O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise. (Ailton Krenak)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 80 · Setembro-Novembro/2022
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13/09/2022 (Nº 80) REFLEXÕES ACERCA DO CONHECIMENTO PERTINENTE À EDUCAÇÃO AMBIENTAL
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REFLEXÕES ACERCA DO CONHECIMENTO PERTINENTE À EDUCAÇÃO AMBIENTAL



Marina Patrício de Arruda1

Andréia Valéria de Souza Miranda2

Sonia Maria Martins de Melo3



A importância da preservação dos recursos naturais passou a ser preocupação mundial e nenhum país pode se eximir de responsabilidade para com a Educação Ambiental. O Brasil é o único país da América Latina que possui uma política nacional específica para a Educação Ambiental. Para tanto, contribuir para a mudança de valores sobre o cuidado com o meio ambiente passa por abordar a educação ambiental a partir dos anos iniciais na escola, para assim sensibilizar desde cedo os humanos, sobre e importância da preservação.

De acordo com a Política Nacional de Educação Ambiental4

Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

Deste modo, pensar em saúde requer cuidar do ambiente, preservar recursos, ressignificar conceitos, há muito vivemos as atitudes de uso do meio ambiente sem o devido cuidado como se fosse um recurso inesgotável e já é possível ver e sentir o efeito danoso dessa irresponsabilidade no ecossistema e, consequentemente, à toda vida do planeta.

Os condicionantes e determinantes de saúde estão todos presentes na relação do homem com o meio em que vive e, para que haja uma mudança radical nos comportamentos da sociedade,

Refletir sobre a complexidade ambiental abre uma estimulante oportunidade para compreender a gestação de novos atores sociais que se mobilizam para a apropriação da natureza, para processo educativo articulado e compromissado com a sustentabilidade e a participação, apoiado numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependência de diferentes áreas do saber (JACOBI, 2003, p.191).

De acordo com as Diretrizes curriculares para a Educação Ambiental, art. 2º, trata-se de uma dimensão da educação, uma atividade intencional da prática social, que visa potencializar a atividade humana com a finalidade de torná-la “plena de prática social e de ética ambiental.”

A dimensão da Educação se move a partir de uma sensibilização ambiental interdisciplinar com a finalidade de possibilitar a melhorias condições de vida para todo o sistema ambiental. Esse sistema envolve uma responsabilidade socioambiental que vai além do cumprimento de leis e normas de preservação do meio ambiente. A responsabilidade social está diretamente relacionada a práticas de preservação do meio ambiente e inclui um longo e contínuo aprendizado tendo como base valores culturais, sociais e políticos.

Isto implica em perceber-se como parte deste sistema ambiental e assim contribuir não somente para com o outro mas para consigo mesmo e assim, sair de uma forma reducionista de pensar e adotar um pensamento complexo.

À luz do pensamento complexo, trata-se de um processo educacional fundamentado pela construção de uma visão hologramática, ou seja, o reconhecimento de que “não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte” (MORIN, 2011, p. 74). Ideia que contraria o pensamento simplificador e a visão reducionista, lembrando que apenas é possível definir uma parte como tal, em relação a um todo. Entretanto, o modelo simplificador ainda vigente na educação, acaba por restringir o conhecimento, por contemplar currículos e matrizes curriculares com disciplinas isoladas, o que pode explicar a fragmentação da formação da maioria dos processos educativos vigentes, dificultando a construção de um paradigma pautado na educação para a inteireza do ser (MIRANDA, 2019).

A Educação disciplinar, fragmenta e dissocia as características múltiplas do conhecimento que é multidimensional. O multidimensional no pensamento de Edgar Morin (2011) diz respeito a inseparabilidade, pois acredita na pertinência do conhecimento quando as dimensões são perceptíveis e revela, “o conhecimento pertinente deve enfrentar a complexidade.” (p. 36).

E assim, desafiados pela complexidade dessa problematização, propomos uma reflexão sobre como desenvolver um “olhar” coletivo e ampliado, a partir de diferentes conexões? E nos perguntamos qual seria o Conhecimento Pertinente à Educação Ambiental?



O real é complexo e nossa mente deve se tornar

A Teoria da Complexidade, segundo Morin (2000), é um outro paradigma do pensar e agir humano, o eixo articulador do conhecimento pertinente. A complexidade concebe-se como um desafio e uma motivação para pensar a incompletude do conhecimento, em lugar de ser entendida como uma resposta, uma receita pronta a ser replicada.  A consciência da completude e da incompletude num movimento holográfico transcende o paradigma fragmentado e recupera a complexidade do real.

Num sentido, o pensamento complexo tenta dar conta daquilo que o tipo de pensamento mutilante se desfaz, excluindo o que eu chamo de simplificadores e por isso ele luta, não contra a incompletude, mas contra a mutilação (MORIN, 1998, p. 176).

É assim que o pensamento complexo questiona o princípio da ciência moderna, de divisão e de separação na produção do conhecimento, que levou à hegemonia da fragmentação e da especialização. Para Morin (1998), o paradigma moderno simplificador não possibilita a compreensão da complexidade do real. Confirma essa perspectiva, Santos (2002) quando apresenta questões que se remetem a problemáticas impossíveis de serem resolvidas por meio dos paradigmas modernos. Para Santos (1998) “todo o conhecimento é auto-conhecimento”, mas a ciência moderna, para evitar a interferência dos valores e emoções humanas no conhecimento dos objetos de estudo, julgou que fosse possível ser um pesquisador neutro. A partir da mudança de paradigma e da percepção de que o conhecimento se dá por meio do olhar de quem pesquisa, a ciência passou a considerar os sentidos atribuídos pelo observador. E a visão simplificadora do conhecimento pode ser substituída por um conhecimento multidimensional e planetário.

Nesse sentido, surge a necessidade de reparar nosso pensamento para seguir reformando a “cabeça” de quem educa e de quem é educado e, inclui conduzir novas e contínuas reflexões voltadas a essa questão. Para Morin (2004), a educação deveria guiar para a reforma do pensamento e desenvolvimento da cabeça bem-feita. Mas para identificar e tratar os problemas, a partir da organização e religação dos saberes ela precisa se reinventar no sentido de auxiliar as pessoas a assumirem a sua condição humana, a aprenderem a conviver com as incertezas e a viver com responsabilidade pelo que fazemos.

Morin (2011) acredita que o conhecimento pertinente é insuficiente se uma informação não vier relacionada com seu contexto. O grande problema do distanciamento da informação do seu contexto, segundo o autor, está na produção do sentido. “Para ter sentido, a palavra necessita do texto, que é o próprio contexto, e o texto necessita do contexto no qual se enuncia” (p. 34). No exemplo de Morin, a palavra perde sentido quando não relacionada ao texto, que é a sua morada e este é enunciado de algum lugar, de um cenário, que vai dar contexto e compreensão à palavra.

O conhecimento pertinente é produto de um pensar complexo que sabe operar com os princípios da complexidade que possibilita a religação dos saberes, evidenciando as relações antagônicas e, ao mesmo tempo, complementares que se estabelecem entre as partes e o todo e vice-versa, ou seja, a unidade na diversidade. Na perspectiva de Morin (2004), a reforma do pensamento exige a interligação entre os diversos conhecimentos para se chegar à compreensão da condição humana no cosmos tornando-se responsáveis coletivamente pelo ambiente que habitamos.

A vida humana depende do ambiente e é preciso olhar para a realidade e dialogar com ela, de modo a religar os saberes, pois como diria Morin (2000, p. 40) “as mentes formadas pelas disciplinas perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes, do mesmo modo que para integrá-los em seus conjuntos naturais”.

Para isso, cabe aos professores a religação de suas disciplinas e o investimento em reformas curriculares que reúnam as questões de saúde humana e seus determinantes e condicionantes sociais, natureza e cultura, homem e cosmos. Assim, “o desenvolvimento da aptidão para contextualizar e globalizar os saberes torna-se um imperativo a educação” (MORIN, 2004, p.24) e sinaliza a emergência de um pensamento ecologizante, capaz de situar o acontecimento na inseparabilidade das dimensões individual, comportamental, cultural, social e espiritual.  O eixo do conhecimento pertinente está em “inserir os conhecimentos parciais e locais no complexo e no global sem esquecer as ações do global sobre o parcial e o local” (MORIN, 2013, p.198).

Nessa perspectiva, “O excesso de separação é perverso na ciência, pois torna impossível religar os conhecimentos” (MORIN, 2007, p. 101), situação que nos leva a uma compreensão reducionista do humano. Por isso a importância do olhar multidimensinal aquele capaz de ir além das fronteiras entre os saberes para dialogar com diversos conhecimentos. O Conhecimento Pertinente, um dos Sete Saberes definidos por Morin (2004) necessários à educação do futuro pode direcionar a educação para uma nova percepção de mundo, por meio da transformação do próprio indivíduo e das relações entre o local e o global.

Morin (2004, p. 18) entende que: “O pensamento é, mais do que nunca, o capital mais precioso para o indivíduo e a sociedade”. O autor dá destaque a dois grandes desafios da complexidade: o primeiro é que a realidade é complexa e o segundo diz respeito àa incerteza.

Pensar de forma complexa é compreender o real complexo também revela a dinâmica da evolução do universo e da vida. O pensamento complexo possibilita estabelecer um canal de diálogo entre diferentes paradigmas: o ser humano e suas racionalizações. Para Miranda (2019), o pensamento complexo pode propiciar condições para que o ser humano
exerça sua cidadania, ao realizar ricas trocas, buscando autonomia e fazendo suas escolhas.

Nesse sentido é que o conhecimento pertinente torna-se indispensável para enfrentar o grande desafio de nosso tempo: o cuidado com o nosso mundo, nosso meio ambiente. Assim sendo, o conhecimento pertinente é próprio de uma cabeça bem-feita que, no entender de Morin (2004), não é aquela que acumula e amontoa informações sem sentido, mas informações que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido.

Repensando a educação escolar, a produção do conhecimento pertinente entendemos a necessidade de rever seus rumos. Escola e professores precisam atualizar suas metodologias e estratégias didáticas de modo a levar o aluno a aprender a pensar e a produzir conhecimentos de forma pertinente. Para o autor a meta da Educação escolar seria o desenvolvimento de ‘uma cabeça bem-feita’, uma aptidão para o enfrentamento dos problemas a partir do contexto e de princípios organizadores do conhecimento complexo que religam os saberes e lhes dão sentido.



Concluindo: como ensinar a pertinência dos conhecimentos para uma Educação Ambiental?

A maneira como aprendemos na escola, local onde ainda se reforça a fragmentação do conhecimento pela divisão dos conteúdos em disciplinas, passando pela didática tradicional de muitos professores, são ainda obstáculos entre o pensamento linear e o pensamento complexo capaz de integrar e dar sentido à educação ambiental.

Deste modo, compreendemos que ultrapassar essa fragmentação do conhecimento é um desafio que exige transformação do próprio pensamento, do modo como articulamos os saberes, de como olhamos o mundo e agimos sobre ele, pois, não se pode estar no mundo com “luvas nas mãos” observando apenas (MIRANDA, 2019). É preciso agir, mudar, ressignificar, cuidar.

As referências sobre a construção pertinente do conhecimento, aberta por Morin são de grande valia para repensarmos a Educação Ambiental na escola e para refletir que segundo o pensamento complexo não há como separar o ser humano da realidade onde vivemos, pensar de forma complexa é uma forma de perceber que não reduz, nem simplifica, mas une ser humano e natureza. Os problemas ambientais advêm de práticas sociais equivocadas que estão a exigir posturas para uma mudança cultural e comportamental necessárias.

O “conhecimento pertinente” diz respeito àquele saber resultante de uma reforma paradigmática, que nos permite operar os princípios organizadores do conhecimento complexo incluindo o trabalho conjunto de professores para que nos situemos no amplo e vasto campo da educação ambiental. Neste espaço, está posta a necessidade de superar a visão fragmentadora de produção do conhecimento e a capacidade de articular e produzir de forma interdisciplinar. Só assim será possível juntar informações e conhecimentos dissociados e até mesmo antagônicos para reencontrar a identidade do saber ambiental. “Temos, portanto, de ensinar a pertinência, ou seja, um conhecimento simultaneamente analítico e sintético das partes religadas ao todo e do todo religado às partes” (MORIN, 2004, p. 87).

Buscar construir uma cabeça bem-feita para contextualizar e globalizar o conhecimento para melhor compreender e solucionar os problemas da vida humana, eis o nosso desafio como professoras.



Referências

JACOBI, Pedro. Educação Ambiental, Cidadania e Sustentabilidade. Cadernos de Pesquisa, n.118, março/2003.

MIRANDA, Andréia Valéria de Souza, PROCESSO DE FORMAÇÃO EM ENFERMAGEM NA PERSPECTIVA DO PARADIGMA DO CUIDADO COMPLEXO EM SAÚDE/ Andréia Valeria Miranda de Souza. - - 2019. Orientadora: Sonia Maria Martins de Melo, Coorientadora: Marina Patrício de Arruda, Tese (doutorado) - - Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências Humanas e da Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Florianópolis, 2019.

MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

________. A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

________. O método 3: O conhecimento do conhecimento. 2ª ed. Porto Alegre: Sulina; 2002

________, A cabeça bem-feita:repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

_________. O método 5: A humanidade da humanidade: a identidade humana. 4 edição. Porto Alegre: Sulina, 2007.

________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2011.



1 Pós-doutora em Educação, pesquisadora e professora junto ao Centro Universitário Unifacvest.

2 Doutora em Educação, enfermeira e professora junto ao Centro Universitário Unifacvest.

3 Pós-doutora em Educação, pesquisadora junto à UDESC.

4 Política Nacional de Educação Ambiental - Lei nº 9795/1999, Art 1º.

Ilustrações: Silvana Santos