A primeira lei da ecologia é que tudo está ligado a todo o resto. (Barry Commoner)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 75 · Junho-Agosto/2021
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19/03/2021 (Nº 73) OS IMPACTOS AMBIENTAIS OCASIONADOS PELO ISOLAMENTO SOCIAL EM DECORRÊNCIA DA COVID-19
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OS IMPACTOS AMBIENTAIS OCASIONADOS PELO ISOLAMENTO SOCIAL EM DECORRÊNCIA DA COVID-19



THE ENVIRONMENTAL IMPACTS OCCASIONED BY SOCIAL ISOLATION IN DECORRENCE OF COVID-19



Eleilde de Sousa Oliveira1; Raquel Bezerra dos Santos Sawczuk2; Nélio Scrivener Furtado3; Naila Gleycy Collins Rosa4; Helilma de Andrea Pinheiro5; Nilteane Conceição da Silva Gomes Mesquita Mendes6

1-PPGQuim-Universidade Federal do Maranhão-UFMA; eleildeoliver@gmail.com

1-PPGQuim-Universidade Federal do Maranhão-UFMA; raquelbs_sawczuk@hotmail.com

3-Instituto Federal do Maranhão-IFMA; neliosf.789@gmail.com

4-Universidade Federal de Uberlândia- UFU; nayla.collins@hotmail.com

5-PPG-Bionorte; helilmapinheiro@hotmail.com

6-Faculdade FAVENI; nilgomes84@yahoo.com.br



RESUMO

Nos últimos meses, o isolamento social determinado pela quarentena, em decorrência da pandemia ocasionada pela disseminação do novo Coronavírus, que causa a Covid-19, tem revelado um novo panorama em relação ao meio ambiente. Várias agencias que monitoram a qualidade do ar têm observado diversos fenômenos que possuem relação com os impactos ambientais causados pelo isolamento social. Os impactos ambientais podem ser caracterizados como qualquer alteração ocorrida no ambiente em decorrência de fenômenos de origem natural ou de origem antrópica. Nesse sentido, o presente artigo tem como objetivo avaliar as alterações ambientais ocasionadas pelo isolamento social decorrente da pandemia causada pela Covid-19.

Palavras-chave: Covid-19. Impactos ambientais. Meio ambiente.



ABSTRACT

In recent months, the social isolation determined by the quarantine, due to the pandemic caused by the spread of the Coronavirus, which causes Covid-19, has revealed a new panorama in relation to the environment. Several agencies that monitor air quality have observed several phenomena that are related to the environmental impacts caused by social isolation. Environmental impacts can be characterized as any change that occurs in the environment as a result of phenomena of natural or anthropic origin. In this sense, this article aims to assess the environmental changes caused by social isolation resulting from the pandemic caused by Covid-19.

Keywords: Covid-19. Environmental impacts. Environment.



  1. INTRODUÇÃO

O meio ambiente passa por diversas alterações ao longo dos anos, sejam alterações ocasionadas por fenômenos naturais, ou alterações antrópicas. As alterações que homem provoca no ambiente podem ser intervenções benéficas ou intervenções que causam algum maleficio para o meio ambiente. Tais alterações podem ser definidas como poluição, alterações ambientais e impactos ambientais. O Artigo 1º da Resolução nº 001/86 do Conselho Nacional do Meio Ambiente-CONAMA, conceitua Impacto Ambiental como ‘‘qualquer alteração das propriedades físicas, químicas, biológicas do meio ambiente, ocasionada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades antrópicas que afetem diretamente ou indiretamente: a saúde, a segurança, e o bem estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias ambientais; a qualidade dos recursos ambientais’’(CONAMA, 1986).

Impacto ambiental também pode ser caracterizado como uma alteração significativa no meio ou em algum de seus componentes por determinada ação ou atividade, em qualquer um ou mais de seus componentes naturais, provocada pela ação humana. O Impacto Ambiental está associado à adulteração ou sequela ambiental considerados significativos através da avaliação da proposta / projeto de um dado empreendimento ou atividade, podendo ser de cunho negativo ou positivo (IAP, 2020).

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) através da Norma Técnica NBR ISO14001, define Alteração Ambiental como “qualquer modificação do meio ambiente, adversa ou benéfica, que resulte no todo ou em parte, das atividades, produtos ou serviços de uma organização” (NBR ISO14001, 1996). Ou seja, é a contrafação expressiva ocasionada no meio ambiente ou em algum de seus elementos por determinado ato, em qualquer um ou mais de seus componentes naturais, ocasionadas por ações antrópicas.

O Artigo 3º da Lei n° 6.938/1981, conceitua Poluição como “a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos” (BRASIL, 1981).

O objetivo de se estudar os impactos ambientais é, principalmente, o de avaliar as consequências de algumas ações, para que possa haver a prevenção da qualidade de determinado ambiente (IAP, 2020). O presente artigo tem como objetivo analisar as alterações ambientais ocasionadas pelo isolamento social decorrente da pandemia causada pela Covid-19.



2 OS IMPACTOS AMBIENTAIS DECORRENTES DA QUARENTENA

Atualmente, a Covid-19 é uma preocupação para as agências mundiais de saúde. No entanto, o isolamento social motivado pela quarentena vem trazendo impactos positivos no que tange aos níveis de poluição na atmosfera e nos ambientes aquáticos. A despeito disso, temos os canais de Veneza, com águas cristalinas como não se via há muitos anos e uma grande redução na poluição do ar em diversos países como China e Itália, por exemplo. Um estudo feito pela Universidade Politécnica de Valência, através de imagens satélite, comprovou a redução dos níveis de CO2 na atmosfera em toda a Península Ibérica, incluindo Portugal.

O mundo inteiro está passando por uma imensa transformação que acarreta em diversas mudanças sociais, políticas e ambientais. Tais mudanças têm levado a uma reflexão quanto à utilização dos recursos e emissões de poluentes. São reportados alguns indícios de como o isolamento social poderá afetar o ambiente, tanto a curto como a longo prazo. Aos poucos vêm surgindo por todo o mundo relatos de vida selvagem sendo recuperadas em decorrência das menores perturbações provocadas pelas atividades humanas nesses locais.



2.1 Emissões Atmosféricas

O decreto de quarentena resultou no fechamento de fábricas e também do comércio, além das restrições quanto ao deslocamento de pessoas afim de barrar a disseminação do vírus. Tais medidas resultaram na redução nas emissões de poluentes na atmosfera e também nos corpos d’água.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) entre as semanas do dia 15 a 21 e 22 a 28 de março de 2020, comprovou que os índices de poluição atmosférica na cidade de São Paulo reduziram cerca de 50% em apenas uma semana (CETESB, 2020). Diversas mudanças também foram observadas em várias outras partes do mundo. Segundo a Agência Ambiental Europeia (European Environment Agency - EEA), os níveis médios de dióxido de nitrogênio (NO2) recuaram 56% em Madri, quando comparados com a semana anterior. Nas quatro semanas anteriores ao dia 24 de março, a concentração de dióxido de nitrogênio caiu 24% na cidade de Milão, na Itália (EEA, 2020).

Usando dados do satélite Copernicus Sentinel-5P, do programa Copernicus da União Europeia, os pesquisadores produziram mapas que mostram a queda nas concentrações de dióxido de enxofre (SO2) em toda a Índia após o decreto de quarentena em consequência da COVID-19. As concentrações em áreas poluídas diminuíram cerca de 40% entre abril de 2019 e abril de 2020, conforme ilustra a Figura 1.

Figura 1- Concentrações médias de dióxido de enxofre (SO2) em abril de 2019, em comparação com abril de 2020 (fonte: https://www.eea.europa.eu/).

A figura acima mostra as concentrações médias de dióxido de enxofre em abril de 2019, em comparação com abril de 2020. Os tons mais escuros de vermelho e roxo representam maiores concentrações de dióxido de enxofre na atmosfera. As concentrações de dióxido de enxofre caíram significativamente em comparação com o ano anterior, principalmente em Nova Délhi, em muitas grandes usinas a carvão e em outras áreas industriais (EEA, 2020).

O site da Agência Espacial Europeia (European Space Agency -ESA) demonstra através de imagens de satélite que houve uma diminuindo nos níveis de poluição do ar em todo o globo terrestre. Isso ratifica que o isolamento social está trazendo benefícios para a qualidade do ar no mundo inteiro. Várias cidades apresentaram uma queda dos níveis de carbono, como Nova York, por exemplo, que apresentou uma diminuição de 50% nos níveis de de dióxido de carbono (CO2), no mesmo período. Alguns países também chamaram a tenção no que tange a queda dos níveis de emissão CO2. A China foi responsável por uma queda de 25%, o que corresponde a uma diminuição de 6% nas emissões globais (ESA, 2020).

Em 2019, um relatório do Greenpeace apontou a Índia como o país com o maior índice de emissões de dióxido de enxofre antropogênico no mundo. O dióxido de enxofre é um precursor da chuva ácida e causa muitos problemas relacionados à saúde, podendo inclusive prejudicar ecossistemas sensíveis.



2.2 Geração de Resíduos e Consumo de Energia Elétrica e Combustíveis

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), estima-se que por conta do isolamento social haverá um aumento de 15 a 25% na quantidade de resíduos sólidos domiciliares gerados e um crescimento categórico na ordem de 10 a 20 vezes na geração de resíduos hospitalares em unidades de atendimento à saúde (ABRELPE, 2020).

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que é o órgão responsável pelo controle e coordenação da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica, fez um levantamento do consumo de energia no país. Segundo o levantamento, na semana do dia 22 de março de 2020, houve uma redução de 8,9% no consumo de energia, quando comparado a semana anterior. (ONS, 2020).

Segundo um boletim do portal da Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes (FECOMBUSTÍVEIS), em 19 de março de 2020, as vendas de combustíveis em São Paulo foram 39% inferiores à média histórica para o município. Em Porto Alegre, a queda foi de 26%; em Goiânia, de 42%; e em Belo Horizonte, de 19% (FECOMBUSTÍVEIS, 2020). De acordo com um boletim feito pela Petrobras, houve uma diminuição de 50% no consumo de combustíveis como diesel e gasolina e uma diminuição em torno de 80% no uso dos combustíveis em aviões (PETROBRAS, 2020).

Um balanço da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) sinalizou que no Estado de São Paulo, a quarentena provocou uma diminuição das atividades e consequentemente da circulação de veículos. Tais medidas provocaram uma redução das emissões atmosféricas geradas por este tipo atividade na região metropolitana de São Paulo.

Um relatório do Google sobre o índice de mobilidade (Mobility changes), revela a partir de dados de localização de celulares, tendências de mobilidade para o trabalho reduzidas em mais de 34% e para compras e recreação maiores do que 71% e também mostrou queda de mais de 62% para o transporte público em todo o Brasil (GOOGLE, 2020).



3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pandemia ocasionada pela Covid-19 trouxe à tona discussões sobre as ações do homem e suas consequências para o meio ambiente. A queda nos índices de poluição é uma consequência visivelmente direta da redução na circulação de pessoas e veículos em todo o mundo. Os dados apresentados através dessa pesquisa evidenciam uma mudança de cunho positivo em relação as emissões de gases potencialmente poluentes na atmosfera. Tais mudanças no clima são imensamente favoráveis, porém a volta à normalidade no pós-pandemia poderá trazer consigo um novo aumento das emissões e consumo de combustíveis fósseis.

Os diversos indicadores mundiais atestaram que nunca se teve uma visibilidade tão boa da atmosfera quanto nesse período de quarentena, além de melhor qualidade das águas de rios e mares e boas condições climáticas. No entanto, os pesquisadores apontam que estas mudanças são transitórias, infelizmente.



REFERÊNCIAS

ABNT. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Sistemas de gestão ambiental - Diretrizes gerais sobre princípios, sistemas e técnicas de apoio. NBR ISO 14.001. Rio de Janeiro: ABNT, 1996. 32 p.

ABRELPE. Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Disponível em: <http://abrelpe.org.br>. Acesso em: 14 Jun. 2020.

BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6938.htm>. Acesso em: 20 Mai. 2020.

CETESB. Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Disponível em: <https://url.gratis/pPtlV>. Acesso em: 19 Mai. 2020.

CONAMA. Resolução nº 001, de 23 de janeiro de 1986. Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental. Disponível em: <https://url.gratis/SnYXP>. Acesso em: 03 Jun. 2020.

EEA. European Environment Agency. Disponível em: <https://www.eea.europa.eu>. Acesso em: 20 Mai. 2020.

ESA. European Space Agency. Disponível em: <https://url.gratis/zDtlY>. Acesso em: 08 Jun. 2020.

FECOMBUSTÍVEIS. Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes. Disponível em: <https://www.fecombustiveis.org.br>. Acesso em: 02 Jun. 2020.

GOOGLE. Mobility changes. Disponível em: <https://url.gratis/XuWqV>. Acesso em: 09 Jun. 2020.

IAP. Instituto Ambiental do Paraná. Disponível em: <http://www.iap.pr.gov.br/pagina-726.html>. Acesso em: 20 Jun. 2020.

ONS. Operador Nacional do Sistema Elétrico. Disponível em: <http://www.ons.org.br/>. Acesso em: 15 Mai. 2020.

PETROBRAS. Petróleo Brasileiro S.A. Disponível em: <https://url.gratis/0sPEV>. Acesso em: 24 Mai. 2020.





Ilustrações: Silvana Santos