O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise. (Ailton Krenak)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 80 · Setembro-Novembro/2022
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Do Linear ao Complexo
13/09/2022 (Nº 80) REALIDADE, COTIDIANO E RITOS: INTERAÇÕES DO COMPORTAMENTO HUMANO E MEIO AMBIENTE
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REALIDADE, COTIDIANO E RITOS: INTERAÇÕES DO COMPORTAMENTO

HUMANO E MEIO AMBIENTE

Wilson Rafael Schimila1

Resumo: A proposta deste artigo é discutir a realidade e o cotidiano e dos ritos, bem como suas relações com o comportamento humano e meio ambiente. Trata-se de um estudo exploratório e bibliográfico com vistas a tornar mais explícito as interações do comportamento humano e meio ambiente. Os conceitos abordados, dentro de uma dinâmica capitalista, acabam por naturalizar nosso comportamento de exploração do meio ambiente. Nesse sentido, torna-se importante aprofundar a compreensão do comportamento humano para que possamos examinar e (re) orientar as ações humanas tornando-as mais efetivas e presentes no cotidiano das pessoas e da coletividade.

Palavras-chave: Realidade; Cotidiano; Ritos; Meio Ambiente.



PRIMEIRAS PALAVRAS

As mudanças sociais, políticas e econômicas, ao longo da história, não aconteceram de forma simples e rápidas, exigiram da sociedade atitudes extremas, conjuntas e articuladas para mudar o modo de produção ou para lutar por direitos. A percepção da realidade social é opaca e controversa. A suspensão da realidade (NETTO; CARVALHO, 2012) e a retomada de consciência são eventos difíceis – mas é aí que se abrem as brechas para a mudança e para a revolução.

Este artigo tem por objetivo refletir a realidade, cotidiano e ritos, bem como suas relações com o comportamento humano e meio ambiente.

Este estudo de caráter exploratório que de acordo com Gil (2017, p. 26), tem como propósito “proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito”.



REALIDADE, COTIDIANO E RITOS

A vida cotidiana é permeada por muitos fatores: desde os gestos, relações e atividades, perpassada pela rotina e pelo espaço privado, até o mundo social. São muitas as coisas que fazemos todos os dias, a começar pelas básicas atividades: comer, beber, ter onde morar, dormir. Produzir os meios que satisfaçam estas necessidades é um ato histórico de todos os homens e mulheres. De acordo com Netto e Carvalho (2012, p. 14), são múltiplas as faces da vida cotidiana:

A vida dos gestos, relações e atividades rotineiras de todos os dias; um mundo de alienação; um espaço banal, da rotina e da mediocridade; o espaço privado de cada um, rico em ambivalências, tragicidades, sonhos, ilusões; um modo de existência social fictício/real, abstrato/concreto, heterogêneo/homogêneo, fragmentário/hierárquico; a possibilidade ilimitada de consumo sempre renovável; o micromundo social que contém ameaças e, portanto, carente de controle e programação política e econômica; um espaço de resistência e possibilidade transformadora.

O rito aparece neste contexto, disfarçado nos cumprimentos e despedidas, ou presente na maneira como comemos ou aprendemos; são gestos convencionados e obrigatórios. Segundo Langdon (2012, p. 17), o conceito de rito “abrange um conjunto amplo e heterogêneo de eventos presentes na vida contemporânea, sejam eles sagrados ou profanos”. O ser humano necessita destes ritos em seu cotidiano e cria sua realidade a partir deles, afinal, sem estes atos simbólicos – que são os próprios ritos – não são possíveis as interações sociais.

O cotidiano é aquela vida de todos os dias, com os mesmos gestos e ritos: levantar-se numa determinada hora, ir para o trabalho ou escola, almoçar, assistir algo na televisão, cuidar das atividades domésticas etc. Nessas atividades não é a consciência que nos dirige, e sim os gestos mecânicos. O cotidiano que temos e os ritos que praticamos são elementos de reflexão constante por parte de antropólogos, cientistas políticos e filósofos, afinal “a vida de todos os dias não pode ser recusada ou negada como fonte de conhecimento e prática social” (NETTO; CARVALHO, 2012, p. 14). O cotidiano e os ritos, cabe ressaltar, identificam a cultura e o período histórico. Podemos diferir o ritual de casamento brasileiro do grego, por exemplo; ou ainda, mesmo no Brasil, um casamento católico de um espírita, um casamento ocorrido em 2022 de um ocorrido em 1922.

A complexidade da realidade consiste na aparente obviedade do seu conceito. A realidade é tudo o que existe, apesar de haver vários problemas nesse conceito. Um dos meios de perceber a realidade é através dos sentidos: eles nos convencem de que as coisas existem e são reais. Porém, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que só o que percebemos com os sentidos seja real. Aliás, Descartes até desconfiava dos sentidos. Sabemos que existem algumas coisas que são reais e que não podemos captar sensitivamente, como as micro-ondas, por exemplo. De acordo com Dawkins (2012, p. 19) existem três modos que descobrir o que é real:

Podemos detectar diretamente com nossos cinco sentidos; indiretamente, com instrumentos especiais como telescópios e microscópios auxiliando nossos sentidos; ou ainda mais indiretamente, criando modelos do que poderia ser real e fazendo uma série de testes para ver se eles predizem corretamente o que podemos ver (ouvir etc.), com ou sem a ajuda de instrumentos.

Cada pessoa vê o mundo de uma forma; e é aí que reside a problemática da realidade. Na verdade, não podemos falar em realidade, mas sim realidades, sobretudo por que o mundo muda, nosso olhar também está suscetível a substanciais alterações e, se mudamos nossa perspectiva ou se o entorno social se transforma, uma nova face da realidade nos é apresentada. Além disso, conforme Dawkins (2012, p. 15), “a realidade não consiste apenas nas coisas que já conhecemos. Ela inclui o que existe mas ainda ignoramos”. A complexidade desta relação com a realidade cresce ainda mais se formos tratar de aspectos humanos, culturais, sociais. A realidade não é algo pronto e acabado, algo dado por um ser superior, afinal, o homem não é um ser passivo. Ao contrário: o homem é o edificador do mundo. A realidade é forjada no encontro entre os homens, no contato social (DUARTE JUNIOR, 2000).

A linguagem, que é um “sistema simbólico pelo qual se representa as coisas do mundo” (DUARTE JUNIOR, 2000, p. 18), torna-se fundamental para a compreensão da realidade, afinal é por meio dela que o homem interage e torna-se realmente humano. A palavra remete a locais inatingíveis; por meio dela se pode deslocar-se para o outro lado do planeta. Pode-se descrever o passado e planejar o futuro, formar consciência. Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo. Seguindo nas explanações do autor, ele ainda sinaliza que os animais, por não terem uma linguagem constituída, estão fatalmente presos a seus sentidos, enquanto o homem tem a possibilidade de viver o seu mundo. “Esta é a radical diferença entre homem e animal: o meio simbólico criado pela linguagem humana” (DUARTE JUNIOR, 2000, p. 19), que tem a prerrogativa de organizar e interpretar a realidade das comunidades sociais.

O mundo a nossa volta apresenta várias realidades, umas mais próximas e outras mais distantes da nossa consciência e entendimento. É importante frisar que a realidade pode ser vista por diferentes ângulos, não só o científico. Há uma tendência a acreditar somente em fatos cientificamente comprovados, ao que parece é isto que dá credibilidade aos fatos. A ciência é a nova teologia. Mas na verdade, sob a ótica da realidade, a ciência é apenas uma das formas de ver a realidade. É indevido comparar verdades pretendendo a superioridade da ciência em detrimento de outras visões.

A realidade que me é mais clara é a do meu dia a dia, a que percebo e vivo quase que de forma mecânica – o próprio cotidiano. Quando me afasto disso, meus conhecimentos ficam menores e minha realidade é modificada, o que, à primeira vista, é tido como um problema; porém, é este problema que faz com que se busque um novo conhecimento que, aos poucos, vai mesclando-se ao próprio cotidiano. Duarte Junior (2000, p. 33) adverte que “é sempre necessário um certo ‘esforço’ para nos desligarmos da realidade cotidiana e penetrarmos nesses outros setores: é preciso que se abandone a linguagem e a visão rotineira de mundo”.

Na medida em que uma determinada ação ou determinado rito é celebrado da mesma forma por indivíduos diferentes, esta ação ou rito fica institucionalizada. “A instituição significa o estabelecimento de padrões de comportamento na execução de determinadas tarefas, padrões estes que vão sendo transmitidos a sucessivas gerações” (DUARTE JUNIOR, 2000, p. 39). Estas instituições possuem tanto poder que passam a ser vistas como independente dos homens, superior a eles. O homem cria sua realidade por meio das instituições e, ao mesmo tempo, é condicionado por elas. Criam sobre nós uma espécie de efeito educativo, condicionando-nos para a vida em sociedade.

As instituições se valem de duas maneiras de manter os seus universos simbólicos: o mecanismo terapêutico e o mecanismo aniquilador. A ação terapêutica é uma forma de controle social para que todos os indivíduos tenham a mesma percepção da realidade; é empregada, portanto, contra os heréticos internos, aqueles que divergem do pensamento social corrente. Já o aniquilador acontece quando uma sociedade enfrenta outra, cada uma com sua tradição e costumes oficiais. Um universo enfrenta o outro com as melhores razões possíveis, por vezes inferiorizando a outra sociedade. Sai ganhando quem detém mais poder e força, geralmente empregando a violência (DUARTE JUNIOR, 2000).

A realidade vigente é aprendida e este processo de aprendizado é chamado de socialização. Isto se dá, num primeiro momento, no campo familiar, nos primeiros anos de vida do indivíduo, nos campos cognitivos e racionais, carregados de fatores emocionais.

INTERAÇÕES DO COMPORTAMENTO HUMANO E MEIO AMBIENTE

Todo este movimento até aqui descrito implica que as instituições e os padrões de conduta imprimem à sociedade um grande efeito educativo ou seja, a civilização acaba por incorporar em sua essência hábitos capitalistas e um desenvolvimento a partir do crescimento ilimitado num mundo de recursos escassos. Muitas vezes as pessoas não têm consciência de que esta forma de organização social é injusta podendo transformar a realidade adquirindo uma falsa consciência da realidade na qual estão inseridas. Isso porque grande parte dessas pessoas passa a maior parte de suas vidas vinculadas a algum tipo de organização/instituição cujos pressupostos mantém por meio da utilização de práticas rituais a manutenção desses hábitos.

A relação das pessoas com a natureza é resultado de uma construção histórica e social, atitudes e ações humanas vão sendo modeladas e por certo, alteram a natureza. No momento vivido, o homem moderno já se reconhece como desconectado da natureza, pensando-a como algo exterior a si, podendo a mesma ser subjugada e explorada.

Produzindo em larga escala, o ser humano degradou o ambiente pois o consumismo exacerbado do sistema capitalista comprometeu de maneira determinante o ambiente no qual vivemos. À medida que cresce, o indivíduo é parte de diferentes grupos sociais, assimila teorias que legitimam esses grupos e permanece em constante processo de socialização, com considerável contribuição das institucionalizações. Duarte Junior (2000, p. 44) expõe os três momentos da edificação da realidade através da institucionalização:

1) A conduta humana é tipificada e padronizada em papeis, o que implica o estabelecimento das instituições (a realidade social é um produto humano); 2) a realidade é objetivada, ou seja, percebida como possuindo vida própria (o produto – a realidade – “desliga-se” de seu produtor – o homem); 3) esta realidade tornada objetiva determina a seguir a consciência dos homens, no curso da socialização, isto é, no processo de aprendizagem do mundo por que passam as novas gerações (o homem torna-se produto daquilo que ele próprio produziu).

É nessa recursividade, que o comportamento humano se torna responsável por grande parte dos problemas ambientais. Portanto, torna-se imprescindível adotar comportamentos sustentáveis, para aliviar os efeitos da crise ambiental e divisar a almejada sustentabilidade ambiental (NASCIMENTO, 2012CAVALCANTI, 2012).

Nossa percepção de mundo passa por uma certa tipificação da sociedade, esquemas estes que padronizam a interação entre os homens e contribuem para a estabilidade da realidade cotidiana. Os comportamentos humanos são inerentes à relação pessoa-ambiente. Nas últimas décadas, a mudança climática indica uma agenda de receio à nossa existência no planeta. Soma-se a isto outros problemas ambientais como a extinção da biodiversidade, a poluição atmosférica, a escassez de recursos hídricos e a enorme concentração populacional no meio urbano (OSKAMP, 2000HIGUCHI, 2006NASCIMENTO, 2012).

Nesse sentido torna-se urgente uma transformação da relação do comportamento humano e meio ambiente. O que passa não só pela gestão pública ou organizacional, mas também pelo empenho de cada habitante deste planeta. Uma conduta sustentável requer mudanças básicas na relação de cada indivíduo para com o ambiente indistintamente (OSKAMP, 2000).

O cotidiano e os ritos moldam a realidade. Mas, afinal, o que é realidade? A realidade é algo que sabemos o que é – ou achamos que sabemos. Para o senso comum, realidade é como o mundo é, é aquilo que as coisas são, é o nosso olhar sobre a real. “O real é o terreno firme que pisamos em nosso cotidiano” (DUARTE JUNIOR, 2000, p. 08). Por parecer um conceito tão óbvio, nos parece desnecessário questionar ou problematizar esse conceito. Porém, atentos devemos estar, pois o óbvio é extremamente difícil de ser visto.



À GUISA DE CONCLUSÃO

Refletir sobre a realidade, cotidiano e ritos intrínsecos às ações humanas sobre o meio ambiente nos permitiu aferir que estes são conceitos plurais e com várias interpretações, devido à complexidade e subjetividade manifestas. A realidade se mostra de diversas formas, de acordo com a cosmovisão de cada pessoa e da sociedade como um todo.

Vivemos um impasse ao compreender que a atividade humana, tanto no âmbito individual quanto coletivo, é responsável por uma parcela significativa dos impactos ambientais e, por outro lado, compreender também que a realidade vigente é aprendida ao longo do processo de socialização

Cabe então ressaltar que os conceitos abordados, dentro de uma dinâmica capitalista, acabam por naturalizar nosso comportamento de exploração do meio ambiente. Nesse sentido, torna-se importante aprofundar a compreensão do comportamento humano para que possamos examinar e (re)orientar as ações humanas tornando-as mais efetivas e presentes no cotidiano das pessoas e da coletividade.

Investir em estudos e propostas educativas centradas na relação pessoa-ambiente, é o caminho necessário à sustentabilidade. Mudar o que está posto implica em compreender não só a crise ambiental, mas também realidade, cotidiano e ritos para então propor a formação de uma conduta sustentável, o que demanda muito esforço e organização visando, principalmente, a cooperação e a aprendizagem.



REFERÊNCIAS

ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: M. Fontes, 2003.

DAWKINS, Richard. A magia da realidade: como sabemos o que é verdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Schwarcz, 2012.

DUARTE JUNIOR, J. F. O que é realidade. São Paulo: Brasiliense, 2000.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

HIGUCHI, Maria Inês Gasparetto; KUHNEN, Ariane. Percepção e representação ambiental - métodos e técnicas de pesquisa para a Educação Ambiental. In: PINHEIRO, José de Queiroz; GUNTHER, Hartmut (Org.). Métodos de pesquisa nos estudos pessoa-ambiente. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. p. 181-215.

LANGDON, E. J. Rito como conceito chave para a compreensão de processos sociais. In: LANGDON, E. J.; PEREIRA, E. L. (org.). Rituais e performances: iniciações em pesquisa de campo. Florianópolis: UFSC, Departamento de Antropologia, 2012.

NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos Avançados, São Paulo, v. 26, n.74, p. 51-64, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v26n74/a05v26n74.pdf>. Acesso em: 20 mar, 2021.

NETTO, J. P.; CARVALHO, M. C. Cotidiano: conhecimento e crítica. 10ª ed. São Paulo: Cortêz, 2012.

OSKAMP, Stuart. Psychological contributions to achieving an ecologically sustainable future for humanity. Journal of Social Issues, v. 56, n. 3, p. 373-90, 2000. Disponível em: <https://web.stanford.edu/~kcarmel/CC_BehavChange_Course/readings/Additional%20Resources/J%20Soc%20Issues%202000/oskamp_2000_2_generalobstacles_c.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2019.



1 Mestre em educação, licenciado em Matemática e bacharel em Ciência Política. E-mail: wilson.schimila@gmail.com.

Ilustrações: Silvana Santos