O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise. (Ailton Krenak)
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 80 · Setembro-Novembro/2022
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Sementes
13/09/2022 (Nº 80) SAL - SISTEMA AGROECOLÓGICO LITORÂNEO INSPIRADO PELA PRÁTICA WAA
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SAL - SISTEMA AGROECOLÓGICO LITORÂNEO INSPIRADO PELA PRÁTICA WAA



José André Verneck Monteiro

Guia de turismo, aquaviário, licenciado em pedagogia, especialista em educação ambiental, mestre em práticas em desenvolvimento sustentável e mestre em agricultura orgânica. Publica no Instagram @jardim_vital



Mariana Vilardo Freire de Lima

Licenciada em educação física, especialista em educação física adaptada e saúde e educação especial inclusiva. Instrutora do Clube @loko_waa



Resumo

Neste relato de experiência são elencados os principais conceitos e o manejo aplicados para a proteção e o enriquecimento florístico de fragmentos de restinga herbácea, remanescentes na Praia da Imbetiba, em Macaé/RJ. O trabalho foi iniciado em dezembro 2020, por um grupo de remadores(as) de canoa polinésia (waa). Em mutirões foram realizadas as atividades de adição de camadas de palha sortida e composto orgânico ao solo arenoso, plantio de mudas e sementes, irrigação nos períodos de estiagem, delimitação visual das áreas ajardinadas e instalação de placas educativas. No total foram implantadas 40 espécies vegetais, dentre as quais floríferas, frutíferas, atrativas para polinizadores, melhoradoras do solo, além de plantas constituintes da paisagem original da Imbetiba. A planta que melhor se desenvolveu foi a salsa-da-praia (Ipomoea pes-caprae). Os principais aspectos limitantes ao desenvolvimento das plantas, observados neste ensaio foram: o pisoteio por banhistas e excreção por animais domésticos durante passeios guiados.

Palavras-chave: sementes, restinga, educação ambiental, cultura polinésia, Imbetiba.





Apresentação

A praia de Imbetiba tem extensão de quase dois quilômetros, situada bem próximo ao centro de Macaé/RJ. É bastante frequentada desde a década de 1950, época em que começou a receber mais intervenções urbanísticas e estruturas portuárias.

Desde então, o que se pode observar é que a vegetação nativa tem sido suprimida, de tal modo que hoje restam apenas fragmentos de restinga herbácea na faixa de areia onde há acesso público, e uma parcela arbórea em encrave rochoso, com acesso restrito por ser Área Militar do Forte Marechal Deodoro (Figuras 1, 2 e 3).

O propósito desse relato é apresentar os principais conceitos e ações adotadas para a proteção e o enriquecimento florístico de dois destes fragmentos de restinga e o conjunto arbóreo no entorno dos clubes de canoa polinésia Vela Jovem Macaé e LokoWa’a.

Não se pretendeu, a princípio, tentar reproduzir artificialmente toda a diversidade florística idêntica à autóctone, nem seria possível, com as limitações estruturais e financeiras da iniciativa e pelo nível de antropização a que são sujeitos tais fragmentos.

O que se buscou foi ajardinar as áreas de entorno dos clubes e resguardar os remanescentes de restinga, promovendo condições mais favoráveis para sua regeneração espontânea neste espaço de uso público, testando em condições severas de salinidade, arenosidade, incidência de ventos e variação térmica, um conjunto de práticas agroecológicas aliadas a conhecimentos dos povos tradicionais ameríndios e polinésios.

De modo geral, historicamente, as principais causas de redução da vegetação original da orla fluminense são bem comuns nas cidades-balneário: 1) desmatamento raso, queimada e terraplenagem para “limpar” a praia, deixá-la mais bonita, atrativa para turistas e loteamentos; 2) tráfego de veículos, bem comum desde a popularização de veículos com tração 4x4, o que também atinge os ninhos com ovos das tartarugas marinhas, e 3) pisoteio intenso - principalmente nos horários em que a areia está mais quente, as pessoas andam sobre as plantas para não queimar os pés.

O resultado desse conjunto de impactos sobre a vegetação costeira reflete o atual cenário de conservação da vegetação nativa da Imbetiba, e que se repete também em várias outras praias do Brasil.

Restinga não é erva-daninha, nem campo esportivo ou estrada para automóveis.

O ecossistema praiano é único habitat possível para milhares de espécies de seres.

Aproximadamente 90% da população brasileira vive próximo à costa, o que gera impacto e ameaça constante sobre as formações vegetais naturais.

Todas as iniciativas voltadas à preservação das restingas em sua constituição biológica e topográfica também resultam na manutenção de um meio natural e imprescindível para conter o avanço das marés em direção à estrutura urbana, o que assume ainda mais valor pela iminência da elevação do nível do mar em decorrência de eventos climáticos extremos que resultam em ressacas mais intensas e movimentação de areia capazes de comprometer severamente a estrutura urbana de cidades litorâneas.

A restinga é a vegetação fixadora de dunas. A deposição da areia e sedimentos trazidos pelas marés e pelo vento cria junto às plantas, uma espécie de muro de arrimo natural. A trama de raízes e ramos destas plantas cria uma estrutura robusta capaz de se regenerar espontaneamente após ressacas.

Entre as dunas há depressões no relevo que funcionam como ralos, e evitam que as maiores marés do ano avancem ainda mais para o continente. Obviamente, quando a restinga é impactada também é reduzida sua capacidade de prestar esse serviço ambiental, gratuito por natureza.