Renunciar ao supérfluo coloca ainda mais em evidência o necessário e o indispensável. - Pierre Rabhi
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 81 · Dezembro-Fevereiro 2022/2023
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14/12/2022 (Nº 81) PAINEL DE INDÍGENA MORTO NA AMAZÔNIA É EXPOSTO NO CENTRO DE S. PAULO
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PAINEL DE INDÍGENA MORTO NA AMAZÔNIA É EXPOSTO NO CENTRO DE S. PAULO

O indígena também era professor na aldeia 621. Foi encontrado morto na manhã de 18 de abril de 2020 com vários golpes na cabeça.

 Antônio Paulo, do BNC Amazona em Brasília

 

Quem passar pelo centro de São Paulo, nas imediações do famoso Pátio do Colégio, a partir desta quinta-feira (8), vai se deparar com uma obra de arte moderna. Trata-se do painel que homenageia o indígena Ari Uru-Eu-Wau-Wau, assassinado em abril de 2020 na Amazônia.

A peça será iluminada para chamar a atenção aos direitos dos indígenas e ambientalistas perseguidos e mortos no Brasil.

A ação ocorre por ocasião do Dia Internacional dos Direitos Humanos, celebrado tradicionalmente em 10 de dezembro.

Durante um ano, o painel, criado pelo “artivista Mundano” será iluminado todas as noites.

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Mundano retratou Ari Uru-Eu-Wau-Wau e escreveu os nomes de dezenas de defensores da floresta que também foram assassinados.

Ari Uru-Eu-Wau-Wau fazia parte da equipe de vigilantes “Guardiões”, que protege o território indígena, combatendo as invasões de madeireiros e grileiros.

O indígena também era professor na aldeia 621. Foi encontrado morto na manhã de 18 de abril de 2020, em Rondônia, assassinado com aproximadamente quatro golpes na cabeça. Ele tinha 33 anos.

A obra

A obra de 618m² está localizada na lateral de um prédio na rua Quintino Bocaiúva, a poucos metros da Catedral da Sé, em São Paulo.

A produção do mural levou dez dias. Foi realizada pela “Parede Viva” e contou com a assistência de mais quatro artistas: Everaldo Costa, Carolina Afolego, André Hulk e André Firmiano.

Além de retratar e disseminar as tragédias com as populações indígenas da Amazônia e do país, o objetivo do mural de Mundano é engajar os guias turísticos para que passem a contar histórias dos territórios indígenas em São Paulo.

Disputa territorial

O local escolhido – centro de São Paulo – tem relação com o tema e os materiais usados para a pintura.

Isso porque o artivista Mundano ressalta a importância de rever a história e os personagens invisibilizados.

O Marco Zero tem uma história de disputa por território que aconteceu há mais de 500 anos. Sangue indígena derramado ali. E que continuou sendo derramado por todo o Brasil durante cinco séculos.

Já passou do tempo dos direitos humanos serem respeitados no Brasil para todas as etnias. É necessário direcionar o olhar para as presenças invisibilizadas e recontar a história dessa cidade e do país”, afirma Mundano.

Cinzas de queimadas

O painel do indígena assassinato foi produzido com tinta de terra extraída no Marco Zero de São Paulo, na praça da Sé.

Ela foi misturada a cinzas de queimadas da Amazônia, coletadas por Mundano há dois anos.

O artivista já havia usado a técnica de produzir tintas com materiais resultantes de tragédias ambientais em 2020, quando usou lama tóxica resultante da tragédia de Brumadinho, Minas Gerais.

Em 2021, ele combinou cinzas de queimadas na Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica para homenagear os brigadistas que combatem as queimadas em todo o Brasil.

Chaga social

Desta vez, Mundano agrega materiais que remetem a uma das maiores chagas sociais do país: violência, assassinatos e descaso com os povos originários.

Onde hoje temos o marco zero da maior cidade da América Latina, era território indígena, que foi ocupado em um processo de expulsão e morte dos povos originários que persiste até hoje.

É o que estamos vendo na Amazônia, mas também em todas as regiões onde os indígenas ainda mantêm parte de suas terras.

Por isso Ari Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi retratado com terra do marco zero e cinzas da Amazônia – ambos territórios indígenas”, explica o artivista.

Arte moderna

A obra encerra um ciclo que o artivista chama de #releiturasmundanas, feitas no escopo do centenário da Semana de Arte Moderna, com celebração em 2022.

Ela teve início em 2020, quando Mundano usou lama tóxica de
Brumadinho para fazer um painel inspirado no quadro “Operários”, de Tarsila do Amaral.

Desta vez, o artista e ativista inspirou-se em “Bananal”, obra de 1927 do pintor lituano-brasileiro Lasar Segall – uma das principais obras do movimento modernista brasileiro.

Enquanto em “Bananal” só é mostrado o rosto e o pescoço do personagem, no mural de Mundano é possível ver o corpo e também a mão de Ari, segurando a ponta de uma lança.

De tal forma, essa imagem ficou nacionalmente conhecida pela foto de Gabriel Uchida que ilustrou as reportagens sobre sua morte.

Foto: divulgação

Fonte: https://bncamazonas.com.br/municipios/indigena/

Ilustrações: Silvana Santos