Que meu andar, meu viver seja cada vez mais no ritmo das bicicletas... (José Matarezi)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 79 · Junho-Agosto/2022
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30/05/2022 (Nº 79) UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E SOCIOAMBIENTAL SOBRE AGROTÓXICOS
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UMA ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR E SOCIOAMBIENTAL SOBRE AGROTÓXICOS

Amanda Dasilio1, Lorena Cristina Abrahão Gobbi2, Rafael Pimenta Machado3

1 Mestra em Ciências Biológicas,Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo, amandadasilio@gmail.com

2 Mestra em Energia,Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo, loabrahao@gmail.com

3 Licenciando em Letras, Instituto Federal do Espírito Santo, rpmadv@hotmail.com



Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar uma abordagem interdisciplinar educativa-ambiental em uma escola pública estadual do Espírito Santo que teve como tema central os agrotóxicos. O trabalho foi desenvolvido com 337 alunos do ensino médio, explorando o tema de forma interdisciplinar, com discussões voltadas para a educação ambiental. O projeto foi desenvolvido em nove etapas: questionário diagnóstico, pesquisa conceitual, estudo das fórmulas químicas dos principais agrotóxicos, pesquisa de campo, reflexão sobre o documentário “O Veneno está na mesa”, roda de conversa, análise do resultado dos questionários, confecção de um banner e apresentação na Mostra Cultural da escola (que foi aberta para toda a comunidade local). O trabalho proporcionou aos estudantes uma aproximação com os agricultores locais e um entendimento acerca da importância da agricultura familiar e o cultivo de alimentos orgânicos, além de serem conscientizados sobre a legislação ambiental e quanto à utilização exacerbada de agrotóxicos na agricultura.

Abstract: The current paper aims to present an interdisciplinary educational-environmental approach in a state public school in Espírito Santo whose central theme was pesticides. The work was developed with 337 high school students, exploring the theme in an interdisciplinary way, with discussions focused on environmental education. The project was developed in nine stages: conceptual research, study of the chemical formulas of the main pesticides, diagnostic questionnaire, field research, critical thinking about the documentary “The Poison is on the table”,debates, analysis of the questionnaire results, preparation of a banner and presentation at the school's Cultural Exhibition (which was open to all the local community). The work provided students with an approach to local farmers and an understanding of the importance of family farming and organic food cultivation, in addition to being aware of environmental legislation and conscientization about the exacerbated use of pesticides in agriculture.



Introdução

O ambiente escolar pode, por diversas vezes, apresentar ao aluno assuntos que parecem desconectados com sua rotina fora da sala de aula. Por isso, é necessário utilizar a contextualização, relacionando os conteúdos ao cotidiano dos discentes. Esta é uma importante estratégia para o desenvolvimento de uma aprendizagem significativa, como demonstram as teorias interacionistas de Jean Piaget (1896-1980) e de Lev Vigotsky (1896-1934). Tais autores enfatizaram que a interação entre o organismo e o meio circundante é condição essencial na aquisição do conhecimento, destacando a necessidade da busca de contextos significativos nos processos de ensino e aprendizagem.

Apesar do consumo dos agrotóxicos estarem ligados à rotina diária, e em quantidades cada vez mais expressivas, tal fato raramente é objeto de uma conscientização por parte dos consumidores. Essa prática tem sido cada vez mais associada a problemas de saúde na população, porém, não há estímulo à reflexão suficiente sobre as consequências que esses produtos trazem para a saúde e para o (des)equilíbrio da natureza. Na obra “Primavera Silenciosa”, em 1962, Rachel Carson revela a nocividade dos agrotóxicos, trazendo um histórico de como esses produtos químicos foram disseminados globalmente, após a Segunda Guerra Mundial. O alto consumo dos agrotóxicos no Brasil o levou ao patamar de maior consumidor global, estando à frente de grandes potências econômicas e agrícolas. As consequências para a saúde pública são enormes, envolvendo desde os agricultores, os moradores subjacentes às plantações, até o consumidor final, através dos alimentos ou até mesmo da água contaminada (CARNEIRO, 2015).

O intuito principal da utilização dos agrotóxicos é a ampliação da margem de lucro e da produtividade, pois possibilitam grandes safras obtidas com seu auxílio, porém, todas as consequências ambientais e sanitárias podem colocar em dúvida se esses produtos são realmente vantajosos para os seres humanos no longo prazo. O presente trabalho expõe um relato de experiência docente no âmbito da Educação Ambiental com alunos do ensino médio, que propôs a necessária promoção desse debate na sala de aula para fomentar a conscientização, e trazer informações acerca das consequências pela má utilização dos agrotóxicos, da importância do uso de Equipamentos de Proteção Individual na manipulação desses produtos, assim como debater também a legislação brasileira ambiental que normatiza o uso dos pesticidas.

A Educação Ambiental deve ser trabalhada em sala de aula de forma transversal e contextualizada com a realidade dos alunos, promovendo assim a formação de valores e estimulando os discentes a uma ação equilibrada diante do meio natural. Afinal, o ser humano depende do planeta e de seus recursos naturais, e esta relação impacta diretamente na qualidade de vida das pessoas. Quando se traz esse assunto para a sala de aula, há um estímulo ao discente para a reflexão de algo que faz parte de seu cotidiano, estimulando a responsabilidade que a sociedade tem na conservação e preservação do Meio Ambiente, e tornando o processo de aprendizagem mais produtivo e a internalização do conteúdo mais natural (CARRARO, 1995). Um dos objetivos essenciais na Educação Ambiental, segundo Flores (2016), deve ser a conscientização de que a natureza não é uma fonte infinita de recursos, e que deve ser utilizada de forma econômica e racional, evitando o desperdício. Já no caso específico dos agrotóxicos, a sua utilização abusiva deve ser veementemente desestimulada, por efeitos nocivos à saúde humana, animal, e a deterioração do solo e da água.

No ambiente escolar há uma grande facilidade na abordagem dessa temática pelas disciplinas das ciências da natureza, oportunidade essa que deve ser aproveitada, demonstrando a relevância do conhecimento científico para as questões ambientais. É necessário demonstrar o quanto a ciência pode auxiliar na preservação da natureza e na qualidade de vida da população planetária. Entretanto, também é essencial o desenvolvimento de uma visão crítica em relação aos avanços tecnológicos, que devem ser sempre pautados pela ética, caso contrário, promoverão insegurança, como pode ocorrer com o mau uso de algumas tecnologias (CHASSOT, 2003).

Há aumento na utilização dos agrotóxicos no Brasil, diversamente do observado majoritariamente no cenário mundial, tendo em vista que há um movimento de busca por alternativas a fim de diminuir o uso do agrotóxico, a nível global (TERRA; PELAEZ, 2008). Porém, mesmo no Brasil, ainda encontra-se tentativas de diminuição no uso dos pesticidas e no implemento da agricultura orgânica. No estado do Espírito Santo, a principal característica da agricultura orgânica é ser promovida através da agricultura familiar. Geralmente, a diversidade dos produtos orgânicos é baixa, entretanto, no Espírito Santo conseguimos encontrar uma grande diversidade, que são disponibilizados em supermercados, shoppings, lojas especializadas e, principalmente, em feiras livres especializadas (SPOSITO, 2015).

Um outro ponto a ser destacado em sala de aula é o envolvimento dos discentes com legislações ambientais. Esse enfoque é capaz de promover reflexões críticas em sala de aula, podendo também levar os alunos a mudanças de comportamento e de consumo, após entenderem a necessidade da criação das referidas normas. Afinal, são as leis ambientais vigentes que vão dizer quais os direitos e deveres que possuem os cidadãos, na esfera de relação homem-natureza.

O objetivo desse projeto em sala de aula foi trazer reflexões sobre o uso de agrotóxicos, incentivar o consumo de produtos orgânicos, conscientizar sobre a legislação ambiental e esclarecer acerca dos malefícios do uso acentuado dos agrotóxicos para a saúde humana. Sua relevância consistiu em possibilitar, assim, uma tomada de posição consciente por parte da comunidade escolar.



Metodologia

A atividade foi desenvolvida com três turmas de segunda série, com uma coleta de dados baseada em questionários e pesquisas online com orientação dos professores das disciplinas de Biologia, Química e Matemática. A interdisciplinaridade traz uma visão de abrangência nos conceitos de conhecimento, permitindo que os alunos percebam que o mundo onde estão inseridos é composto de vários fatores, e que a soma de todos forma uma complexidade que pode passar despercebida quando não há essa integração de conhecimento entre as disciplinas (BONATTO, 2012).

A pesquisa foi feita na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Agenor de Souza Lé, localizada em Vila Velha, no Espírito Santo, no primeiro trimestre de 2019. Este projeto contemplou 337 alunos do turno matutino. O trabalho consistiu em 9 etapas: Pesquisa conceitual, estudo das fórmulas químicas dos principais agrotóxicos, questionário diagnóstico, pesquisa de campo, interpretação de gráficos, elaboração do gráfico da escola, elaboração de um Banner e apresentação na Mostra Cultural da escola.

O ponto central deste projeto foi uma transmissão de conhecimentos mediada pelos professores sem pressões, com o objetivo da formação de uma consciência crítica no aluno, possibilitando a transformação do mundo em que ele está inserido (FREIRE, 1996).

1.ª Etapa: Questionário diagnóstico

O questionário teve como objetivo identificar as percepções e práticas dos alunos sobre os agrotóxicos, sendo aplicado um questionário, com questões elaboradas pelos professores, delineando os principais temas a serem trabalhados nas fases posteriores do projeto. O questionário foi aplicado em todo o turno matutino da escola: 4 turmas de 1º série, 3 turmas de 2º série e 2 turmas de 3º série, totalizando 9 turmas, com 337 alunos.

2.ª Etapa: Pesquisa conceitual

Os alunos foram orientados a realizarem pesquisas direcionadas pelos docentes, com temas como: Legislação sobre os Agrotóxicos no Espírito Santo e no Brasil; Problemas causados pelos agrotóxicos; Doenças causadas pelos agrotóxicos; Alternativas aos agrotóxicos e Agrotóxicos proibidos mundialmente.

O objetivo dessa atividade foi o desenvolvimento da autonomia do discente, e, com o produto desta etapa, os alunos se aprofundaram em diversos temas e desenvolveram textos que foram, posteriormente, utilizados para a confecção do banner e apresentação na Mostra Cultural.

3.ª Etapa: Estudo das fórmulas químicas dos principais agrotóxicos

A docente da disciplina de Química trabalhou a fórmula de agrotóxicos mais comuns e suas toxicidades, instigando os alunos a identificarem o motivo dessas substâncias serem consideradas tóxicas. Foram apresentadas aos alunos as fórmulas químicas de diversos agrotóxicos utilizados na agricultura, e, através da observação dos componentes da estrutura de suas fórmulas químicas, os alunos fizeram associações entre esses componentes e o grau de toxicidade dessas substâncias. De acordo com Cavalcanti, diversas são as maneiras de trabalhar o conteúdo de Química através da temática dos agrotóxicos, servindo essa contextualização do conhecimento teórico para estimular o interesse dos alunos, permitindo abordar temas como:

substâncias e misturas, tabela periódica e química ambiental (na 1ª série); funções químicas, soluções, química ambiental (na 2ª série); e estudo do carbono, funções orgânicas e química ambiental (na 3ª série)” (CAVALCANTI, 2010, p. 32).

4.ª Etapa: Pesquisa de campo

Os alunos visitaram duas feiras orgânicas localizadas no município de Vila Velha-ES, mesmo município da escola. Observaram as frutas e verduras, fizeram uma planilha com os valores dos produtos das feiras e compararam com os valores de duas feiras tradicionais. Os discentes também fizeram entrevistas espontâneas com os feirantes.

Essa etapa trouxe a construção de um conhecimento dialógico, que leva em consideração diferentes saberes. Os feirantes compartilharam com os alunos os motivos de plantarem produtos orgânicos, as vantagens de seguir nessa atividade e as dificuldades, em uma conversa informal. Essa interação agregou diferentes saberes ao projeto, não somente o científico, mas também o social, dinâmica essa relevante na formação da consciência ecológica dos discentes (CARVALHO, 2004).

Dessa forma foi utilizado um espaço “não-formal” no projeto. Este conceito vem sendo utilizado e acrescido em relevância na prática docente, sendo objeto de investigação de muitos pesquisadores em Educação, professores e profissionais de divulgação científica (JACOBUCCI, 2008). A utilização do espaço “não formal” com fins educacionais expande as possibilidades da educação tradicional formal, pois insere o cidadão em seu meio com um olhar diferenciado, se aproveitando de saberes, vivências, e interações que ocorrem em locais diversos do ambiente escolar.

5.ª Etapa: Documentário O Veneno está na mesa

O documentário O Veneno está na mesa” (2011) aborda a temática dos agrotóxicos no uso cotidiano, mostrando aos discentes que esse problema não está distante da realidade deles. Alimentos que não imaginavam, como pizza, macarrão e pães, por exemplo, consumidos diariamente por todos, trazem essas substâncias para nossa mesa e nosso corpo. O documentário também levantou a questão dos transgênicos, que são matérias-primas para vários alimentos, e são altamente resistentes aos agrotóxicos, demandando cargas elevadíssimas em sua aplicação.

O vídeo conseguiu levantar questionamentos entre os alunos, de como o assunto não é abertamente divulgado, e quais seriam as medidas a serem tomadas contra a utilização excessiva desses produtos nas plantações.

6.ª Etapa: Roda de debates.

O ambiente escolar é onde os alunos têm maior contato com realidades e pessoas com criações muito diferentes. Por isso, é de extrema importância que haja uma troca de experiências e conhecimentos entre os alunos (FREIRE, 1996). E, por esse motivo, fizemos rodas de conversa entre educadores e alunos, onde os discentes puderam se apropriar de conhecimentos tratados nas outras etapas do projeto. Foram apresentadas também reportagens e legislações ambientais, que estimularam reflexões sobre a utilização desenfreada dos agrotóxicos e suas consequências para a saúde humana e para o desequilíbrio ambiental.

7.ª Etapa: Análise do resultado dos questionários.

Os discentes, juntamente com os professores de Matemática, fizeram um levantamento dos questionários e a partir dos resultados elaboraram gráficos por meio do aplicativo Excel. Nesta etapa os estudantes aprenderam a construir tabelas, utilizaram algumas fórmulas e criaram gráficos.

8.ª Etapa: Confecção do Banner.

Os alunos foram instruídos pelos professores a utilizar o aplicativo Power Point, no laboratório de informática, para a elaboração do Banner. Escolheram as imagens e os textos, incluíram os gráficos que foram produzidos a partir dos questionários, e, quando prontos, os banners foram enviados para uma gráfica e pagos com recursos da escola.

9.ª Etapa: Apresentação na Mostra Cultural

A culminância do projeto foi no dia 12 de Abril de 2019. Os discentes das três 2ª séries da escola apresentaram 6 Banners. A Mostra cultural foi aberta para toda a comunidade escolar, realizada no dia da família na escola, e foi filmada pela televisão local.



Resultados

Com a aplicação dos questionários, a pesquisa conceitual e a roda de conversa, constatou-se a ausência de conhecimento prévio por parte dos alunos acerca da temática. A maior parte dos alunos ignorava que os alimentos que consumiam, tanto os adquiridos em feiras tradicionais, quanto nos supermercados, eram produzidos com o auxílio de agrotóxicos. A maioria acreditava que as feiras tradicionais vendiam principalmente alimentos orgânicos, e que somente as frutas e verduras in natura de supermercados que eram tratadas com agrotóxicos, ou seja, não havia a percepção de que produtos processados e carnes também continham agrotóxicos.

A série de tarefas efetuadas despertou nos alunos questionamentos acerca do modo de produção e consumo dos alimentos, estimulando o exercício de construção de respostas originais e argumentação.

A seguir apresentamos os resultados dos questionários aplicados e as percepções que os professores tiveram nas rodas de debate.

Gráfico 1 Conhecimento sobre agrotóxicos

A maioria dos alunos respondeu no questionário que sabia o que eram os agrotóxicos, e frequentemente o identificavam como veneno. Entretanto, nas discussões em sala de aula, uma quantidade considerável não sabia o que eram e disseram nem ao menos ter ouvido falar.

Gráfico 2 Compreensão sobre os malefícios dos agrotóxicos

Gráfico 3 Relação dos agrotóxicos com a saúde humana

Com essas duas questões verificamos que 75% dos discentes realmente acreditam que os agrotóxicos são maléficos para a saúde humana. No entanto, uma minoria dos alunos soube nos dizer alguma doença relacionada a esses produtos, e, os que conseguiam dizer, relacionavam principalmente ao câncer ou intoxicação. Nos debates em sala de aula levantamos todas as doenças que já foram associadas ao uso dos agrotóxicos e os discentes demonstraram surpresa diante de doenças como depressão e Alzheimer.

Gráfico 4 Conhecimento sobre legislação ambiental

Pode-se observar que realmente há pouco interesse por parte dos alunos em acompanhar as leis ambientais, o que pode ser interpretado como um reflexo da postura de nossa sociedade quanto ao tema. Os estudantes que alegaram ter algum conhecimento nesse assunto disseram que travaram contato com o mesmo através de reportagens na televisão e/ou internet. Esse trabalho trouxe, nas discussões em sala, muita informação sobre como funciona a legislação ambiental brasileira e os órgãos ambientais reguladores.

Gráfico 5 Entendimento de produtos que possuem agrotóxicos

Nesta pergunta constatamos um senso comum: a maioria dos estudantes não considera que há agrotóxicos em alimentos processados e carnes. Posteriormente abordamos como funciona a cadeia alimentar e como os produtos se acumulam nos níveis tróficos, a ponto de passar esses produtos para o ser humano através da carne consumida, pois os alimentos que esses animais consomem são ricos em agrotóxicos (ANDREA, 2008).

Gráfico 6 Discernimento sobre produtos orgânicos

No gráfico 6, a grande maioria afirmou ter algum conhecimento sobre os produtos orgânicos, porém, nas rodas de conversa, percebemos que haviam informações distorcidas.

Gráfico 7 Identificação de locais que vendem produtos orgânicos

Muitos alunos não sabiam que existiam feiras específicas para produtos orgânicos, como podemos constatar no gráfico 7. E alguns ainda acreditavam que pelo fato de ser uma feira livre, somente se comercializavam produtos orgânicos.

Gráfico 8 Consciência sobre o consumo familiar

Por fim, com essa última pergunta, os alunos demonstraram pouco conhecimento sobre os produtos consumidos em suas casas. Mesmo assim, a maioria identificou que o consumo majoritário são de produtos tratados com agrotóxicos, e isso se deve, por diversos motivos, como a falta de informação e desigualdade social.

3.2 Visitação a feiras orgânicas e feiras tradicionais

Os discentes se dividiram em grupos para efetuarem a visitação das feiras orgânicas na cidade. Além de visualizarem os produtos oferecidos nessas feiras, anotaram valores para fins de comparações com os supermercados e também entrevistaram os feirantes, perguntando o motivo que os levaram à decisão de iniciarem a produção de orgânicos. Um relato lhes chamou a atenção: um agricultor da feira orgânica afirmou que já trabalhou com agrotóxicos em seus alimentos, porém, seu filho acabou vindo à óbito por intoxicação, devido à exposição aos químicos, caso esse que exemplifica o que encontramos na literatura (TAVARES et al, 2020).

3.3 Discussão sobre o tema, confecção/apresentação do Banner

Os discentes trazem consigo informações, concepções e explicações já estabelecidas, que podem entrar em conflito com o conhecimento aprendido em sala de aula. Quando utilizamos o diálogo, ele se torna uma realidade compartilhada, e dessa forma podemos construir saberes com visões e ângulos diferentes. Dessa forma, nós iniciamos esse projeto com o universo do aluno, dando abertura para os alunos se expressarem, expondo seus conhecimentos prévios, que trouxeram de seu grupo social, e os professores, como mediadores, auxiliaram os discentes a superar aquela visão inicial . A partir dos dados levantados pelos estudantes e após as discussões, os mesmos confeccionaram os Banners para a apresentação do resultado do projeto na Mostra Cultural da escola. Na culminância desse projeto, os alunos apresentaram os resultados do questionário para toda a escola e comunidade escolar.



Discussão

Através desse projeto, observamos que no conhecimento prévio dos discentes haviam muitas lacunas a serem preenchidas, os mesmos não tinham total consciência ou conhecimento sobre como o uso de agrotóxicos estava em seu dia a dia, ou até mesmo os danos que podem ser causados à nossa saúde. Grande parte dos alunos acabam ingerindo constantemente alimentos tratados com os agrotóxicos sem apresentar preocupação, percebe-se que não há reflexão sobre o assunto, e é nosso papel, como educadores, proporcionar momentos para esse tipo de discussão acontecer. As diferentes formas de abordagem propostas no projeto os levaram a refletirem sobre o alto consumo de alimentos tratados com agrotóxicos, e, também, questionaram se realmente é necessária a utilização de tantos produtos químicos na agricultura, sendo que há produções de agricultura familiar orgânica tão eficientes quanto e com produtos diversos. Outro ponto positivo alcançado por meio desse trabalho, apresentado na Mostra Cultura da escola, foi o envolvimento dos discentes nas políticas ambientais, sendo esclarecidas as funções dos órgãos públicos na regulamentação e liberação de uso dos agrotóxicos, podendo também aplicar multas, caso as normas não sejam respeitadas.

Vale também destacar que os alunos conheceram um pouco mais do Espírito Santo, entendendo como e onde ocorre a produção dos alimentos locais, e conhecendo as feiras locais específicas para produtos orgânicos. O envolvimento dos alunos nas feiras e supermercados, tratados como espaços não-formais (JACOBUCCI, 2008), trouxeram uma proximidade aos produtos orgânicos, e, com isso eles conseguiram perceber que os orgânicos podem sim ser acessíveis para o consumo em suas famílias, e, ao mesmo tempo, também puderam entender a gravidade da utilização dos agrotóxicos pelos próprios agricultores, que estão expostos à graves intoxicações.

Por fim, concluímos que promovemos o debate e o pensamento crítico sobre o uso de agrotóxicos no espaço de toda a escola, com todos os estudantes da escola e a comunidade escolar participando de pelo menos uma etapa do estudo. O projeto desenvolvido propagou o estímulo à alimentação saudável, incentivo ao consumo de produtores locais e a conscientização ambiental.



Bibliografia

ANDREA, Mara Mercedes. Bioindicadores ecotoxicológicos de agrotóxicos. Comunicado Técnico, 83 (2008). São Paulo. Disponível em: <http://www.biologico.sp.gov.br/artigos_ok.php?id_artigo=83.> . Acesso em: 22 março 2022.

CHASSOT, Attico Inacio; Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social Rev. Bras. Educ. (22) • Abr 2003

BONATTO, Andreia ;et al.. Interdisciplinaridade no ambiente escolar. In: IX SEMINÁRIO DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO DA REGIÃO SUL. 2012. Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul> . Acesso em: 22 março 2022.

CARNEIRO, Fernando Ferreira et al. Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015, 624 p.

CARRARO, Gilda. Educação Ambiental: Abordando o Meio Ambiente e os Defensivos Agrícolas. Porto Alegre: Universidade do Rio Grande do Sul, 1995. (Monografia).

CARVALHO, Isabel Cristina Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2004.

CAVALCANTI, Jaciene Alves et al. Agrotóxicos: uma temática para o ensino de Química. Química Nova na Escola, v. 32, n. 1, p. 31-36, fev. 2010.

FLORES, Letiane Ebling; NINAUS, Elizandra Brauner Ninaus; UHMANN, Rosangela Ines Matos. Agrotóxico e meio ambiente: um desafio nas aulas de ciências. Rio Grande do Sul: Revista de Extensão, Santa Maria v.3, 2016, 567– 573 p.

FREIRE, Paulo; Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, 30ª ed., Paz e Terra: São Paulo, 1996.

JACOBUCCI, D. F. C. Contribuições dos espaços não-formais de Educação para formação da cultura científica. Em Extensão, v. 7, p. 55-66, 2008.

SPOSITO, E. C. Agricultura orgânica do estado do Espírito Santo: diversidade e comercialização de seus produtos na região metropolitana de Vitória. 2015 Dissertação (Mestrado em Agroecologia e Desenvolvimento Rural) – Universidade Federal de São Carlos, Araras.

TAVARES, Danielle Chaves Gonçalves, et al. Utilização de agrotóxicos no Brasil e sua correlação com intoxicações. Revista S&G, n. 1 p. 2-10, fev. 2020

TENDLER, Silvio. O veneno está na mesa. 2011. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4>.Acesso em: 22 março 2022.

TERRA, Fábio Henrique Bittes; PELAEZ, Victor Manoel. A evolução da indústria de agrotóxicos no Brasil de 2001 a 2007: a expansão da agricultura e as modificações na lei de agrotóxicos. In: XLVI CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, 2008. Disponível: <https://ageconsearch.umn.edu/record/109607> . Acesso em: 22 março 2022.



Ilustrações: Silvana Santos