Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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15/03/2022 (Nº 78) O TRABALHO DAS JOANINHAS NA HORTA: SOB O OLHAR OBSERVADOR DA TURMA DE MATERNAL
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O TRABALHO DAS JOANINHAS NA HORTA: SOB O OLHAR OBSERVADOR DA

TURMA DE MATERNAL



Evelyn Penteado1

Raquel Barbosa Rocha2



Resumo

O presente artigo trata de um relato de experiência realizado com alunos da turma do maternal do Colégio Maria Imaculada. Os benefícios da implantação de uma horta no contexto escolar, não só traz inúmeras possibilidades de reflexões sobre a alimentação saudável, mas também podemos, através dos relatos das crianças, priorizar a escuta sensível nos momentos de observação. A cultura da infância é fator condicionante para o desenvolvimento da atividade, uma vez que são dotadas de múltiplas potencialidades. Priorizamos a observação de um determinado inseto, a joaninha, que é denominado o inseto que auxilia no cultivo e na proteção do meio ambiente. Além da observação, baseada na linha teórica de Loris Malaguzzi precursor das ideias sobre a cultura da infância, procuramos integrar os saberes e contextualiza-los numa visão sistêmica entre natureza, seres vivos e preservação.

Palavras-chave: Cultura da Infância, Visão Sistêmica , Natureza.



Introdução

A Abordagem educativa que se encontra nas escolas de Reggio Emília, uma cidade do norte da Itália, é conhecida mundialmente como modelo referencial em educação para crianças da Educação Infantil. Baseia-se primordialmente no trabalho com as crianças e com a comunidade, na construção de uma educação de qualidade que é direcionada ao desenvolvimento das múltiplas capacidades da criança, além de acolher diversas culturas e religiões.

Há tempos conhecemos e aplicamos, em nosso sistema educativo modelos que são reproduzidos de outros países sem reconhecer e considerar as características de nossa cultura.

Dessa forma desconsideramos, não só a cultura de nosso país como também, a história de seu povo e principalmente a possibilidade de aprender com os outros. Nas palavras de Rinaldi (2012)3:

Uma criança que é competente para construir a si mesma enquanto constrói o mundo e é, por sua vez, construída por ele. Competente para elaborar teorias que interpretam a realidade e para formular hipótese e metáforas como possibilidades de entendimento da realidade. (p.223).

Marcados por modelos reducionistas e de repetição o sistema educativo brasileiro precisa considerar os novos paradigmas que contrapõem esses aspectos e considerar a criança como ser de múltiplas potencialidades e adotar propostas educativas que contribuam para o desenvolvimento integral de nossos alunos, segundo destaca Andrade (2010, p.23).

Atualmente, o reconhecimento da criança enquanto sujeito social e histórico, detentora de direitos sociais, faz da educação infantil uma exigência social, ocupando no cenário da educação brasileira um espaço significativo e relevante. Paralelamente ao quadro de transformações societárias aliadas aos movimentos sociais e estudos acerca da infância, tem sido intensificado o reconhecimento da importância da educação das crianças para o pleno desenvolvimento das potencialidades do ser humano.

Em relação à educação infantil especificamente, as crianças na faixa etária 0-6 anos, suscitam novas demandas à escola, como por exemplo, práticas inovadoras, que considere a criança como um ser potente de cultura e de múltiplas aprendizagens.

Neste aspecto é preciso aprofundar e ampliar o olhar para a proposta de Loris Malaguzzi que em consonância do período pós-guerra, às questões sociais, econômicas e políticas de seu país, apresentou à comunidade uma proposta que visava considerar a criança na sua totalidade.

Foi nessa época que Malaguzzi começou a acompanhar de perto a construção dos projetos educativos das escolas com intuito de diminuir a distância entre o educador “como detentor do saber” e a criança aprendente “ouvinte deste saber”. Com esse propósito o educador deveria aprender com as crianças a partir da lógica delas e a partir daí, potencializar atividades que às fizessem continuar aprendendo. Segundo Malaguzzi (1999), o que desejavam era:

Reconhecer o direito da criança de ser protagonista e a necessidade de manter a curiosidade espontânea de cada uma delas em um nível máximo. Tínhamos de preservar nossa decisão de aprender com as crianças, com os eventos e com as famílias, até o máximo de nossos limites profissionais, e manter uma prontidão para mudar pontos de vistas, de modo a jamais termos certezas demasiadas. (p.62).

A proposta de Malaguzzi suscitou às famílias diferentes possibilidades para educação de seus filhos e de certa forma foi uma alavanca para o surgimento de várias escolas de Educação Infantil na cidade de Reggio Emilia. O legado de Malaguzzi atualmente se encontra espalhado pelo mundo e é considerado centro de referência para as Escolas de Educação Infantil e a prioridade e profundidade conceituais são elencadas pela arte, música, alimentação e natureza. Dentro deste contexto é realizado atividades de diferentes linguagens para atingir a aprendizagem, visto que a criança aprende a partir de experiências, explorando suas potencialidades, que são descobertas a partir de inúmeras outras experiências que podem ser realizadas em espaços e situações diferenciadas e apropriadas para cada objetivo.

Na perspectiva pedagógica de Malaguzzi (1999), o respeito às necessidades da criança e a valorização das suas potencialidades, são relevantes, através de uma prática que respeita o direito das crianças de interagirem e comunicarem-se nesses espaços sociais. É o que salienta (EDWARDS, p. 160). Ao comentar que as crianças do município de Reggio Emilia, no norte da Itália, são protagonistas ativas e competentes que atuam “através do diálogo e da interação com outros, na vida coletiva das salas de aulas, da comunidade e da cultura, com os professores servindo como guias”.

É importante ressaltar que modelos não devem ser tidos como cópias fiéis e sim experiências adaptadas à realidade de cada contexto. Partindo deste ponto de vista são adaptadas algumas formas de ver, pensar e agir um tanto diferenciadas das convencionais. “A mente da criança e do ser humano é multidisciplinar. Nesse sentido é preciso buscar em outros aportes teóricos, como em Morin (2000), a base para articular o saber da criança e o mundo que a cerca e encontramos na sua ideia de visão sistêmica a sustentação da totalidade e da unidade. Guimarães (2010), elucida que Morin (2000), explicita sobre a complexidade, visando entender a realidade como sistemas em que estão envolvidos homem, sociedade, galáxia, átomos, células, meio ambiente, a cultura e os demais fenômenos existentes que interferem e sofrem interferência desses fatores.

Os espaços e relações se fazem fundamentais para a prática de uma abordagem

educativa Reggio Emília, portanto, é necessário um ambiente para a realização de experiência favorável e esteticamente agradável, pois desta forma, a criança aflora ainda mais seu senso de organização de ideias e ações, de imaginação e criatividade. As experiências sensoriais aparecem como revisitações pelas crianças através do cheiro, gosto, iluminação e tato, pois se faz essencial na construção da memória, conseguindo realizar conexões e percepções da realidade. A luz pode ser uma ferramenta fundamental e de maior abrangência para o estudo das percepções e observações reais. Explora-se sombra, cores, formatos, tamanhos para melhor observação e análise de elementos diversos.

Nesse sentido, é preciso ter consciência das inúmeras possibilidades que o espaço pode oferecer para que as crianças possam explorar o meio e assim compreenderem o mundo que as cercam. Segundo Zero (2014, p. 69), “os nossos ambientes são espécies de paisagens de possibilidades e sugestões. Todo o espaço da escola favorece as relações das crianças ente si e com os materiais”.

Na proposta educativa de Reggio Emilia, o termo diferente linguagens é utilizado para explicar as diferentes propostas que as professoras podem utilizar, para que as crianças possam expressar seus pensamentos e ideias



A curiosidade em entender o trabalho da joaninha na horta

Considerando o desejo e o valor que as crianças demonstram pelas coisas, elas também possuem a capacidade de não desistir ao tentar compreender algumas investigações é por isso que precisamos apresentar materiais inteligentes, ou seja, materiais que suscitem à elas hipóteses e interrogações acerca do que está sendo apreciado. Nesse aspecto, a importância e relevância que a implantação e o cultivo de uma horta têm em um contexto escolar, é principalmente de provocar observações dos elementos que envolve esse cultivo, sabendo o quanto é essencial o contato com elementos naturais, como água, solo e ar para o desenvolvimento de todos os seres e em todos os seus aspectos.

Partindo desse pressuposto, leva-se em conta a cultura da infância e de quanto o meio é capaz de influenciar seus pensamentos. Para Sarmento (2002), as culturas da infância são integradas tanto pelos jogos infantis, compreendidos como formas culturais produzidas e fruídas pelas crianças, como também pelos modos específicos de significação e de comunicação que se desenvolvem nas relações entre pares. Além disso, vê as culturas da infância como sendo constituídas a partir da interrelação entre as produções culturais dos adultos para as crianças e as produções culturais geradas pelas crianças nas suas relações entre pares. Através deste referencial, percebe-se o quanto se faz importante à influência do meio para construção de um ambiente propício para coleta de dados e elementos fundamentais que são colaborativos para o estudo e para investigação.

Em Ciências Naturais, as atividades com a horta, além de levar em conta o plantio e o cultivo de sementes, possui uma possibilidade de compreensão, através de uma visão sistêmica dos processos, ou seja, desde a preparação da terra, dos elementos que ali coexistem até o cuidado, o plantio e após plantio. Neste contexto, o objeto deste estudo caminha na direção de enfatizar um inseto peculiar, que por sua vez é responsável por proteger a horta e o meio ambiente de forma natural e eficiente. Por caracterizar-se predador de pragas e insetos que se alimentam das folhas, as joaninhas, tão pequeninas com suas cores e bolinhas, são capazes de chamar a atenção das crianças pela sua aparência e torna-se um potente inseto a ser investigado.

A fim de tornar o entendimento e os procedimentos acessíveis para as crianças pequenas, inicia-se o processo, partindo da percepção e a manipulação de elementos naturais. Em seguida, apresentamos as mudinhas de chá, por apresentarem fácil cultivo e rápido crescimento e serem passíveis de várias observações. Chamamos atenção, através da observação, dos lugares onde já se encontra plantação e dos lugares onde não encontramos plantação, questiona-se com inúmeras indagações: O que vocês percebem aqui, que está diferente dali. O que fazemos para modificar essa realidade? Por que aqui tem plantinhas e ali não têm? Como fazemos para que se torne possível plantar neste ambiente? Mariana diz: Colocamos o “chá” na terra! Gianluca acrescenta: Passamos a água nas folhas! Larissa observa: Por que não plantamos como está ali? A partir das respostas e observações dos alunos, colocamos as mudas de chá já com folhas dentro da terra e a cobrimos com mais um pouco de terra. Gabriela ressalta, agora sim “profe” aqui está igual ali! Conrado pergunta: “Quando vamos tomar o chá?”.

Após algum tempo, revisitamos a horta, e colhemos alguns galhinhos de hortelã, conseguimos verificar mais alguns processos, tais quais: quantas mudas deram certo? E quantas não? Por que algumas não deram tantas folhas? E assim por diante. Consegue-se chegar a um ponto principal do processo, através do questionamento de Gianluca: Esta folha está comida! Todos observam a folha, então o questionamento da professora surge: Quem será que comeu esta folha? Seria algum bichinho, algum inseto? Por que esta outra folhinha está inteira? Mariana, responde: “Acho que foi um bichinho, essa outra, o bichinho não quis.” Gabriela também responde: “Foram os insetos profe!” Então questiona-se mais um ponto importante. Qual inseto foi? A maioria dos alunos respondeu a formiga, por encontrarem diversas na horta.

Malaguzzi (1993) afirma;

No sentido metamórfico, as crianças são as maiores ouvintes da realidade que as cerca. Elas possuem o tempo de escutar, que não é apenas o tempo para escutar, mas o tempo rarefeito, curioso, suspenso, generoso-um tempo cheio de espera e expectativa. As crianças escutam em todas as suas formas e cores, e escutam os outros (p. 9-13).

Saímos da horta e nos direcionamos para a sala de vídeo, investigar qual o inseto que se alimenta da folha de chá. Após assistirmos a um breve documentário que contém mais imagens do que falas pudemos analisar que os pulgões, largartas e mais alguns outros insetos alimentam-se de folhas, e que há outro inseto responsável por proteger as folhas - a joaninha - que é predador natural de pulgões e outras pragas responsáveis por destruir as folhas, não permitindo que outras novas brotem.

Nesta próxima etapa, com algumas respostas das quais precisávamos ter, passamos a procurar joaninhas em nossa horta. Na primeira tentativa procuramos e não encontramos, na segunda tentativa, procuramos e encontramos uma sob a folha, quando no aproximamos ela voou. Porém, pudemos perceber que há joaninhas sob as folhas e que elas atuam sim diretamente na proteção da horta. Em seguida, passamos a analisar o inseto referido, em sua totalidade, as crianças tiveram contato com a mesma puderam manipular, e observar na mesa de luz4, além da joaninha em si, as crianças tiveram contato com várias imagens impressas da mesma para serem analisadas na mesa de luz. Foram feitos questionamentos sobre tamanho, forma cor e textura comparando com outros insetos e com outras cores de joaninhas existentes.

E para finalizar nossa pesquisa, os alunos registraram em folha qual seria a sua visão da joaninha após todo o processo estudado, suas principais características, a joaninha na horta alimentando-se de pulgões.



Considerações finais

As experiências na infância refletem no fortalecimento das relações que conquistam ao longo da vida, e nessa experiência, pudemos perceber que as crianças pequenas possuem a capacidade de observar, analisar e indagar sobre o que se passa a sua volta, podendo tirar suas próprias conclusões .

Desta forma, a criança como um ser multidisciplinar se relaciona de diversas formas com o meio, e cada uma se apropria do conhecimento à sua maneira conseguindo adaptar à realidade ao conhecimento. Para atingir os objetivos e suprir as necessidades investigativas, não se utiliza somente de um ponto de vista para chegar ao que se quer alcançar com as crianças, até porque fazemos relações a todo tempo e a todo o momento entre diversos eixos, são essas ligações que se conectam e constroem a aprendizagem.

Por fim, o trabalho do professor/a da educação infantil está em empenhar-se para entender, conhecer, ouvir e possibilitar experiências educativas.



Referências



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MALAGUZZI, L. História, ideias e filosofia básica. In: EDWARDS, C; GANDINI,

L; FORMAN, G. As Cem Linguagens da Criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Artmed, 1999.

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________ Da necessidade de um pensamento complexo. In: Francisco Menezes Martins e Juremir Machado da Silva (org), Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulina/Edipucrs, 2000.

ZERO, Project. Tornando visível a aprendizagem: crianças que aprendem individualmente e em grupo/ Reggio Children; tradução Thais Helena Bonini. 1ª ed. São Paulo: Phorte, 2011.



1 Pedagoga. Professora do Colégio Maria Imaculada.

2 Mestre em Educação. Professora do Colégio Maria Imaculada. Email: raque.rocha@hotmail.com

3 Pedagogo e psicólogo italiano, fundador e principal responsável pela abordagem educacional Reggio Emilia.

Dedicou sua vida à construção de uma experiência educativa de qualidade

4 Mesa composta por um vidro leitoso e uma lâmpada, que propicia a ampliação das características que compõem

diferentes materiais, ampliando as possibilidades de observações e análises.


Ilustrações: Silvana Santos