O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise. (Ailton Krenak)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 80 · Setembro-Novembro/2022
Início Cadastre-se! Procurar Área de autores Contato Apresentação(4) Normas de Publicação(1) Artigos(11) Notícias(11) Dicas e Curiosidades(1) Reflexão(1) Para sensibilizar(1) Dinâmicas e recursos pedagógicos(1) Entrevistas(1) Arte e ambiente(1) Sugestões bibliográficas(1) Educação(1) Você sabia que...(1) Sementes(1) Ações e projetos inspiradores(5) Cidadania Ambiental(1) Do Linear ao Complexo(3) A Natureza Inspira(1) Relatos de Experiências(9)   |  Números  
Entrevistas
13/09/2022 (Nº 80) ENTREVISTA COM BRUNA ROBERTA SANTOS MALDONADO PARA A 80ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO
Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=4352 
  

ENTREVISTA COM BRUNA ROBERTA SANTOS MALDONADO PARA A 80ª EDIÇÃO DA REVISTA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM AÇÃO

Por Bere Adams

Fotografia de Tiago Oliveira, Analista Ambiental, colega de Bruna



É com muita alegria que nesta edição apresentamos a entrevista com a ativista e ambientalista Bruna Roberta Santos Maldonado.

Bruna é pernambucana, nascida em Recife e Olindense de coração. Tem mestrado em Engenharia do Ambiente pela UTAD Portugal com diploma revalidado pela UFRJ em Engenharia Ambiental. É graduada em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, pós-graduada em Gestão Ambiental pela FAFIRE e, atualmente, faz pós-graduação em Ecologia. Atua como Servidora Pública no cargo de Analista Ambiental - Engenheira Agrônoma, da Secretaria Executiva de Meio Ambiente, Paulista (PE) e foi Coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade Urbana-NSU da Secretaria Executiva de Meio Ambiente, Prefeitura do Paulista.

Além disto, Bruna é fotógrafa de natureza, e tem experiência na área de Ciências Ambientais, com ênfase em Engenharia Ambiental, educação ambiental, licenciamento, manejo de fauna silvestre, monitoramento de ninhos e nascimentos de tartarugas marinhas, gestão e gerenciamento de resíduos sólidos urbanos.

Ao replicar estes dados do seu vasto currículo, quase se perde o fôlego só por imaginar quanta bagagem de experiências que ela carrega. Então, vamos conhecer um pouco desta brilhante trajetória?



Bere – Olá Bruna. Inicialmente te agradeço pela sua disponibilidade em compartilhar comigo e com leitores e leitoras desta revista, um pouco da sua experiência. Muito obrigada! Inicio te perguntando: desde quando você está envolvida com as questões ambientais? Teve algo significativo que te motivou a seguir por este caminho?

Bruna – Olá Bere! Primeiramente, agradeço imensamente o convite para participar dessa entrevista. Sinto-me muito feliz e honrada em poder compartilhar um pouco da minha vida e do meu trabalho e de poder contribuir com o meio ambiente dessa forma.

Minha trajetória, como ambientalista, iniciou ainda na adolescência, quando conheci os trabalhos de organizações como o Greenpeace. Cheguei a me associar à ONG e contribuir com o combate aos alimentos transgênicos e contra a caça de baleias do Atlântico Sul. Na época, eram as duas ações mais efetivas que o Greenpeace atuava aqui no Brasil. Coletei muitas assinaturas para abaixo assinados e enviei pelos correios.

Ao mesmo tempo, fui me interessando mais por assuntos e questões relacionados à ecologia, educação ambiental, agroecologia, fitoterapia e plantas ornamentais. Minha mãe chegou a fazer uma assinatura de uma revista chamada Natureza, que ganhava um certificado de participação e associação ao Clube dos Amantes da Natureza, com alguns compromissos para serem cumpridos ao longo da sua vida. Até que chegou o momento de escolher o curso superior para fazer. Na época (1995), não existiam muitas ofertas de cursos na área ambiental ou que trabalhassem de certa forma com essas questões. Estudei as possibilidades disponíveis e optei pela Engenharia Agronômica. Quando entrei no curso, já sabia o caminho que queria seguir (o da agroecologia) e o que eu não queria de forma alguma (o da agricultura convencional, monocultura, agrotóxico). Costumo brincar, dizendo que, hoje, sou uma “Agrônoma descaracterizada”, por trabalhar em diversas outras áreas que não são, especificamente, das ciências agrárias, como o monitoramento e conservação das tartarugas marinhas. Tem gente que me manda parabéns no dia do biólogo e do engenheiro ambiental (risosssss). Mas foi a Engenharia Agronômica que me fez chegar até aqui. E sinto muito orgulho disso.



Bere – É realmente muito inspiradora a sua trajetória, Bruna! Percebe-se que você trabalha com as questões ambientais em diferentes frentes. Pode nos falar um pouco a respeito desses seus trabalhos?

Bruna – Como servidora pública, trabalho no cargo de Analista Ambiental, o que me possibilita atuar em diferentes frentes. Entrei em Paulista em 2014, por meio de seleção simplificada e, depois, em 2018, passei no concurso público para o mesmo cargo. Meu trabalho não parou entre um e outro.

O município do Paulista faz parte da Região Metropolitana do Recife. É rico em recursos naturais e tem um potencial enorme para o turismo sustentável, ecoturismo. O município tem 7 unidades de conservação municipais e 3 estaduais, possui áreas de manguezais ainda preservadas, rio para banho e navegação e um litoral com belas praias e piscinas naturais. Tem duas praias que podem ser consideradas berçários para desovas de tartarugas marinhas. O monitoramento dos ninhos e nascimentos das tartarugas marinhas é realizado desde 2015, pela secretaria de meio ambiente. Contudo, só em 2021 é que foi possível conseguir a autorização do SISBIO Centro TAMAR/ICMBio para atuarmos, legalmente, no manejo desses animais. Das 5 espécies de tartarugas que existem no Brasil, quatro desovam nas praias do Paulista. Com destaque para a tartaruga de pente e a tartaruga verde. A única espécie que não desova no município é a tartaruga de couro.

Eu diria que, hoje, esse é um dos principais projetos realizados pelos servidores e pesquisadores da SEMA. Além dele e, em função dele também, outros assuntos são abordados e trabalhados em forma ações e projetor, como a problemática do lixo nas praias e mares, formas para reduzir a quantidade de lixo que chega ao mar através dos rios e canais de drenagens, a preservação das áreas de restingas, formas mais sustentáveis de conter o “avanço” do mar. Todos esses assuntos e muitos outros permeiam a conservação das tartarugas marinhas e precisam ser discutidos e vistos com bastante atenção e responsabilidade pelo poder público e a sociedade civil.

Quando fui coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade Urbana da SEMA, realizamos várias ações, projetos e programas considerados, na época, como pioneiros no município. Entre eles, posso destacar a coleta e descarte correto dos Resíduos Eletroeletrônicos (lixo eletrônico) em parcerias com o CRC Recife e REEECICLE; O Projeto ArBora – Diagnóstico e Conservação da Arborização Urbana do Paulista, visando a execução do Plano Municipal de Arborização Urbana, criado pela Lei nº 4547/2015. Passamos a monitorar as Unidades de Conservação Municipais, implantamos o projeto de resgate, soltura e preservação da fauna silvestre do município, intensificamos as atividades de educação ambiental nas Escolas Municipais e comunidades. Firmamos parcerias com diversas instituições de ensino, ONGs e coletivos. Elaboramos o Projeto das Ecobarreiras para serem implantadas nos canais de drenagens e no Rio Paratibe com objetivo de reduzir a quantidade de lixo ao mar. Realizamos ações em parcerias com outras Prefeituras, instituímos o Dia Mundial da Limpeza no Calendário do Município e o Dia de Conservação do Solo. Submetemos projeto para concorrer ao edital da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia com recursos do CNPQ, que foi aprovado posteriormente.



Bere – Bruna, é muito gratificante tomar conhecimento de tantos projetos e ações desenvolvidos, e inspirador também, diante tantos desafios que enfrentamos em relação à sustentabilidade planetária, principalmente no que se refere ao engajamento e conscientização da sociedade como um todo! O que, na sua opinião, precisa ser feito para que a sociedade conheça mais a respeito de sustentabilidade, preservação do meio ambiente e cuidado com os rios e oceanos? E neste contexto, qual o papel das políticas públicas?

Bruna – Na minha opinião é preciso investir na Educação Ambiental. Incluir no currículo escolar formal como disciplina – embora na Lei 9.795/99, a educação ambiental deve ser trabalhada de forma interdisciplinar, por entender que o Meio Ambiente permeia todas as disciplinas, sabe-se que na prática existem uma grande dificuldade de implementar a Educação Ambiental à luz da lei, como ela institui, fazendo com que o Meio Ambiente se torne pouco relevante diante da quantidade de assuntos abordados nas disciplinas formais ou acabe se restringindo às disciplinas de ciências e geografia, por já tratarem os aspectos ambientais naturalmente. Sei que os desafios são muitos, mas acredito que a educação ambiental precisa estar presente no dia a dia da Escola, dos alunos e dos professores. Se não for por meio de uma disciplina voltada para a Educação Ambiental, que seja através de um Educador Ambiental Escolar. Que terá o papel de fazer essa articulação com os professores, planejando aulas que abordem o meio ambiente e que possa cobrar dos docentes, o compromisso em tratar o meio ambiente como interdisciplinaridade, para que a educação ambiental, possa ser trabalhada de forma contínua nas escolas públicas e privadas.

A Educação Ambiental é um importante instrumento de sensibilização e transformação do pensamento crítico, do comportamento humano e dos hábitos de consumo das pessoas. É através da Educação que se forma um cidadão. E essa formação precisa começar na infância e seguir até a vida acadêmica e profissional das pessoas. A educação ambiental para funcionar e atingir os objetivos aos quais ela se propõe, deve deixar de ser exercida em ações pontuais, realizadas apenas em datas específicas, em função do calendário ambiental anual. Que são importantes também, como manutenção de uma política efetiva e estruturada, mas não são suficientes para transformar ou formar um senso crítico, um raciocínio lógico e contínuo sobre as questões ambientais existentes. Fazem-se necessárias ações continuadas, projetos à médio a longo prazos e que precisam começar pela formação dos professores. Porque são estes que estarão com os alunos ano a ano. As turmas vão passando, os alunos vão passando e mudando de série, mas os professores não. E aí é que entra o papel do Poder Público e das Políticas Públicas. O Poder Público precisa investir na formação continuada dos professores de toda rede de ensino, através de uma política pública ambiental e escolar. São os professores que estarão no dia a dia com os alunos. São eles que estarão ensinando e acompanhando a evolução escolar do alunado. Se os professores não tiveram a formação em educação ambiental, como poderão repassar, ensinar e sensibilizar os alunos para as questões relacionadas ao meio ambiente? Os alunos passam pelas escolas, os professores permanecem. Além da formação dos professores, as atividades precisam ser lúdicas, vivenciais, alternando teoria e prática, de modo a atingir os diversos sentidos do ser humano.



Bere – Promover a formação e bem preparar os professores em relação à Educação Ambiental, sem dúvida, é fundamental para uma práxis contínua e que não seja pontual, como você bem comentou. Trabalhar de forma interdisciplinar as questões ambientais - que estão diretamente relacionadas com a sustentabilidade (ou insustentabilidade), preservação, consumo consciente - e mais uma longa lista de temas relacionados com a vida do planeta - é um dos maiores desafios que se enfrenta nas práticas e abordagens de Educação Ambiental. Além do que você já nos pontuou, como a Educação Ambiental pode ser mais efetiva e mais impactante?

Bruna – As práticas de educação ambiental precisam trabalhar os vários sentidos do corpo humano. Precisam despertar esses sentidos que, na maioria das vezes, estão adormecidos por serem poucos estimulados. Vivemos numa sociedade que estimula e valoriza muito a fala oral e o pouco o ouvir e observar. E o que está ao nosso redor, como uma flor no jardim, por exemplo, vai deixando de ser percebida. Até entrar num processo automático, onde você passa todos os dias por essa flor e outras, mas não enxerga, não percebe. A educação ambiental tem esse papel de resgatar o “perceber e sentir” do ser humano. De estimular e sensibilizar os sentidos, o sentir. Só podemos sentir empatia por alguém, se percebermos esse alguém. Parar para ouvir a sua história, observar o outro. Então, as práticas de educação ambiental precisam trabalhar esses sentidos. Estimular e sensibilizar o olhar da criança ou adulto, por exemplo, para ver, enxergar, perceber os detalhes de uma flor, de um inseto ou uma rocha. E relacionar a importância de cada um para a preservação do meio ambiente, o papel deles com o ecossistema.

Existem muitas formas de trabalhar os sentidos. Os recursos audiovisuais, como a fotografia, vídeos, são instrumentos interessantes que podem ser usados numa prática de educação ambiental. Quem nunca se emocionou ou chorou assistindo uma cena de um filme?! Eu choro até com desenhos animados (risos). Não consigo ver nenhum filme ou desenho com animais que sofrem. Mesmo que no final termine tudo bem. Já ouvi muitos relatos de pessoas que mudaram ou tiveram vontade de mudar seus hábitos de consumo, depois que assistiram determinado filme ou documentário. Particularmente, gosto muito de trabalhar com recursos audiovisuais e, também, com visitas guiadas a lugares específicos.



Bere – Você fala com muita propriedade sobre a importância do “saber sensível” que deve estar presente na Educação Ambiental. É preciso não só conhecer, mas também “saber sentir” para que possamos entender a importância de se preservar e de se conservar o meio ambiente, e levá-lo em conta em todas as ações humanas! Sobre isto, quais são, na sua opinião, as ações que mais comprometem e degradam o meio ambiente?

Bruna – Existem diversas atividades que geram grandes impactos negativos ao meio ambiente. Atividades de extrações minerais, produção têxtil, nucleares, e outras tantas. Contudo, pensando de uma forma macro e ao longo prazo, a construção civil, em geral, impacta e degrada bastante os recursos naturais. Desde o uso do solo e de tudo o que ele passa para receber as estruturas necessárias, até o processo de destinação e tratamento do esgotamento sanitário. São muitas as etapas que existem na construção civil, e todas elas utilizam os recursos naturais, principalmente água e extração mineral. E os impactos não terminam com a obra pronta. Eles continuam com o uso da água, com a drenagem, com o sistema de esgoto, com a geração e destinação dos resíduos, o uso de energia, emissão de gases.

Toda atividade humana gera impactos negativos. Não existe atividade humana sem impactos. Por menor que seja. Podemos reduzir ao máximo nossos impactos, mas dificilmente, conseguimos eliminá-los. Isso de um modo geral. Temos uma problemática muito preocupante, crônica e mundial que é a geração e o descarte de resíduos sólidos. O lixo plástico encontrado nos mares e oceanos ultrapassam estados e países. Diversos animais marinhos estão morrendo por causa da ingestão de resíduos plásticos. É um problema que atinge o mundo. E de complexa resolução.



Bere – Sobre projetos e ações desenvolvidos ao longo da sua carreira, qual - ou quais - você pode destacar – já que é impossível abordar todos eles?

Bruna – De fato, são muitos projetos e ações desenvolvidas ao longo da minha vida até hoje, e cada uma delas tem a sua importância e contribuição para a minha formação pessoal e profissional.

Posso destacar o Projeto de Monitoramento e Conservação das Tartarugas Marinhas em Paulista, como um que me tocou profundamente. Sempre foi um sonho meu trabalhar “salvando” as tartarugas e outros animais marinhos. Desde antes da universidade. Então, o prazer e a satisfação que sinto em realizar esse trabalho é imensurável, indescritível. É algo que realmente me faz sentir que estou contribuindo com a preservação ambiental. É algo que deixarei para as futuras gerações. É um legado que deixarei na terra como uma missão de vida.

Outro projeto que muito me marcou, foi quando coordenei, na Secretaria de Educação de Olinda, um projeto chamado “Alimentação Saudável – A Escola dar o exemplo”. Cujo objetivo era a formação de 25 professores da rede municipal, do ensino fundamental, em agroecologia e educação ambiental. O produto final era implantar uma horta orgânica na escola com os alunos. Esse projeto me fez perceber a importância de formar professores em meio ambiente para trabalhar com os alunos. Foi esse projeto que me fez perceber a importância e a necessidade de investir na formação em educação ambiental dos professores. Porque eles permanecerão nas escolas, e os alunos, não. E também, da relevância de trabalhar com os alunos desde a infância para que eles cresçam amadurecendo e desenvolvendo o olhar e o pensamento crítico sobre as questões do meio ambiente. Para que eles possam pensar global e agir local, dentro das suas possibilidades, mas pensando em soluções sustentáveis e viáveis.

Uma ação que muito me marcou foi o transplante de duas árvores que realizei, em 2018, no município do Paulista. Foi o primeiro que fiz. E o primeiro a ser realizado no município. Para evitar que as árvores fossem cortadas, erradicadas, resolvi realizar o transplante das duas. Estudei bastante as técnicas, pesquisei as melhores formas. E com a ajuda da Secretaria de Serviços Públicos, realizamos a translocação das árvores de um lugar para outro próximo. E deu certo! Acompanhei durante um ano o desenvolvimento delas. Até concluir que os transplantes tinham dado certo e que as árvores estavam crescendo normalmente. Hoje, elas estão lá, lindas e fortes, embelezando a Orla do Município. Todos saíram ganhando com essa ação.



Bere – Que relatos emocionantes, Bruna! Imagino a sua satisfação (bem como a dos demais envolvidos) ao ver que as árvores foram translocadas com sucesso! Agora, descreva mais uma situação que te deixou bem feliz e outra que tenha sido preocupante...

Bruna – Uma situação bem feliz, que posso destacar foi a de quando presenciei o nascimento das tartarugas marinhas pela primeira vez em Paulista. E quando vi uma tartaruga indo desovar na Praia do Janga, também em Paulista. São dois momentos emocionantes, mágicos. Não sei explicar a emoção sentida em cada um deles. É um estado de felicidade plena. Você não pensa em mais nada. Só vivencia aquele momento. E como amo fotografar a natureza, esses dois momentos foram muito especiais nesse sentido também. Apesar de todos os nascimentos serem momentos únicos. Eu sempre me emociono em cada um deles. E esqueço de tudo quando estou fotografando.

Uma situação não muito boa e preocupante, foi a de quando, em 2019, o petróleo atingiu as praias do estado de Pernambuco e outros estados do Nordeste, em especial, o litoral do Paulista. Foi um momento muito triste, uma catástrofe que gerou danos irreversíveis ao meio ambiente. Muitos animais marinhos foram atingidos. Este mês de agosto, alguns fragmentos de petróleo, óleo foram encontrados e recolhidos em algumas praias do estado. Em Paulista, foram recolhidos mais de 50 kg até o momento. Um comitê de crise foi montado no município, do qual faço parte como articuladora entre o Estado e Paulista. E estamos acompanhando e monitorando diariamente, o desenvolvimento dessa situação.



Bere – Há uma frase que te inspira para seguir confiante esta sua exemplar trajetória, principalmente quando surgem problemas desta magnitude como a situação do petróleo nas praias, que vivenciou e vivencias novamente?

Bruna – Não tenho uma frase específica. Tenho várias frases que gosto muito. Aqui citarei algumas do Educador Paulo Freire, tão pertinentes nos dias atuais:

A Educação é um ato de Amor, por isso, um ato de Coragem.”

Se a Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco a sociedade muda.”

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

O Educador se eterniza em cada ser que educa.”

Não se pode falar em Educação sem Amor.”

É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal maneira que num dado momento, que a tua fala seja a tua prática.”

Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes.”

Ninguém nasce feito. É experimentando-nos no mundo que nos fazemos”.



Bere – E o que te inspira?

Bruna – Tenho pessoas e Instituições que me inspiraram e me inspiram até hoje. Meus pais, são pessoas que me inspiram a ser a pessoa e profissional que me tornei porque tive dois exemplos em casa. Eu via como minha mãe tratava as pessoas no trabalho e como ela trabalhava. A coerência entre o falar e o fazer. Ela não só falava, mas fazia o que dizia pra mim e minha irmã. E meus pais sempre incentivaram e proporcionaram a convivência com a natureza, o respeito com os animais.

Os trabalhos realizados por cientistas como Ana Primavesi, ambientalistas como Chico Mendes e por Instituições como o Projeto TAMAR, pelo Greenpeace, WWF, SOS Mata Atlântica, Sea Shepherd, Instituto Baleia Jubarte, Corais Vivos, e muitos outros, me inspiraram e me inspiram todos os dias. São instituições e projetos que faço questão de conhecer, apoiar, contribuir de alguma forma. E me sinto muito feliz quando consigo ajudar.

Também não poderia deixar de citar alguns professores como pessoas que me inspiram até hoje: Ana Karite, de Ciências, minha amiga e professora Carol Biondi, professor Souza Leão de entomologia, o meu professor e orientador do mestrado Carlos Afonso. Estes todos representando muitos outros.



Bere – Para finalizar, qual é a importância da Educação Ambiental para os dias de hoje? Deixa-nos um recadinho bem animador?

Bruna – Além do que eu já apontei anteriormente, destaco ainda que a Educação Ambiental tem a importância da formação e transformação do pensamento crítico e sensível do cidadão. Tem a importância de fazer as pessoas refletirem sobre seus hábitos de consumo e se eles estão adequados à realidade de hoje, de forma a influenciar nas mudanças desses hábitos. É através da educação ambiental que o ser humano adquire conhecimentos sobre o meio ambiente e a importância da sua preservação. É com a educação ambiental que o ser humano passa a se ver como uma espécie que faz parte da natureza e compreender as relações existentes entre elas. Passa a perceber o seu papel dentro dessas relações. Que tudo está interligado e conectado. E que nenhuma espécie é melhor do que a outra. Todas são importantes para manter o equilíbrio entre os diferentes ecossistemas. Que uma espécie depende da outra para sobreviver. E que todas dependem dos recursos naturais para sobreviverem. Os seres humanos não sobrevivem sem a natureza, sem os recursos naturais (água, oxigênio, luz do sol, etc). Mas a natureza sim, é capaz de sobreviver e se regenerar sem a presença humana.

Uma frase que gosto muito e que tento adotar no meu dia a dia, na minha vida, embora não seja fácil, é da música de Guilherme Arantes, Brincar de Viver.

Fala assim: “A arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não”. É aprender a sorrir, apesar de todas as dificuldades encontradas no mundo. É ter esperança por um mundo melhor. E sobretudo, é tentar fazer sempre o melhor, fazer o bem, preservar o meio ambiente, mesmo diante de tantas coisas ruins que acontecem todos os dias, diante de tantas degradações provocadas por vários serem humanos espalhados pelo mundo, que as vezes chega a desanimar. É preciso fazer a nossa parte, a que nos cabe nesse mundo. O que está ao nosso alcance. Começar pelo que está perto de nós. Na nossa casa, comunidade, nosso bairro. É ter em mente e no coração que a sua parte você está fazendo, apesar de tudo.

E concluo a entrevista com uma frase que li e que considero fazer muito sentido: “É Preciso conhecer para Preservar”.



Fotografias: Tiago Oliveira, Analista Ambiental, colega de Bruna.



Foto nascimento de filhotes de tartarugas marinhas na Praia de Enseadinha, Paulista

Carcaça de geladeira encontrada na Praia de Enseadinha, em Paulista

Nascimento de filhotes de tartaruga verde na Praia de Maria Farinha, Paulista.



Curso de Capacitação sobre Monitoramento e Manejo de Tartarugas Marinhasna Praia de realizado pelo Centro Tamar/ICMBio, na Praia de Regência, Espírito Santo. Tartaruga cabeçuda desovando.



Dia Mundial do Manguezal – Capacitação realizada na Unidade de Conservação Municipal Acaraú, Paulista.



Capacitação no Centro de Visitação do Projeto TAMAR de Vitória, Espirito Santo.



Fotografias de Bruna Maldonado



Nascimento de filhotes de tartaruga verde, Praia de Maria Farinha, Paulista, 2022.