Nada pode substituir o contato com a natureza para o desenvolvimento da consciência ambiental [...] (Genebaldo Freire Dias)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 77 · Dezembro-Fevereiro 2021/2022
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15/12/2021 (Nº 77) PROJETO EDUCATIVO “MÃOS LIMPINHAS” COMO TECNOLOGIA SOCIAL
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PROJETO EDUCATIVO “MÃOS LIMPINHAS” COMO TECNOLOGIA SOCIAL

Madalena Pereira da Silva1

Marina Patrício de Arruda2

Bruna Fernanda da Silva3





Resumo: As Tecnologias Sociais (TS) são técnicas metodológicas aplicadas para a transformação e melhoria da qualidade de vida de uma comunidade, seja no aspecto social, educacional ou econômico. Esse artigo tem por objetivo situar a experiência de um projeto educativo em saúde, desenvolvido num bairro de periferia de uma cidade de Santa Catarina, como uma tecnologia social. Por esta proposta observamos que a compreensão dos catadores de resíduos sólidos e de suas famílias sobre verminose é superficial impedindo a higienização das mãos cuja prática é acessível e eficaz para diminuir o contágio por doenças infectocontagiosas. Nessa perspectiva, insistir no projeto educativo “Mãos Limpinhas” nos parece oportuno para a produção de saberes e prevenção por se distinguir como uma Tecnologia social.

Palavras-chave: Tecnologia Social, Prática educativa; doenças infectocontagiosas; Produção de saberes.



Abstract: Social Technologies (ST) are methodological techniques applied to transform and improve the quality of life of a community, whether in the social, educational or economic aspect. This article aims to situate the experience of an educational project in health, developed in a neighborhood on the outskirts of a city in Santa Catarina, as a social technology. Through this proposal, we observe that the understanding of solid waste collectors and their families about verminosis is superficial, preventing hand hygiene, whose practice is accessible and effective to reduce the spread of infectious diseases. In this perspective, insisting on the educational project “Mãos Liminhas” seems to us to be opportune for the production of knowledge and prevention, as it distinguishes itself as a social technology.

Keywords: Social Technology, Educational practice; infectious diseases; Knowledge production.



1. Introdução

O termo Tecnologia Social (TS) refere-se as propostas que visam a transformação social de uma comunidade. As propostas objetivam a disseminação inovadoras de soluções para problemas essenciais, tais como saneamento básico, energia, alimentação, habitação, saúde, educação, meio ambiente, renda, entre outros (BAUMGARTEN, 2006).

As TS se apresentam como iniciativas desenvolvidas por organizações sociais e instituições de ensino e pesquisa, que visam a transformação social articulando Tecnologia e Inovação. As TS também podem agrupar saber popular, organização social e conhecimento técnico-científico de modo a efetivar e replicar desenvolvimento social em escala (LASSANCE; PEDREIRA, 2004). Nesse sentido, vale destacar que a TS faz parte do pensamento acadêmico que há muito busca se articular à ação coletiva da comunidade. E, em muitos casos, a academia busca despertar as comunidades para o protagonismo onde cada uma possar construir o seu próprio caminho para a transformação da realidade.

Para o Instituto de Tecnologia Social (ITS) do Brasil, as TS podem ser compreendidas como um conjunto de técnicas ou de metodologias transformadoras que podem ser aplicadas na interação com a população podendo representar soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida (ITS BRASIL, 2004). Tendo em vista que um dos grandes propósitos da TS é sua capacidade de reaplicação.

Embora as TS tenham sido aplicadas para transformar a vida de uma comunidade no sentido de contribuir para solucionar um problema em específico (Fundação do BB, 2018), as pesquisas apontam que a falta de políticas públicas de incentivo a aplicação de TS como práticas educativas têm contribuído para a extensão de problemas sociais e de saúde em vários aspectos. De acordo com Ujvari (2004), doenças infecciosas com transmissões favorecidas pelo ambiente atingem o homem em formas diversas e se originam num complexo conjunto de componentes ambientais como solo, água, clima, vegetais e animais, incluindo as condições de vida humana em cada contexto.

Ainda hoje as doenças infectocontagiosas conformam um problema de saúde pública por estarem diretamente ligadas à pobreza e às condições de vida inadequadas. No Brasil, apesar da morbimortalidade decrescente desde a década de 60, essas doenças persistem e acometem um número elevado da população (SOUZA et al., 2020). Neste contexto, além das doenças e microrganismos conhecidos, atualmente, um novo vírus causador da síndrome respiratória aguda grave, o coronavírus (SARS-CoV-2), nomeado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de COVID-19 (VELAVAN; MEYER, 2020), se impôs provocando uma pandemia mundial.

A forma de transmissibilidade das doenças infectocontagiosas, incluindo o novo Coronavírus, se dá pelo contato próximo de pessoa a pessoa, por meio de gotículas respiratórias, por objetos contaminados e pelas mãos. Diante disso, para a prevenção dessas doenças as principais medidas recomendadas são distanciamento social e higiene adequada das mãos. Entretanto, embora essa estratégia seja uma ação simples, rápida e economicamente viável, a falta de adesão a ela pelos próprios profissionais de saúde ainda é vista como um desafio no controle de infecção nos serviços de saúde (OMS, 2016).

Assim sendo, em contexto pandêmico impõe-se cada vez mais a ampliação de estudos e de práticas educativas sobre a importância da higienização adequada das mãos e o projeto “Mãos Limpinhas” configura-se como uma Tecnologia Social estratégica. Esse projeto já percorreu escolas, associação de bairros e de pais desenvolvendo uma ampla discussão sobre educação, saúde e meio ambiente (OLIVEIRA ET ALL, 2021).

Esse artigo tem por objetivo situar a experiência de um projeto educativo em saúde, desenvolvido num bairro de periferia de uma cidade de Santa Catarina, como uma tecnologia social. O artigo se divide em duas partes, a primeira inclui uma revisão de literatura sobre TS na comunidade. Esta revisão sistemática na literatura (delimitada na base de dados Scopus) foi realizada para evidenciar em termos quantitativos a aplicação das TS como práticas educativas, em especial, como práticas pedagógicas voltadas à saúde da comunidade. E a segunda parte busca apresentar e refletir sobre a aplicação de uma TS que se desenvolve por meio de uma pesquisa-ação, tendo como público alvo as famílias de catadores de resíduos sólidos moradores de um bairro de periferia de uma cidade de médio porte do sul do país.



2. Revisão Sistemática da Literatura



2.1. Pesquisas sobre Tecnologias Sociais Aplicadas como Práticas Educativas

A busca sistemática foi realizada em abril de 2018 na base de dados Scopus, com as seguintes palavras chaves: Social Technology e Education, sendo retornados 154 documentos. Nesta busca sistemática, embora o termo “Social Technology” tenha sido apresentado em 1981, o gráfico da Figura 1 apresenta a evolução das pesquisas, sendo a maior concentração entre os anos de 2011 e 2017.

Figura 1 – Quantitativa das Pesquisas sobre Tecnologias Sociais, por Ano.

(FONTE: Scopus, 2018).



As áreas em que o tema tem sido estudado são diversificas, incluindo Ciências Sociais, Ciência da Computação, Medicina, Negócios, Engenharia, Artes e Humanas, Matemática, Ciências Ambientais, Economia/Finanças, entre outras (Figura 2).

Figura 2 – Quantitativo das Pesquisas sobre Tecnologias Sociais, por Áreas de Concentração.

(FONTE: Scopus, 2018).



O país que mais tem investigado sobre o tema é os Estados Unidos, seguido da Austrália, Reino Unido, ficando o Brasil em 4ª posição (Figura 3). É justamente no Brasil, no interior do estado de Santa Catarina que temos aplicado as TS como práticas pedagógicas para melhorar a qualidade de vida da população da Serra Catarinense.

Figura 3 – Quantitativa das Pesquisas sobre Tecnologias Sociais, por Países.

(FONTE: Scopus, 2018).



No Brasil, as iniciativas de TS se tornaram estratégias para a melhoria da qualidade de vida da sociedade e sua aplicação prática é simplificada e voltada à solução de problemas sociais. Borges Costa e Hoyler (2012, p. 5) destacam que

[...] as Tecnologias Sociais, tidas enquanto técnicas, métodos ou artefatos produzidos na interação com a comunidade, tal que apresentem efetivas soluções a demandas de uma localidade, quando incorporada como política pública, são representativas dessa nova arquitetura de vínculos entre Estado e Sociedade Civil.

Dagnino, Brandão e Novaes (2010, p. 23), observam que

Pode-se dizer que qualquer aplicação de tecnologia social envolve de alguma maneira um processo de adequação sociotécnica, cuja profundidade depende da distância em que a tecnologia em questão está dos valores e concepções dos atores e do contexto envolvido. Assim, em tecnologia social não se usa o conceito de replicação, mas de reaplicação, considerando que em cada contexto diferente o uso da tecnologia será inevitavelmente reprojetado.

O processo de adequação “sociotécnica” a que se referem os autores pode modificar a realidade social. A TS surgiu junto à gestão social, a partir da década de 1990, com a redemocratização do país e o crescente interesse nas melhorias sociais.

Observa-se que são vários os atores envolvidos com a TS, que também se diferenciam apostando em outras dimensões como aqueles que entendem a “Tecnologia Social como um elemento das propostas de Responsabilidade Social Empresarial até os que labutam em prol da construção de uma sociedade socialista” (DAGNINO, 2011, p.1).



2.2. Tecnologias Sociais Aplicadas como Práticas Educativas à Saúde da Comunidade

Com o propósito de atender um dos objetivos do trabalho proposto, foi realizado um filtro com critérios de análise para buscar apenas os artigos cujas TS são aplicadas como práticas pedagógicas voltadas à saúde da comunidade. Para isso foram combinadas três palavras chaves (Social Technology, Education e Health), sendo possível extrair 12 de um total de 154 artigos. Após a leitura dos 12 artigos, apenas 7 foram analisados, por atenderem o critério de análise. Os resumos dos trabalhos, conforme descrito pelos autores, são apresentados a seguir.

Em Vishnevsky (2017) são apresentadas as percepções dos estudantes na construção de uma sociedade justa, visando sanear problemas de desigualdade social. Os autores constataram que as correlações das orientações sociais dos estudantes mostram a expansão de empregabilidade e qualificação profissional. A riqueza se correlaciona com trabalho honesto, indústria e riscos razoáveis. A pobreza bate os contextos de má motivação, total preguiça e consumo excessivo de álcool. Os autores destacam que movimentos reais em orientações de valor e intenções sociais de jovens estudantes ainda estão à espera de TS complexas para conduzir uma orientação profissional e uma autodeterminação profissional.

Cavalcante et al. (2016) têm destacado que existem sistemas de suporte aos pacientes com doença crônica (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), disponíveis no ciberespaço, contudo, muitos dos pacientes são analfabetos digitais e, portanto, há a necessidade de práticas educativas para a alfabetização destes pacientes em sistemas de suporte de eHealth. De acordo com os autores pesquisas adicionais são necessárias para entender como as novas TS podem ser usadas para capacitar os pacientes no uso destes sistemas de suporte.

Os autores Ribeiro, De Araújo-Jorge e Neto (2016) sugerem que “ambiente, saúde e trabalho” sejam sujeitos geradores necessários para a construção de uma TS para a formação profissional, considerando a ergologia como perspectiva de análise e diálogo na estratégia de ensino em Saúde e Segurança no Trabalho para Agentes que combatem doenças endêmicas em Rio Branco-Acre, Brasil. A definição desses principais sujeitos geradores é resultado de um diálogo entre pesquisadores de diferentes áreas, trabalhadores da luta contra endemias, professores e alunos do Curso Técnico em Segurança do Trabalho do Instituto Federal do Acre (IFAC). A pesquisa histórica e documental permitiu estabelecer as ligações entre os projetos de desenvolvimento que impactaram significativamente os resultados no ambiente e as relações de trabalho em saúde.

A pesquisa Zotti et al. (2016) avalia a influência de uso do aplicativo WhatsApp em um protocolo para manutenção da higiene bucal doméstica em um grupo de pacientes adolescentes que usam aparelhos fixos multibandas. No estudo foram considerados dois grupos com 40 pacientes adolescentes programados para iniciar um tratamento ortodôntico multibandas. Em todos os pacientes foram registrados Índice de placa (IP), Índice Gengival (GI), Manchas Brancas (MB) e presença de cárie. Todos os pacientes foram instruídos quanto à manutenção da higiene bucal doméstica no dia da aplicação dos aparelhos e a cada 3 meses durante o primeiro ano de tratamento. Os pacientes do grupo de estudos foram inscritos em uma competição baseada em sala de bate-papo do WhatsApp e instruídos a compartilharem mensalmente com os outros participantes duas fotos (selfies) mostrando seu status de higiene bucal. A participação dos pacientes que aderiram o grupo de estudos no aplicativo WhatsApp foi regular e ativa durante todo o período de observação. Nos três meses, os pacientes do grupo de estudos do WhatsApp tiveram valores significativamente menores de IP e GI e uma menor incidência de novas MB e cárie, em comparação com o grupo de controle. Os autores concluem que a integração de novas TS em um protocolo padrão de motivação em higiene bucal é eficaz para a adesão de pacientes adolescentes aos cuidados e ao estado da saúde bucal durante o tratamento ortodôntico multibandas.

Para George (2011) as TS podem ser usadas para a capacitação e geração de conteúdo em tempo real pelos profissionais da saúde. No artigo os autores relatam sobre um minicurso de educação continuada realizado no Penn State Hershey Medical Center, que teve como objetivo modelar a funcionalidade das tecnologias atuais na área da saúde e incentivar a discussão sobre como os profissionais de saúde podem utilizar as mídias sociais de maneira responsável. O curso recebeu avaliações uniformemente positivas, e os participantes identificaram várias ferramentas atuais percebidas como potencialmente úteis em suas vidas profissionais, incluindo agregadores de notícias, Alertas do Google e, se usados de maneira responsável, sites de redes sociais como o Facebook. Os autores concluem que o desenvolvimento de programação inovadora e apropriada que ensine às novas tecnologias e ideologias das mídias sociais será crucial para ajudar os profissionais de saúde a se adaptarem a uma nova era em rede. As instituições médicas fariam bem em promover conversas interprofissionais - e talvez até intergeracionais - para compartilhar não apenas os perigos e riscos das mídias sociais, mas também as oportunidades que surgem de um mundo on-line em rápida evolução.

A Dialogia do Riso - um conceito baseado na práxis da educação em saúde geral realizada com alegria - é apresentada e discutido em Matraca, Wimmer e Araújo-Jorge (2011). Segundo os autores, a saúde é vista como um recurso para a vida e não como um objetivo na vida e a promoção da saúde é uma reação positiva que leva a uma percepção mais ampla, integrada e complexa, ligando o meio ambiente, a educação, as pessoas, a qualidade e o estilo de vida. O riso pode então ser incorporado como uma ferramenta na promoção da saúde. São apresentadas considerações sobre o diálogo, o riso, a alegria e o palhaço que dão origem ao conceito de Dialogia do Riso. O diálogo, nomeadamente um intercâmbio entre duas ou mais pessoas para a compreensão e transferência de ideias, é uma metodologia de pensamento conjunto para produzir novas ideias e partilhar significado, que é a essência da comunicação. O riso é um fenômeno universal ligado a aspectos da cultura, filosofia, história e saúde. É dialógica, pois através do humor se revelam a comédia e a sagacidade contida em cada risada, que é um código de comunicação inerente à natureza humana. A alegria como estratégia de promoção da saúde é destacada e a arte do palhaço, utilizando essa arte como ferramenta educacional que pode ser integrada como TS, é adotada.

Em Rutkowski e Rutkowski (2015), os autores relembram que o Brasil é um exemplo global de melhores práticas em termos de inclusão de catadores de resíduos e recebeu reconhecimento internacional por seus níveis de reciclagem. Além de analisar os resultados das abordagens de reciclagem inclusiva, os autores avaliaram uma seleção das melhores práticas e resumos de reciclagem inclusivos brasileiros e apresentam o conhecimento resultante. O objetivo do trabalho consistiu em identificar processos que possibilitem a replicação da inclusão do modelo informal do setor de reciclagem como parte do gerenciamento de resíduos sólidos urbanos (RUTKOWSKI; RUTKOWSKI, 2015). De acordo com os autores, o modelo inclusivo melhora a qualidade do material coletado e a eficiência da coleta seletiva municipal, assim como, também diminui os impactos negativos da reciclagem informal, reduzindo o trabalho infantil e melhorando as condições de trabalho, saúde e segurança ocupacional e poluição não controlada. Os autores concluem que, embora tratar a experiência brasileira como um modelo para a transferência de experiência em todos os casos seja irreal, os resultados sugerem que essa abordagem à integração do setor informal pode ser considerada uma das melhores práticas globais para a integração do setor informal. O artigo termina com recomendações para implantar tecnologia em outras áreas urbanas em todo o mundo.



3. Projeto Mãos Limpinhas como Tecnologia Social

Conforme apresentado por Rutkowski e Rutkowski (2015), o Brasil é um país de referência em melhores práticas de inclusão de catadores de resíduos sólidos, sendo reconhecimento internacionalmente por seus níveis de reciclagem. Por outro lado, a prática educativa aos cuidados da saúde dos catadores dos resíduos sólidos merece atenção, em especial, no combate a parasitose, foco do estudo deste trabalho. Nesse viés a intenção da aplicação da TS consiste na contribuição para a ampliação do entendimento das famílias de catadores de resíduo sólidos sobre o combate à parasitose num bairro de periferia.



3.1 Aplicação dessa Tecnologia Social

A ideia de ampliar as discussões sobre prevenção, promoção e combate à parasitose considera a importância de se refletir sobre o cuidado com o meio ambiente, com a higiene e a saúde dessa população alvo. Para tanto, foi necessário conhecer o entendimento dos catadores e suas famílias sobre “parasitose/verminose” para então realizar atividades para ampliar a compreensão dos mesmos sobre o assunto e assim, esclarecer suas dúvidas.

O projeto “Mãos Limpinhas no combate à parasitose”, em desenvolvimento desde 2010, já percorreu diferentes espações sociais como escolas, associação de bairros e de pais desenvolvendo uma ampla discussão sobre educação, saúde e meio ambiente configurando-se como um projeto itinerante cuja prática educativa tinha como propósito desenvolver hábitos de promoção de saúde (SACHET; ARRUDA, 2018).

Considerando que o parasitismo intestinal ainda se constitui um dos mais sérios problemas de Saúde Pública no Brasil, tendo em vista sua correlação com o grau de desnutrição das populações, em especial crianças, ao afetar o desenvolvimento físico, psicossomático e social (ESTEVES, 2013) investimos num projeto de pesquisa-ação por seu potencial de impacto na conscientização da comunidade. Observa-se que crianças em idade pré-escolar estão mais susceptíveis às parasitoses e que, os efeitos patológicos destes parasitos sobre a saúde das crianças têm influência sobre o estado nutricional, crescimento e função cognitiva implicando um sério problema de saúde pública, até mesmo sobre o estado nutricional (SATURNINO, NUNES e SILVA, 2003).

Tendo em vista a tendência de crescimento do problema de descarte de lixo, os resíduos sólidos vêm ganhando destaque como um grave problema ambiental contemporâneo que merece ser enfrentado por meio de projetos educativos. Assim, em 2017 essa pesquisa-ação teve como público alvo oito famílias de catadores de resíduos sólidos da área de abrangência de um bairro de periferia de uma cidade de Santa Catarina. Essa escolha considerou o desconhecimento em relação ao risco ao qual as famílias de catadores de materiais sólidos informais se expõem também mantém a busca pela sobrevivência das mesmas. A catação dos materiais recicláveis é uma prática livre que insere idosos, adultos, crianças e adolescentes que em busca de sua sobrevivência se expõem a diversos riscos de acidentes e doenças contagiosas por se configurar como um trabalho insalubre. Consideramos ainda que estas famílias têm maior dificuldade de acesso à água tratada e deficiência de esgotamento sanitário.

A pesquisa-ação é uma metodologia muito utilizada em projetos de pesquisa educacional e, acordo com Thiollent (2002, p. 75), “com a orientação metodológica da pesquisa-ação, os pesquisadores em educação estariam em condição de produzir informações e conhecimentos de uso mais efetivo, inclusive ao nível pedagógico”. Alunos de cursos de graduação na área da saúde acompanhados pela agente de saúde da área de abrangência aplicaram o questionário sobre verminose.



3.2 Resultados e Discussão

Durante a pesquisa vivenciamos situações diferenciadas que muito contribuíram para a nossa reflexão acerca da importância da orientação pedagógica sobre os cuidados com a saúde para a população investigada.

O contato com as famílias dos catadores realizado juntamente com a Agente Comunitária de Saúde da referida área, facilitou a construção de vínculo entre pesquisadores e catadores permitindo que os mesmos, por iniciativa própria, nos advertissem sobre sua condição de analfabetos. Por esse motivo, após a leitura do questionário as respostas foram devidamente anotadas.

O questionário aplicado continha oito perguntas de conhecimentos básicos sobre verminoses/parasitoses e o resumo das respostas são apresentadas no Quadro 1 abaixo, indicando a falta ou a superficialidade de conhecimento sobre o tema.



Quadro 1 – Perguntas e respostas sobre conhecimento básico dos catadores de resíduos sólidos sobre verminoses.

Ordem

Perguntas

Resumo das respostas

1

O que é verminose?

A maioria respondeu que não sabia especificamente o que era, apenas que já ouviu falar” e que são bichos que entram na gente.”

2

Onde os vermes ficam na pessoa?

Nessa pergunta, quatro participantes responderam que não sabiam, os outros dois relatam que eles ficam na barriga.”

3

Do que os vermes se alimentam?

Um participante respondeu que é do sangue e outro que é da comida que nos alimentamos, o restante não soube responder.”

4

Para onde vão os vermes depois que eles saem da pessoa?

Todos relataram que não sabiam responder esse questionamento.”

5

Como a pessoa se contamina pelos vermes?

A resposta de quatro participantes, foi que não sabiam, e dois contaram que achavam que seria com o consumo de alimentos contaminados.”

6

O que a pessoa sente quando tem vermes?

Dois responderam dor na barriga, os demais não sabiam responder.”

7

Como a pessoa sabe que está com vermes?

Dois responderam que seria necessário fazer um exame, e o restante não soube responder.”

8

Como prevenir as verminoses?

Um dos participantes respondeu que seria com a lavagem adequada das mãos, outro disse que seria tomando banho todos os dias, lavar os alimentos e escovando os dentes. Os demais não souberam responder.”



Apenas algumas pessoas detinham informação sobre a verminose. Essa falta de conhecimento também se traduz no modo de depositar o lixo para que pudessem, mais tarde, classifica-lo. Assim, os “locais de armazenamento e de disposição final tornam-se ambientes propícios para a proliferação de vetores e de outros agentes transmissores de doenças” (GOUVEIA, 2012, p.1506). As famílias, de um modo geral, utilizavam o terreno de suas próprias casas para armazenar e classificar o lixo.

Após a coleta desses dados, uma nova visita foi agendada com os catadores e suas famílias. Na ocasião, além de detalhada exposição sobre verminose/parasitose e de orientação sobre a necessidade de lavagem das mãos, professores e alunos que integravam o projeto distribuíram informativos sobre a higienização adequada das mãos, sobre a contaminação e prevenção das verminoses. Selos com orientações sobre boas práticas socioambientais foram entregues para que os catadores fixassem em carroças indicando a importância da coleta e separação do lixo tanto para a saúde como para o meio ambiente. Explicações sobre o manejo e armazenamento adequado dos resíduos sólidos foram também utilizadas como uma importante estratégia de promoção e proteção da saúde.

A educação sanitária é um forte instrumento no desenvolvimento de um processo ativo e contínuo de promoção de mudanças de atitudes e comportamento de uma determinada comunidade e pode ser conceituada como a "denominação dada à prática educativa que objetiva a induzir a população a adquirir hábitos que promovam a saúde e evitem a doença" (FORATTINI, 1992). Este tipo de educação visa conscientizar as populações com menor grau de instrução, de consciência sanitária e com menor poder aquisitivo, principalmente pessoas residentes nas periferias das cidades, que precisam ser alertadas sobre a importância do saneamento básico e prevenção de doenças. Essa prática educativa pode despertá-las para uma consciência sanitária indispensável para a melhoria dos índices e indicadores de saúde pública. O desenvolvimento de um processo ativo e contínuo de promoção de mudanças de atitudes e comportamento de uma determinada comunidade pode possibilitar a construção de uma consciência preventiva.

O bairro visitado tinha um aspecto de abandono e de muita pobreza, ali foram observadas dificuldades socioeconômicas e carências extremas de higiene e saúde. Nesse contexto, a coleta de materiais recicláveis acontecia principalmente pela ação das famílias de catadores de resíduos sólidos, vinculados ou não a uma associação. Essas famílias carecem de orientações pedagógicas para o exercício de suas atividades principalmente sobre a importância da higienização das mãos.



4. Considerações finais

Ao longo da pesquisa bibliográfica evidenciou-se que as TS são aplicadas em muitas áreas do conhecimento e todas com o mesmo propósito – contribuir para o desenvolvimento social das comunidades. Considerando a delimitação da pesquisa (base de dados Scopus) observou-se que a ascensão das TS, ocorreu nos anos de 2011 a 2017, sendo o Brasil o 4º país na proposição de TS aplicadas como práticas educativas.

No decorrer da pesquisa bibliográfica evidenciou-se que o Brasil é referência global em melhores práticas de inclusão de catadores de resíduos sólidos, sendo reconhecimento internacionalmente por seus níveis de reciclagem. Considerando que nessa periferia, muitas famílias que vivem em situações de vulnerabilidade socioeconômica e de extrema pobreza têm adotado a prática de coleta de resíduos sólidos como forma de sobrevivência e, que este tipo de trabalho requer cuidados com a higiene e por consequência com a saúde, o projeto “Mãos Limpinhas” ganha cada vez mais espaço como uma prática educativa capaz de fazer a diferença nas comunidades carentes tendo em vista a ampliação do entendimento das famílias de catadores de resíduo sólidos sobre o combate à parasitose e promoção de saúde.

Esse artigo teve por objetivo situar a experiência de um projeto educativo em saúde, desenvolvido num bairro de periferia de uma cidade de Santa Catarina, como uma tecnologia social. Observamos que a compreensão dos catadores e suas famílias sobre verminose é em geral superficial, assim os cuidados com a higiene entre eles também é precária levando-os a uma prática irregular de higienização das mãos. Nessa perspectiva, insistir no projeto “Mãos Limpinhas” nos parece oportuno, por se tratar de uma TS fundamental a produção de saberes para a prevenção de doenças. A higienização das mãos, com água e sabão ou com soluções alcoólicas, é a medida individual mais simples e menos dispendiosa para prevenir a propagação das infecções (BRASIL, 2009). Por esta razão, desde o início da pandemia, em março de 2020, a orientação sobre lavar as mãos ganhou destaque como uma prática acessível e eficaz para diminuir o contágio por COVID-19, e o projeto Mãos Limpinhas se distinguiu ainda mais como uma Tecnologia Social fundamental como prática Educativa.

Vale lembrar que Freire (1996) em seus ensinamentos já destacou a tecnologia como expressão do processo de engajamento do homem no mundo para transformá-lo. Ainda, como metodologia inovadora sua utilização pelos indivíduos, são fundamentais na luta por promoção social e cidadania. A abordagem idealizada por Freire (2007), dá destaque também à aspectos como respeito ao educando e a construção do conhecimento a partir da interação (não autoritária) das partes envolvidas na relação ensino-aprendizagem. Assim embasados, seguimos levando adiante essa TS que tende a provocar a ampliação da capacidade comunitária de mudar sua própria realidade social, gerando benefícios que podem ser compartilhados e reproduzidos em outras comunidades.



Referências

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1Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC. Docente e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação - Mestrado Acadêmico em Educação - PPGE (UNIPLAC) e, do Programa de Pós-Graduação - Mestrado Profissional em Educação Básica - PPGeB (UNIARP) .Email: madalena@uniplalages.edu.br

2 Pós-doutora em Educação pela Universidade de Aveiro-Portugal (2019-20). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Formação Cultural, Hermenêutica e Educação da Serra Gaúcha (GPFORMA SERRA- UCS) junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu-UCS). Email: profmarininh@gmail.com


3 Doutora em Biologia Geral e Aplicada, área de Biologia de Parasitas e Microorganismos - UNESP. Docente e pesquisadora no curso de Mestrado em Ambiente e Saúde -PPGAS da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC). Email: brusilvabio@gmail.com

Ilustrações: Silvana Santos