Renunciar ao supérfluo coloca ainda mais em evidência o necessário e o indispensável. - Pierre Rabhi
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 81 · Dezembro-Fevereiro 2022/2023
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14/12/2022 (Nº 81) PLANTAS NO DIA A DIA: A CRIAÇÃO DE UM APLICATIVO COLABORATIVO COMO ESTRATÉGIA PARA SUPERAÇÃO DA CEGUEIRA BOTÂNICA
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PLANTAS NO DIA A DIA: A CRIAÇÃO DE UM APLICATIVO COLABORATIVO COMO ESTRATÉGIA PARA SUPERAÇÃO DA CEGUEIRA BOTÂNICA

Jorge Gabriel Fernandes Genovez¹, Leticia Moraes Belo de Oliveira², Tatiana Ungaretti Paleo Konno³

¹ Discente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas – Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade, Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ). E-mail: genovezgabriel@gmail.com

² Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

³ Professora Associada do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade, Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ).

Resumo:

Embora as plantas sejam organismos essenciais para a manutenção da vida na Terra, é recorrente a incompreensão e o desinteresse nos conhecimentos botânicos. Esse fenômeno é conhecido como cegueira botânica, e se refere a incapacidade do ser humano em reconhecer a importância e a presença das plantas nas atividades realizadas no cotidiano. Nesse contexto, diversas atividades de educação ambiental têm surgido a fim de reverter esse cenário. Dentre essas atividades, a realização de trilhas é comumente vista como uma boa alternativa, uma vez que os visitantes são inseridos em meio a natureza e têm oportunidade de conhecer diversas espécies vegetais e seus papeis para o funcionamento dos ecossistemas. Por isso, buscamos desenvolver um instrumento mobile a fim de contribuir para a criação de novas trilhas e otimizar a experiência dos visitantes. Neste trabalho, são expostas as etapas de criação do aplicativo “Plantas no Dia a Dia”, desde o levantamento de aplicativos similares a confecção do software. O “Plantas no Dia a Dia” busca solucionar limitações encontradas em outros aplicativos, como: o grande consumo da memória interna do smartphone do usuário; a necessidade de internet para o funcionamento do aplicativo; e dificuldade para expansão e inserção de novas trilhas nos aplicativos. Ao solucionar essas questões, este aplicativo torna-se um importante instrumento colaborativo para disseminação de conhecimentos botânicos, uma vez que retira da equipe de desenvolvedores a exclusividade na confecção de trilhas e facilita a utilização do software pelo usuário.

Palavras-chave: Cegueira Botânica; Diversidade Vegetal; Educação Ambiental; Interpretação Ambiental; Recursos Didáticos Não-Convencionais.

Abstract:

Although plants are essential organisms for the maintenance of life on Earth, misunderstanding, and lack of interest in botanical knowledge are recurrent. This phenomenon is known as Plant Blindness and refers to the inability of human beings to recognize the importance and presence of plants in daily activities. In this context, several environmental education activities have emerged to reverse this scenario. Among these activities, educational trails are commonly seen as a good alternative since visitors are immersed in nature and know about different plant species and their roles in the functioning of ecosystems. Therefore, we seek to develop a mobile tool to contribute to the creation of new trails and optimize the visitors' experience. In this work, we report the creation of the Plantas no Dia a Dia application from the survey of similar applications to software development. Plantas no Dia a Dia seeks to solve limitations found in other applications, such as the large consumption of internal memory on smartphone users, the need for the internet for applicative functioning, and difficulty in expanding and inserting new trails in applications. By solving these issues, this application becomes an important collaborative instrument for the dissemination of botanical knowledge, since it removes from the team of developers the exclusivity in the making of trails and facilitates the use of the software by the user.

Keywords: Plant Blindness; Plant Diversity; Environmental Education; Environmental Interpretation; Non-Conventional Teaching Resources. 

INTRODUÇÃO

A conservação da biodiversidade é uma área científica emergente que se popularizou no final do século XX em resposta à atual crise ambiental (Soulé, 1985). A necessidade de que a preservação das espécies seja vista como objetivo primário resultou na consolidação desta área multidisciplinar, uma vez que, sozinhas, as disciplinas científicas não compreendiam todo o arcabouço teórico necessário para resolução dessa crise (Primack e Rodrigues, 2001). Logo, a união de diversas áreas possibilitou a elaboração de uma vasta gama de estratégias a fim de intensificar a pesquisa e o ensino sobre os processos de perda da biodiversidade e os impactos negativos sobre o bem-estar da espécie humana.

Dentre essas estratégias, a escolha de espécies-bandeiras tem se tornado cada vez mais comum nas últimas décadas. Essa abordagem se utiliza de determinadas espécies que são escolhidas como símbolos para estimular a conscientização ambiental e ações de conservação. Muitos projetos tendem a não selecionar espécies apenas por sua importância e vulnerabilidade ambiental, mas também por sua atratividade (Schlegel e Rupf, 2010). Projetos famosos, por exemplo, utilizam animais como o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) e onça-pintada (Panthera onca) como símbolos de suas iniciativas que, por serem espécies carismáticas, cativam com maior facilidade a população e conseguem angariar maior apoio aos projetos. E ainda, a conservação destas espécies traz necessariamente benefícios para todo o ecossistema em que estão inseridas e para as demais espécies que ocorrem no entorno (Dietz, Dietz e Nagagata, 1994).

Embora a conservação das plantas também se beneficie dos projetos com animais como espécie-bandeira, há uma preocupação com a baixa proporção de espécies vegetais escolhidas como símbolo destes projetos. Isso é comumente apontado pelo menor carisma das plantas comparado aos animais (Balding e Williams, 2016). Ao discutir sobre este mesmo tema, Wandersee e Schussler (1999) cunharam o termo “cegueira botânica” que se refere a maior dificuldade das pessoas em se afeiçoar com as plantas. Pois, enquanto os animais possuem morfologias, cores, sons, mobilidade e padrões de comportamento mais evidentes, as plantas tendem a constituir apenas um cenário ou pano de fundo na vida desses organismos.

Essa percepção das plantas como organismos secundários e a usual falta de interesse nos conhecimentos botânicos gera insegurança à conservação, pois podem influenciar negativamente na preservação de toda biodiversidade. Uma sociedade que não compreende o papel fundamental que as plantas desempenham no planeta, não está propensa a incentivar a pesquisa e a educação científica voltada à preservação da diversidade vegetal (Allen, 2003; Balding e Williams, 2016). Por isso, na busca de possíveis soluções para esta questão, esse projeto tem o objetivo de desenvolver um instrumento para aumentar a percepção e o interesse sobre as plantas.

MOTIVAÇÕES PARA O APLICATIVO

Diversos autores consideram o ambiente de ensino como importante meio para superação da cegueira botânica, pelas diversas possibilidades de estratégias para abordar de maneira precoce sobre a importância das plantas para os humanos e para a biosfera (Neves, Bündchen e Lisboa, 2019). No entanto, além do ensino de botânica ser pouco debatido nos currículos escolares, sua abordagem é comumente descontextualizada à realidade dos estudantes e, transmitida de maneira totalmente descritiva e conteudista, tornando o estudo desta disciplina monótono (Katon, Towata e Saito, 2013; Ursi et al., 2018; Piassa, Neto e Simões, 2022). Fora do ambiente de ensino, a relação cada vez mais urbanizada do ser humano distorce a percepção de pertencimento do homem como integrante da natureza, uma vez que o contato com o “meio natural” é essencial para formação da conscientização ambiental dos indivíduos (Souza e Cremer, 2016). Iniciativas que visam mudar essa realidade trazem o conhecimento botânico de forma contextualizada, apresentando os conceitos de forma indireta e de maneira alinhada com fenômenos naturais presentes no cotidiano (Wandersee e Schussler, 2001; Krasilchik, 2008).

No ponto de vista educacional e recreativo, espaços como trilhas interpretativas são importantes instrumentos pedagógicos que podem ser utilizados para o ensino de botânica e educação ambiental (Marcuzzo et al., 2015; Martins et al, 2012). As trilhas transformam ambientes comuns em laboratórios naturais, permitindo aos visitantes serem protagonistas de sua própria aprendizagem. São espaços que valorizam a transversalidade dos saberes e são previstas para o ensino formal de acordo com os termos que definem a educação instituídos na lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), e para atividades de educação ambiental de acordo com a lei nº 9.795/99 (Política Nacional de Educação Ambiental). No entanto, a produção desses espaços não convencionais de ensino exige determinados esforços a fim de atingir resultados realmente positivos, como a presença de um guia ou placas informativas para comunicar ao visitante os elementos mais pertinentes do percurso. Essas demandas muitas vezes são desestimuladas pela falta de recursos humanos e financeiros, resultando em trilhas com pouca ou nenhuma infraestrutura (Valente, 2005; Dray e Simonetti, 2012; Rocha et al. 2020).

Diversas iniciativas têm surgido a fim de facilitar e enriquecer a experiência pedagógica em trilhas. Projetos que alinham tecnologia e educação ambiental têm se destacado pela gama de experiências que podem ser proporcionadas aos usuários. Canto-Silva e Rech (2013), por exemplo, visam desenvolver um ambiente virtual que possibilita remotamente obter experiências visuais e auditivas de trilhas do Parque Natural Morro do Osso em Porto Alegre, RS.  Caldas et al. (2018) desenvolveram um aplicativo para dispositivos móveis com foco na Trilha da Nascente do Jardim Botânico de Brasília que proporciona uma experiência de gameficação oferecendo quiz, sistema de conquistas e informações através da decodificação de QR Codes distribuídos pela trilha. Outros aplicativos se concentraram em utilizar do sistema de decodificação para transmitir aos visitantes informações pertinentes das trilhas, substituindo placas textuais por placas com apenas QR Codes (Rocha, Cruz e Leão, 2015; Abreu, Sousa e Lacerda, 2017; Nascimento et al., 2020; Junior e Augusto, 2020).

A utilização de dispositivos móveis para decodificação de QR Codes são iniciativas promissoras para diminuir os custos da implementação de trilhas. Enquanto placas informativas textuais demandam alto recurso financeiro (Menezes et al., 2013), placas contendo apenas QR Codes têm seu tamanho reduzido, resultando em menores custos para a produção. Além disso, a experiência mobile confere autonomia ao visitante, instigando a curiosidade a cada novo QR Code decodificado. Contudo, em sua maioria, os aplicativos utilizados como recurso de educação ambiental em trilhas são desenvolvidos para locais específicos (Rocha et al. 2015; Caldas et al.; 2018; Carvalho & Moreira, 2019; Junior & Augusto, 2020), ou seja, embora sejam iniciativas promissoras, são aplicativos de interesse local. Além disso, os decodificadores comumente atuam em conjunto com bancos de dados de seus aplicativos, dessa forma, tornando necessária a atualização do aplicativo a cada nova inserção de informações, assim dificultando sua expansão (Rocha, Cruz e Leão, 2015; Carvalho e Moreira, 2019; Nascimento et al, 2020). Sob este cenário, o instrumento elaborado por esse projeto busca oferecer aos visitantes informações sobre as espécies vegetais presentes em trilhas, porém através de um aplicativo de caráter facilmente expansível e colaborativo.

DESENVOLVIMENTO E IMPLEMENTAÇÃO DO APLICATIVO “PLANTAS NO DIA A DIA”

Este aplicativo consiste em um decodificador de QR Code elaborado para smartphones que torna possível a partir de pequenas placas ter acesso a textos informativos sobre a diversidade vegetal. O aplicativo é dividido em três sessões: (1) Informações; (2) Scanner; e (3) Localizações, em que (1) contém informações sobre o modo de uso do aplicativo e a equipe de desenvolvimento (Figura 1A); (2) a tela principal com o botão de acesso ao scanner de QR Codes (Figura 1B); (3) e informações sobre as trilhas já registradas e como colaborar criando mais trilhas (Figura 1C). Ao pressionar o botão de acesso ao scanner de QR Codes, a câmera do dispositivo móvel será aberta e direcionada a uma placa com QR Code (Figura 2) o conteúdo a ser decodificado será exibido na tela (Figura 1D). Quanto ao conteúdo decodificado, são textos produzidos especificamente para uma espécie ou gênero vegetal contendo: nome científico, nome popular e uma breve descrição, que somem ao todo entre 250 e 350 caracteres. As informações contidas em cada placa são fundamentadas em livros e artigos científicos visando difundir informações sobre aspectos ecológicos, econômicos e culturais sobre determinada espécie (ou gênero), como mostra o exemplo da Figura 1D.

Figura 1. Capturas de tela do aplicativo “Plantas no Dia a Dia”. (A) sessão de informações, (B) sessão principal, (C) sessão de localizações e (D) decodificação da placa Inga sp. implementada no NUPEM/UFRJ.

Figura 2. Modelo de placa com QR Code.

O desenvolvimento do aplicativo ocorreu através do IDE (Integrated Development Environment) Android Studio disponibilizado gratuitamente pela Google em 2013. Foram utilizadas as linguagens de programação Java e XML, em que respectivamente, são responsáveis pelo processo de decodificação do QR Code e pela formatação do aplicativo. A escolha do desenvolvimento em plataforma Android foi baseada na grande popularidade deste sistema operacional no Brasil, em que mais de 90% dos usuários de dispositivos móveis o utilizam (Kantar Worldpanel, 2022). Além disso, o modelo de decodificação desenvolvido em Java atua convertendo diretamente o código QR Code em texto, assim, possibilitando a inserção de novas placas e trilhas sem necessidade de realizar constantes atualizações no aplicativo e retira do usuário a obrigatoriedade de possuir acesso à internet para a leitura das placas. Neste momento, o aplicativo já está disponível para download na Play Store (https://play.google.com/store/apps/details?id=com.cdac.plantas). 

O local escolhido para a implementação inicial do aplicativo foi o Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM/UFRJ) localizado em Macaé no estado do Rio de Janeiro. O local possui uma área de aproximadamente 2,2 hectares e é constantemente visitado por estudantes de todos os níveis de ensino, devido às constantes atividades de educação ambiental realizadas no instituto. Além disso, há uma trilha sem obstáculos e com rampas permitindo a todos uma melhor experiência ao se deslocar pelo local. Até o momento, foram implementadas 10 placas com QR Code distribuídas ao longo da trilha e em áreas de lazer. O conteúdo das placas foi desenvolvido com base na coleção Espécies Arbóreas Brasileiras (Carvalho, 2003; Carvalho, 2006; Carvalho, 2008; Carvalho, 2010; Carvalho, 2014) disponibilizada gratuitamente pela EMBRAPA A tabela abaixo disponibiliza as informações contidas em cada uma destas placas.

Tabela 1. Informações contidas nas placas distribuídas pelo NUPEM/UFRJ.

Nome Científico

Nome Popular

Descrição

Adansonia digitata

Baobá

Espécie originária das savanas da África subsariana. Possui adaptações em seu tronco que o tornam capaz de resistir a grandes temperaturas e de armazenar milhares de litros de água. O Baobá é associado a muitas lendas, sendo conhecido como árvore da vida por supostamente ser a conexão entre o mundo material e o mundo imaterial.

Clusia hilariana

Abaneiro-da-Praia

Espécie típica de restinga, sendo dominante em ambientes arenosos. Possui diversas adaptações em suas folhas e raízes que a permitem colonizar estes locais. É considerada uma facilitadora, pois sombreia o solo, deixando-o mais fresco e úmido, possibilitando a germinação de outras espécies.

Eugenia uniflora

Pitangueira

O nome do fruto dessa espécie tem origem tupi-guarani, em que “pitanga” significa fruto avermelhado. Esses frutos compõem a alimentação de aves, lagartos e muitos outros animais. Também servem para produção de geleias, sorvetes e sucos. O chá de suas folhas possui propriedades medicinais de antidiarreico e antitérmico.

Libidibia ferrea

Pau-ferro

Espécie nativa do Brasil, que ocorre, principalmente, na caatinga e na mata atlântica. Comumente utilizada como uma árvore ornamental empregada na arborização urbana e em construções. Outra curiosidade é a origem de seu nome, que vem das faíscas e do ruído metálico produzido pelos machados ao cortá-la.

Mangifera indica

Mangueira

Espécie de origem asiática introduzida no Brasil. Seu fruto é a manga, muito consumida pelos brasileiros e uma das mais exportadas do país. A dispersão desta espécie era realizada por grandes mamíferos, que se alimentavam do fruto e espalhavam a semente após a digestão. Porém, atualmente esses grandes mamíferos estão extintos.

Paubrasilia echinata

Pau-brasil

Espécie nativa do Brasil que foi alvo de intensa exploração após a invasão portuguesa durante o século XVI. Hoje a espécie tem uma baixa distribuição e está ameaçada de extinção. O grande interesse na extração dessa árvore ocorreu devido ao seu extrato avermelhado que era utilizado na produção de corantes.

Inga sp.

Ingá

Ingá é um gênero botânico que abrange cerca de 300 espécies com vagens longas que contém sementes envolvidas por uma polpa, muitas vezes adocicada e comestível. As árvores do gênero podem chegar a uma altura de 25 metros e é muito utilizada para controle biológico de pragas e sombreamento em cafezais.

Schinus terebinthifolia

Aroeira

É encontrada em forma de árvore pelas cidades, mas próximo à praia é encontrada com altura de pequenos arbustos. Isso ocorre devido ao “spray” salino que dificulta seu crescimento. Tem como fruto a pimenta-rosa que possui propriedades inseticidas e grande valor no comércio internacional como especiaria.

Syzygium cumini

Jamelão

Espécie de origem asiática introduzida em diversas regiões do Brasil. Conhecida por seus pequenos frutos roxos, que quando maduros, são capazes de manchar toda a área no entorno da árvore. Além disso, seus frutos têm mostrado resultados promissores na farmacologia como antidiabético e antidiarreico.

Tecoma stans

Ipê-de-Jardim

Espécie facilmente reconhecida pelas folhas de borda serrilhada, flores amarelas e por suas longas vagens. Sua floração, normalmente, ocorre entre primavera e verão, podendo perdurar até o início do outono. Embora seja muito utilizada no paisagismo, pode ser uma perigosa planta invasora em ambientes em recuperação.



As placas implementadas no NUPEM/UFRJ foram impressas em PVC 2mm e continham, além do QR Code, o logo do projeto Plantas no Dia a Dia, nome científico e popular da espécie (ou gênero), e informações para baixar o aplicativo (Figura 2). No entanto, apenas o QR Code é realmente necessário se os frequentadores da trilha já foram orientados sobre o aplicativo. Isso porque as informações de nome científico e popular já estão contidas no texto a ser decodificado no QR Code. Apenas optamos por manter essas informações na placa para que qualquer frequentador, mesmo sem acesso ao aplicativo, saiba como se referir a determinadas plantas e possa buscar por mais informações em outro momento.

PERSPECTIVA DE COLABORAÇÕES FUTURAS

Conforme explicado anteriormente, não é necessário que haja atualizações no aplicativo para realizar inserções de novas placas e trilhas. Isso possibilita que diversas trilhas sejam elaboradas ou expandidas, uma vez que não há necessidade de a equipe de desenvolvimento adicionar individualmente no aplicativo cada nova placa produzida. Essa característica torna o aplicativo “Plantas no Dia a Dia” expansível e colaborativo, pois retira da equipe principal a “exclusividade” na inserção de trilhas e possibilita que outros grupos interessados confeccionem placas em seus locais de interesse. Outro fator que amplia a capacidade de expansão do aplicativo é o funcionamento totalmente off-line. Essa característica possibilita que não seja necessário a disponibilização de internet wireless pelos desenvolvedores das trilhas ou consumo de dados móveis pelos usuários. Além disso, viabiliza a produção de trilhas em áreas sem cobertura de internet, como locais afastados dos centros urbanos ou inseridas em meio a natureza. 

A possibilidade da placa conter apenas o QR Code é outro aspecto facilitador. O tamanho reduzido da placa simplifica sua fixação em uma superfície e diminui os custos relacionados ao processo de confecção. Com isso, trilhas que anteriormente seriam desenvolvidas com placas textuais podem se beneficiar do recurso poupado ao trocar o texto por um QR Code e reinvestir o valor para aumentar a quantidade de placas. Além disso, esse menor custo viabiliza a reposição das placas em casos de depredação ou desgaste.

Todas estas características facilitam a produção das trilhas e permitem ao usuário o acesso a um número infinito de trilhas em um único aplicativo. Por isso, acredita-se que o aplicativo “Plantas no Dia a Dia” seja um instrumento colaborativo com grande potencial para disseminação do conhecimento botânico a diferentes públicos. Além disso, embora neste texto seja constantemente utilizado o termo “trilha”, a aplicação das placas não se limita apenas a estes ambientes, podendo também ser utilizadas em praças, parques, instituições de ensino e qualquer outro local com plantas. 

Para produzir uma trilha oficialmente registrada no “Plantas no Dia a Dia” é necessário seguir alguns breves passos: (1) encontrar um local com diversidade de espécies vegetais; (2) conseguir permissão para instalação das placas; (3) identificar as espécies com auxílio de um especialista e desenvolver um breve texto com curiosidades para cada espécie escolhida seguindo o modelo da Tabela 1; (4) posteriormente, as placas com QR Code devem ser produzidas e instaladas na trilha; (5) por fim, entre em contato com a equipe do Plantas no Dia a Dia. Informações sobre o contato da equipe e sobre as trilhas já registradas podem ser encontradas no site do aplicativo (https://appplantasnodiaadia.com.br). Além disso, o site contém informações sobre a equipe de desenvolvimento, o referencial teórico utilizado para produção de cada placa e o mapa de distribuição das placas. Até a publicação deste artigo, o mapa possui 10 placas situadas no estado do Rio de Janeiro, representando as placas instaladas no NUPEM/UFRJ (Figura 3).

Figura 3. Mapa de distribuição das placas no Brasil.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao correlacionar o aplicativo desenvolvido com outros similares, observou-se que o “Plantas no Dia a Dia” exige uma parcela menor da memória interna do aparelho smartphone do usuário, pois as informações contidas em cada placa não estão armazenadas no banco de dados. Essa característica também o torna facilmente expansível, uma vez que as informações transmitidas aos visitantes estão contidas no próprio QR Code e não no aplicativo. Dessa forma, novas trilhas e placas podem ser implementadas sem a necessidade de atualizações no software. Além disso, o processo de decodificação utilizado permite um acesso facilitado aos recursos disponibilizados, já que sua operação não depende de uma conexão com uma rede wireless. Estas características tornam este um importante instrumento colaborativo de disseminação de conhecimento botânico em larga escala, dado que é o primeiro aplicativo deste ramo com sistema simplificado de expansão. Por isso, acredita-se que o aplicativo “Plantas no Dia a Dia” possa estar presente em instituições de ensino, praças, parques e qualquer lugar com diversidade vegetal, divulgando as belezas e curiosidades botânicas a todos presentes nestes espaços.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Giovanna Figueiredo Lima da Silva e Rodrigo Lemes Martins pelo auxílio na confecção das placas implementadas no Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM/UFRJ). Agradecemos a Francisco de Assis Esteves, Ana Cristina Petry e Patrícia Luciano Mancini por todo apoio e incentivo à realização deste trabalho.



REFERÊNCIAS

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Ilustrações: Silvana Santos