental do Brasil, marcado não só pelo sucateamento de órgãos de fiscalização, mas também pelos projetos de lei que confrontam a proteção ambiental — como é o caso dos PLs do licenciamento ambiental, dos agrotóxicos, da grilagem e da invasão de terras de populações tradicionais. Apesar de a educação ambiental, importante mecanismo para a difusão da perspectiva sustentável, ser celebrada no dia 3 de junho, não temos o que comemorar, pois as políticas públicas no campo estão datadas e insuficientes, impedindo a emancipação socioambiental.

São exemplos dessas políticas públicas a Lei nº 9.795/1999, que institui a PNEA (Política Nacional de Educação Ambiental) e também o ProNEA (Programa Nacional de Educação Ambiental).

Essas políticas estão estruturadas de maneira que, ao invés de integrar e envolver os alunos nos problemas existentes e fazer com que eles se sintam parte não só do problema, mas também da solução, acabam fazendo o oposto: mascaram a real dimensão do assunto.

O meio ambiente no espaço escolar, quando é abordado, fica restrito a situações extraordinárias, geralmente com atividades em grupo e confecção de materiais informativos e temáticos. Tais ações induzem apenas a práticas pontuais, não fazendo com que o aluno se sinta, de forma recorrente, um agente modificador dos recursos naturais e com o potencial de causar mudança no meio em que está inserido. Além disso, não tratam da crise ambiental e suas origens, temas essenciais para a compreensão básica do que é o ambientalismo.

A própria lacuna na formação dos educadores inviabiliza a compreensão de que esses temas devem ser ensinados. As políticas públicas que instauram a necessidade de aplicação da educação ambiental falham pois fornecem apenas orientações pontuais a esses docentes. Como podem professores ensinar crianças e jovens a desenvolverem uma consciência ambiental se eles mesmos nunca desenvolveram esta consciência?

Neste sentido, a transversalidade entre conhecimentos, que poderia imputar a discussão e a construção de projetos coletivos entre as disciplinas tradicionais e os conhecimentos ambientais, se torna uma conveniência metodológica. Em vez de iniciar uma conversa mais profunda sobre ambientalismo, encerra a possibilidade de aprendizagem, argumentando que através do ensino desses conhecimentos de forma transversal, já estaria sendo ensinado todo o conteúdo de educação ambiental.

Tudo isso se reflete no comportamento da nossa sociedade, que, por não ter tido acesso ao conhecimento ambiental, se torna cada vez mais negacionista, sem noção do colapso ambiental que causa e seus impactos sociais, econômicos e na natureza.

O MEIO AMBIENTE NO ESPAÇO ESCOLAR, QUANDO É ABORDADO, FICA RESTRITO À SITUAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS. TAIS AÇÕES INDUZEM APENAS A PRÁTICAS PONTUAIS QUE IMPEDEM QUE O ALUNO SE SINTA UM AGENTE MODIFICADOR

Outro ponto que corrobora a ideia de que a educação ambiental no Brasil necessita de robustez são as constantes tentativas de flexibilização do seu principal conceito – a crítica ao modelo extrativista que estamos inseridos – e sua substituição por uma educação “para a sustentabilidade” ou “para o desenvolvimento sustentável”.

Há um debate que atribui à educação ambiental um caráter mais crítico, histórico e político, que olha para o nosso modelo de desenvolvimento e de produção como cerne do embate entre crescimento e conservação ambiental. O discurso da sustentabilidade, por sua vez, não é tão neutro quanto soa: ao equiparar as esferas econômica, social e ambiental em um sistema que por si próprio já não é sustentável, dá margem para que o modelo capitalista atual se perpetue, promovendo uma falsa aparência de transformação.

Por exemplo, ao contrário das proposições resultantes dos encontros da Conae (Conferência Nacional de Educação), que antecedem a elaboração do PNE (Plano Nacional de Educação) e, portanto, deveriam orientá-lo, o PNE 2014-2024 não contemplou a educação ambiental. No documento da conferência de 2010, havia 15 citações ao termo “educação ambiental” e uma citação ao termo “desenvolvimento sustentável”. Porém, no documento final, de 2014, as citações ao termo “educação ambiental” caíram para dez e as citações ao termo “desenvolvimento sustentável” subiram para dez.

Essa mesma situação é verificada na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que na edição de 2016 possuía 19 menções à “educação ambiental”, mas quando homologada, em 2017, teve apenas uma citação, na seção de comentários apenas como uma “possibilidade para o currículo”.

Repensar, portanto, essa estrutura de aprendizagem, é necessário. A educação ambiental deve ser ensinada a partir da complexidade que tem por si só. É papel da BNCC reconhecer que a educação ambiental não deve ser apenas uma “possibilidade para o currículo” escolar, mas uma disciplina tão importante quanto todas as outras que contempla. Isso não impede que exista uma jornada de conexão entre os temas já previstos no currículo e os conhecimentos ambientais. Um tempo específico para essa aprendizagem e a contratação de profissionais da educação ambiental qualificados para lecionar essa disciplina impedem que o conteúdo seja ensinado de forma superficial, compartimentalizado e usando a transversalidade como conveniência metodológica.

A educação é uma ferramenta de transformação social e, nesta data de celebração, mais do que em qualquer outra, é importante que esta questão seja colocada em pauta, confrontada e repensada. Para que o meio ambiente seja tratado na vida das futuras gerações com o mesmo grau de impacto que os danos ambientais terão na vida dessas gerações, é necessário despendermos nele o valor que verdadeiramente possui: isso significa investir no despertar ambiental da nossa sociedade rumo a um novo futuro.

Luis Iglesias é internacionalista, pós-graduando em meio ambiente e sustentabilidade pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), pesquisador na EmpoderaClima e membro do Youth Climate Leaders.

Maria Vitória Monteiro é consultora jurídica, pós-graduanda em direito ambiental, pesquisadora em governança climática e membro do Youth Climate Leaders.

Renata Serapião é advogada, especialista em direito ambiental, pesquisadora em mudanças climáticas e coordenadora da Youth Climate Leaders.

Thaís Chaves é jornalista, pós-graduanda em gestão, governança e setor público pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), membro do Youth Climate Leaders e dirigente da Rede Sustentabilidade em São Paulo.

Fonte: Nexo Jornal

https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2021/N%C3%A3o-existe-futuro-sustent%C3%A1vel-sem-educa%C3%A7%C3%A3o-ambiental





Ilustrações: Silvana Santos