Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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15/03/2022 (Nº 78) CARACTERIZAÇÃO DE AÇÕES SOCIOAMBIENTAIS PARA ALUNOS SURDOS EM ESCOLAS MUNICIPAIS DE IMPERATRIZ-MA
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CARACTERIZAÇÃO DE AÇÕES SOCIOAMBIENTAIS PARA ALUNOS SURDOS EM ESCOLAS MUNICIPAIS DE IMPERATRIZ-MA

Maria Ivanilde Oliveira Santos1; Adriana Oliveira Santos2

Maria Dolores Alves Cocco3; Marcelo dos Santos Targa3



1. Mestranda em Ciências Ambientais (UNITAU), Gestora da Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos “Prof. Telasco Pereira Filho”, Imperatriz (MA). E-mail: ivanildeosantos@gmail.com

2. Mestranda em Ciências Ambientais (UNITAU), docente do Instituto Federal do Maranhão (IFMA). E-mail: adrianatolibras@gmail.com

3. Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais

E-mail: maria.cocco@unitau.com.br E-mail: targa.marcelo@gmail.com



RESUMO

Uma proposta didática em educação ambiental deve ser por natureza, inclusiva. Por isso ações conscientes de envolvimento de todos os alunos sobre o tema necessitam contemplar a capacidade cognitiva de todas as crianças. Partindo dessa premissa, o presente artigo tem por objetivo divulgar o mapeamento da existência de atividades didáticas sobre o tema meio ambiente, desenvolvido para alunos surdos em escolas inclusivas e na escola bilíngue para surdos da rede municipal, na cidade de Imperatriz, estado do Maranhão, Brasil. Os dados foram coletados com abordagem qualitativa por aplicação de questionários com perguntas abertas e fechadas com a participação de 20 professores e sete gestores de escolas da rede municipal, sendo, sete escolas inclusivas e uma escola bilíngue para surdos. Os resultados obtidos mostraram que em cem por cento das escolas pesquisadas, não há programas específicos voltados à educação ambiental para alunos surdos. Mas são realizadas ações nas oito escolas pesquisadas, sobre a preservação do meio ambiente, principalmente projetos sobre a preservação da água e outros relacionados à temática ambiental. Estes resultados podem subsidiar a uma gestão mais consciente para o desenvolvimento de projetos mais ativos sobre educação ambiental voltados a alunos surdos, para que, no futuro possam exercer o direito de participar ativamente em ações de preservação do meio ambiente.

Palavras-chave: Escola bilíngue. Libras. Ciências ambientais.



ABSTRACT

A didactic proposal in environmental education must be inclusive in nature. Therefore, conscious actions of involvement of all students on the subject need to contemplate the cognitive capacity of all children. Based on this premise, this article aims to disseminate the mapping of the existence of educational activities on the environment, developed for deaf students in inclusive schools and in the bilingual school for deaf people in the municipal network, in the city of Imperatriz, state of Maranhão, Brazil. The data were collected with a qualitative approach by applying questionnaires with open and closed questions with the participation of 20 teachers and seven managers of schools in the municipal network, seven inclusive schools and one bilingual school for the deaf. The results obtained showed that in one hundred percent of the schools surveyed, there are no specific programs aimed at environmental education for deaf students. But actions are carried out in the eight schools surveyed, on the preservation of the environment, mainly projects on the preservation of water and others related to the environmental theme. These results can support a more conscious management for the development of more active projects on environmental education aimed at deaf students, so that, in the future they can exercise the right to actively participate in actions to preserve the environment.

Keywords: Bilingual school. Pounds. Environmental Sciences.



INTRODUÇÃO

A experiência de vida de um indivíduo transmite os saberes práticos através de sua vivência ao longo da vida. Quando transmitida de forma consciente e crítica, facilita o avanço do conhecimento ao ambiente coletivo que o cerca (ASSAD; VIANNA, 2003).

O desenvolvimento desta pesquisa tem como pesquisadora principal uma profissional da área de educação, mestranda do Programa de Ciências Ambientais da Universidade de Taubaté – SP. Filha de um surdo, que não teve acesso à educação formal coerente com suas necessidades, e a mesma posteriormente teve uma filha surda, o que possibilitou uma visão mais ampla sobre a abordagem do tema estudo.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), n° 13.146 de 6 de julho de 2015, destaca no capítulo IV, que trata do Direito à Educação, em seu artigo 27 que:

A educação constitui direito da pessoa com deficiência assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem (BRASIL, 2015).

A citada lei demonstra que a pessoa com deficiência tem o direito de ser incluída no sistema educacional com os mesmos direitos. No caso do surdo, participar sem perdas de todas as temáticas abordadas, incluindo-se nesse contexto a educação ambiental, que deve ser mediada através da língua materna do surdo, isto é, a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A escola deve garantir a qualidade do ensino educacional, com respeito a diversidade e conforme a necessidade de cada aluno. Portanto, uma escola só pode ser considerada inclusiva quando puder oferecer um ensino independente da etnia, sexo, idade, deficiência ou condição social, no mínimo.

As escolas públicas fazem parte de uma rede, o que cria certa dependência administrativa, funcional e pedagógica. A escola pública inclusiva muda este panorama, por uma cultura de transformação no ensino didático-pedagógico. A estas cabe dar acesso e disponibilizar recursos didáticos para o ensino dos alunos com deficiências, além de buscar adaptar seu projeto pedagógico para atender a todos.

Com a aprovação da Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002, que oficializa a Libras, como língua para surdos no Brasil, seguida do Decreto n° 5.626/2005 conquistas são identificadas no contexto educacional. Assim, pode-se se citar a implementação da formação de professores de forma específica para atender alunos surdos, a constituição de escolas bilíngues para surdos, a Libras como disciplina curricular, entre outros (BRASIL, 2005). No que tange algumas destas conquistas, as escolas inclusivas devem buscar atender as especificidades linguísticas e a mediação de profissionais intérpretes de Libras, com vistas a melhorar o processo educacional como um todo.

Nesse contexto destaca-se ainda a educação bilíngue para surdos, que é uma proposta que vem sendo discutida como primordial para o desenvolvimento intelectual e cognitivo dessas pessoas. Oportunizar ao surdo o direito de ter duas línguas é oferecer condições para que os mesmos possam competir com igualdade nos espaços sociais que são destinados a todos (SLOMSKY, 2011).

A Escola Municipal de Educação Bilíngue para surdos Professor Telasco Pereira Filho é a primeira escola bilíngue para surdos no estado do Maranhão (BR). Faz parte do sistema público municipal da cidade de Imperatriz. Esta é o resultado de lutas e considerada uma conquista sem precedentes para a comunidade surda local. Atende alunos surdos da educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental, sua proposta é baseada na educação bilíngue para surdos, conforme o decreto brasileiro n° 5.626/2005 (BRASIL, 2005).

Todas as instituições educacionais – inclusivas ou bilíngues – devem contemplar em seu Projeto Político Pedagógico, ações que visem atender as especificidades de seus surdos. Como instrumento teórico-metodológico, este define a relação da instituição com a comunidade escolar, portanto, o aspecto linguístico e formas para mediar as diferentes temáticas, em prol do conhecimento devem fazer parte desse importante documento escolar.

No entanto, verifica-se que algumas conquistas adquiridas são poucos implementadas. A preocupação em trabalhar a educação ambiental com pessoas surdas, respeitando suas singularidades ainda é carente, talvez por haver algumas barreiras, principalmente referente aos aspectos linguísticos. Nessa lógica, entendendo a importância da construção do conhecimento por parte desses sujeitos, sobre o meio ambiente e sua preservação, considera-se imprescindível discutir questões acerca da temática em análise.

Na busca de identificar este universo, a pesquisa iniciou um levantamento para caracterizar as ações desenvolvidas com o tema ambiental para alunos surdos em escolas públicas municipais inclusivas e na escola bilíngue para surdos, tendo como estudo de caso a cidade de Imperatriz, no estado do Maranhão – Brasil.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Local

Esta investigação foi realizada no estado do Maranhão, região nordeste no território brasileiro. O estado de Maranhão possui uma área territorial de 329.642,170 Km², com uma população estimada de 7.075.181 habitantes, densidade demográfica de 19,81 hab/Km². Possui Índice de Desenvolvimento Humano de 0,639, ocupando a penúltima posição no ranking brasileiro. O clima é tropical com mais pluviosidade no verão, a classificação do clima AW de acordo Kopper e Geiger, temperatura média anual de 27º graus (IBGE, 2019).

As escolas municipais envolvidas na pesquisa se concentram no município de Imperatriz, localizado na mesorregião oeste do estado de Maranhão. Imperatriz é o segundo município com maior população do estado, com 258.682 de população estimada em 2019 (IBGE, 2010). Apresenta um bom desenvolvimento na área educacional, como destaque, aponta-se que o referido município possui a primeira escola bilíngue para surdos do estado do Maranhão e realiza a inclusão de alunos surdos na rede municipal, do 6° ao 9º ano do ensino fundamental.

Materiais e método

O trabalho apresenta a aplicação de metodologia com a priorização de dados bibliográficos que representou o estado da arte. A base de coletas de dados foi realizada por questionários com perguntas abertas e fechadas, em escolas municipais inclusivas e em uma escola bilíngue para surdos na cidade de Imperatriz-MA. Considerando a natureza desse objeto, optou-se pelo estudo qualitativo, do tipo descritivo, com método de apoio para leitura dos resultados, foi organizado análise de conteúdo, proposta por Bardin (2011). O estudo respeita em todos os seus aspectos os princípios éticos da pesquisa com seres humanos, segundo a Resolução 510/16 do sistema CEP-CONEP.

Caracterização da amostra

Segundo os dados do último censo do IBGE (2010), o munícipio de Imperatriz, possui 163 escolas da rede municipal de ensino. Os dados do Setor de Inclusão e Atenção a Diversidade (SIADI), na cidade de Imperatriz indicam que havia no ano de 2019, sete escolas atendendo alunos surdos a partir do 6° ao 9° ano do ensino fundamental, além da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

A pesquisa selecionou em 2019 oito escolas da rede municipal de Imperatriz. Tendo como critério de seleção as escolas municipais inclusivas que atendessem alunos surdos do 6° ao 9° ano do ensino fundamental, além da primeira escola bilíngue para surdos do estado, que recebe alunos surdos da educação infantil ao 5° ano do fundamental.

A coleta de dados foi realizada com participação de seis gestores e sete professores ouvintes das escolas municipais inclusivas. Referente à escola bilíngue para surdos, foi convidado a participar um gestor, onze professores ouvintes e dois professores surdos. O total de amostra foi de 27 participantes, com representação mínima de um participante de cada escola municipal, que possuem alunos surdos, conforme Quadro 1, o critério de escolha dos participantes se deu por acessibilidade.

Quadro 1 – Caracterização da amostra

Escola

Bairro

Coordenadas localização

Quantidade total alunos

Quantidade alunos surdos

Nº participantes pesquisa

Gonçalves Dias

Bacuri

-5.534929

-47.473290

370

01

01

Darcy Ribeiro

Parque São José

-5.484038

-47.483264

825

01

02

Eliza Nunes

Santa Rita

-5.499663

-47.486142

708

01

02

Paulo Freire

Parque Amazonas

-5.500485

-47.450137

1100

01

02

São Vicente de Paula

Bacuri

-5.534046

-47.474770

359

01

02

Santo Inácio de Loyola

São José do Egito

-5.538974

-47.477604

311

01

02

Giovanni Zanni

São José do Egito

-5.5345892

-47.480770

358

05

02

Bilíngue para Surdos ProfessorTelasco Pereira Filho

São José do Egito

-5.536678

-47.478795

48

48

14

Fonte: Autores, 2020

As escolas pesquisadas estão localizadas em cinco bairros diferentes da cidade, das escolas inclusivas, aquela que apresentou maior quantitativo de alunos foi a Escola Municipal Paulo Freire, no entanto, diante do total de 1.100 apenas um aluno surdo estava matriculado e cursando o ensino fundamental, até o momento da pesquisa.

Das escolas inclusivas, a que apresentou o menor número de matriculados foi a Escola Municipal Santo Inácio de Loyola, com um total de 311 alunos sendo somente um aluno surdo. Já a Escola Municipal Giovanni Zanni, com o total de 358 alunos, foi à instituição pesquisada com o maior número de alunos surdos, são cinco que cursavam entre o 6° ao 9° ano do ensino fundamental, no momento da pesquisa. As demais escolas possuíam apenas um aluno surdo.

A Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Professor Telasco Pereira Filho tem um universo com maior número de participantes porque é exclusiva para alunos surdos, e atende alunos da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental. Dentre suas diferentes funções esta media construção de conhecimentos de seus alunos, tomando como base sua língua materna, ou seja, a Libras. Esta visa ainda preparar os alunos para adentrarem nas escolas regulares inclusivas, as quais devem ter a mediação do profissional intérprete de Libras. A pesquisa na escola bilíngue contou com 14 participantes.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Em relação a caracterização do perfil dos gestores (G) e professores (P) que participaram da pesquisa, observa-se que dos sete gestores a maioria é do sexo feminino, assim como entre os professores. A faixa etária dos gestores varia entre quarenta e quatro anos aos sessenta e seis anos, na maioria são casados. Já entre os professores a faixa etária varia entre 29 a 56 anos, mas a maior concentração, quase a metade, está faixa de trinta anos e nos cinquenta anos de idade, conforme Gráfico 1.

Gráfico 1 – Caracterização do perfil de gestores e professores das escolas inclusivas

Fonte: Resultado da coleta dados da pesquisa (2019)

Conforme se pode observar no gráfico, todos os gestores pesquisados possuem curso de especialização. Outro fator que convém ressaltar é o fato de que, para atuar na gestão escolar em instituições de ensino da rede municipal de Imperatriz, é necessário ainda ter formação na área de gestão escolar, confirmado mediante as respostas dos participantes. O tempo de atuação na área de educação dos gestores varia de sete a trinta e seis anos de tempo de serviço, ou seja, a maioria dos participantes tem bastante experiência no âmbito educacional.

Segundo Luck (2008, p. 17), a gestão escolar constitui-se em “[...] área estrutural de ação na determinação da dinâmica e da qualidade de ensino”. Portanto, enfatiza-se a importância de uma formação específica tanto para o desenvolvimento do trabalho administrativo, como para o pedagógico.

O tempo de atuação dos professores envolvidos na pesquisa varia de um a vinte anos de experiência. Cinco professores têm de um a três anos e catorze possuem de cinco a vinte anos de experiência, sendo que apenas um profissional não informou.

Referente à formação mais direcionada para atender alunos surdos, realizou-se um comparativo entre os professores da Escola Bilíngue e os professores das escolas inclusivas que participaram da investigação.

Nessa comparação, ficou evidenciado, inicialmente, que os professores da escola bilíngue, tanto surdo quanto ouvinte, tem formação continuada na área de Libras e/ou em educação de surdos, mas todos são fluentes em Libras. Esse aspecto leva ao entendimento de que, na escola bilíngue, há mais facilidade para a mediação de conhecimentos, pois ocorre uma relação direta entre professor e alunos surdos.

Como contraponto, essa situação não existe no contexto das escolas inclusivas, visto que há o intermédio do profissional intérprete de Libras, nas relações entre professor e alunos surdos. Verificou-se que, estes professores que trabalham com alunos surdos nas escolas inclusivas, tem fluência apenas na Língua Portuguesa e, portanto, dependem de intérpretes de Libras para intermediar a aprendizagem.

Categorias de análises: educação ambiental, ações ambientais, alunos surdos e a educação ambiental

A organização dos resultados da pesquisa em categorias proporcionou mais fluidez às análises. Permitiu ainda traçar analogias entre as falas dos professores e gestores, sobre a educação ambiental, suas percepções relativas à temática, suas ações, entre outros aspectos.

Primeira categoria: educação ambiental no contexto educacional

A lei brasileira n° 9.795/1999, dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional da Educação Ambiental a nível nacional (BRASIL, 2006). A educação ambiental é uma ferramenta que pode proporcionar a construção de conhecimentos, bem como possibilitar uma tomada de consciência sobre o papel de todos os envolvidos, principalmente as novas gerações.

Desse modo, a educação ambiental é a mais importante ferramenta de transformação do indivíduo, e está amparada legalmente no país. Por meio dela, as pessoas adquirem conhecimentos e, consecutivamente, mudam de posturas, passando a preservar o meio ambiente.

Pensando no presente e na qualidade de vida das futuras gerações, é de fundamental importância que sejam criados, nas escolas, programas ou ações que contemplem essa temática, com vistas à construção de valores, a mudanças de atitudes e habilidades, entre outras contribuições. Além disso, a formação de sujeitos conscientes é primordial, visto serem agentes de transformação.

A pesquisa com o propósito de mapear a existência de ações ambientais nas escolas, considerou imprescindível verificar a visão de professores e gestores sobre essa temática, bem como identificar se eles se sentem preparados para desenvolver possíveis ações no âmbito educacional.

Desse modo, perguntou-se, aos professores e aos gestores, sobre a relevância da educação ambiental para a formação dos alunos. A Tabela 1 indica os resultados.

Tabela 1 – Percepção de gestores e professores sobre a educação ambiental



Dimensões

Professores



Sim Não

Gestores



Sim Não

Relevância da Educação Ambiental



Preparo para trabalhar com a educação ambiental junto a alunos surdos



20











11



0











9



7











7



0











0

Fonte: Elaborado pelos autores (2020)

Os gestores (G), assim como os professores (P), foram unânimes em destacar a importância da educação ambiental para alunos surdos, abordando sua relevância no processo de inclusão e preservação da vida. G1 afirmou que “o aluno surdo precisa estar inserido, pois ele é sujeito ativo e transformador do meio ambiente”. G2 destacou “A melhoria da qualidade de vida no planeta”. G5 fez o seguinte relato: “Sabendo da importância do entendimento das questões ambientais pelo Surdo, para que possam ser multiplicadores das ações criando hábito de preservar o meio ambiente”. G6 enfatizou a importância da educação ambiental para a interação do aluno com a temática e também com todo o contexto escolar.

A partir do comparativo entre as respostas dos gestores e professores, foi possível compreender que há um entendimento mútuo sobre a relevância da educação ambiental, tanto no contexto geral, como direcionado aos alunos. Todos os participantes da pesquisa informaram que a temática da educação ambiental não deve ser trabalhada somente em momentos específicos, mas sim, nos diferentes momentos educativos, fazendo parte do currículo escolar.

Levando-se em consideração que alunos surdos devem ter conhecimentos sobre as questões ambientais, é de suma importância o preparo profissional dos professores que atuam com esses alunos. Nessa ótica, sobre estarem preparados para trabalhar com surdos, 11 professores afirmaram que se consideram preparados e nove falaram que não. Os professores que se consideram preparados, enfatizaram que precisam, com frequência, adaptar o material em Libras com a finalidade de facilitar a aprendizagem dos alunos surdos.

A necessidade de construir um planejamento voltado para a temática também foi mencionada, bem como a necessidade de fazer uma adequação curricular nas disciplinas, envolvendo a questão ambiental.

Pode-se notar ainda que, conforme a Tabela 2 demonstra, há um anseio por parte dos gestores para que essa temática seja inserida no currículo dos alunos de forma mais sistematizada.

Tabela 2 – Caracterização do tempo destinado à temática ambiental

Período que deveria ser destinado ao trabalho com as temáticas ambientais

Quantidade



Gestores Professores

Na semana do meio ambiente



Durante todo o ano



Outros

--- ---



7 15



--- 5

Fonte: Elaborado pelos autores (2020)



As temáticas do meio ambiente e da preservação da água são lembradas no dia mundial da água e na semana do meio ambiente. Nesse período as escolas dão maior atenção a esses conteúdos. No entanto, observando-se as respostas obtidas, ficou nítido que a maioria dos professores, tanto os que atuam em escolas inclusivas, como na escola bilíngue para surdos, realizam trabalhos relacionados à temática no decorrer de todo o ano letivo, pois têm clareza da importância dessa temática.

Referente aos participantes que marcaram a terceira alternativa (outros), suas respostas foram as seguintes: P11 não especificou e P9 enfatizou que o tema deveria ser trabalhado “2 vezes por ano (1 a cada semestre)”, para serem abordados os impactos ambientais, considerando sua importância para a formação dos alunos.

Segunda categoria: ações ambientais

Com a compreensão da relevância da efetivação de ações ambientais nos ambientes escolares, a categoria em análise teve como objetivo averiguar que ações são realizadas por professores, em conformidade com a gestão escolar. O intuito foi identificar quais ações se concretizam, pensando-se também no público específico, isto é, os alunos surdos. A Tabela 3 apresenta os resultados.

Tabela 3 – Caracterização de ações sobre educação ambiental



Dimensões

Professores



Sim Não

Gestores



Sim Não

Aulas de campo/projetos



Ações sobre a temática da água

14







19

6







1

7







7

0







0

Fonte: Elaborado pelos autores (2020)

Cabe destacar algumas respostas para esclarecer essa discussão:G1 afirma que “A temática é trabalhada nas feiras de ciências e palestras”; G5 relatou que desenvolve o “Projeto do meio ambiente que visa trabalhar a importância de não desperdiçar água, o Projeto do lixo ao luxo, o Projeto de coleta seletiva, e o Projeto de incentivo ao plantio de hortas”; G6 enfatizou que trabalha com “Sustentabilidade e reciclagem”; G7 informou: “Faço um trabalho de incentivo ao controle ambiental da água, coleta seletiva do lixo, projeto escola limpa, riachos da cidade”; os participantes G4 e G3 trabalham projetos do meio ambiente para preservação da vida; e G2 não informou no momento da pesquisa.

Conforme as respostas dos gestores das escolas pesquisadas, tanto as escolas inclusivas quanto a escola bilíngue realizam projetos que contemplam a temática do meio ambiente. Ainda em relação aos dados gerados, identificou-se que não há programas específicos voltados aos alunos surdos, mas que muitas ações são realizadas por meio de projetos, palestras, feiras de ciências, conforme exposto respostas dos participantes.

Referente às ações da Escola Bilíngue, confirma-se que todo o processo é realizado com base na língua materna do surdo, a Libras. Assim, pontua-se que esse é um dos diferenciais identificados entre esta e as escolas inclusivas.

Questionados se incentivavam os professores a realizarem aulas de campo sobre a temática ambiental com seus alunos, todos os gestores afirmaram que sim, e que o faziam por meio de várias atividades. G6 falou da importância de levar os alunos a visitarem espaços que estão degradados, com a finalidade de conscientizar sobre a preservação ambiental, especificando, como exemplo, “o riacho Bacuri”.

A participante G1 também enfatizou a visita a riachos como forma de conscientização, bem como a importância de trabalhar a temática com seminários. Os depoimentos de G5 e G7 enfatizaram a importância de incentivar os professores a trabalharem com projetos ambientais envolvendo reciclagem, aulas práticas com análise do solo, e observação de paisagens locais, como forma de atentar sobre esses recursos naturais. Já G2 e G7, apesar de afirmarem que incentivam os professores a trabalharem com a temática ambiental, não explicaram como o fazem na escola.

Nesse sentido, para G1, a temática da água pode ser trabalhada não só em projetos, mas também em feiras de ciências e nas apresentações dos momentos cívicos; G3 orienta que o tema seja inserido no planejamento, e seja trabalhado através de leitura de textos, vídeos e filmes; G5, G6 e G7 sugerem que sejam feitos projetos específicos e aulas temáticas que possam sensibilizar e, assim, conscientizar todo o contexto escolar. Assim, pode-se concluir que tanto os gestores quanto os coordenadores têm interesse que essa temática seja trabalhada nas escolas.

Dentre os professores pesquisados, quatro professores de escolas inclusivas e dois da Escola Bilíngue disseram que não realizam aula de campo, mas não justificaram a resposta.

Mas na maioria, pode-se afirmar que a visão dos gestores está em consonância com a dos professores pesquisados, e as diretrizes nacionais. Pontua-se que, quando há uma unidade entre pensamento e ações desses sujeitos, todo o processo educativo tende a ser mais benéfico. As ações desenvolvidas são realizadas em parceria, o que mostra a preocupação com o trabalho sobre o meio ambiente.

No que se refere aos alunos surdos, ficou ratificado que são envolvidos no processo de ensino e aprendizagem sobre a água, contudo, ainda são necessárias medidas que contemplem de forma significativa esses sujeitos, principalmente quanto ao uso de Libras e à valorização de sua apreensão de mundo, pelo sistema visual. Dentre os participantes da pesquisa, P20 informou que utiliza o trabalho do intérprete de Libras para passar informações para o aluno surdo. Vale ressaltar que P20 é professor da escola inclusiva.

Acerca do envolvimento dos alunos surdos nos trabalhos sobre a escassez da água, perguntou aos professores, como eles viabilizam esse processo. Sendo assim, diante do questionamento, quatro professores responderam que utilizam vídeos, pois consideram que as imagens facilitam a aprendizagem. Segundo P3, ele realiza ações sobre a temática da água e sua escassez, destacando “[...] a importância da água para todos os seres, tanto animal quanto vegetal através de aulas expositivas, vídeos, cartazes e experiências de pesquisas”.

Os participantes P14, P15 e P20, professores das escolas inclusivas, afirmaram que passam as informações por meio do auxílio do intérprete de Libras. Os participantes que enfatizaram que explicam o conteúdo por meio da língua materna do surdo são da Escola Bilíngue para surdos. Esses professores mostram os cuidados que devemos ter para evitar o desperdício, por meio de fichas adaptadas em Libras. Assim, tornam as aulas atrativas, com a finalidade de prender a atenção do aluno surdo.

As falas de P14, P15 e P20 denotam que há um diferencial entre o professor que tem domínio da língua de sinais e o que não tem. Conhecer as características desse grupo específico que possui uma cultura surda e aprende por meio das experiências visuais que são apresentadas nas relações sociais, é essencial. Nesse sentido, quando todos esses aspectos são contemplados, o aluno surdo tem possibilidade de aprender de forma mais enfática os conteúdos abordados.

Os demais professores informaram que usam leitura de texto, com reflexão, bem como brincadeiras com brinquedos feitos com material reciclado e passando a informação que esse material poderia estar poluindo os rios e os riachos. Também declararam que conduzem as crianças para uma visita pela escola, mostrando os banheiros, as torneiras no pátio da escola e na cozinha e ensinando sobre como economizar água e evitar o desperdício.

Referente à importância da conscientização das pessoas acerca da educação ambiental, em especial sobre a temática da água, sabe-se que deve atingir todos os cidadãos. Segundo o Documento Curricular do Território Maranhense para a Educação Infantil e o Ensino fundamental, o aluno surdo não pode ficar fora do processo de aprendizagem, pois ele é capaz de cuidar do ambiente onde vive, de transformá-lo, se necessário, e de multiplicar a ideia de preservação.

De acordo com Skliar (2013, p. 11), a “Experiência visual envolve todo tipo de significações, representações e ou produções, seja no campo intelectual, linguístico, ético, estético, artístico, cognitivo, cultural etc.”. Sendo assim, pode-se afirmar que a maioria dos entrevistados vem buscando atender essa especificidade de seus alunos surdos.

Terceira categoria: alunos surdos e a educação ambiental

Para construir conhecimentos junto aos alunos surdos, sobre diferentes temáticas, como o tema do meio ambiente, é importante que os mecanismos utilizados contemplem as necessidades das crianças surdas, que tem uma língua própria e vivenciam tudo em seu entorno através de experiências visuais.

Dessa forma, solicitou-se, aos entrevistados, que indicassem como a temática sobre a preservação ambiental está sendo recebida, pelos alunos surdos, nas escolas pesquisadas. As respostas são apresentadas na Tabela 4.

Tabela 4 – Análise do interesse de alunos surdos sobre a temática ambiental

Interesse dos surdos na temática “Meio Ambiente”

Quantidade

Muito interessados



Razoavelmente interessados



Pouco interessados

16



02



02

Fonte: Elaborado pelos autores (2020)



Ao ser questionado sobre o interesse do aluno surdo com a temática do meio ambiente, a grande maioria dos professores entrevistados afirmou que os alunos demonstram muito interesse. Apenas dois destacaram que seus alunos se mostram razoavelmente interessados, e outros dois professores destacaram que há pouco interesse por parte de seus alunos quando são realizados trabalhos sobre a temática ambiental.

A análise das respostas evidencia que, em sua maioria, os alunos têm vontade de conhecer sobre a temática, o que se caracteriza como um ponto muito positivo. Estabelecendo-se um vínculo com a questão anterior, ressalta-se que um dos fatores para aproveitar o interesse dos alunos surdos é a utilização de materiais que possuam a Libras. Com esses materiais, os alunos podem realizar leituras e buscar compreender, neste caso, a importância do meio ambiente para a população.

Com o objetivo de compreender a visão da gestão sobre a relevância da valorização da perspectiva visual do aluno surdo, assim como foi questionado aos professores, procurou-se saber se há, na escola, um trabalho mais amplo, que busque atender as especificidades do surdo como um sujeito visual. Logo, questionou-se como a escola desenvolve atividades voltadas para a educação ambiental, levando em consideração as características dos alunos surdos.

Cinco gestores responderam que proporcionam a mediação do intérprete de Libras em momentos que a temática é abordada. Seguindo com a análise dos dados, G5, G6 e G7 fazem uso de cartazes com as informações sobre a temática do meio ambiente em Libras, como forma de comunicação, e utilizam também a mediação do intérprete de Libras nos momentos em que a temática é abordada. Apenas G4 disse que utiliza somente cartazes com informações em Libras.

No aprendizado do aluno surdo, é fundamental que, além do intérprete de Libras, a acessibilidade visual, com uso de sinais em Libras, seja utilizada em tudo que é informado. Assim, trabalhos sobre preservação do meio ambiente também devem ter essa acessibilidade visual.

As orientações pedagógicas relacionadas à temática afirmam que se devem ter materiais ilustrativos adaptados em Libras para o melhor entendimento do público-alvo da pesquisa, ou seja, os alunos surdos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das respostas dos professores participantes da pesquisa, identificou-se que há trabalhos sobre temática ambiental sendo desenvolvidos junto a alunos surdos de escolas municipais inclusivas e da escola bilíngue para surdos da cidade de Imperatriz, no estado do Maranhão. Averiguou-se, ainda, que todos consideram muito importantes a temática do meio ambiente, com destaque para o tema água.

Dessa forma, são realizados, nas escolas, projetos, feiras e trabalhos de campo para mostrar a degradação do meio ambiente e como é possível buscar preservar os rios, riachos, enfim, a água, que é imprescindível para a vida de todos.

Ficou evidenciado que não existem programas ambientais específicos que sejam desenvolvidos para alunos surdos, no ensino fundamental nas escolas pesquisadas da rede pública municipal de Imperatriz. Porém, há um trabalho consistente nessas instituições de ensino, onde a temática ambiental foi considerada relevante por todos os professores e gestores.

Outra questão que surgiu a partir da análise das respostas é que professores que atuam no contexto inclusivo com alunos surdos carecem de formação continuada, para que os alunos possam ter a Libras utilizada em todos os momentos didáticos e em todos os materiais. Aspecto este que pode lhes possibilitar maior autonomia na busca por informações e uma formação mais consistente.

Além disso, há necessidade de formação continuada aos professores das escolas inclusivas, porque os alunos surdos têm especificidades que devem ser notadas e respeitadas; e, somente adquirindo conhecimentos sobre esses sujeitos, o professor conseguirá proporcionar a construção de conhecimentos sobre diferentes temáticas, inclusive a ambiental.

Logo, chama a atenção para que gestores também possam incentivar seus docentes na busca por formação para atender esse público específico, que possui características próprias e necessita obter aprendizados tais como os que se referem ao meio ambiente, pois sua contribuição pode ser considerável na preservação meio ambiente e na inclusão do surdo em futuras atividades profissionais.

Diante dos resultados obtidos, constatou-se a relevância da pesquisa no que tange mostrar que as pessoas surdas podem e devem ser multiplicadoras de ações de preservação do meio ambiente. As ações da escola bilíngue para surdos da cidade de Imperatriz-MA são consistentes e atendem as especificidades linguística e cultural de seus alunos surdos. Nesse sentido, fica pontuada a necessidade de tais ações serem mais voltadas a esse público no contexto inclusivo, do 6° ao 9º ano do ensino fundamental.

REFERÊNCIAS

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 _______. Presidência da República – Casa Civil. Legislação - Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Brasília, 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5626.htm>. Acesso em: 12/04/2019 às 11:02.

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SLOMSKI, Vilma Geni. Educação Bilíngue para surdos: concepções e Implicações Práticas. 1 ed. 2010, 1 reimpr. Curitiba: Juruá, 2011.

SKLIAR, Carlos. Atualidade da educação bilíngue para surdos: processos e projetos pedagógicos. – 4 ed. – Porto Alegre: Mediação, 2013.



Ilustrações: Silvana Santos