Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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30/05/2022 (Nº 79) MÚSICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: LEVANTAMENTO DAS EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS PUBLICADAS EM ARTIGOS NO BRASIL
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MÚSICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: LEVANTAMENTO DAS EXPERIÊNCIAS PEDAGÓGICAS PUBLICADAS EM ARTIGOS NO BRASIL


Karine Wagner Oliveira Alves de Melo1; Francisco Nairon Monteiro Júnior2



1 Licenciatura em Ciências Biológicas, Universidade Federal Rural de Pernambuco

2 Departamento de Educação, Universidade Federal Rural de Pernambuco

naironjr67@gmail.com



Resumo: Neste artigo apresentamos um levantamento, realizado em periódicos de educação ambiental do Brasil, buscando entender como a música tem sido utilizada nas pesquisas em educação ambiental. No final, nos inserimos nesta tradição, expondo a forma como temos trabalhado a relação entre música e meio ambiente.

Palavras-Chave: Música, Meio Ambiente, Educação Ambiental, Educação Sonora.



Abstract: In this article we present a survey, carried out in environmental education journals in Brazil, seeking to understand how music has been used in environmental education research. In the end, we insert ourselves in this tradition, exposing the way we have been working on the relationship between music and the environment.

Keywords: Music, Environment, Environmental Education, Sound Education.



Introdução

Nestes últimos anos, os efeitos sociais e ecológicos da nova economia vêm sendo discutidos à exaustão por estudiosos da área. Nas análises dos estudos, fica bastante claro que o capitalismo global, em sua forma atual, é fortemente insustentável e é nessa perspectiva que buscamos, nas leituras e análises de artigos, levantar possíveis soluções que nascem de esforços da pesquisa em educação ambiental para tão nefasta agressão ao meio ambiente. Dentre tais esforços, investigar, especificamente, como a música tem sido utilizada como formadora de consciência ecológica, objeto do presente artigo. Neste percurso, observamos se tais artigos estão encabeçados por bases norteadoras do pensamento ecológico evocado por Capra, seguindo seis princípios, diretamente ligados à ideia de sustentabilidade. São eles: redes, ciclos, energia solar, alianças, diversidade e equilíbrio dinâmico. Neste sentido, investigamos se nos textos analisados os sons são trabalhados com esses mesmos princípios da base do pensamento ecológico, e se os mesmos utilizam o ambiente sonoro como o enfoque de promover a consciência do indivíduo, utilizando os sons como ferramenta de fazer as pessoas se sentirem vivas e integradas a elas mesmas, primeiramente, aos outros homens, em seguida, e, por fim, ao meio em que vivem, a fim de perceberem e analisarem todos os sons a sua volta, na perspectiva de que alcancem com clareza o respeito à paisagem sonora e que nesse passeio auditivo enfoquemos tratar da alfabetização ecológica na perspectiva sonora. Fritjof Capra argumenta que os homens podem aprender lições que possuem um valor inestimável, oriundas da análise de ecossistemas, tendo em vista a sua conexão com a teia da vida, o que significa criar, nutrir e educar comunidades sustentáveis, onde todos possamos obter a satisfação de nossas necessidades, levando em conta as futuras gerações.

Para que esse aprendizado ocorra de forma significativa, o autor dá ênfase aos princípios básicos da ecologia, falando que necessitamos nos tornar ecologicamente alfabetizados. Ou seja, precisamos entender os pressupostos de organização das comunidades ecológicas e utilizá-los na construção de comunidades humanas sustentáveis, visto que ambas apresentam os mesmos princípios básicos de organização - são redes estruturalmente fechadas, mas receptivas aos fluxos de energia e de recursos. Esta relação entre ecossistemas e como viver de maneira sustentável é o aprimoramento da qualidade de vida, ações estas que alicerçam -se, sobretudo, nas relações e nas atividades cooperativas. O princípio da interdependência é firmado nas interligações dos seres vivos, numa ampla e complexa relação de rede de relações. A parceria também é um elemento fundamental apontado por Capra. Segundo ele, para existirem comunidades sustentáveis, é preciso que haja afinidade para construção de associações, de ligação, tendo em vista a cooperação como um requisito de qualidade de vida. Unindo parceria com o processo de transformação e desenvolvimento, haverá a “coevolução”. Os indivíduos coevoluem por meio de uma parceria confiante. A flexibilidade, em múltiplas direções, é outra característica apontada pelo autor, pois a falta da mesma resulta em uma tensão, que, no dizer de Capra, "tensão temporária é um aspecto essencial da vida, mas a tensão prolongada é nociva e destrutiva para o sistema”. Tomando de empréstimo os saberes oriundos do estudo da harmonia musical, não sendo, pelo menos na nossa visão, metáfora, mas sim, uma associação que se reveste igualmente nesta e na ecologia profunda, a música é feita de tensão e resolução, sendo estas temporárias. O singelo jogo entre elas, arranjado pelo compositor, mexe com o ouvinte, trazendo interesse, prazer, como numa trilha natural, aonde os campos vão se alternando, redescobrindo-se ao mesmo tempo em que descobrimos o outro. É neste jogo tensão-resolução que reside o ato criador, tomando de empréstimo, na transcendentalidade, a perfeição criadora da natureza. E por fim a diversidade que constitui um bem estratégico levando em consideração a interdependência das comunidades humanas; ou seja da dependência mútua de seus membros; dessa forma, a diversidade será fator enriquecedor.

São estes alguns dos princípios da ecologia apontados por Capra: parceria, interdependência, reciclagem, flexibilidade, diversidade e, como consequência de todos estes, a sustentabilidade. A sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica, da nossa capacidade para entender esses princípios da ecologia e viver em conformidade com eles. Para este fim, utilizamos, em nossa pesquisa, a mescla dos princípios evocados por Capra e a música como referente do belo e que a mesma possui princípios que faz alusão aos princípios ecológicos. São eles: a melodia, ritmo e harmonia, os mesmos considerados elementos fundamentais da música; encará-los como independentes seria um erro, pois um acorde depende do outro. Sendo assim, a percepção da ecologia do ponto de vista sonoro resulta em manifestações sustentáveis, pois a música tem o poder transcendental, nos permite ainda, conjecturar, criar e inventar sons musicais em distintos cenários, a partir da construção e enredamento de significados, o que possibilita, num âmbito mais amplo, a conexão entre afeto e cognição.

Fica evidente a necessidade da integração da música com a ecologia. Para que essa alfabetização possa ocorrer com mais eficácia, vemos a necessidade de serem trabalhadas as quatro funções da escuta, com vistas à consciência ambiental numa perspectiva interdisciplinar. A educação sonora precisa fazer parte de uma disciplina integrativa, pois a educação começa pelos ouvidos. Na seção que se segue apresentamos a análise que fizemos dos artigos que se utilizaram da música no desenvolvimento de ações de pesquisa e ensino direcionadas à educação ambiental. Tais artigos foram selecionados nos principais periódicos que publicam artigos sobre o tema, os quais foram filtrados tendo como critério a qualificação A1, A2, B1, B2, B3 ou B4 da plataforma Qualis Capes. Para todos os periódicos selecionados, utilizamos o mesmo termo de busca ‘música’.



Música e educação ambiental nos periódicos de educação ambiental

Há diversos periódicos nacionais cujo escopo é a publicação de artigos sobre educação ambiental, alguns dos quais sequer entraram na lista de avaliação da Plataforma Sucupira – Qualis Periódicos da CAPES. A fim de construir um quadro significativo do que se propõem a presente revisão bibliográfica, optamos por fazer a triagem a partir da citada plataforma, referente ao quadriênio mais recente, ou seja, 2013-2016, tomando como filtro os periódicos cujas classificações foram A1, A2, B1, B2, B3 ou B4, atribuídos pelas áreas de avaliação “Ensino” e/ou “Educação” e utilizando como termo de busca “educação ambiental”. A partir destes critérios, foram selecionadas pela plataforma sete revistas, nas quais encontramos 39 artigos que se utilizaram da música como ferramenta em atividades de pesquisa e ensino em educação ambiental, conforme tabela 1.

Tabela 1. Quantitativo dos artigos por periódico pesquisado (fonte: os autores).

Periódico

ISSN

Qualis

Ensino/

Educação

N° de

Artigos

Ambiente & Educação (PPGEA/FURG)

2238-5533

B1/B3

1

Ensino, Saúde e Ambiente (PPGEC/UFF)

1983-7011

A2/B4

3

Educação, Sociedade e Meio Ambiente (UFAM)

1983-3423

B4/B4

0

Pesquisa em Educação Ambiental

1980-1165

B1/B2

2

Revista Brasileira de Educação Ambiental (UNIFESP)

1981-1764

B3/B3

3

Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental (USP)

1517-1256

B1/B1

7

Educação Ambiental em Ação

1678-0701

B1/B2

23



No artigo intitulado “sobre a construção de uma oficina de educação ambiental associada à educação especial” (MELO; BARROS, 2013) os autores relatam o desenvolvimento de uma oficina, intitulada “Educação Ambiental associada à Educação Especial”, durante o seminário interdisciplinar do curso de Pedagogia com ênfase em necessidades educacionais especiais da PUC Minas. Nesta oficina, voltada a alunos com necessidade especiais foi trabalhada, dentre outras atividades, a música “Todos juntos” (Os Saltimbancos/Chico Buarque), buscando trabalhar a necessidade de se respeitar as diferenças, a importância da união quando se deseja alcançar um objetivo. A análise das experiências vivenciadas apontou para a viabilidade na construção de valores de respeito às diferenças e ao meio ambiente, como forma de os participantes entenderem que ninguém é feliz sozinho, precisamos um do outro e que nossas atitudes, positivas ou negativas, impactam no meio ambiente. Tal artigo faz uso da letra de uma música para construir significados.

Menino; Bezerra; Nakayama (2018) fazem uso da mesma música de Chico Buarque, agora como culminância de uma proposta de desenvolvimento de um teatro de fantoches, onde se buscou sensibilizar os alunos para os problemas ambientais de uma comunidade da cidade de Belém-PA. Pela experiência vivenciada, as autoras apontam que o uso do refrão da música possibilitou o entendimento de mensagens complexas por meio da assimilação, por meio da ludicidade sonora. A roda de conversa inicial, a partir das perguntas semiestruturas, estimulou as crianças a se manifestarem uma vez que nessa faixa etária elas podem temer exposição em público. Encerramos a atividade com sugestões dos próprios estudantes, visando amenizar os problemas ambientais existentes no lugar.

No artigo intitulado “imagens sonoras do ambiente: educação ambiental e ensino de música - relato de uma pesquisa participante no ensino superior de licenciatura em música” (SILVA, 2008), o autor tem como objetivo de pesquisa analisar a prática docente na licenciatura em música, com a finalidade de auxiliar a ação educativa acerca do ambiente sonoro e suas implicações na sociedade e tem como aporte teórico o trabalho de R. Murray Schafer, chamado a Paisagem Sonora Mundial. Realizou um estudo sistematizado sobre a produção sonora em ambientes rurais e urbanos. Buscou construir um elo entre o saber e a ação por meio da pesquisa participante, tendo os alunos e o professor do curso superior de licenciatura em música como sujeitos. Houve a busca pela a investigação e, a partir daí, construiu-se conceitos de paisagem sonora, música, ambiente, som, ruído e poluição sonora. Na conclusão, o autor apontou que a música pode auxiliar criticamente à construção de uma consciência ecológica na busca da acuidade sonora e que a mesma promove um vínculo que pode ser estabelecido entre a educação ambiental e a educação musical. Ao fim do processo, evidencia-se que é responsabilidade do educador musical a construção desta acuidade chamada audição inteligente. Tal artigo utiliza-se da música para conscientização. O que Schafer chama de ‘escuta pensante’, o autor utiliza em seu trabalho do termo ‘escuta inteligente’. Contudo, no presente artigo, o autor não trabalha a música na perspectiva de serem explorados os níveis de consciência e suas quatro funções da escuta, apontadas por Pierre Schaeffer, mas apenas como uma ação educativa acerca do ambiente sonoro e o que ela causa na sociedade. Não fica evidente a preocupação de que a escuta pensante passa necessariamente pelo processo neurofisiológico, pelo processo instintivo e, só então, por meio da intenção de escuta é que acontece o percebido-destacado, que necessariamente é mediado pela semiótica e, portanto, um processo fenomenológico, não ficando clara a separação entre o que é instintivo e o que cultural. Para dar conta dessa dimensão, seria necessário dialogar com a ecologia profunda, bem como com a fenomenologia de Schaeffer.

No artigo intitulado “No mundo da lua: utilizando a semiótica para analisar visões sobre a astronomia e a natureza em canções da música popular brasileira e suas possibilidades didáticas” (GOMES; PIASSI, 2012), os autores utilizam-se da análise de letras de músicas populares como meio de promover debates em torno do estudo da astronomia e da preservação da natureza, ora concorrentes numa mesma letra, ora exclusivos nos discursos artísticos analisados. Uma das músicas analisadas (Falta de ar de Gui Amabis) enaltece as questões ambientais e possíveis causas para os problemas ambientais. Segundo os autores, é possível proporcionar, por meio da análise da letra da citada canção, promover debates em sala de aula, evidenciando quais são as consequências ambientais do desenvolvimento tecnológico causado pelo crescimento desenfreado das sociedades tecnológicas e de que forma a ciência pode contribuir para o uso consciente dos recursos naturais do planeta, assim como a importância do desenvolvimento sustentável. Assim como no artigo anterior, a consciência a que se referem os autores não tem diálogo com a perspectiva crítica freiriana, nem tampouco com a ressignificação da análise em epígrafe a partir dos pilares da ecologia profunda de Capra. Seria muito mais uma consciência em torno da letra da música, sem um compromisso teórico com a consciência crítica, a qual tem sido largamente utilizada na educação ambiental na formação de consciência ecológica sustentável. Não encontramos, igualmente, nesta parte do artigo em que a questão ambiental aparece, nenhum aporte teórico com respeito aos estudos de paisagens sonoras, nem com respeito à percepção ambiental a partir da fenomenologia de Schaeffer.

No presente artigo intitulado “Unidade dialética no fazer docente - ação e reflexão-registros no ensino de ciências naturais” (LIMA; BRANDÃO, 2016), as autoras, em sua pesquisa, deram um enfoque para os anos iniciais do ensino fundamental, com o objetivo de analisar e registrar orientações pedagógicas na primeira fase da educação básica, a fim de contribuir para a efetivação do ensino de ciências naturais, tendo em vista uma experiência de campo, com observação participante, numa escola municipal de Barra Mansa/RJ. Tal pesquisa possibilitou, mediante o exercício da práxis pedagógica, trabalhar com conceitos da ciência utilizando como aporte a música e a poesia para a construção do pensamento científico, o olhar investigativo, a reflexão crítica da natureza, da vida, da sociedade e da tecnologia, voltada para alunos na tenra idade. A música nesse artigo tem como enfoque uma linguagem musical alternativa para a aprendizagem e que a partir dela o professor e aluno puderam construir muitos saberes, inclusive referentes aos conceitos científicos. Utilizando a música “Ora bolas”, do CD Palavra cantada de Paulo Tatit e Edith Derdyk, os alunos puderam dialogar com a leitura, a escrita, a matemática, a resolução de problemas, a história, a geografia, as ciências naturais, com a finalidade de auxiliar professor e aluno na exploração do mundo natural e social, discernindo-o por meio da postura dialética que possibilita a criatividade e dinâmica docente, promovendo a construção de saberes com alunos dos anos iniciais. As autoras defendem que com a música os professores poderiam trabalhar com várias áreas do conhecimento de forma unânime, sem perder as especificidades das disciplinas, fomentando o pensar sobre o sujeito no mundo e as possibilidades de transformação. Assim, na medida em que as análises foram feitas a fim de promover, a partir da mediação docente, conhecimentos e habilidades que contribuíram para a aquisição de conceitos científicos, formação da cidadania, análise crítica da realidade, permitiu escolhas e tomadas de decisão numa concepção dialética de mundo, onde os atores sociais produzem saberes.

No artigo intitulado "Estética e educação no paradigma da complexidade” (TAVARES; BRANDÃO; SCHMIDT, 2009), as autoras têm como objetivo apresentar algumas aproximações entre estética, educação ambiental (EA) e a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, visando a contribuir para o entendimento da situação socioambiental vigente, na consideração de que as transformações dos valores éticos e estéticos modificam atitudes e comportamentos nas relações dos sujeitos como meio ambiente. A Educação Ambiental, mais do que uma nova forma de pensar ou agir, representa a possibilidade de ressignificação e renovação do próprio pensamento/conhecimento humano. Nesse contexto, a Estética apresenta-se como elemento fundamental que viabiliza a compreensão sensível dos fatores culturais e sociais, possibilitando o surgimento de diferentes mentalidades e comportamentos. Tal abordagem propicia problematizarmos a questão a partir de sutis deslocamentos, como o poder poético e político de elementos institucionalizados, refletindo sobre as relações entre ética e estética, política e arte, na sociedade contemporânea. A música nesse artigo é apresentada apenas uma vez, justamente numa citação de Edgar Morin, em que fala que a dimensão estética da arte se configura em suas manifestações e são elas: as poesias, as músicas, as pinturas, entre outros. Conforme apresentado no artigo, a música, assim como as demais artes, seria uma manifestação artística existente que retrata, por meio desta, um pensamento profundo sobre a condição humana. Essa dimensão estética, revisitada a partir de uma perspectiva antropológica, na qual é vista como um refinamento da cultura humana, sendo a música uma imitação da natureza, torna-se um norte, um referente a se enxergar a possibilidade de um mundo mais bonito.

No artigo intitulado “A perspectiva das pedras: considerações sobre os novos materialismos e as epistemologias ecológicas'' (CARVALHO, 2014), a autora apresenta um ensaio que propõe a noção de epistemologias ecológicas e suas implicações para a pesquisa em educação ambiental. Estas epistemologias têm como objetivo buscar, na dimensão ecológica, uma virada ontológica na direção da simetria entre diferentes regimes de conhecimento e entre humanos e não humanos. Esse movimento foi identificado nesse artigo com obras de autores como Tim Ingold, Bruno Latour, Descola, De Landa, Deleuze e Guattari. Tendo esse debate ao fundo, o conceito proposto de epistemologias ecológicas se apresentou como uma noção necessariamente plural. Segundo a autora, não foi de seu interesse designar uma unidade teórica, mas um movimento de abertura epistêmica inspirado na simetria, na materialidade e nos fluxos que tencionam a grande divisão sujeito e objeto, natureza e cultura. Trata- se, nessa perspectiva epistemológica, de tomar o saber não como um conhecimento sobre o mundo, mas considerar regimes de conhecimento que se produzem com e no mundo. Tal postura se contrapõe à via régia da ciência moderna, sustentada sobre a externalidade de um sujeito cognoscente humano fora do mundo, da natureza, e senhor de seus objetos de conhecimento. A autora cita a música em um parágrafo cujo o título é: o artista, o violão e ambiência, no qual relata a experiência de um músico gaúcho chamado Victor Ramil que, em um de seus depoimentos à rádio Band News, ele diz que já não poderia cantar e compor suas canções sem se pensar colado ao violão, como uma extensão de seu corpo. Uma curiosidade bastante pertinente é que sua casa tem um formato colonial e suas janelas e portas são voltadas para a rua. Ali ele relata que, durante o trabalho, ele ouve seu cachorro, observa o movimento da rua, se concentra e se distrai quando está compondo músicas. Portanto o que a autora quer frisar é que a música entra como uma experiência criativa e contribui para pensarmos o engajamento contínuo humano e não humano como fluxo produtivo do artista. Logo nesse sentido, o violão, a casa, o quarto, a rua, o cachorro e as pessoas que passam lá fora fazem parte da malha de relação à qual o artista pertence e com a qual produz. Muito embora, a partir de fundamentações fenomenológicas distintas, tanto a experiência da autora quanto a nossa, do grupo de pesquisa em educação sonora da UFRPE, aponta para a não centralidade do ‘eu’, afastando-se da visão antropocêntrica das relações ecológicas. Assim como o exemplo do músico citado no artigo, vemos a importância da pesquisa em torno da desmistificação desta perspectiva unilateral, onde o homem olha e percebe o mundo de fora, seja a partir de Ingold, quanto de Schafer.

No artigo intitulado “Educação ambiental: a música como meio para expressar as noções de meio ambiente” (DUARTE et al, 2016), os autores tratam de noções de meio ambiente que são mediadas pela realidade social, e a música como um meio de expressar sentimentos, emoções e conhecimentos em relação a uma determinada realidade. Este artigo tem por objetivo analisar as noções de meio ambiente que estão explícitas nas composições musicais elaboradas por estudantes do ensino médio. Foram elaboradas unidades de contexto e de registro para a análise de 21 letras de músicas, e, a partir da mesma, identificar noções de meio ambiente naturalista, antropocêntrica, complexa, de destruição, de problema/solução e reducionista. Portanto, a música foi a forma por meio da qual os estudantes expressaram pensamentos, sentimentos e conhecimentos em relação ao meio ambiente, de uma maneira espontânea e criativa. O artigo menciona que, por meio dessa pesquisa, foram apresentados novos caminhos de investigação, apontando que a música pode ser um excelente instrumento para reflexões ambientais, salientando também a importância da música na vida dos jovens, e seu reconhecimento de que usá-la é sim um meio para discutir questões ambientais e, na medida em que esses estudantes são orientados na escola para produção musical, os mesmos podem alcançar o entendimento da complexidade das questões ambientais, inseridos em um contexto histórico que inclui fatores sociais, políticos, culturais e econômicos.

No artigo “A música como instrumento de Educação Ambiental no contexto da pandemia” (ARAÚJO et al, 2020), os autores investigam a possibilidade de utilização da música como instrumento de Educação Ambiental, numa perspectiva conscientizadora das relações de poder estabelecidas no âmbito da disputa entre crescimento econômico e conservação ambiental, o que tornou-se ainda mais importante, dado o contexto de distanciamento causado pela pandemia provocada pelo novo vírus COVID-19. Neste sentido, a música também foi utilizada como amenizadora da angústia e do pânico. O percurso percorrido pelos pesquisadores apontou para a importância da música no estímulo da atividade cerebral, remetendo a aspectos lúdicos da existência humana, recomendando que sua utilização tanto na formação de consciência ambiental, quanto na amenização dos efeitos psicológicos causados pelo distanciamento social. Um exemplo forte encontrado no artigo diz respeito à análise da letra da canção “Cio da Terra” de Chico Buarque e Milton Nascimento, na qual aparecem elementos de amor ao meio ambiente, bem como a valorização não financeira, a qual respeita os ciclos de fertilidade e sazonalidade. Os autores concluem afirmando que a música pode se constituir numa ferramenta benéfica tanto para a saúde das pessoas, em especial com o distanciamento social, bem como para a formação de consciência crítica a respeito da preservação do meio ambiente.

Noutra pesquisa que se utiliza da análise de letras de músicas (TURKE et al, 2020), os autores relatam uma experiência pedagógica realizada com 143 estudantes da Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental, onde apontaram para a importância de trabalhar Educação Ambiental de maneira lúdica. Para tanto, foram desenvolvidas aulas com a utilização de música, paródia, poesia, filme, vídeos, bem como confecção de cartazes. Os autores concluem que a utilização de tais recursos propiciou a sensibilização dos envolvidos, que passaram a questionar suas atitudes e de pessoas próximas perante o meio ambiente. Música selecionada foi “Bia – O lixo no lixo” (BIANCARDI, 2015), a qual aborda a importância do descarte correto dos resíduos, bem como não praticar queimadas e desmatamentos, construindo consciência a respeito das consequências de tais ações. Pela diagnose inicial foi possível perceber que os educandos possuíam uma ideia simplista do que é Educação Ambiental, limitada ao estudo e conservação. Contudo, com o passar das aulas, perceberam-na em outros contextos, tais como tráfico de animais, coleta seletiva, lixo, água, agrotóxicos, efeito estufa e aquecimento global.

Ainda utilizando paródias, Júnior et al (2016) propõem o desenvolvimento paródia-músicas como ferramenta de sensibilização em uma escola dos anos iniciais do ensino fundamental do município de Manaus, mais especificamente para despertar o interesse do aluno sobre o tema água como forma de aprendizado em sala de aula. A amostra constou de quatro grupos de alunos, entre sete a quinze participantes por grupo, que apresentaram suas paródias-músicas de forma sugestionada pela equipe pedagógica e os pesquisadores. Em tal percurso, buscaram analisar as composições interpretadas pelos alunos, cujo resultado apontou para certo conhecimento inicial, por parte dos alunos, sobre o tema abordado, quando da confecção das composições elaboradas para a Semana do Meio Ambiente. Por meio dessa atividade constatou-se que os alunos têm consciência do tema em questão, porém, faz-se necessária a vivência para além da escola.

Noutra ação de pesquisa e ensino que se utilizou da construção de paródias, Pereira et al (2018) realizou, em uma escola municipal localizada na cidade de São Gabriel da Palha-ES, um conjunto de atividades compostas por palestra de conscientização e debates, textos, desenhos, paródias e questionário, cujo objetivo foi o de construir consciência em torno da importância da água e de seu uso racional. Segundo os autores, com a palestra, os alunos passaram a relatar suas experiências com a água, ou com a ausência dela, e chegaram às primeiras conclusões. Os desenhos, textos e as paródias foram excelentes ferramentas para fornecer informações sobre a percepção ambiental e ecológica e os valores de cada aluno. Percebeu-se, durante o processo, que o tema discutido nas atividades propostas possibilitou aos alunos o exercício de sua capacidade de participação, a interação entre suas próprias concepções a respeito da temática e os novos saberes que iam sendo construídos em conjunto com o proponente desse trabalho, possibilitando a formação integral dos sujeitos para uma atuação crítica e consciente nas principais questões que envolvem a vida em sociedade.

Em outro pensar na música enquanto gênese da relação ecológica homem-meio, na qual se concebe a composição, o ato criador, como resultado da influência do meio sobre o artista, Vieira; Schlee (2020) que educação ambiental é possível a partir da música pampeana do Rio Grande do Sul e do Uruguai, a partir da estética do frio, do músico Vitor Ramil, e do Templadismo dos músicos uruguaios Jorge Drexler e Daniel Drexler. Baseadas na problematização de Foucault, os autores dialetizam a relação cultura-natureza, convidando a pensar na importância da música como uma prática cultural capaz de mobilizar nossos pensamentos na criação de outras educações ambientais, rompendo com determinados parâmetros de valores e verdades que nos foram legados e que pouco questionamos. Nesta perspectiva, propõe ‘jogar o jogo com outras regras’, inventando outros modos de ser e viver o contemporâneo, nas mais diferentes esferas da vida social, política, econômica, ambiental e cultural, partindo da tese de que tais músicas, nascidas dessa relação, passam a ter força enquanto ferramentas em experiências educacionais voltadas para a construção de consciência ecológica. Na dimensão estética por eles evocada há estreita relação entre a música, a paisagem do pampa, os lugares, o clima frio e temperado na formação de um modo de ser, de compor e de se tornar sujeito. Desta forma, compreendem que a música pode tornar-se uma prática cultural capaz de contribuir num processo de educação, de transformações que giram em torno das relações humano e natureza; das relações com os espaços, com as paisagens.

No artigo “Ensinar a condição humana: uma reflexão sobre educação ambiental, música e autoformação” Yasmin Leon Gomes e Daniele Saheb (2019) apresentam reflexões sobre autoformação de educadores, pautadas no terceiro saber de Edgar Morin, qual seja o de ensinar a condição humana, a partir do diálogo entre educação ambiental, música, meio ambiente e educação sonora. Estas reflexões partem do ponto de vista que interpreta a autoformação como parte da condição humana em sua complexidade. Como parte dessa complexidade, consideramos a expressão das subjetividades, no caso desta pesquisa, a música. A educação ambiental contempla o eixo da ecoformação, relacionando-se com a música por meio dos conceitos de paisagem sonora e ecologia acústica. Sendo assim, propõem que para nossa autoformação enquanto educadores, é necessário um olhar tanto para o campo ecológico/ambiental, quanto para o artístico/estético, a fim de explorar nossa condição humana em sua inteireza. Nesta perspectiva, a música e a natureza são de grande relevância no processo de desmistificar a formação como algo advindo unicamente do externo, pelo fato de ambas dialogarem com as individualidades e subjetividades do ser, prezando por uma formação integral. Segundo as autoras, reiterando, assim, que um educador atento aos sons que o cercam está, intuitivamente, mais atento às suas vivências no contexto educacional pois, durante esse processo de “limpeza de ouvidos”, está desenvolvendo a escuta ativa e a sensibilidade ambiental e artística. Nessa acepção, em que inserimos a ecologia acústica e a paisagem sonora em primeiro plano nos processos auto formativos que envolvem a educação ambiental, os sons formam o ambiente que, por sua vez, nos formam. É interessante notar que nesta experiência de pesquisa fica clara a fundamentação epistemológica a partir de Edgar Morin, afastando-se da perspectiva fenomenológica que fundamenta os estudos de paisagens sonoras e a educação sonora, qual seja a de Pierre Schaeffer, que tem guiado as pesquisas no âmbito do Grupo de Pesquisa em Educação Sonora da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Em outro artigo que se utiliza da análise de letras de músicas, intitulado “Atravessamentos culturais e crise ambiental na atualidade: modos ecológicos de vida no rock ́n roll” (VIEIRA; HENNING, 2012) constroem, a partir do diálogo entre Zygmunt Bauman, Isabel Carvalho e Félix Guattari, uma forma de olhar a música como um espaço produtor de saber, neste caso, sobre consciência ecológica, especificamente com respeito a temas como a destruição da natureza, o meio ambiente, o consumo, o lixo, o derretimento das geleiras, o aquecimento global, os quais vêm sendo frequentemente abordados nas letras de músicas do gênero Rock’n’Roll. Segundo as autoras, o objetivo é o de investigar de que forma a música, nesse estilo, vem contribuindo para pensar a crise ambiental que se instala na atualidade. Para dar conta de responder a essa investigação, selecionaram bandas de Rock que abordam em seus trabalhos a crise ambiental, para então analisar os enunciados de natureza, meio ambiente, homem e consumo, presentes em tais letras. Como resultado da investigação, as autoras apontam que a análise de tais letras pode provocar o leitor a refletir sobre a importância desta arte para o campo da Educação Ambiental, bem como, problematizar sobre a contribuição do Rock’n’Roll na construção de um sujeito ecológico. Para isso, é importante pensar em nossas ações cotidianas e nas implicações de tais ações em nossos modos de vida, para que possamos produzir espaços de mudança a partir de micro intervenções na busca por pequenas rupturas diárias diante de nossas relações com o meio ambiente.

No artigo “Sons, corpo, sensibilidade: diálogos entre a música e a educação ambiental” (MARIN; PEREIRA, 2009), os autores apresentam um ensaio que trata da percepção ambiental, mais precisamente do sujeito percepiente que é afetado pelos fenômenos do meio em que se insere. O foco das reflexões é a dessensibilização dos sentidos provocada por modos de viver na atualidade e a defesa de uma ressignificação da corporeidade na criação de novas subjetividades, novos modos de viver e novas formas de relação com o meio e com o outro. A estrutura argumentativa passa pelas reflexões fenomenológicas de Merleau-Ponty e de alguns pensadores da teoria estética, pelas quais são destacados: a diluição de uma consciência destacada do mundo; a importância da corporeidade no fenômeno da percepção; a necessidade de ressensibilização dos sentidos na construção de novas subjetividades e novos modos de relação com o meio e com o outro. A partir desse foco, a música é tomada tanto como meio para processos de sensibilização, quanto como experiência de indeterminações que podem ressignificar concepções de educação ambiental. A percepção sonora é vista por meio de uma análise crítica, baseada em Theodor Adorno, de sensibilização auditiva de sons e de seus efeitos, a qual percebe o efeito da poluição sonora na diminuição da nossa sensibilidade auditiva. A síntese de Adorno é a seguinte: a decadência na sensibilidade musical se dá pelo fato de que os modismos dominam uma dimensão da sensibilidade humana que é de extrema importância na interação do ser humano com o mundo. Nesse sentido, muito embora os autores não façam uso, Schafer, por caminho diferente, advoga a mesma tese, ao afirmar que o ser humano está se tornando, cada vez mais, esquizofônico, ou seja, incapaz de pensar auditivamente, de relacionar a experiência sonora ao corpo produtor de som. A música é apresentada como uma captura criativa, uma experiência de superação da relação puramente intelectualista com o ambiente. O artigo fala da importância do aprender a ouvir, do deixar-se mover pelos sons do cotidiano. Tudo isso pode nos estimular a um processo expressivo que exige a superação de uma relação puramente reativa para com o ambiente, retomando o sentido de poetização dos lugares vividos a um desejo real de recriar modos de viver que permitam essas novas relações, baseadas na experiência estética, superando-se, assim, os cenários cotidianos que agridem e embrutecem nossos sentidos.

No artigo “La sostenibilidad come escucha: del paisaje sonoro al paisaje sensorial” Cristina Palmese e José Luis Carles Arribas articulam os fundamentos fenomenológicos de Pierre Schaefer, os estudos de paisagens sonoras de Murray Schafer e os estudos de comunicação acústica de Barry Traux na construção de três projetos de pesquisa e ensino que tomam, como ponto de partida, a complexidade da relação homem natureza, com a qual só podemos lidar a partir de uma proposta interdisciplinar, a fim de melhor enfrentarmos esses desafios contemporâneos. Neste viés, partem da tese de que o conceito de paisagem sonora é suficientemente transversal para que possa ser utilizado pelas diversas linguagens disciplinares a corroborarem na construção de soluções para o enfrentamento da crise ambiental. Para tanto, os autores destacam a necessidade de desenvolver metodologias que levem em conta o som, o subjetivo, o emocional, e a criação de novas redes de conexão entre as disciplinas, consolidando, assim, o pensamento multidisciplinar já amplamente aceito em nossa cultura, valorizando não apenas o ambiente sonoro, mas também aspectos subjetivos nos estudos de estética da paisagem, a consciência cidadã sobre o meio ambiente, a educação ambiental e promoção de ações participativas, em busca de uma visão multidisciplinar e multissensorial de tal conceito. Para tal, apontam possibilidades que atravessam as diversas disciplinas escolares, tais como a imitação das paisagens sonoras, a recriação do que se escuta por meio de gráficos sonoros, audiovisuais, experiências acústicas simuladas, mapas sonoros (mapas sonográficos para Schafer), dentre outros, contribuem para a aprendizagem ativa, ligada concretamente ao lugar.

Noutra experiência pedagógica utilizando a análise de letra de canção, desenvolvida com estudantes do ensino fundamental do município de Serra Talhada-PE, (DINIZ et al, 2012) articulam alguns instrumentos pedagógicos, tais como desenho, peça teatral, palestra e avaliação, cujo objetivo foi desenvolver consciência ambiental e investigar, por meio da percepção, a relação entre a pessoa e o ambiente. Na atividade referente à música, objeto de revisão do nosso artigo, os autores propuseram a apresentação, por parte dos alunos, da música “Cuide bem da árvore”, de autoria de Oswaldo Biancardi, a fim transmitir as informações de uma maneira mais alegre e descontraída. Para finalizar este primeiro momento, as crianças participaram de uma atividade com uma música que falava sobre as árvores “Cuide bem da árvore” de Oswaldo Biancardi, em um momento de grande participação das crianças. Segundo os autores, os alunos acompanharam, coletivamente, por meio do canto, e este método se mostrou extremamente contagiante, atraindo, inclusive, aqueles alunos mais retraídos, o que aponta para a importância da utilização de métodos dinâmicos para o aprendizado.

Ainda nesta tendência de análise de letras de canção, Pineli et al (2010) relatam um projeto desenvolvido com alunos do segundo ano do ensino médio de uma escola pública de Elói Mendes, Sul de Minas Gerais, o qual objetivou, por meio da interdisciplinaridade, conhecer a relação de dependência da água limpa da bacia hidrográfica do Ribeirão da Onça e a qualidade de vida da população do município. A fim de estimular a percepção ambiental dos alunos e favorecer a compreensão da interdisciplinaridade entre o ser humano e o meio ambiente, foram utilizados um questionário pré-diagnóstico, leitura e interpretação de textos, poesias, peça teatral, visitas em duas nascentes e na estação de tratamento de água e esgoto (ETA), rodas de conversa, elaboração coletiva de palestra realizada pelos alunos, além de uma feira de projetos ambientais e doação de mudas aos sitiantes. Além disso, os alunos fizeram uso de músicas de temática ambiental. Segundo os autores, foi possível perceber a aprendizagem de conceitos e mudanças de atitudes na prática cotidiana dos alunos. O lúdico na educação ambiental é uma forma diferenciada para a transmissão de conhecimento, onde a prática consolida a teoria e o trabalho interdisciplinar provoca uma reflexão e mudanças de atitudes.

No artigo “Visão de alunos e professores de instituições de música no Recife-PE sobre os problemas que a música causa a sua saúde” (ALBUQUERQUE; MELO, 2012), os autores dão ênfase à música, relatando que a mesma sempre esteve presente na vida humana, desde seu início, e assim trazer novas oportunidades de discutir a música e sua relação com o meio ambiente. Conservatórios de música são locais procurados por músicos e pessoas para um aprendizado na área, mais adequado para seu desenvolvimento na carreira artística. O objetivo deste trabalho foi o de entender o conhecimento dos alunos e dos professores na sua interatividade com a música em seu local de estudo e trabalho e os possíveis danos à sua saúde. A percepção prévia demonstrou que os alunos e professores das instituições de música têm um conhecimento parcialmente satisfatório sobre a definição de poluição sonora e os riscos de saúde gerados por meio da atividade musical. Porém, insatisfatório em relação a medidas preventivas à saúde e seu comportamento. É sugerido pelos autores o desenvolvimento de atividades educativas nas escolas de música para uma melhor qualidade de vida dos músicos e dos estudantes, pois a qualidade de vida está basicamente ligada ao conhecimento que temos sobre as temáticas que nos rodeiam.

Vital; Batista; Gomes (2021) apresentam uma pesquisa bibliográfica acerca da produção musical de Luiz Gonzaga, realizada no site oficial do músico, com o intuito de refletir sobre a relação solo-cultura presente nas letras de músicas do seu universo e que poderiam servir de aporte no desenvolvimento de atividades educativas que busquem a popularização da preocupação com o solo nas escolas. A análise das músicas gravadas e cantadas pelo artista revelou sua inquietação com o ambiente e com o trato com a terra, expressando com muita originalidade a cultura nordestina e difundindo com sua voz, a realidade das terras dos sertões e cariris, sendo importante estratégia pedagógica a ser utilizada em sala de aula para dialogar sobre o solo.

Noutro artigo que trata da utilização de letras de canções na formação de consciência ambiental, Sabino; Damasceno (2018) apontam para a importância da preservação do meio ambiente, da necessidade de mudanças de hábitos e de atitudes para a melhoria na qualidade de vida e reestabelecimento do equilíbrio ambiental. Segundo as autoras, as políticas socioambientais adotadas no Brasil não têm, ainda, um respaldo da população. Frente a este desafio, propõem criar motivações para um despertar consciente da sociedade. Para tanto, partindo da tipologia de conteúdos de Zabala, desenvolvem uma oficina, destinada a alunos do ensino médio, na qual trataram do ensino/aprendizagem da cadeia alimentar e do fluxo de energia em ecossistemas. A ciência, a música, a arte e o diálogo foram utilizados na concretização da proposta. Neste processo, o uso de letras de músicas contribuiu para fortalecer a socialização, possibilitando o respeito pelas diferenças, a alteridade, e contemplando a diversidade cultural existente.

Ainda versando sobre a utilização de letras de canções, Medeiros; Miranda (2018) apresentam uma análise realizada a partir da homenagem aos “100 anos de Luiz Gonzaga”, sob o aspecto da inclusão digital. Para isso, realizaram um levantamento biográfico e uma análise crítica, a partir dos aportes de Freire e Vigotsky, da música “Asa Branca”, a qual permitiu identificar em sua letra o meio ambiente e o impacto social provocado pela seca na vida dos moradores do sertão nordestino. A partir deste tema, adotou-se um traçado metodológico visando o letramento e a inclusão digital numa ação de pesquisa e ensino que envolveu quinze alunos de uma turma EJA. Neste percurso, os pesquisadores identificaram a importância da web como instrumento potencializador de uma discussão interdisciplinar no processo de aquisição de habilidades de leitura e escrita, sem esquecer o tema ambiental e social, tratados pela ludicidade que a música proporciona.

No artigo “A educação formal com o auxílio da educação ambiental em escola de educação infantil” (RIBEIRO et al, 2018), os autores, por meio de suas análises, buscaram fortalecer ações voltadas à qualificação da educação formal e o respeito ao meio ambiente, os quais são pontos prioritários para atingir a melhoria esperada para a educação no país. Acredita-se que utilizar a Educação Ambiental, conforme Lei Federal nº9.795/99, na Educação Infantil , o indivíduo pode exercitar a cidadania, desenvolver a solidariedade, o respeito e a responsabilidade, por meio do desenvolvimento de valores éticos e morais, compreendendo que são seres dignos de direitos e deveres. Este artigo tem como objetivo ações que buscam motivar professores da Educação infantil em torno de ações de preservação e multiplicação de conhecimentos por meio da sensibilização e conscientização dos alunos na preservação do meio ambiente. Verificou-se que a educação ambiental efetivamente inserida na educação formal, pode contribuir para uma real mudança do indivíduo como ser transformador do meio ambiente. A música se mostrou como grande potencializadora da absorção dos conteúdos. Aprender com a música significou aprender a ouvir, a deixar-se mover pelos sons do cotidiano, estimular tanto o processo expressivo como o desejo real de recriar o modo onde se vive.

A música Xote Ecológico é novamente visitada noutro artigo (MELO; SANTOS; CRUZ, 2015), no qual os autores propõe uma metodologia para explicar desenvolvimento sustentável por meio da análise da produção de álcool em uma usina de Sergipe, em aulas de química no ensino médio. Uma das atividades realizadas foi a Para tal, a proposta metodológica foi adaptada de uma pesquisa que originalmente utilizou-se da redação para a coleta de dados de aprendizagem. Neste percurso, utilizaram mapa conceitual para identificar conceitos e erros de sistematização, proporcionando maior facilidade de organização do conhecimento. Num primeiro momento, o professor requereu um reconhecimento de campo, seguido de uma introdução sobre o desenvolvimento sustentável por meio da utilização da citada música. Posteriormente, foi realizado o reconhecimento de campo pelos alunos e, por fim, a utilização de mapa conceitual para a avaliação da aprendizagem. Os resultados obtidos apontam para o reconhecimento, por parte dos alunos, da necessidade da sustentabilidade para reverter os desequilíbrios ambientais e que a usina apresenta uma junção de desenvolvimento sustentável com a educação ambiental.

Ainda com respeito à utilização da música “xote ecológico”, Vasques; Tetto (2018) avaliam como a questão ambiental é tratada pelos professores, sugerindo abordagens ambientais dentro das disciplinas dos cursos básicos. A metodologia adotada consistiu na aplicação de questionários aos professores destes cursos no município de São Paulo. Neste percurso, foi avaliado o desenvolvimento de uma atividade por professores de artes, na qual a citada música foi utilizada no sentido de proporcionar aos estudantes a identificação de elementos que e processos naturais que indicam regularidade ou desequilíbrio do ponto de vista ecológico, como também no sentido de permitir aos estudantes reconhecer os processos de intervenção do homem na natureza para a produção de bens, o uso social dos produtos dessa intervenção e suas implicações ambientais e sociais.

Outro relato de experiência que se utilizou da música “xote ecológico” (SANTOS; SOBRAL, BARRETO, 2014), o fez por meio de oficinas ecopedagógicas que tiveram por objetivo sensibilizar as crianças dos assentamentos Oito de Março, Padre Josimo Tavares e Dorcelina Folador, situados no município de Itaporanga D’Ajuda-SE e incluí-las socialmente nas discussões da relação homem-sociedade-natureza, levando-as a discutirem a importância da mobilização para a proteção da natureza e conquista de seus direitos como cidadãos. Neste percurso, trabalhou-se, dentre outras ferramentas, a leitura e interpretação de textos. A letra da música “Xote Ecológico” foi escolhia para ser lida e analisada. Durante a atividade percebeu-se uma grande dificuldade de alguns dos participantes em relação à leitura e interpretação, embora a maioria estivesse no 5º ano do ensino fundamental, tinham dificuldade extrema em correlacionar as informações contidas na música. Após analise em conjunto da música, cada um escreveu e fez um desenho sobre o que entenderam em relação ao texto. Esta atividade, além de levar a discussão de diversos temas de ordem socioambiental, também foi importante no sentido de estimular a prática da leitura e escrita entre os participantes.

Ainda versando sobre a análise de letras de música, Góes; Góes (2020) propõem um conjunto a atividades voltadas para a aprendizagem ativa, tais como jogos didáticos, simulações de interações ecológicas, discussões de músicas, documentários e de desenhos animados com fundamentação ecológica, direcionados para o ensino médio, utilizando recursos de baixo custo e muita criatividade para desenvolver e aprofundar os conteúdos da educação ambiental. Neste percurso propõem compreender a ecologia, os problemas ambientais e possíveis soluções por meio da experiência musical. Nesta atividade, requerem que os alunos procurem músicas que versem sobre ecologia e que as apresentem por meio de algum recurso didático, à escolha de cada grupo, tais como cantada em coral e/ou individualmente, por meio de coreografia ou mímicas, interpretação de personagens, uso de instrumentos musicais, fantasias, entre outros. Nas conclusões, as autoras apontam que a música representa muito mais do que uma simples associação entre sons e palavras, mas uma ferramenta potente que pode auxiliar na aprendizagem, tornando-a um processo prazeroso de desenvolvimento do raciocínio, memória, reflexão, criatividade e percepção auditiva, além de despertar emoções e sentimentos.

Noutra experiência de pesquisa e ensino que se utiliza da análise de letra de música, Caldas; Peneluc; Pinheiro (2018) propõem uma sequência didática, tomando como ponto de partida o tema “poluição atmosférica”, utilizando como metodologia os passos ou momentos da Pedagogia Histórico Crítica (Prática Social, Problematização, Instrumentalização, Catarse, Retorno a Prática Social). Para isso, tanto a Pedagogia Histórico-Crítica quanto a Educação Ambiental Crítica, fornecerão suas bases para um olhar crítico da poluição atmosférica e de todo processo de mediação didática. Nesta perspectiva, a prática social e a problematização acontecem juntas e em duas aulas, devendo-se trabalhar em roda de conversa. No decorrer da aula, perguntas são feitas no sentido de desenvolver o pensamento crítico, as respostas dadas pelos educandos podem gerar novas perguntas que conduzirão os mesmos a um entendimento mais elaborado da realidade. Começando com uma poluição mais genérica e depois uma poluição mais específica (poluição atmosférica), utilizaram a música “Fábrica”, da banda Legião Urbana, para introduzir e expor uma relação entre poluição atmosférica e os problemas sociais. Ao final do processo, pretende-se que o aluno saia de um nível de compreensão da realidade, que no início era sincrético, para um nível de compreensão sintético, um novo ator social, ciente de que é autor de sua história e, portanto, capaz de reverter os quadros sociais e ambientais atualmente degradantes.

Ainda versando sobre a análise de letra de canções, Córdula; Fonsêca (2018) desenvolvem uma pesquisa qualitativa, etnográfica e fenomenológica, cujo objetivo foi o de estimular a consciência ambiental nos alunos da 6° ano do ensino fundamental II de uma escola pública municipal de Cabedelo-PB, onde foram desenvolvidas 10 oficinas ecopedagógicas de sensibilização, planejadas a partir dos resultados obtidos de um Pré-teste e comparados com o pós-teste, para verificação as mudanças nas atitudes pró-ambientais. A quinta das dez oficinas constituiu-se na análise crítica da letra da música “água”, de Xangai e Jatobá. Previamente, os alunos foram preparados para compreenderem e prestarem atenção na letra da música, com auxílio de uma cópia impressa da letra, para que a acompanhassem. Após a reprodução da música, foi realizado em equipes, a interpretação da letra, sobre as expressões poéticas dadas as fontes de água, sua importância vital e a escassez que esta ocorrendo devido à poluição dos mananciais pela ação do ser humano. Os resultados obtidos mostraram resultados nas mudanças das atitudes dos alunos, refletidas em suas respostas ao pós-teste e no empenho durante as oficinas ecopedagógicas.

A análise das letras de cinco canções de Chico Science consistiu em uma das atividades desenvolvidas por Vieira et al (2012) no contexto de uma ação de pesquisa e ensino sobre manguezais, desenvolvida com estudantes do 6º ano de uma escola municipal de Florianópolis (SC). Nos conteúdos trabalhados, buscou-se enfatizar as conexões e articulações entre ciências naturais e sociais. Os educandos expressaram seus conhecimentos sobre manguezal por meio de desenhos, apresentações teatrais, apresentações musicais e explicações das histórias em quadrinhos. As atividades deste trabalho são iniciativas à participação dos estudantes na construção de significados sobre os manguezais por meio de relações sociais, culturais e biológicas. No processo de ensino-aprendizagem, de maneira geral, devem ser incentivadas a produção e utilização de outros recursos didáticos além dos livros. Uma intervenção artística a partir de poemas, músicas e ilustrações dá aos estudantes uma percepção diferente de conhecimento e permite abertura a novos modos de expor suas interpretações. O conhecimento é visto como distinto da fala do professor e muitas vezes não é identificado, pois dispõem de “vestimentas culturais” mais representativas do cotidiano que da sala de aula em si.

No artigo “Trilha ecológica como estratégia ambiental em Salvaterra, Pará, Brasil” (MENDES et al, 2016), os autores utilizaram como recurso pedagógico a trilha ecológica que porventura tem se mostrado um elemento motivador na apropriação dos princípios da educação ambiental, visando desenvolver, principalmente, o sentimento de valorização, preservação e conservação do ambiente, no educando. Este estudo foi realizado com alunos do 5º e 6º ano do ensino fundamental (3ºciclo) da rede municipal do município de Salvaterra-PA, utilizando para tal a área da reserva “Mata do Bacurizal”, onde aproveitaram uma trilha que já existia na localidade. As temáticas que foram trabalhadas ao longo do percurso estavam divididas em cinco estações localizadas em pontos estratégicos, onde foram discutidos tópicos relacionados às questões ambientais com um forte apelo às problemáticas inerentes ao município. Os alunos que participaram da mesma desenvolveram o entendimento de que a educação ambiental não se resume apenas à transmissão de informações, mas sim em valores, sentimentos e cuidados, visando enriquecer e desenvolver atitudes críticas e saberes necessários para a conservação do ambiente. Percebemos no artigo que houve uma reflexão por meio da vivência dos conteúdos de educação ambiental assistidos no espaço formal de ensino e que o público-alvo conseguiu formar opiniões sobre as questões ambientais abordadas no decorrer da trilha. Os autores apontam que por meio da exposição da música e dos vídeos, os alunos passaram a compreender o processo contínuo de educação ambiental, como a soma de interações inerentes ao meio ambiente e que pequenos gestos podem fazer a diferença, tornando-os cidadãos conscientes e capazes de interferir no meio em que vivem. Portanto, a interpretação e os significados das palavras da música despertaram nos alunos o senso crítico.

No artigo “Abordagem pedagógica com experiência da coleta seletiva de resíduos sólidos em escola pública municipal de São Mateus-ES” (SOARES; SILVA, 2020), as autoras, partindo da tese de que são muitas as constatações de que o homem precisa avançar no sentido de uma educação ambiental consciente da preservação e, desta forma, entendemos que a escola é a instituição mais adequada para que haja esse trabalho de aprendizagem e disseminação da importância do meio ambiente para toda a humanidade, desenvolvem uma ação de pesquisa ensino sobre a coleta seletiva de resíduos sólidos em escola pública municipal de São Mateus-ES. Neste percurso, o trabalho com música surte um efeito muito grande no aspecto “ouvir”. A partir da música “Semente do amanhã” de Gonzaguinha os alunos do 3º ao 5º Ano exercitam a reflexão sobre o que a letra transmite e também constatam que em alguns momentos é essencial parar para ouvir, uma vez que a poluição sonora atrapalha esses momentos.

No artigo intitulado “Arte e educação ambiental na escola” (PATRIARCHA-GRACIOLLI; ZANON, 2013), as autoras apresentam os resultados de uma ação de pesquisa e ensino que aponta para a necessidade da implantação da Educação Ambiental (EA) nas escolas brasileiras, na busca de uma maior criticidade em relação aos problemas ambientais e as relações entre os seres vivos. Tal ação foi desenvolvida com alunos do 9º ano de ensino fundamental de uma escola em Campo Grande-MS. Baseada na teoria de Jean Piaget, foram estimulados a identificarem os impactos ambientais causados pelas ações humanas e por meio da arte demonstrar a necessidade de assumir novos valores em relação ao ambiente. Dessa forma, dentre os grupos formados, dois apresentaram teatro e um apresentou duas paródias associadas a um cartaz. Após as apresentações foram feitas reflexões sobre os trabalhos apresentados e sobre a compreensão das questões socioambientais envolvidas. A oficina “Educadores Ambientais Críticos: por uma práxis de intervenção pedagógica” foi estruturada em seis momentos sequenciais e imbricados. No primeiro momento, após a apresentação dos envolvidos, foram delineados os objetivos Tratou-se de um momento introdutório, mas indispensável para se conhecer o público com o qual se estava lidando e interagindo.

No último artigo selecionado na plataforma sucupira (RODRIGUES; PLÁCIDO, 2018), encontramos uma oficina desenvolvida com graduandos de Licenciatura em Ciências Agrícolas da UFRRJ, a qual contou com seis momentos pedagógicos, utilizaram a música “Absurdo” da cantora e compositora Vanessa da Mata, cujo tema é a relação desigual estabelecida entre o ser humano e a natureza. Esse material foi apresentado ao grupo em partes e, no intervalo de cada apresentação, houve um momento de discussão e reflexão. Os autores apontam que tais atividades movimentaram os pesquisadores para compor as reflexões acerca da temática em suas pesquisas de mestrado. As propostas de intervenção evidenciaram preocupação com as questões supracitadas, embora tenham sido frágeis.



Um retrato do uso da música em direção à educação ambiental

Na tabela a seguir apresentamos uma compilação dos artigos acima analisados, tomando como parâmetros as seguintes perspectivas:

Parâmetro 1: análise de letra de música e construção de paródias.

Parâmetro 2: dimensão estética com parâmetro na natureza.

Parâmetro 3: música como experiência criativa.

Parâmetro 4: paisagens sonoras, música e meio ambiente.

Parâmetro 5: a música como meio dinâmico na construção do conhecimento.

Parâmetro 6: educação ambiental e musical por meio da audição inteligente.

Parâmetro 7: a música como uma das dimensões estáticas da arte.

Tabela 2. Distribuição dos artigos a partir dos parâmetros (fonte: os autores).

PARÂMETRO 1:

  • Análise da letra da música “Todos Juntos” de Chico Buarqie na construção de valores éticos e morais.

  • Uso da mesma música de Chico Buarque, agora como culminância de uma proposta de desenvolvimento de um teatro de fantoches, onde buscaram sensibilizar os alunos para os problemas ambientais de uma comunidade da cidade de Belém-PA.

  • Análise de letra de música na identificação de visões sobre a astronomia e a natureza.

  • Análise de letra de música na construção de conceitos de várias disciplinas, inclusive ciências naturais.

  • Análise de letra de música voltada para tanto para a saúde das pessoas, quanto para a formação de consciência crítica a respeito da preservação do meio ambiente.

  • Análise de letra de música (paródia) voltada construção de consciência ecológica, valorizando a correta postura com respeito ao tráfico de animais, coleta seletiva, lixo, água, agrotóxicos, dentre outros.

  • Análise de letras de paródias como ferramenta de sensibilização em uma escola dos anos iniciais do ensino fundamental do município de Manaus, mais especificamente para despertar o interesse do aluno sobre o tema água.

  • Análise de letras de canções do punk rock buscando a construção de um sujeito ecológico, por meio de micro intervenções na busca por pequenas rupturas diárias diante de nossas relações com o meio ambiente.

  • Análise de letra de canção com o objetivo de desenvolver, de forma lúdica, consciência ambiental e investigar a relação entre o homem e o meio ambiente.

  • Análise de letra de música com temática ambiental com vistas a estimular a percepção da relação homem-meio ambiente.

  • Pesquisa bibliográfica voltada para levantar as músicas de Luiz Gonzaga que possuem cunho ecológico, em particular, sua preocupação com o solo.

  • A música como instrumento de conscientização, sendo a letra o eixo norteador do diálogo, a partir da perspectiva freiriana, sobre fluxo de energia e cadeias alimentares.

  • Análise crítica, a partir dos aportes de Freire e Vigotsky, da música “Asa Branca” no processo de aquisição de habilidades de leitura e escrita, tratadas pela ludicidade que a música proporciona.

  • Análise de letra da canção “xote ecológico” na reflexão em torno do conceito de desenvolvimento sustentável, no âmbito da análise do ciclo de produção de álcool numa usina.

  • Análise de letra da canção “xote ecológico” no contexto da discussão sobre poluição ambiental.

  • Utilização da música “xote ecológico” em oficinas ecopedagógicas, com o objetivo de sensibilizar as crianças nas discussões da relação homem-sociedade-natureza.

  • Proposta de pesquisa de músicas que falem sobre ecologia e a apresentação, em grupo, por meio de diversos recursos, tais como cantada, coreografada, interpretada com personagens, tocada, dentre outros.

  • Análise da letra da música “Fábrica” da banda Legião Urbana, na construção crítica de um olhar acerca da poluição atmosférica.

  • Análise crítica da letra da música “água”, de Xangai e Jatobá, sobre as expressões poéticas dadas às fontes de água, sua importância vital e a escassez que está ocorrendo devida à poluição dos mananciais pela ação do ser humano.

  • Análise das letras de canções de Chico Science no contexto da análise dos manguezais.

  • Análise da letra da música “sementes do amanhã” de Gonzaguinha no contexto da discussão sobre a importância do parar para ouvir, frente aos desafios da poluição sonora.

  • Construção de paródias na análise dos impactos ambientais causados pelas ações humanas e por meio da arte demonstrar a necessidade de assumir novos valores em relação ao ambiente.

  • Análise da letra da música “Absurdo” de Vanessa da Mata, cujo tema é a relação desigual estabelecida entre o ser e a natureza.



(MELO; BARROS, 2013)



(MENINO; BEZERRA; NAKAYAMA, 2018)







(GOMES; PIASSI, 2012)



(LIMA; BRANDÃO, 2016)



(ARAÚJO et al, 2020)





(TURKE et al, 2020)







(JÚNIOR et al, 2016)







(VIEIRA; HENNING, 2012)







(DINIZ et al, 2012)





(PINELI et al, 2010)



(VITAL; BATISTA; GOMES, 2021)



(SABINO; DAMASCENO, 2018)



(MEDEIROS; MIRANDA, 2018)







(MELO; SANTOS; CRUZ, 2015)



(VASQUES; TETTO, 2018)



(SANTOS; SOBRAL; BARRETO, 2014)



(GÓES; GÓES, 2020)







(CALDAS; PENELUC; PINHEIRO, 2018)

(CÓRDULA; FONSÊCA, 2018)





(VIEIRA et al, 2012)



(SOARES; SILVA, 2020)





(PATRIARCHA-GRACIOLLI; ZANON, 2013)



(RODRIGUES; PLÁCIDO,

2018)

PARÂMETRO 2:

  • A música como uma das dimensões estéticas da arte tomada como parâmetro de ensinamento da forma de olhar a natureza.



(TAVARES; BRANDÃO; SCHMIDT, 2009)

PARÂMETRO 3:

  • A música como uma experiência criativa e como uma contribuição para o engajamento contínuo humano e não-humano como fluxo produtivo do artista.

  • A música como uma criação dialética entre o compositor, em seu ato criador, e a natureza, afastando-se da tradicional dualidade cultura-natureza, tornando tênue a linha de separação.

  • Composição musical e análise de letras compostas pelos próprios estudantes com vista ao alcance do entendimento das questões ambientais inseridos no contexto histórico, que inclui fatores sociais, políticos, culturais e econômicos.

  • Análise crítica, a partir dos aportes de Freire e Vigotsky, da música “Asa Branca”, numa turma de EJA, no processo de aquisição de habilidades de leitura e escrita, sem esquecer o tema ambiental, tratado pela ludicidade da música.

  • Construção de paródias para a conscientização em torno da importância vital da água e para seu uso racional.

  • Música como processo de compreensão da educação ambiental, como interações inerentes ao meio ambiente, formação de cidadãos conscientes e capazes de interferirem no meio.



(CARVALHO, 2014)





(VIEIRA; SCHLEE, 2020)





(DUARTE et al, 2016)







(MEDEIROS; MIRANDA, 2018)





(PEREIRA et al, 2018)



(MENDES et al, 2016)

PARÂMETRO 4:

  • Diálogo entre os estudos de paisagens sonoras, a música e meio ambiente e a epistemologia de Edgar Morin como aporte na autoformação de educadores.

  • Diálogo Pierre Schaefer, Murray Schafer e os estudos de comunicação acústica de Barry Traux no entendimento da relação homem-natureza a partir de uma proposta interdisciplinar



(GOMES; SAHEB, 2019)





(PALMESE; ARRIBAS, 2021)

PARÂMETRO 5:

  • Música como meio dinâmico para construção do conhecimento de poluição sonora e cuidados com a saúde, com vistas à formação de alunos mais conscientes e sensíveis à problemática ambiental.

  • A música como potencializadora da absorção dos conteúdos voltada a ações de preservação e multiplicação de conhecimento através da sensibilização e conscientização dos alunos na preservação do meio ambiente.



(ALBUQUERQUE; MELO, 2012)





(RIBEIRO et al, 2018)

PARÂMETRO 6:

  • Educação musical e educação ambiental por meio do desenvolvimento da audição inteligente.



(SILVA, 2008)

PARÂMETRO 7:

  • A música como parâmetro criativo. Aprender a ouvir, a deixar-se mover pelos sons nos estimula e nos leva a consciência ambiental.



( MARIN; PEREIRA, 2009)



O gráfico a seguir apresenta, por meio da análise percentual, a frequência de artigos enquadrados em cada um dos sete parâmetros acima descritos.



Figura 1. Percentual de artigos por parâmetro (fonte: os autores).



Vale ressaltar que esses resultados equivalem à análise de artigos das principais revistas brasileiras que utilizaram da música com vistas à educação ambiental.

Com relação aos 39 artigos analisados, o parâmetro que obteve maior porcentagem foi o da análise de letra de música, o qual aparece com 67,5%. Este dado é muito interessante, pois mostra que, apesar de a música estar presente em tais artigos, ela não é trabalhada na perspectiva da educação ambiental sonora, a qual está fortemente presente na pesquisa que estamos desenvolvendo. Não estamos aqui depreciando o valor da análise de letras, mas afirmando que consideramos importante a formação de consciência crítica e percepção auditiva, dialogando por meio de referenciais adequados, como apresentamos na seção a seguir.

Paisagens sonoras, música e meio ambiente” representaram 15% dos artigos analisados, tendo como referência bibliográfica o compositor e escritor canadense R. Murray Schafer, apresentando termos como paisagens sonoras e audição inteligente. Contudo, tais artigos apresentam a música e sua relação com o meio ambiente, mas não fazem uso dos trabalhos de Marisa Fonterrada, que, para nós, são de extrema importância por resgatarem as obras de Schafer aqui no Brasil, unificando conceitos de paisagens sonoras e pensamentos ecológicos, o que nos convida a ter com o som uma relação positiva. Contudo, para que isso ocorra plenamente, é preciso desenvolver uma consciência a partir da sonoridade. Por meio dos sons, a educadora Fonterrada retrata que, ao ouvirmos a partir dos exercícios de sensibilização, sentimo-nos íntegros, vivos e integrados a nós mesmos, aos outros homens e ao meio em que vivemos, consistindo numa atitude responsável pela preservação do meio ambiente.

A “música como meio dinâmico na construção do conhecimento” e “música como experiência criativa dialética” apresentaram a porcentagem de 5,0%. Tais artigos repousaram num aporte teórico importante. Contudo, não encontramos a necessária fundamentação que pudesse permitir o diálogo entre a pedagogia crítica, a epistemologia e os estudos de paisagens sonoras e da educação ambiental que, na nossa visão, consistiria na roupagem dinâmica que fundamentaria os exercícios de sensibilização propostos por Schafer e as quatro funções da escuta de Pierre Schaeffer.

A música como uma das dimensões estéticas da arte”, a “Educação ambiental e musical por meio da audição inteligente” e a “Dimensão estética com parâmetro na natureza” apresentam a menor porcentagem, no valor de 2,5%. Observamos que essa diminuição ocorreu em virtude do trabalho com a música na perspectiva ambiental ter saído mais do comum e usual, para um caminho mais específico, relacionado à construção, interpretação e refinamento, tendo a natureza como parâmetro de perfeição e harmonia.



Música e meio ambiente: nossa inserção na tradição de pesquisa

Alinhados com a tradição de pesquisa acima delineada por meio da análise da produção em pauta, estamos desenvolvendo, no âmbito do Grupo de Pesquisa em Educação Sonora da UFRPE, ações de pesquisa e ensino que buscam construir um diálogo entre os estudos de paisagens sonoras e a educação sonora, protagonizados pelo educador musical canadense Raymond Murray Schafer (2001; 2009), a ecologia profunda delineada por Fritjof Capra (2006), as relações estéticas entre música e meio ambiente desenvolvidas por Marisa Trench de Oliveira Fonterrada (2004) e a pedagogia conscientizadora de Paulo Freire (2021).

Neste diálogo, partimos da tese de que a música, sendo a paisagem sonora antrofônica mais perfeita, carrega traços que a aproximam da perspectiva ecológica de Capra, tais como colaboração, riqueza, diversidade, qualidade de vida, dentre outras. Assim como a vida humana e todas as outras têm seus valores intrínsecos e de forma independente dos propósitos humanos, também é inalienável, como nos ensina Freire, o direito de ser e não apenas estar no mundo. É, portanto, igualmente inalienável o direito ao desenvolvimento da escuta pensante e o direito à convivência em ambientes sonoros mais saudáveis.

A música, então, torna-se o referente do belo, a composição que nos ensina como devemos nos portar enquanto compositores desta grande orquestra, que é a paisagem sonora mundial. Uma sinfonia de muito ruído, sons e pouco silêncio, feita a inúmeras mãos, fruto de sociedades intencionalmente imperfeitas. Dissonâncias do reducionismo do direito à riqueza e à diversidade da vida, e, porque não dizer, à riqueza e diversidade de sons e momentos de silêncio, característicos das paisagens saudáveis. Como diz Lulu Santos (1996), “não existiria som se não houvesse o silêncio”, os quais se arranjam nas músicas e ciclos que mexem com nossos sentimentos, na medida em que somos “feitos de silêncio e som”. O sutil jogo entre dissonância/tensão e consonância/resolução confere beleza à música e mexe com estatutos da percepção humana. O ser humano não aprecia a mesmice, o monótono das paisagens urbanas e seus incessantes ruídos de fundo, assim como, é ainda mais caprichosamente, a experiência sonora monotônica, a melodia inflexível ou a possibilidade de uma música sem silêncio.

A presença se percebe na ausência, ou como diz Freire (2021), evocando Husserl, não há “eu” sem um “não eu”, e o “eu” se constitui na constituição do “não eu” constituído, discurso que tem seu auge na afirmação de Sartre, citada por Freire (2021), de que consciência e mundo se dão ao mesmo tempo e, portanto, não há consciência desligada do mundo. Daí, temos que a consciência auditiva é gestada na medida em que intencionamos escutar, função auditiva exclusiva do ser cultural, ato revelador da dialética homem-mundo, cujos objetos sonoros são percebidos destacados de quem intenciona.

O ruído, que teima em não calar, impede a beleza da suave relação entre som, ruído e silêncio, que carrega os traços transcendentais e estéticos presentes na música. Na antítese, enxergamos que a humanidade só alcançará a antrofonia perfeita, no nosso caso, da ecologia sonora, numa sociedade perfeitamente justa e, por isso, livre. Não será mais do ser humano imperfeito, mas da sua busca pela perfeição transcendental, perdida a cada expulsão dos diversos ‘jardins do éden’, causadas pela aculturações, máculas das apropriações capitalistas que se fez da arte e do belo, bens de consumo de uma sociedade esquizofônica.

Mas o que são os estudos de paisagens sonoras? Raymond Murray Schafer, compositor, escritor e educador musical canadense, no seu livro “A afinação do mundo” (Título original: “The tuning of the world”) (Schafer, 2001) estabelece, de forma pioneira, uma maneira sistemática de estudar a paisagem sonora e sua evolução histórica. A partir do estabelecimento de um corpo organizado de conceitos, dentre os quais o de paisagem sonora e o de ecologia acústica, Schafer se lança na análise histórica das paisagens sonoras, bem como dos fatores científicos, sociais e artísticos envolvidos em suas evoluções, em direção ao estabelecimento das bases de uma nova interdisciplina, denominada por ele de projeto acústico (2001, p. 366), a qual “requer os talentos de cientistas, cientistas sociais e artistas (em particular, músicos). O projeto acústico procura descobrir princípios pelos quais a qualidade estética da paisagem sonora pode ser melhorada.”. Para Schafer, paisagem sonora é “qualquer porção do ambiente sonoro vista como um campo de estudos. O termo pode referir-se a ambientes reais ou a construções abstratas, como composições musicais e montagens de fitas, em particular quando consideradas como um ambiente.” (SCHAFER, 2001, p. 366). Por outro lado, a ecologia acústica “é, assim, o estudo dos efeitos da paisagem sonora sobre as respostas físicas ou características comportamentais das criaturas que nele vivem. Seu principal objetivo é dirigir a atenção aos desequilíbrios que podem ter efeitos insalubres ou hostis.” (SCHAFER, 2001, p. 364).

Se, de um lado, temos, os estudos de paisagens sonoras como fundamentação teórica para a prática em educação sonora, da qual nascem os exercícios de sensibilização da audição como meio para a construção de consciências auditivas, de outro, temos os estudos em bioacústica (KRAUSE, 2002), os quais apontam para as consequências dos desequilíbrios causados pela ação ruidosa das sociedades modernas nos ecossistemas, ameaça real à preservação das espécies. A audição confere uma vantagem para a sobrevivência. Segundo Roederer (1998), “a interpretação da informação acústica oferecida pela linguagem e pelo ambiente tem uma importância biológica fundamental”. Neste sentido, a consciência auditiva pode levar os indivíduos e comunidades à busca de ações políticas que busquem minimizar os efeitos maléficos dos ruídos gerados pelas sociedades. Nasce, deste cenário urgente, a necessidade de mudança. Parece-nos que um possível caminho seria o desenvolvimento, nas pessoas, de níveis de consciência auditiva capazes de transformá-las de agentes ruidosos a policiadores da qualidade sonora dos ambientes, numa ação significativa em direção à educação ambiental sonora. Segundo Fonterrada (2004, p. 87),

Ao estudarmos os princípios da ecologia, enfatizamos a importância da consciência como dirigente das ações do homem. É ela, também, responsável pela preservação do meio ambiente, pois faz com que o homem se perceba como parte do mundo e integrado a ele e que, portanto, toda ação espoliativa incidirá sobre o planeta e seus habitantes. A consciência é o fio condutor da ação do homem e da resolução de problemas.

Construir e conservar pensamentos ecológicos, a partir da construção de níveis de consciência auditiva capazes de tornar-nos seres cuidadores, restauradores, policiadores dos ambientes dos quais fazemos parte, pode levar as pessoas a terem com o som uma relação positiva, de convivência e escolha, não de fuga, levando-nos à integridade, vivos e integrados a nós mesmos, aos outros homens e ao meio em que vivemos. Neste sentido, Capra (2006) corrobora com Fonterrada (2004), trazendo um novo paradigma à ecologia, repartindo uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Esta ecologia, dita profunda, reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida, afastando-se de uma visão antropocêntrica, em direção a uma visão colaborativa, onde todos são igualmente importantes. Desta forma, a única maneira de superar a crise ambiental e criar condições saudáveis de vida na Terra é a organização ser baseada na estruturação da natureza e de seus ciclos. Os sistemas vivos, diz Capra (2002, p.238) “são redes autogeradoras, fechadas dentro de certos limites no que diz respeito à organização, mais permeáveis a um fluxo contínuo de energias materiais". O modelo alternativo, considerado por Capra o único capaz de superar a crise ambiental, baseia-se no mesmo modelo existente na natureza, denominado pelo autor de “teia da vida”. Sua principal característica é se organizar em redes dentro de outras. Nesse modelo, o resíduo (dejeto) de um sistema é alimento de outro; portanto, não se produz lixo e não se exaure a Terra, pois tudo é reaproveitado.

Nesta perspectiva da educação ambiental sonora como parte a integrar os estudos da educação ambiental, encontramos nos estudos de paisagens sonoras do educador canadense Raymond Murray Schafer (SCHAFER, 2001; 2009) um bom referencial para o desenvolvimento de uma escuta pensante, em direção à construção de níveis de consciência auditiva, para que as pessoas sejam capazes de decidirem sobre quais sons desejam estimular e quais desejam retirar de suas paisagens sonoras.

A ecologia sonora pode nos levar a entender que, assim como a natureza organiza suas paisagens, o homem pode se voltar às suas origens ancestrais, entendendo-se enquanto um fio da grande teia da vida, encontrado naquelas paisagens naturais, bem como na música, a paisagem sonora humana mais perfeita, elo entre a mundanidade e a transcendentalidade, os referentes do belo para o embelezamento do mundo, das suas paisagens urbanas. Não é obra de um único ser, tais paisagens são sinfonias compostas por milhares, milhões de compositores. Se for difícil, ou impossível, para uma pessoa querer compor um som de uma cidade, a partir do momento em que construímos consciência coletiva, cidadã, passamos a entender que tanto o som que cada um ouve, quanto o som que produz afeta o todo. Daí a necessidade de cuidar daquilo que produzimos e colocamos no meu ambiente. Se eu tenho consciência de que isso está afetando os outros e escuto o que vem de retorno, esse “eu” se torna “nós” e vamos começar, sim, a compor, e, se um dia eu tomo essa atitude, junto com todos os outros, assim como numa orquestra, o sonho da afinação do mundo será possível. Seres, assim postos no mundo, caminham para uma relação transcendental entre si e com todos os outros seres constitutivos da grande teia da vida. Ressignificando a tese freiriana de que é impossível mudar o coração das pessoas, deixando virgens e intocáveis as estruturas sociais (FREIRE, 1978), só é possível embelezar o mundo, embelezando o coração das pessoas, e, desta forma, só é possível alcançar a transcendentalidade por meio da mundanidade. Convidar as pessoas a passeios auditivos, trilhas embelezadas pela diversidade e riqueza de sons, convidando-os à escuta pensante, a perceberem e destacarem, à análise semântica e sintática, pode ser o início de uma incrível viagem que pode levá-los a perceberem que estão envoltos por um oceano de sons, compreendendo que as paisagens sonoras são como uma grande composição musical, da qual somos autores de seus benefícios e malefícios.



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Ilustrações: Silvana Santos