A primeira lei da ecologia é que tudo está ligado a todo o resto. (Barry Commoner)
ISSN 1678-0701 · Volume XX, Número 75 · Junho-Agosto/2021
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19/03/2021 (Nº 73) CANÇÕES PARA O SOLO: A POPULARIZAÇÃO PELA ECOMUSICOLOGIA
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CANÇÕES PARA O SOLO: A POPULARIZAÇÃO PELA ECOMUSICOLOGIA

Adriana de Fátima Meira Vital1, Regiane Farias Batista2, Vanessa dos Santos Gomes3

1 Doutora em Ciência do Solo. Universidade Federal da Paraíba – Campus Areia/PB (UFPB). Professora da Universidade Federal de Campina Grande - UCFG/campus Sumé, Paraíba Brasil. Líder do Grupo de Pesquisa de Educação em Solos. E-mail: vital.adriana@gmail.com

2 Mestranda em Ciência do Solo. Universidade Federal da Paraíba – Campus Areia/PB (UFPB). Tecnóloga em Agroecologia. Universidade Federal de Campina Grande, UFCG/ campus Sumé, Paraíba Brasil. E-mail: regiane.2594@gmail.com

3Mestre em Ciência do Solo. Universidade Federal da Paraíba – Campus Areia/PB (UFPB). Graduada em Tecnologia em Gestão Ambiental. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – Campus João Pessoa/PB (IFPB). Pesquisadora voluntária no grupo de Pesquisa de Educação em Solos – UCFG/ campus Sumé, Paraíba Brasil. E-mail: vanessa.gestao.ifpb@gmail.com



Resumo

Pelo apelo emocional que causa, a música exerce importante contribuição para sensibilizar as pessoas sobre os recursos naturais, podendo representar um meio poderoso de aumentar a visibilidade e a conscientização do público sobre o meio ambiente. Muitos compositores têm tido sensibilidade de relacionar temas relativos à Natureza em suas canções, apesar disso, esta forma de cultura ainda não é um método comumente usado para informar, orientar e educar estudantes, professores, agricultores e as pessoas de modo geral, sobre as preocupações com o solo, recurso tão frágil e complexo, e ao mesmo tempo extraordinariamente fundamental à vida. Objetivou-se refletir sobre a relação solo-cultura a partir das letras de músicas do universo de Luiz Gonzaga que abordam direta ou indiretamente o solo, como possibilidade de popularização do solo nas escolas. A pesquisa bibliográfica recorreu ao site oficial do músico para analisar os termos solo, terra, chão e campo nos versos. Verificou-se que as músicas gravadas e cantadas pelo artista revelavam sua inquietação com o ambiente e com o trato com a terra, expressando com muita originalidade a cultura nordestina e difundindo com sua voz, a realidade das terras dos sertões e cariris, sendo importante estratégia pedagógica a ser utilizada em sala de aula para dialogar sobre o solo.

Palavras-chave: Educação em Solos, Conhecimento popular do solo, Solo na música, Ciência sociocultural do solo.



Abstract

Due to the emotional appeal it causes, music makes an important contribution to raise people's awareness of natural resources and can represent a powerful means of increasing public visibility and awareness of the environment. Many composers have been sensitive to relate themes related to Nature in their songs, despite this, this form of culture is not yet a method commonly used to inform, guide and educate students, teachers, farmers and people in general, about concerns with the soil, such a fragile and complex resource, and at the same time extraordinarily fundamental to life. The objective was to reflect on the soil-culture relationship based on the lyrics of songs from Luiz Gonzaga's universe that directly or indirectly address the soil, as a possibility of popularizing the soil in schools. The bibliographic search used the musician's official website to analyze the terms soil, earth, ground and field in the verses. It was found that the songs recorded and sung by the artist revealed his concern with the environment and with his dealings with the land, expressing the northeastern culture with much originality, and spreading with his voice the reality of the lands of the sertões and cariris, being an important pedagogical strategy to be used in the classroom to talk about the soil.

Keywords: Soil Education, Popular Soil Knowledge, Soil in Music, Sociocultural Soil Science.



1 Introdução

O solo é o mais básico de todos os recursos naturais. É a base da vida em nosso planeta (PRIMAVESI, 2003). Historicamente a humanidade sabe que este recurso tem apoiado o crescimento das plantas para suprir as necessidades básicas dos povos, principalmente na forma de alimentos, rações, fibras e combustíveis. Mas o solo faz muito mais: o solo é também o habitat de inúmeras formas de vida (mega, macro, meso e micro), o reservatório da água e dos nutrientes e base para estrutura de engenharia, material de construção e matéria-prima para produtos industriais que tornam a vida humana mais prazerosa. Os recentes avanços nas ciências agronômicas associam ainda inúmeros outros serviços ecossistêmicos do solo para a civilização moderna: grande repositório de germoplasma que contém um vasto conjunto genético de flora e fauna, geomembrana para desnaturar, filtrar e proteger contra poluentes naturais e antropogênicos, moderador do ambiente, meio para inúmeras transformações bioquímicas e físicas e, por ser considerado o maior reservatório de carbono do nosso ecossistema, o solo contribui com a regulação da composição dos gases da atmosfera (LAL, 2016). Existem ainda as funções culturais, arqueológicas e estéticas do solo (BLUM, 2006).

Pelos serviços essenciais que fornece à sociedade, é preciso dar um valor radical a compreensão do solo, ou seja, que se desenvolvam estratégias para que as pessoas de modo geral, e não somente cientistas do solo, se aproximem mais desse recurso, acessando conhecimentos básicos, para compreender a importância que o solo exerce para manutenção de vida de todos. Somente a partir daí, será possível o desenvolvimento de posturas saudáveis e atitudes sustentáveis que mantenham a qualidade e a fertilidade do solo.

Inúmeras funções do solo e serviços ecossistêmicos dependem de sua fertilidade e dinâmica. As melhorias na saúde do solo, juntamente com o aumento na disponibilidade de água e nutrientes, aumentam a resiliência do solo contra eventos climáticos extremos (por exemplo, seca, onda de calor) e confere atributos supressores de doenças. O aprimoramento e a manutenção da saúde do solo também são pertinentes para o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, como aliviar a pobreza, reduzir a fome, melhorar a saúde e promover o desenvolvimento econômico (FAO, 2015).

Importante considerar que várias civilizações antigas, incluindo a ascensão e queda de civilizações na Europa, Ásia e Américas, foram baseadas na destruição de seus recursos de solo anteriormente férteis e produtivos por uma demanda cada vez mais alta devido ao aumento das pressões populacionais (HYAMS, 1976; HILLEL, 1992; HENEGHAN et al., 2008).

Para se ter um solo sadio é preciso cuidar bem, utilizando-o de maneira equilibrada e adotando-se práticas conservacionistas que minimizem os impactos comuns e peculiares ao processo de existir da criatura humana.

Cuidar do solo significa também considerar e valorizar os fazeres e saberes acumulados pela experiência do povo camponês sobre o trabalho com a terra, o conhecimento dos solos, das sementes, dos adubos orgânicos e suas aplicações.

É preciso reconhecer que a popularização do solo é urgente e deve ter início desde as primeiras séries de ensino. Popularizar o tema ‘solo’ é absolutamente relevante, não apenas para atrair jovens para carreiras na ciência do solo, mas também para dar aos leigos no assunto a chance de descobrir e aproveitar 'a terra sob seus pés'.

Uma compreensão maior do solo talvez seja mais importante do que qualquer outra parte de um ecossistema terrestre, porque todos geralmente dependem do solo para fornecer os recursos necessários.

Mas é preciso que a ciência do solo se popularize, abrangendo o entendimento da coletividade, com o conhecimento saindo das prateleiras das bibliotecas, em linguagem de fácil compreensão, como comentou o eminente professor Hans Jenny, do Departamento de Ciência do Solo da Universidade da Califórnia em Berkeley: " Nós, pesquisadores do solo, usamos uma linguagem que não tem vida. Nossas descrições do solo são totalmente entediantes para os agricultores, pecuaristas, silvicultores, esportistas e iniciantes que deveriam lê-los." (STUART; JENNY, 1984).

É preciso que a ciência do solo deixe seu isolamento intelectual e passe a formular ideias empolgantes sobre os solos e suas relações com as pessoas, de modo a popularizar conceitos e informações sobre o solo, tocando o coração de crianças e jovens nas escolas, que serão os futuros tomadores de decisões e usuários do solo, e, sensibilizando os adultos para que tenham um olhar de afetividade sobre este recurso complexo, dinâmico e finito, adotando práticas conservacionistas e manejando de forma sustentável, para que seja mantida sua qualidade e fertilidade, de modo a que este grande organismo cumpra suas funções ecossistêmicas para a manutenção da vida de todos.

Dentre inúmeras estratégias pedagógicas para popularizar o solo, a música pode contribuir de forma bastante efetiva, pelo apelo emocional e pela forma de apresentar os assuntos e conteúdos, numa abordagem poética e emotiva.

De modo geral há uma escassez acentuada de trabalhos investigando como o recurso do solo foi representado na música popular. Esta é uma situação paradoxal, já que muitos trabalhos reconhecem a importância da música, não apenas para os aspectos cotidianos da vida, mas também para as atividades profissionais do ser humano. O trabalho objetivou lançar um olhar sobre algumas músicas do universo de Luiz Gonzaga e refletir sobre a relação solo-cultura a partir das letras como possibilidade de popularização do solo em atividades pedagógicas nas escolas.



2 Desenvolvimento

2.1 A música como estratégia para popularização do solo

O solo é musical, é obra de arte, implica conexões ocultas que vão além das informações científicas e pode ser uma preocupação presente nas letras das músicas, de modo a alertar as pessoas. Historicamente a música inspirou compositores e cantores a dedicar seus versos ao solo, mostrando-nos uma maneira totalmente diferente pela qual um recurso tão frágil pode ser representado na arte da música, como nas culturas dos povos Maia (WELLS; MIHOK, 2009) e da Sardenha (CAPRA et al. 2015, 2016), cujas estórias em forma de cânticos foram usados para transmitir conhecimentos sobre de como cuidar do solo.

Durante a década de 1950, na antiga União Soviética, os Pochveniks, ou 'poetas do solo', pertencentes ao círculo da União Literária, desenvolveram um gênero conhecido como canções 'geológicas' (BELASKY, 2010).

Em 1959, o cantor country Johnny Cash lançou seu primeiro álbum 'Songs of our Soils’, no qual várias músicas relacionam a relação sincera entre a vida humana e os solos (CAPRA et al, 2017).

O solo também retratado pelo notável geógrafo e cientista do solo Francis D. Hole, um dos primeiros cientistas do solo a entender profundamente a importância da música para a ciência do solo, onde procurou exaltar as glórias e os mistérios do solo (HOLE, 1985,1989, 2001).

É preciso atentar para a forma de abordar e transmitir conhecimento sobre o solo quando se pensa na popularização. Cientistas do solo estão principalmente conectados à temática no que se refere a sua alocação geográfica, limites espaciais, propriedades físico-químicas, morfologia, biologia, classificação e outras características tangíveis, como qualidades primárias. Para os compositores e músicos as qualidades secundárias ou os 'aspectos culturais' e as maneiras pelas quais esse recurso é percebido, representado e vivido, ou seja, nas diversas conexões da vida humana cotidiana são a verdadeira preocupação (DESCOLA, 2010).



2.2 O Solo na música do rei do baião

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, em Exu, distante 603 Km da capital pernambucana e faleceu em 02 de agosto de 1989, em Recife. Conhecido como Rei do Baião ou Gonzagão gravou 627 músicas em 266 discos: 53 músicas de sua autoria, 243 de sua autoria com parceiros e 331 de outros compositores.

Compôs e cantou com muita originalidade a cultura nordestina, evidenciando em suas canções o amor a terra, os roçados, a paisagem caatingueira a se estender imensa em contraste com o azul do céu, a açudagem, os animais como o jumento, o bode, e as paisagens marcadas por processos erosivos e de solo ressecado como cenário natural e cultural da região Nordeste do Brasil.



3 Metodologia

A pesquisa exploratória teve caráter qualitativo por meio de revisão integrativa de literatura. Para Lüdke; André (1986) a abordagem qualitativa possui as seguintes características básicas: 1. A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. 2. Os dados coletados são predominantemente descritivos. 3. A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. 4. O “significado” que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador. 5. A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo. Os pesquisadores não se preocupam em buscar evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos (LÜDKE; ANDRÉ, 1986, p. 11-13). Para operacionalizar a pesquisa, utilizaram-se as palavras-chaves “solo – terra – chão – campo”.



4 Resultados e discussão

As letras das músicas selecionadas salientam elementos muito comuns ao povo do sertão e cariri nordestinos e contribuem para a evidenciar aspectos da paisagem natural dessas regiões. Embora a palavra solo não seja mencionada em nenhuma das músicas, há nos versos destas um paralelo entre solo, terra e chão.

A primeira canção selecionada é “Erosão” – de composição de Walter Santos e Tereza Santos, lançada no LP "Som Brasileiro do Bamerindus", gravada em 1981 na voz de Gonzagão. A música evidencia preocupação por alertar as pessoas para o grande problema da degradação dos solos do Nordeste brasileiro como consequência da erosão.

A letra da música é, a começar pelo título, uma narrativa sobre a erosão dos solos da região. Ao longo dos versos da canção, o cantor explora detalhadamente o sofrimento da terra com a erosão, cuja presença, maltratando o solo, passa a inviabilizar a produção agrícola, empobrecendo o povo do campo e a vida no sertão.

A erosão é um fenômeno complexo: naturalmente causado pelo desgaste dos solos em virtude da ação dos agentes exógenos de transformação do relevo, como as características geológicas e geomorfológicas, os tipos de solos, os ventos, o clima e a vegetação, pode se intensificar graças à ação antrópica que modifica as condições naturais de cada um deles. (LIMA; OLIVEIRA, 2012; OLIVEIRA et al., 2018). Os vocábulos identificados na análise da música, usados para chamar a atenção para o problema são terra e chão.

Há um alerta e um chamamento para que as pessoas se unam em defesa do solo ‘no mutirão para acabar com as rachaduras da erosão’. Comum nos ambientes camponeses o mutirão caracteriza-se como ajuda entre vizinhos, seja em caso de doença ou na troca de dias de trabalho, evidenciando importantes formas de cooperação (LACERDA; MALAGODI, 2007) ou, como sustentam Abramovay (1981) e Sabourin (2009) o princípio da reciprocidade inerente a essa forma de ajuda mútua, que impulsiona os camponeses a mobilizarem os seus próprios esforços para um objetivo comum – fundamento de uma ação coletiva.

Nos versos finais o cantor mostra que solo sem erosão é solo protegido e faz referências indiretas ao jeito certo de cuidar e proteger a terra.

Erosão

Ainda hei de ver um dia

A minha terra sem a praga da erosão

Ai! Quem me dera se eu pudesse

Se Deus Deus me desse uma atenção

E ajustasse todo o povo

No mutirão para acabar com a erosão

Ainda hei de ver um dia

De novo o verde

Se espalhar no meu sertão

A erosão parece uma serpente

Rachando a terra, devorando o chão

E a riqueza que era da gente

Vai toda embora com a erosão

Por isso, agora estou aqui cantando

Chamando o povo pra esse mutirão

Vamos minha gente, salvar nossa terra

Das rachaduras da erosão

No meu pedacinho de chão

Não tem perigo de erosão

Eu aprendi o jeito certo

De proteger a terra e a minha plantação

Ai, minha gente, que fartura

Tanta riqueza se espalhando pelo chão

É macaxeira, jerimum caboclo; batata-doce, melancia e melão

Feijão de corda se enroscando em tudo

Dá gosto de ver minha plantação

Lá no açude, a água tão limpinha

Espelha o verde e a criação

É tão bonito este meu pé-de-serra

Com a terra livre da erosão (SANTOS; SANTOS, 1981).

A preocupação com a degradação do solo da região se repete na música “Xote Ecológico”, de autoria de Gonzagão e Aguinaldo Batista, lançada em 1989, no disco ‘Vou te matar de cheiro’. A degradação do solo é retratada logo nos primeiros versos, onde fica clara a angústia pela consequência da poluição do solo. O apelo feito se estende ao cuidado com as florestas, quando o nome do ambientalista morto em defesa do meio ambiente é citado. A referência aos recursos edáficos é feita por meio da palavra terra, vocábulo mais comum na região para expressar o termo solo.

Xote Ecológico

[...] Não posso respirar, não posso mais nadar

A terra está morrendo, não dá mais pra plantar

E se plantar não nasce, se nascer não dá

Até pinga da boa é difícil de encontrar

Cadê a flor que estava aqui?

Poluição comeu

E o peixe que é do mar?

Poluição comeu

E o verde onde é que está?

Poluição comeu

Nem o Chico Mendes sobreviveu [...] (GONZAGA;BATISTA, 1989).

Mas nem só de seca e tristeza vive o Nordeste. Na música “Último Pau de Arara” de Luiz Gonzaga e Guio de Morais, lançada em 1952, o sanfoneiro cantou o amor que o povo sertanejo tem à terra natal, a fé, aos costumes e à cultura. Novamente a referência feita usa os termos chão e terra. Os compositores evidenciam como a vida no sertão nordestino é boa, farta e feliz, evidenciando o problema da estiagem como grande propulsor do êxodo. Os vocábulos chão e terra são citados como base da vida no campo.

Último Pau de Arara



[...] A vida aqui só ruim

Quando não chove no chão

Mas se chover dá de tudo

Fartura tem de montão

Tomara que chova logo

Tomara meu Deus tomara

Só deixo o meu Cariri

No último pau-de-arara

Enquanto a minha vaquinha

Tiver o couro e o osso

E puder com o chocalho

Pendurado no pescoço

Eu vou ficando por aqui

Que Deus do céu me ajude

Quem sai da terra natal

Em outros cantos não para

Só deixo o meu cariri

No último pau-de-arara [...] (GONZAGA; MORAIS, 1952).

A alegria da vida e do trato com a terra segue nos versos de Marcondes Costa, de 1979, “Acordo às Quatro”, quando o Rei do Baião com sua voz característica enfatiza que se o inverno for bom, logo que surgem os primeiros sinais de chuva, lá estará a fartura no sertão e na mesa do povo camponês, que acorda na madrugada para cuidar de seu campo. Na música o termo terra e campo são usados para fazer referência ao solo.

Acordo às quatro



Acordo às quatro

Tomo meu café

Dou um beijo na muié

E nas crianças também

Vou pro trabáio

Com céu ainda escuro

Respirando esse ar puro

Que só minha terra tem

Levo comigo

Minha foice e a enxada

Vou seguindo pela estrada

Vou pro campo trabaiá

Vou ouvindo

O cantar dos passarinhos

Vou andando, vou sozinho

Tenho Deus pra me ajudar

Tenho as miúças

Carneiro, porco e galinha

Tenho inté uma vaquinha

Que a muié véve a cuidar

E os menino

Digo sempre a Iracema

Em Santana de Ipanema

Todos os três vai estudar

Pois eu não quero

Fío meu analfabeto

Quero no caminho certo

Da cartilha do abc

Eu mesmo

Nunca tive essa sorte

Mas eu luto inté a morte

Móde eles aprender (COSTA, 1979).

De autoria de Jurandy da Feira, a música “Frutos da terra” foi gravada em 1982 pelo Rei do Baião, registrada no LP Eterno cantador.  A referência é feita pelo termo terra e se expressa mais uma vez a fertilidade dos solos e a riqueza da região na produção agrícola.

Frutos da terra

Esta terra dá de tudo

Que se possa imaginar

Sapoti, jaboticaba

Mangaba, maracujá

Cajá, manga, murici

Cana caiana, juá

Graviola, umbu, pitomba

Araticum, araçá

Engenho velho ô, canavial

Favo de mel no meu quintal

O fruto bom dá no tempo

No pé pra gente tirar

Quem colhe fora do tempo

Não sabe o que o tempo dá

Beber a água na fonte

Ver o dia clarear

Jogar o corpo na areia

Ouvir as ondas do mar

Engenho Velho ô, canavial

Favo de mel, no meu quintal (FEIRA, 1982)

O disco Pisa no Pilão: Festa do Milho, lançado no ano de 1963 trás a música “A festa do milho” composição de Rosil Cavalcanti. A música apresenta a tradicional prática alimentar do Nordeste. Em seus versos e melodias, o artista revela o trato com o solo, as condições climáticas, as plantações de milho usando o termo terra.

Festa do Milho

[...] O sertanejo festeja

A grande festa do milho

Alegre igual a mamãe

Que ver voltar o seu filho

Em março queima o roçado

A dezenove ele planta

A terra já está molhada

Ligeiro o milho levanta

Dá uma limpa em abril

Em maio solta o pendão

Já todo embonecado

Prontinho para São João

No dia de Santo Antônio

Já tem fogueira queimando

O milho já está maduro

Na palha vai se assando

No São João e São Pedro

A festa de maior brilho

Porque pamonha e canjica

Completam a festa do milho (CAVALCANTI, 1963)

De autoria do casal Walter Santos e Tereza Sousa, a música “O homem da terra” foi lançada em 1980 no LP de mesmo nome. A canção utiliza os termos terra e chão para tratar do solo.

O homem da terra

Aonde está o homem

O homem da terra

Que trabalha o chão?

É ele o herói sem nome

Que cultiva a terra

Que nos dá pão

Olhando para o tempo

Está pedindo chuva

Ou desejando sol

Rezando pra não dar geada

Que castiga tanto a sua plantação No grito do aboio

No ronco do trator

No canto da colheita

Em tudo o seu amor

Trabalhando a terra, ele está feliz

Ele é a força desse país (SANTOS; SANTOS, 1980)

 A música "Asa Branca" feita em parceria com Humberto Teixeira, gravada por Luiz Gonzaga no dia 3 de março de 1947 no LP de mesmo nome, virou hino do Nordeste brasileiro.

Asa Branca

[...] Quando olhei a terra ardendo

Qual fogueira de São João

Eu perguntei a Deus do céu, ai

Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha

Nem um pé de plantação

Por falta d'água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo asa branca

Bateu asas do sertão

Entonce eu disse, adeus Rosinha

Guarda contigo meu coração [...] (TEIXEIRA; GONZAGA,1947)

"Súplica Cearense" é uma canção do cantor e radialista e humorista e artista de circo baiano Waldeck Artur de Macedo, mais conhecido como Gordurinha, em parceria com o compositor Nelinho, lançada em 1960 e imortalizada na voz de Luiz Gonzaga.

Súplica Cearense

[...] Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou

E só por isso o sol arretirou

Fazendo cair toda a chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

Pedi pra chover, mas chover de mansinho

Pra ver se nascia uma planta no chão

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe

Eu acho que a culpa foi

Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa

Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno

Desculpe eu pedir para acabar com o inferno

Que sempre queimou o meu Ceará [...] (NELINHO, 1960)

O LP que dá nome a música Aquarela Nordestina, composição de Rosil Cavalcanti, foi lançado em 1989. A letra da música evidencia o fenômeno da estiagem e, de forma implícita, o desmatamento (quando o sol calcina a terra, não se vê uma folha verde...). Toda a melodia é um lamento às condições do ambiente, onde até a fauna expressa sua angústia oculta, ‘como que reclamando sua falta de sorte’. As regiões fisiográficas (brejo, sertão, cariri e agreste) são apresentadas como territórios da seca, queimados pelo sol, onde apenas a piedade Divina pode dar o basta, representando aqui o espírito de religiosidade do povo nordestino.

Aquarela Nordestina

[...]No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra,

Não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.

Juriti não suspira, inhambu seu canto encerra.

Não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.

Acauã, bem no alto do pau-ferro, canta forte,

Como que reclamando sua falta de sorte.

Asa branca, sedenta, vai chegando na bebida.

Não tem água a lagoa, já está ressequida.

E o sol vai queimando o brejo, o sertão, cariri e agreste.

Ai, ai, meu Deus, tenha pena do Nordeste [...] (CAVALCANTI, 1989)



5 Considerações finais

Para sensibilizar as pessoas sobre a relevância do solo é importante utilizar estratégias diversas, sobretudo aquelas de mais fácil acesso, como a música em sala de aula, pois tais ferramentas lúdicas, culturais, e artísticas podem criar uma conexão maior das pessoas, possibilitando que os conceitos fiquem armazenados na memória das pessoas que tiveram acesso a essas ferramentas, associando à música tanto a preservação ambiental quanto a sua identidade social, ligado a sua territorialidade.

No universo das músicas de Gonzagão, é possível trabalhar em sala de aula a valorização do solo, dos fazeres das pessoas, de suas realidades e dos ambientes semiáridos, resgatando a identidade dos estudantes como nordestinos, pois além de serem músicas que remetem ao solo também possibilita a identificação e a compreensão da vida no bioma da Caatinga.

Portanto, a promoção da popularização do recurso do solo por meio das pesquisas e da musicalidade em músicas populares poderá proporcionar a todas as pessoas a oportunidade de olhar com mais respeito e afetividade o solo de sua localidade, despertando o sentimento de pertencimento, de respeito e de amor ao solo, tanto quanto atrair jovens para carreiras na ciência do solo e influenciar tomadas de decisão de valorização e conservação do solo.



Referências



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ASA Branca. Intérprete: Luiz Gonzaga. Compositor: TEXEIRA, H. In: ASA Branca. Intérprete: Luiz Gonzaga. [S. l.: s. n.], 1947. 1 disco vinil, 3min05s.

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EROSÃO. Intérprete: Luiz Gonzaga. Compositor: SANTOS. W; SANTOS, T. In: EROSÃO. Intérprete: Luiz Gonzaga. [S. l.: s. n.], 1981. 1 disco vinil, lado A, faixa 1 (2min29s).

FESTA do milho. Intérprete: Luiz Gonzaga. Compositor: CAVALCANTI, R. In: PISA no Pilão. Intérprete: Luiz Gonzaga. [S. l.: s. n.], 1963. 1 disco vinil, 2min25s.

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Ilustrações: Silvana Santos