Tudo o que temos a fazer [...] é colocar nosso jeito de viver dentro dos meios ecológicos conhecidos. (Marcus Eduardo de Oliveira)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 78 · Março-Maio/2022
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15/03/2022 (Nº 78) REMEMORANDO: QUE “SABER AMBIENTAL” TEMOS NÓS?
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REMEMORANDO: QUE “SABER AMBIENTAL” TEMOS NÓS?

Marina Patrício de Arruda1



De fato, a realidade atual nos remete à necessidade de se trabalhar o “saber ambiental” como alternativa viável para evitar impactos socioambientais. O aumento desenfreado das atividades humanas ameaça o ambiente e a própria sociedade como um todo tendo em vista o nível de compreensão que possuímos da problemática ambiental.

O saber ambiental, na visão de Leff (2008), significa os valores éticos, dos conhecimentos práticos e tradicionais. É sempre concebido como um processo em constante construção e  movimento. Há mais de dez anos publiquei um artigo em parceria com uma mestranda2 sobre uma pesquisa realizada num bairro de uma cidade do interior de SC. Nesse espaço, buscamos conhecer hábitos e responsabilidades de moradores para com o meio onde viviam. A construção de novos hábitos, nesse caso, incluía uma mudança paradigmática instigada por reflexões sobre a possibilidade de instauração de novas práticas.

Hoje, depois de tanto tempo, entendemos que essa é uma reflexão a ser sempre retomada pois para que haja um processo educativo eficaz voltado à sustentabilidade é preciso que ele seja capaz de formar pessoas que entendam as transformações sociais e ambientais. Nesse sentido, as práticas educativas não prescritivas, poderiam configurar uma proposta pedagógica voltada à mudança de hábitos e capaz de provocar, como afirma Morin (2000), “uma reforma do pensamento”.

O conceito de ambiente como “uma racionalidade social, configurada por comportamentos, valores e saberes, como também por novos potenciais produtivos” (LEFF, 2008, p. 224) e, o saber ambiental como aquele que reconhece a responsabilidade e os limites do agir humano sobre a natureza, são importantes pontos para uma mudança paradigmática.

O estudo, acima referido, ainda hoje nos vem a memória por seu potencial reflexivo. Para conhecer a percepção daqueles moradores, apresentamos a cada um, imagens fotográficas enumeradas de 1 a 10 para que selecionassem aquela que, de acordo com o seu entendimento, representasse ou não o meio ambiente.

Por essa estratégia, buscávamos entender a percepção ambiental desses moradores que julgávamos ser de fundamental importância para a compreensão das inter-relações entre o homem e o ambiente e para a busca de novas pistas para uma educação ambiental transformadora.

Num exercício metodológico recorremos as categorias de análise estabelecidas por Tamoio (2002 apud Santos, 2007) e adaptadas para essa pesquisa para a interpretação das imagens por eles escolhidas. A esta perspectiva nomeamos como categorias de análise:

Romântica/naturalista:

Uma visão harmônica da natureza, o belo, o equilibrado, o intocável. Aqueles ambientes que se formaram sem intervenção humana.

Utilitarista:

Aquela que traz a ideia do homem como um fator e não um elemento do ambiente. A falta de inserção do indivíduo no meio ambiente, é que contribui para a falta de consciência ambiental das pessoas.

Socioambiental:

Visão que mostra a inserção do homem no meio ambiente natural, na qual já é possível se inserir como   parte do meio ambiente, as edificações construídas pelo homem são um exemplo dessa categoria. Nesse sentido, com o sujeito pertencendo ao ambiente pode levar a mudança de valores, hábitos e práticas voltadas ao cuidado com o meio ambiente.

O Que as representações revelaram?

Várias foram as imagens apresentadas aos moradores, mas nessa retomada reflexiva serão consideradas apenas as imagens que mais se destacaram sobre o meio ambiente. A esta perspectiva, observo que a maioria dos entrevistados selecionou a imagem que retratava os “Guarás no lago do parque Mangal das Garças em Belém-PA”, o que causou estranheza aos pesquisadores pois não se articulava ao meio que habitavam.

Nessa escolha, foi possível notar uma visão romântica da natureza, na qual o belo e o intocável representavam o meio ambiente sem a presença humana.

Este exercício reflexivo mostrou que a imagem acima referida indicava um ambiente natural separado do homem e de suas ações, uma natureza intocada, bela romântica, harmônica, equilibrada. Uma visão “limpinha” do meio ambiente.

Por outro lado, quando questionados sobre as imagens que menos representavam o meio ambiente, todos os entrevistados escolheram a imagem, cujo conteúdo fazia referência à escadaria do Museu das Artes de Belém PA, pois não percebiam a mão do homem na construção desse meio ambiente.

Essa cisão entre homem-natureza desafia essencialmente a educação ambiental e a construção de uma consciência ecológica. A separação homem-meio ambiente impede a reforma do pensamento, bem no sentido do que ainda hoje problematiza Edgar   Morin   (1997, p.120);

nossa educação nos ensinou a separar e a isolar as coisas. Separamos os objetos de seus contextos, separamos a realidade em disciplinas compartimentadas uma das outras. Mas como a realidade é feita de laços e interações, nosso conhecimento é incapaz de perceber o complexus – o tecido que junta o todo.

Nesse sentido, nos perguntamos, afinal, como a educação ambiental pode contribuir para “reformar” a relação homem-natureza? Como romper com a visão romântica e naturalista sobre o meio-ambiente?

Romper com o paradigma predominante na sociedade contemporânea que perpetua a ideia da compartimentalização (BOFF, 1999; GRUN, 1996; MORIN, 2000, 2001), e superar a dicotomia presente na percepção dos moradores é educar o pensamento para “ligar o que está separado” (MORIN, 1995, p. 167). Refletir criticamente sobre o problema da fragmentação é possibilitar a construção de um “pensamento complexo”, aquele que busca juntar o que por tanto tempo andou desconjuntado. O paradigma cartesiano segue cumprindo seu papel “subterrâneo” ao atuar como um estatuto de verdade (MORIN,2002). Significa dizer, pelas palavras desse autor, que seguimos orientados por um princípio de exclusão; excluímos não apenas ideias divergentes, mas também os problemas que não reconhecemos. Entretanto, um paradigma não funciona de forma soberana, ditando as ações e os discursos, há possibilidade de mudança mas “é preciso que apareçam frestas, fissuras”(MORIN, 2002, p. 268) capazes de incitar novas possibilidades de ações e práticas.

A estratégia metodológica utilizada para tornar "visíveis" pensamentos e saberes daquelas pessoas sobre o meio ambiente foi eficaz por esclarecer o tipo de saber que permeava suas práticas e nos fazer pensar sobre a força subterrânea do paradigma. O SABER ROMÂNTICO/NATURALISTA sobre a relação ser humano-natureza, por certo, ainda hoje perdura em vários espaços de nossa sociedade. Esse saber faz com que os nossos hábitos não priorizem a preservação ambiental e o consumo sustentável que prejudicam a vida e o planeta como um todo.

Os saberes ambientais de todos nós

Conhecer o saber ambiental daqueles moradores buscando vislumbrar as possibilidades de desenvolvimento de uma consciência ecológica para o cuidado do ambiente e da vida fez com que refletíssemos sobre o nosso próprio “saber ambiental”.

Consideramos que a realidade não é única mas diversa pois existem tantas quantas forem as suas interpretações e comunicações. O sujeito é reconhecidamente importante no processo de construção do conhecimento (GIL, 1999). O saber ambiental destes moradores despontou de uma relação Romântica/naturalista sobre o meio ambiente. Nesta visão impera a harmonia, a beleza, o equilíbrio, o intocável. Diz respeito àqueles ambientes que se formaram sem intervenção humana. As imagens escolhidas representavam o natural, relacionavam-se à fotografia congelada e distante da paisagem “natureza” e de um pensamento crítico e reflexivo (JACOBI, 2005).

Preserva-se aquilo que não se toca, uma imagem pela qual não se responsabiliza. A natureza como aquilo que se vê à distância, como um registro durável, bonito, mas sem movimento. Apartado do meio ambiente, o homem se distanciou tanto da natureza que o desenvolvimento de uma consciência ecológica ficou também comprometido. Esta separação é resultado de um longo processo, e para superar o modelo de pensamento tradicional de lidar com a realidade, aquele que fragmenta, recorta e simplifica os saberes será necessário promover a reforma e enfrentar a complexidade da natureza e do universo. Morin, brilhante pensador de nosso tempo, está convicto de que o processo educacional precisa levar em conta princípios do paradigma complexo e o desenvolvimento de uma aptidão geral para compreender os problemas de forma complexa, só assim as pessoas terão condições de analisar e religar os saberes e de lhes dar o verdadeiro sentido (MORIN, 2001).

Entretanto, a crise ambiental tem implicações profundas e  desafia a reforma do pensamento (MORIN, 2002; MORIN et al, 2003), esta demanda um exercício de complexidade no qual buscamos juntar o que por um longo tempo foi desconjuntado; mente e corpo, natureza e espírito, razão e emoção. Assim, o saber ambiental de nossos entrevistados não nos causa estranheza pois é, ao mesmo tempo, o saber ambiental de todos nós que vivemos impregnados por um paradigma societário cartesiano que fragmentou a realidade e a nós mesmos, por meio da hiperespecialização do conhecimento.

Sendo assim, vivemos uma crise paradigmática da forma de pensar e agir, de pressupostos epistemológicos que reduziram o pensamento e as possibilidades de compreensão do mundo com reflexos duradouros nas práticas individuais do cuidado com o meio ambiente.

As imagens utilizadas para captar a percepção dos moradores evidenciaram o distanciamento do homem da natureza permitindo reflexões fundamentais à construção e renovação de nossos próprios saberes.

O saber ambiental dos moradores daquele bairro, composto por conhecimentos práticos e tradicionais, é como o nosso saber “Romântico e naturalista” conforme registrado pela imagem congelada; distante da ação do homem. Entretanto, a natureza não é morta, é viva e vive pela ação de cada um de nós que com ela convivemos. Portanto, convém refletir sobre a importância da educação ambiental como processo de formação dinâmico, permanente e participativo na formação de consciências transformadoras.

Retomar a experiência dessa pesquisa realizada há mais de 10 anos foi uma forma de resiliência, uma forma de “voltar atrás” para fazer avançar rumo a um conhecimento que vá além da disciplinaridade e da especialização para então provocar uma profunda reforma das mentes e dos saberes conforme orienta o pensador da complexidade, Edgar Morin.



REFERÊNCIAS

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ANTUNIASSI, M.H.R. Educação Ambiental e planejamento microrregional: ponto de vista e propósito de trabalho. Ciência e Cultura, São Paulo, v.5, n.40, p.448-451, 1988. 

BOFF, L. Saber Cuidar. Ética do   Humano, Compaixão pela Terra. Petrópolis: EditoraVozes, 1999.

CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação, natureza e cultura: ou sobre o destino das latas. In: ZAKRZEVSKI, Sonia Balvedi Zakrzevski.; BARCELOS, Valdo (Orgs). Educação e compromisso social:pensamentos e ações. Erechim, RS: EdiFAPES, 2004.

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1 Pesquisadora junto ao Grupo de Pesquisa Formação Cultural, Hermenêutica e Educação da Serra Gaúcha (GPFORMA SERRA- UCS). Email: profmarininh@gmail.com

2 O SABER AMBIENTAL DE TODOS NÓS: UMA VISÃO ROMÂNTICA E NATURALISTA IMPEDE-NOS DE REFORMAR NOSSO PENSAMENTO SOBRE A RELAÇÃO SER HUMANO-NATUREZAREMEA - Revista Eletrônica Do Mestrado Em Educação Ambiental27. ISSN 1517-1256, v. 27..


Ilustrações: Silvana Santos