O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise. (Ailton Krenak)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 80 · Setembro-Novembro/2022
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13/09/2022 (Nº 80) IDENTIFICANDO ALGUMAS INTERAÇÕES ENTRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E EDUCAÇÃO EM SAÚDE: REVISANDO A LITERATURA.
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IDENTIFICANDO ALGUMAS INTERAÇÕES ENTRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E EDUCAÇÃO EM SAÚDE: Revisando a literatura.



IDENTIFYING SOME INTERACTIONS BETWEEN ENVIRONMENTAL EDUCATION AND HEALTH EDUCATION: Reviewing the literature.

Jordânia Estevão Miranda1, Marcelo Paterlini2, Sirlene Dias Araújo3, Carlos Alberto Nascimento Filho4



1 Jordânia Estevão Miranda, Mestre em Administração, Instituto Federal do Espírito Santo, jordania@ifes.edu.br

2 Marcelo Paterlini, Especialista em Logística, Instituto Federal do Espírito Santo, paterlini@ifes.edu.br

3 Sirlene Dias Araújo, Mestre em Ensino de Ciências e Matemática, Educimat, Instituto Federal do Espírito Santo, sirlene@ifes.edu.br

4 Carlos Alberto Nascimento Filho, Doutor em Ensino de Ciências e Saúde, NUTES, Universidade Federal do Rio de Janeiro, cnascimento@ifes.edu.br



RESUMO: O objetivo deste estudo foi identificar as interações entre educação ambiental e educação em saúde. Para tanto, elaboramos uma revisão bibliográfica, estabelecendo algumas relações entre educação ambiental como suporte teórico e epistemológico com a educação em saúde, verificando as aproximações e distanciamentos a partir das análises dos textos. Desse modo, pensamos ser relevante a realização do levantamento com o objetivo de responder quais são as abordagens e tendências atuais da educação ambiental e educação em ciências e saúde.

Palavras-chave: Educação ambiental, Educação em Saúde, Interdisciplinaridade, Ambiente.



ABSTRACT: The aim of this study was to identify the interactions between environmental education and health education. For that, we prepared a bibliographic review, establishing some relationships between environmental education as a theoretical and epistemological support with health education, verifying the approximations and distances from the analysis of the texts. Thus, we think it is relevant to carry out the survey in order to answer what are the current approaches and trends in environmental education and education in science and health.

Keywords: Environmental education, Health Education, Interdisciplinarity, Environment.



Introdução

Considerando as relações estabelecidas entre ambiente e saúde e que o ambiente vem sofrendo profundas modificações, sobretudo nos últimos cinquenta anos, com reflexos diretos e, em geral, danosos à saúde. Vamos propor, neste estudo, uma revisão da literatura buscando identificar fundamentos, abordagens e conceitos epistemológicos que estão sendo utilizados na abordagem do tema, além de suas implicações interdisciplinares, considerando a heterogeneidade na constituição desse campo.

Inicialmente, no Brasil a educação ambiental estava amparada apenas na vertente conservacionista que, conforme Lima e Layrargues (2014), a partir das ciências ecologia e biologia de caráter conservacionista, cujas propostas eram ações de educação ambiental com objetivos de sensibilizar o ser humano para as questões da natureza, partindo da máxima “conhecer para preservar”. Nessa perspectiva, há um distanciamento do ser humano e a natureza e a visão de que este produz apenas destruição sendo, então, prioritário o estabelecimento de áreas de preservação. A segunda vertente, chamada pelos autores de pragmática, prega a possibilidade de conciliar o modo de produção capitalista com a preservação do meio ambiente, com base em discursos de desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade. Por fim, A terceira vertente, a crítica, propõe transformação da relação entre humano, ambiente e saúde e, para que isso seja possível, será necessária a mudança do modo de vida social, especialmente mudanças no padrão de consumo, incentivando a participação política nas lutas por justiça socioambiental e saúde, um dos fundamentamos teóricos do estudo.

Das análises das questões abordando a educação em saúde, é possível verificar que as abordagens Biomédica, Comportamental e Socioambiental estão presentes, conforme o conceito de saúde que direciona o discurso pedagógico e as estratégias a serem desenvolvidas. Conforme a classificação proposta por Westphal (2006), dentre as três, a abordagem socioambiental se apresenta como a mais adequada como referencial teórico para esta revisão, haja vista sua proximidade conceitual com a educação ambiental crítica, principalmente no que se refere à abrangência e contextualização, por entender saúde como “um estado positivo de bem-estar bio-psico-social e espiritual”, levando a população a um protagonismo, quando busca atender suas necessidades incluindo, nos determinantes de saúde as condições de risco biológicas, psicológicas, socioeconômicas, educacionais, culturais, políticas e ambientais.

Objetivo

Considerando as reflexões expostas na introdução, o objetivo desse estudo é efetuar o levantamento em forma de revisão bibliográfica, de pesquisas em ensino de ciências e saúde e educação ambiental, buscando identificar quais abordagens e tendências estão sendo utilizadas ou defendidas.

Justificativa

A pesquisa buscar estabelecer algumas relações entre educação ambiental como suporte teórico e epistemológico com a educação em saúde, verificando as aproximações e distanciamentos. Desse modo, pensamos ser relevante a realização de um levantamento com o objetivo de responder quais são as abordagens e tendências atuais da educação ambiental e educação em ciências e saúde? Quais abordagens e tendências estas pesquisas utilizam ou defendem?

Metodologia

Os artigos analisados neste estudo foram selecionados a partir de um levantamento no Portal de Periódicos Capes, de extratos A1e A2, na área de ensino pelo Qualis/Capes. Selecionamos artigos que tratam das relações entre educação ambiental e saúde, no mês de maio e junho de 2022. Inicialmente, testamos na busca avançada os descritores “educação ambiental” e “ensino de ciências e saúde” no título, que nos deu um retorno de zero artigo. Utilizamos os mesmos descritores no assunto e o retorno foi de um único artigo. Utilizando os mesmos descritores buscando em qualquer lugar do texto, a resposta foi de 352 artigos. Numa primeira análise, pelos títulos, verificamos que havia muitos que, a priori não nos interessava, considerando que a temática afastava-se do nosso objetivo nesse estudo. Refinamos novamente a busca utilizando os descritores “educação ambiental” e “saúde” no assunto e a resposta de foi de 22 artigos.

Numa segunda fase da revisão, após a leitura do resumo, descartamos 13, visto que não tinham relação com nossa área de interesse nesse estudo. Como critério de exclusão, descartamos os artigos que falavam de educação ambiental de forma genérica e não apresentavam de forma consolidada a relação com o ensino em saúde. Após leitura e análise dos artigos na íntegra, constatamos que os 09 artigos remanescentes são adequados ao estudo proposto, visto que abordam a relação entre educação ambiental e educação em saúde, conforme Quadro 1.

Quadro 1. Artigos analisados no estudo discriminados pelo título, autores (as), publicação e ano.

Código

Titulo

Autor (as)

Revista

A 1

Educação ambiental e enfermagem: uma integração necessária


Eveline Pinheiro Beserra; Maria Dalva Santos Alves; Patrícia Neyva Da Costa Pinheiro; Neiva Francenely Cunha Vieira


Revista Brasileira de Enfermagem, 2010

A 2

A política federal de saneamento básico e as iniciativas de participação, mobilização, controle social, educação em saúde e ambiental nos programas governamentais de saneamento


Márcia Moisés; Débora Cynamon Kligerman; Simone Cynamon Cohen; Sandra Conceição Ferreira Monteiro


Ciência & Saúde Coletiva, 2010

A 3

Diferentes abordagens sobre o tema saúde e ambiente: desafios para o ensino de ciências


Pinhão, Francine; Martins, Isabel


Ciencia & Educação, 2012

A 4

Parâmetros curriculares nacionais: uma revisita aos temas transversais meio ambiente e saúde

Alexandre Maia Do Bomfim; Maylta Brandão Dos Anjos; Marcio Douglas Floriano; Carmen Simone Macedo Figueiredo; Denise Azevedo Dos Santos; Carolina Luiza de Castro Da Silva


Trabalho, educação e saúde, 2013

A 5


Saúde, meio ambiente e território: uma discussão necessária na formação em saúde


Cinoélia Leal de Souza; Cristina Setenta Andrade

Ciência & Saúde Coletiva, 2014

A 6

Saúde coletiva, território e conflitos ambientais: bases para um enfoque socioambiental crítico

Marcelo Firpo de Souza Porto; Diogo Ferreira da Rocha; Renan Finamore

Ciência & Saúde Coletiva, 2014

A 7

Educação em Saúde e Educação Ambiental: Uma experiência inovadora com base em uma perspectiva socioambiental ligada à promoção da saúde

Danielle Grynszpan, Daniele Teixeira De Sousa Freitas; Toyoko Maria Nilda Furuse Angelo; Bruno Remanowski Vieira, Rafael Benjamim Mendonça; Ludmila Nogueira Da Silva

Enseñanza de las ciencias, 2013

A 8


A Educação Ambiental como estratégia de mobilização social para o enfrentamento da escassez de água


Andrezza de Souza Piccoli; Débora Cynamon Kligerman ;Simone Cynamon Cohen; Rafaela Facchetti Assumpção


Ciência & Saúde Coletiva, 2016



A 9


Formação em saúde do trabalhador e saúde ambiental: avaliação de experiência com atores locais


Katia Reis de Souza; Ana Maria Cheble Bahia Braga; Brani Rozemberg


Saúde em Debate, 2017



Descrição e análise dos resultados

Relações entre educação ambiental e educação em saúde: o que revelam os estudos

Após leitura dos 09 artigos, buscando identificar quais as abordagens e tendências utilizadas ou defendidas, verificamos que o debate sobre ensino de ciências e saúde e meio ambiente, sobretudo no Brasil, é ainda incipiente. A produção acadêmica nas áreas de educação ambiental e saúde procuram se consolidar como campo social, sobretudo a partir dos anos 2000. Esse processo faz parte de um movimento histórico quem tem início nos finais dos anos 60 e início da década de 1970, que envolvia movimentos sociais distintos, vinculados aos mais diferentes setores da sociedade, com discursos e práticas distintas, por vezes antagônicas, que expressam o modo como compreendem, produzem e apreendem a ‘questão ambiental’ e atuam no enfrentamento dos problemas contemporâneos por meio da educação.

Infere-se que não é possível dissociar as questões ambientais da saúde e que a sociedade (principalmente a capitalista, ocidental) consumista, tem negligenciado a atenção devida ao ambiente. Segundo Beserra et al. (2010), os seres humanos são responsáveis pela gestão da natureza, bem como dos danos decorrentes de sua exploração sem critérios, “por isso torna-se necessária a reflexão acerca do bem-estar ecológico e humano”. Neste aspecto, para as autoras a educação ambiental não é neutra, ao contrário deverá qualificar a sociedade para o enfrentamento dos possíveis problemas ao bem-estar do planeta e, consequentemente, de seus habitantes.

Para as autoras, a interdisciplinaridade surge como elemento fundamental, ao relacionar os conceitos de Educação em Saúde e de Promoção da Saúde deveremos consolidar um significado ampliado que inclui o processo de capacitação das pessoas, assegurando assim, que o conhecimento daí decorrente poderá transformar a sociedade, a partir da formação da consciência “crítica do cidadão para a tomada de decisões com maior responsabilidade socioambiental, incluindo políticas públicas e a luta por ambientes saudáveis” Beserra et al. (2010).

Para Moisés et al. 2010, educar e aprender torna-se um processo contínuo de indagação, reflexão, questionamento e de construção coletiva, articulada e compartilhada. É possível verificar no estudo das autoras, os critérios que subsidiam a seleção dos textos para análise, quando defendem a construção participativa de Programas de Educação em Saúde e Ambiental e de Mobilização Social em Saneamento, para que promovam a adoção de novos valores e o controle social na gestão da política de saneamento. De acordo com as autoras, esse processo contínuo promove, “a mudança gradual na forma de pensar, sentir e agir através da seleção e utilização de métodos pedagógicos participativos e problematizadores” (MOISÉS et al. 2010). Dessa forma, as autoras ao analisarem os dois projetos objetos do estudo, fazem-na com base nas abordagens da educação ambiental crítica e a educação em saúde socioambiental, conforme classificação de Lima e Layrargues (2014) e Westphal (2006).

Pinhão e Martins (2012) ressaltam a criação de uma subárea da saúde pública, com o propósito de se dedicar especificamente às questões da saúde e ambiente, denominada saúde ambiental com o objetivo de controle dos fatores ambientais potencialmente prejudiciais à saúde. O estabelecimento desta área como campo disciplinar fundamenta-se, inicialmente, nas bases teóricas da epidemiologia clássica, voltada para aspectos causais. Uma versão mais recente da saúde ambiental está mais intimamente ligada às Ciências Sociais, “preocupando-se com os princípios éticos de justiça ambiental, envolvendo dimensões dificilmente quantificáveis, tais como: o contexto social, econômico e cultural” (Pinhão; Martins, 2012).

Com relação à aproximação entre os temas saúde e ambiente com as pesquisas acadêmicas, as autoras afirmam que houve mobilização para promover essa aproximação entre os temas saúde e ambiente, sobretudo a partir de novas teorias e abordagens voltadas para a luta da redemocratização do país.

O trabalho de Porto et al. (2014), busca estabelecer a relação entre saúde pública e a crise socioambiental. Para estes autores, o surgimento da chamada medicina social latino-americana (MSLA), nos anos 1970 emerge, na interface entre o campo da saúde pública e as lutas sociais, influenciada pelo estruturalismo materialista, faz crítica contundente ao paradigma biomédico hegemônico e sua limitação frente as contradições existentes na América latina da época, submetida, em sua maioria, a regimes autoritários, que produziam crescimento econômico ao mesmo tempo em que aprofundavam as desigualdades sociais e de saúde. O principal argumento dos autores é a importância das comunidades e movimentos por justiça ambiental atuarem efetivamente na produção de conhecimento, visto que essa participação promoverá atualizações no campo da saúde ambiental, como forma de “ampliar e politizar o conceito de saúde enquanto expressão de direito e cidadania”. Dessa forma, fica explícita a adoção da abordagem crítica e socioambiental no estudo.

No contexto da educação formal, analisando os documentos oficiais (DCN´s e PCN´s para o ensino médio) acerca dos temas transversais e integradores especificamente, ambiente e saúde e buscando entender como esses temas foram absorvidos e incorporados no interior das escolas, conforme Bonfim et al. (2013), considerando-se a época (1998), a legislação ambiental, documentos decorrentes dos debates em eventos internacionais, além de organismos e comissões sobre meio ambiente, os textos de educação ambiental aparecem em bom número em relação aos outros que tratam da ‘questão ambiental’.

O posicionamento dos autores demonstra que os textos produzem avanços teóricos nas questões sobre educação ambiental, na medida em que consideram os problemas sociais e humanos como sendo ambientais. No entanto, dizem os autores, no conteúdo estão presentes elementos que ora se apresentam como atrasos, ora superficiais ou ineficazes.

Com relação ao tema saúde, conforme os autores, o texto é contraditório e oscilante. A despeito dessa contradição, o PCN apresenta alguns pontos mais avançados. O documento defende uma ‘educação para saúde’ em vez de ‘ensino de saúde’, e também que a prioridade não deve ser a doença, mas a prevenção.

Assume uma crítica parcial ao ‘biologismo’ na educação para a saúde; considera importante a interface com outros temas transversais, entende que algumas doenças estão diretamente relacionadas com as diferenças sociais; não restringe saúde à questão de higiene e aponta a importância da alimentação adequada. Entretanto, ao reivindicar o protagonismo das ciências naturais, assume uma postura contraditória, já que anteriormente, os documentos oficiais, defendiam a transversalidade como proposta pedagógica a ser praticada. Além de possuir características objetivas da abordagem comportamentalista, segundo a classificação de Westphal (2006).

Os autores defendem boa parte das diretrizes contidas nos documentos oficiais, no que se refere à educação ambiental, cuja proposta se aproxima bastante da vertente crítica. Entretanto, para eles, na educação em saúde, os textos são confusos e contraditórios e, ainda que apresentem nuances da abordagem socioambiental, utilizada pelos autores, falta desenvolvimento teórico adequado às temáticas.

Souza e Andrade (2014) apontam para a relação da degradação ambiental com as questões de saúde, sobretudo nesse processo rápido de urbanização sem, no entanto, desenvolver na mesma proporção a infraestrutura necessária a crescente demanda. Para as autoras, a educação em saúde, a educação ambiental e a mobilização social são, ou deveriam ser, processos permanentes de transformação social, considerando sua importância para o exercício da cidadania. Elaboraram um estudo, onde analisaram programas de 17 cursos de medicina em quatro universidades estaduais na Bahia.

As autoras analisaram 60 ementas que aproximavam da temática educação ambiental e saúde, utilizando a técnica da análise de discurso. Os estudos mostraram que nos dezessete cursos de graduação em Saúde, onze aproximam conteúdos sobre meio ambiente, como tema transversal que perpassa por disciplinas de conteúdos gerais do curso, e seis não apresentaram nenhuma relação de conteúdo sobre meio ambiente nos programas das disciplinas e/ou módulos gerais do curso de graduação.

Ressaltam ainda que, a partir da Constituição de 1988, e da implantação do SUS em 1990, o conceito de educação em saúde passa por modificações, na medida em que, começam a relacionar a saúde com as condições sociais de vida, acesso aos serviços de públicos, além da relação com o meio ambiente, buscando dissociar da abordagem biologicista, características do ensino em saúde, para uma abordagem socioambiental da saúde.

Buscando desenvolver projetos para a promoção de novas estratégias educacionais de abordagem socioambiental, voltadas à promoção da saúde, Grynszpan et al. (2013) relatam que, “esforços intersetoriais integraram este projeto de pesquisa etnográfica e seus desdobramentos levaram à criação de um espaço dialógico denominado “sala-ambiente”, onde se pretendida identificar o olhar dos atores locais sobre o problema”. Para tanto, utilizaram os registros de um serviço de vigilância em saúde da região de Caramujo, um bairro socioeconomicamente carente de Niterói/RJ, acometido por epidemia de leishmaniose. Para o estudo as autoras adotam a abordagem CTSA e a pedagogia freireana. Os autores deixam explícito desde o objetivo e referencial teórico, que o estudo está inserido no contexto tanto da educação ambiental crítica, quanto da educação em saúde socioambiental, visto que o mesmo relaciona diretamente a promoção em saúde com o meio ambiente e a sociedade, integrados e articulados.

Em direção parecida, Picolli et al. (2016) desenvolvem estudo objetivando a construção de uma “metodologia de mobilização para o enfrentamento da escassez dos recursos hídricos, tendo como pressuposto o Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento (PEAMSS)”. As autoras entendem que passa pela educação, a capacitação e mobilização social nos debates sobre controle social do uso dos recursos hídricos. Para os autores, a relevância do estudo é evidenciar mobilização social como instrumento de articulação entre saneamento ambiental e saúde, participação social e qualidade da água. Nesse sentido, para os autores, a educação ambiental deverá promover a emancipação, bem como promover a inter-relação entre o indivíduo e suas manifestações.

A aproximação teórica e política do campo da saúde do trabalhador com o de saúde ambiental, de acordo com Souza et al. (2017), se confirma como estratégia fundamental, na área de saúde coletiva, visto que proporciona um olhar mais atento às tensões decorrentes da relação entre saúde, trabalho e ambiente no território. Entretanto, registram que os serviços de saúde do trabalhador e de saúde ambiental, da forma como estão estabelecidos na rede pública no âmbito federal, estadual e municipal, encontram-se dissociados na organização e gestão pela estrutura burocrática existente.

Para Souza et al. (2017), na prática, as questões relativas à saúde do trabalhador e saúde ambiental representam um conjunto de relações complexas, “o que demanda o alargamento do campo disciplinar de análise para incluir categorias críticas de reflexão, ampliando a capacidade de interpretar a realidade para transformá-la”. Neste contexto, desenvolvem uma formação, em formato de pós-graduação onde os processos formativos evidenciam estratégias fundamentais, na medida em que contribuem para emancipação dos atores locais, capacitando-os à construção de ações políticas, de caráter público, para intervenção qualificada no cotidiano.

Conclusão

Encontramos uma diversidade de estudos tratando do tema, ressaltando sua importância e emergência, além de sua relação com o ensino de ciências e saúde, bem como práticas pedagógicas. Considerando que nosso objetivo é identificar quais abordagens e tendências estão sendo utilizadas ou defendidas, de alguma forma, nestes estudos, tecemos algumas considerações.

Dentre os nove selecionados para análise, verificamos que em todos estavam presentes as categorias de análise que nos propusemos a identificar. No estudo A1 de Beserra et al. (2010), as autoras defendem a formação de caráter interdisciplinar, como forma de qualificar a ação política nas questões de saúde e ambiente. No A2, de Moisés et al. (2010), as autoras ao analisarem os Programas de Educação em Saúde e Ambiental e de Mobilização Social em Saneamento, verificam que estão presentes nestes programas e que também defendem a adoção de novos valores e o controle social na gestão da política de saneamento. A participação popular como protagonista no processo, para a consolidação de uma prática social com potencial transformador. Na mesma direção, Pinhão e Martins, (2012) e Porto et al. (2014), apontam que desde a década de 1980, começam a serem abordados diferentes conceitos e práticas dos dois campos, bem como a aproximação entre eles.

Em relação aos documentos institucionais (DCN´s e PCN´s), Bonfim et al. (2013) no A4, afirmam que os mesmos, aparecem em bom número e apresentam características importantes das categorias que buscamos identificar no que se refere à educação ambiental. No caso da educação em saúde, de acordo com os autores os textos são confusos e contraditórios e, ainda que apresentem nuances da abordagem socioambiental, defendida pelos autores, falta desenvolvimento teórico adequado às temáticas.

No A5, Souza e Andrade (2014) verificaram e consideraram satisfatório, que na grade curricular de 17 cursos de medicina em quatro universidades, nas 60 ementas analisadas que, em 11 dos 17 cursos se aproximam conteúdos sobre meio ambiente, com abordagem crítica e apenas 6 não apresentaram nenhuma relação de conteúdo sobre meio ambiente nos programas das disciplinas e/ou módulos gerais do curso de graduação. Não resta dúvida que há uma aproximação aqui, tanto da educação ambiental crítica, quanto do ensino de saúde de abordagem socioambiental.

Buscando desenvolver procedimentos estratégias educacionais para a promoção da saúde, Grynszpan et al. (2013) e Picolli et al. (2016) realizaram estudos abordando questões referentes a educação em saúde e ambiental, de forma que inserisse a comunidade local e, a partir da visão dessa comunidade é que as ações são pensadas, tendo como referência, a autonomia. Por fim no A9, Souza et al. (2013), demonstram que as questões relativas à saúde do trabalhador e saúde ambiental representam um conjunto de relações complexas, “o que demanda o alargamento do campo disciplinar de análise para incluir categorias críticas de reflexão, ampliando a capacidade de interpretar a realidade para transformá-la”.

Embora tenhamos identificado as categorias de análise que propusemos para essa revisão de literatura e em todos os nove estudos e verificado também certo consenso nas pesquisas quanto à utilização nos processos da educação em saúde e meio ambiente, uma abordagem crítica, interdisciplinar e socioambiental, a educação em saúde ainda está longe de superar o modelo positivista de tratar a doença e não encontra acolhimento em nenhum dos artigos selecionados. Longe de esgotamento do tema, a revisão indica a necessidade de aprofundamento de pesquisas teóricas e práticas acerca das relações entre o ensino de saúde e ambiente.



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Ilustrações: Silvana Santos