A primeira lei da ecologia é que tudo está ligado a todo o resto. (Barry Commoner)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 75 · Junho-Agosto/2021
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19/03/2021 (Nº 73) A RELAÇÃO DE USUÁRIOS DO SERVIÇO DE SANEAMENTO BÁSICO COM RIOS URBANOS: O EQUÍVOCO NO COTIDIANO
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A RELAÇÃO DE USUÁRIOS DO SERVIÇO DE SANEAMENTO BÁSICO COM RIOS URBANOS: O EQUÍVOCO NO COTIDIANO



Beatriz de Deus Grotto1, Frederico Yuri Hanai2



1Curso de Gestão e Análise Ambiental, Universidade Federal de São Carlos. E-mail: be_grotto@hotmail.com

2Departamento de Ciências Ambientais, Universidade Federal de São Carlos. E-mail: fredyuri@ufscar.br



Mini resumo: Apesar de sua notável importância, muitas pessoas enxergam os córregos urbanos como algo incômodo e as relações com os rios estão cada vez mais distantes. É essencial que hajam ações comunicativas assertivas para promoção da sensibilização ambiental, despertando o olhar das pessoas ao ambiente à sua volta.



Resumo: Os córregos urbanos representam funções ecossistêmicas e socioambientais nas cidades, sendo muitas vezes o mesmo corpo hídrico que fornece água para abastecimento público e/ou que recebe os despejos dos esgotos tratados (ou não), provindos da população que ali vive. No entanto, apesar de sua notável importância, muitas pessoas ainda os enxergam como algo incômodo, ou que deveriam ser (mais) modificados, em outras palavras, mais antropizados de alguma forma. As relações das/os munícipes com os rios estão cada vez mais distantes, mais distorcidas do meio natural, passando estes a serem considerados até mesmo artificiais, construídos ao seu olhar, como o restante das ocupações urbanas. Neste sentido, é essencial que haja ações comunicativas que promovam a sensibilização nas pessoas, para despertar seu olhar ao ambiente à sua volta, o qual influencia sua saúde e qualidade de vida cotidianamente. Assim, este trabalho traz resultados de uma pesquisa qualitativa realizada em São Carlos, município do estado de São Paulo, em forma de entrevistas junto à moradoras/es e/ou comerciárias/os próximas/os dos 3 principais córregos da cidade: Gregório, Monjolinho e Tijuco Preto. Esta pesquisa aponta os principais equívocos identificados por meio de análise dos discursos do sujeito coletivo (DSC), construído a partir dos relatos obtidos. Os resultados principais evidenciam que as moradoras/es urbanas/os estão cada vez mais distantes dos corpos d’água, têm pouco ou nenhum conhecimento sobre os córregos (ou possuem com uma visão muitas vezes reduzida e utilitarista de sua função), há ausência de percepção dos problemas, alterações antrópicas e impactos que acometem os rios urbanos, destacando apenas falhas no sistema e na prestação dos serviços de saneamento básico. Tais constatações ressaltam a necessidade de ações de sensibilização e comunicação ambiental para que despertem a percepção ambiental nas pessoas, assim como para que reconheçam e valorizem a importância das suas relações com as águas e com os rios urbanos.

Palavras-chave: relações com a água; córregos urbanos; comunicação; sensibilização.



Abstract: Urban streams represent ecosystem and socioenvironmental functions in cities, often being the same water source that supplies water for public supply and / or that receives wastewater from sewage treatment plant, coming from the population that lives around there. However, despite their remarkable importance, many people still see them as something uncomfortable, that should not be there, or that they should be (more) modified, in other words, more anthropized in some way. The relationships of the citizens with the rivers are increasingly distant, more disconnected from the natural environment, and these become even artificial, by their sight, like the rest of urban occupations. In this way, it is essential that it might have communicative actions that promote awareness in people, to awaken their eyes to the environment around them, which influences in their health and quality of life on a daily basis. Thus, this work brings the results of a qualitative research carried out at city of São Carlos - SP, Brasil, in the form of interviews with residents and / or merchants that are close to the 3 main streams in the city: Gregório, Monjolinho and Tijuco Preto. This research will point out the main mistakes identified in the discourses of the collective subject (DCS, or DSC in portuguese), built from the reports obtained. The main results showed that urban residents and / or merchants are increasingly distant from water, have little or no knowledge of streams (or have an often reduced and utilitarian view of their functions), there is not perception of problems, human changes and impacts that affect urban rivers, highlighting only deficiencies in the system and in the provision of basic sanitation services. Such findings highlight the need for environmental education and communication actions to awaken people's environmental awareness, as well as to recognize and to enrich the importance of their relations with urban waters and rivers.

Keywords: relations with water; urban streams; communication; awareness.



Introdução

A água é o elemento-chave da existência da vida. Sua presença ou ausência cria culturas e hábitos, provém qualidade de vida no meio que a cerca, modifica paisagens e organismos, determina o futuro das gerações (BACCI; PATACA, 2008).

Ao longo de milhares de anos, a espécie humana cresceu e se desenvolveu, ocupou territórios e realizou construções no entorno de rios e córregos, tendo como base de seu desenvolvimento este bem tão valioso: a água. Porém, com o passar do tempo, a relação dos seres humanos com a natureza se modificou e a água foi perdendo o seu valor de bem natural insubstituível para um recurso hídrico em suposta abundância, uma matéria prima de produção. O seu uso indiscriminado está associado com a falta de percepção dos seres humanos em avaliar as consequências ambientais desta cultura, que promove o uso exacerbado dos recursos hídricos, ausente de técnicas compensatórias em larga escala, afetando a disponibilidade, quantidade e qualidade da água (BACCI; PATACA, 2008).

A extensa utilização da água para diversos usos pela sociedade acarretou em diversas relações humanas (modificadas) com este bem, tornando-se este valorável (monetizável) e de apropriação, perdendo-se o olhar de valorização natural e compreensão de fonte de qualquer forma de vida, ocasionando várias consequências sociais, culturais e ambientais.

Dictoro e Hanai (2020) apontam que o racional moderno (baseado na visão antropocêntrica) atua na dicotomia entre os seres humanos e a natureza, dividindo-se o que não deve ser dividido, resultando-se em um afastamento das pessoas com o meio ambiente à sua volta, e na apropriação da natureza. Deve-se, então, reestabelecer uma reconexão com a natureza, de maneira consciente e profunda. Neste sentido, a educação, comunicação e sensibilização ambientais são essenciais.

Atualmente, a água, embora seja o principal elemento natural, vem sofrendo degradação e invisibilidade pelas pessoas, em contextos diversos. O que se destaca é o seu uso para consumo e satisfação cotidiana ao atender-se as necessidades humanas. Entretanto, as relações humanas com a água não devem ser pensadas apenas para uso e consumo, mas também para aspectos simbólicos, religiosos e afetivos, e além disso, para aspectos inerentes à qualidade de vida na terra, seja esta humana ou não (DICTORO; HANAI, 2020).

A exemplo destas relações que perpassam o uso e o consumo, tem-se as comunidades ribeirinhas, como a de Cachoeira de Emas-SP, localizada às margens do Rio Mogi-Guaçu, a qual, conforme demonstra Dictoro e Hanai (2016), mantém relações simbólicas com a água, com respeito, admiração, sentimento, religiosidade, misticidade, de saúde, de sobrevivência, de conservação e de lazer, diferentemente dos moradores urbanos, que têm perdido ao longo do tempo esses tipos de relações com a água, valorizando, sobretudo a de sentido utilitarista. Os autores apontam que, em sua pesquisa, pôde-se verificar que alguns moradores locais de Cachoeira de Emas-SP “possuem uma percepção da água doce voltada como o componente mais importante dentro do ecossistema em que vivem” (p. 116).

Para Sauvé (2005, p. 318), as relações das pessoas com a água e os rios deve reconhecer que “o lugar em que se vive é o primeiro local do desenvolvimento de uma responsabilidade ambiental, onde aprende-se a tornar guardião, utilizador e construtor responsável” desse ambiente. Assim, todos aprendem e compartilham responsabilidades para se cuidar do recurso natural mais importante e valioso para os ecossistemas e vida humana: a água.

A racionalidade da humanidade moderna é baseada no sistema capitalista, resultando na construção de um mundo em que o ser humano se tornou o centro das atenções, ao qual tudo e todos deve servir, baseado em suas ações antrópicas de poder, gerando perdas de valores simbólicos e culturais e apropriação da natureza, intensificada pela extração e exploração exacerbada de seus recursos naturais.

No entanto, atualmente, apesar de ainda tímido, há um entendimento de que é preciso repensar e mudar as relações e atitudes com o meio ambiente, as questões ambientais vêm então ocupando espaços nas políticas de governos, nos diferentes meios de comunicação e também sendo discutidas pela sociedade (SILVA, 2014).

Assim, faz-se necessário entender a percepção e atuação das pessoas em relação ao ambiente à sua volta, para que se busque formas de intensificar estas relações de maneira positiva, impulsionando a compreensão do mundo como um sistema integrado, em que ações surtem efeitos, sejam estes imediatos ou a longo prazo, na sua rua, em seu bairro, em sua cidade ou mesmo em seu país.

Para tanto, este trabalho aponta a percepção da população urbana de São Carlos - SP residente e/ou comerciária próxima (até 100 metros de distância) dos 3 principais córregos urbanos da cidade (Gregório, Monjolinho e Tijuco Preto), de maneira a demonstrar os resultados obtidos, os quais evidenciam a apropriação humana perante a natureza, bem como a desconexão dos olhares e sentimentos em relação aos rios próximos de si. A pesquisa buscou identificar e refletir sobre as percepções dos residentes e/ou comerciários sobre os rios urbanos (conhecimento, funções, relações, impactos, situação ambiental), relacionando-as aos serviços de saneamento básico da cidade de São Carlos-SP, visando subsidiar futuros meios educacionais, comunicacionais e sensibilizatórios que sejam elaborados e conduzidos para despertar o olhar e valorizar as relações das pessoas com as águas e com os rios urbanos.



Metodologia

Nesta pesquisa, realizou-se entrevistas com moradoras/es e/ou comerciárias/os próximas/os aos 3 principais córregos urbanos da cidade de São Carlos-SP: Gregório, Monjolinho e Tijuco Preto. O desenho amostral está representado na Figura 1.

Figura 1 - Localização das seções de estudo: das áreas de referência amostral e dos pontos específicos para abordagem das entrevistas na cidade de São Carlos-SP.

Fonte: Elaboração própria (2019).



Para a determinação das regiões de aplicação das entrevistas à população usuária do sistema de saneamento básico de São Carlos - SP, foram realizadas análises geográficas-espaciais por meio do uso de SIG (Sistema de Informação Geográfica), com o auxílio do software ArcGIS® versão 10.4.1 (com BaseMap OpenStreet ativado) e do Google Maps (2017). Três regiões geográficas próximas a córregos urbanos, pertencentes à Sub-Bacia Hidrográfica Monjolinho (TREVISAN, 2015), foram identificadas e selecionadas para a execução da pesquisa: 1) Gregório (marginal Av. Comendador Alfredo Maffei); 2) Tijuco Preto (marginal Av. Trabalhador Sãocarlense); e 3) Monjolinho (marginal Av. Francisco Pereira Lopes). Estas regiões descritas estão localizadas e identificadas na Figura 1.

A partir desta delimitação, as regiões que apresentam adensamentos urbanos nas margens de cada córrego foram definidas como áreas de referência amostral (estes adensamentos foram verificados por meio da imagem de satélite disponibilizada pelo BasepMap Imagery, 2018, do software ArcGIS®), totalizando então três seções para estudo. A ferramenta “Buffer” foi utilizada para seleção de uma área considerando a distância de seus limites de até 100 metros em relação ao córrego. Estas seções definidas são as delimitações das áreas de referência amostral e estão ilustradas na Figura 1, a qual também destaca os respectivos pontos específicos de abordagem das entrevistas, distribuídas de forma aleatória entre as seções de estudo.

Vale destacar que os córregos urbanos utilizados para delineamento amostral nesta pesquisa, fazem parte da Bacia Hidrográfica Tietê-Jacaré (UGRHI 13 - Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos), ilustrada na Figura 2, mais especificamente dentro da Sub-bacia Monjolinho, ilustrada na Figura 3.

Figura 2 - Mapa da UGRHI 13, com divisão por municípios.