Renunciar ao supérfluo coloca ainda mais em evidência o necessário e o indispensável. - Pierre Rabhi
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 81 · Dezembro-Fevereiro 2022/2023
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14/12/2022 (Nº 81) IMPLANTAÇÃO DE UM ARBORETO EM UMA ESCOLA DO INTERIOR PAULISTA: RECUPERAÇÃO DE ÁREA DEGRADADA E FORMAÇÃO DE ESPAÇO DE SENSIBILIZAÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O ENSINO FUNDAMENTAL.
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IMPLANTAÇÃO DE UM ARBORETO EM UMA ESCOLA DO INTERIOR PAULISTA: RECUPERAÇÃO DE ÁREA DEGRADADA E FORMAÇÃO DE ESPAÇO DE SENSIBILIZAÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA O ENSINO FUNDAMENTAL.

Sônia Aparecida de Souza Evangelista1, Ernesto Pedro Dickfeldt2 Marilda Elisa Vergs3 Giovana Cristiane Prevato4



1Pesquisador Científico – Instituto de Pesquisas Ambientais/Parque Estadual de Porto Ferreira

soniasouzanure@sp.gov.br

2Biólogo – Instituto de Pesquisas Ambientais/Parque Estadual de Porto Ferreira

3Professora de Educação Física – EMEF Professor José Gonso

4Professora de Ciências – EMEF Professor José Gonso



RESUMO

Quando desenvolvidos com a participação multidisciplinar, projetos de educação ambiental (EA) podem promover a sensibilização dos alunos para mudanças em relação ao ambiente e contribuir com a adoção de práticas que minimizem impactos ambientais. Assim, em comemoração à Semana do Meio Ambiente de 2016, foi realizado um plantio de espécies vegetais arbóreas na EMEF Prof. José Gonso por meio de um processo participativo e colaborativo entre diferentes atores da sociedade e comunidade escolar. A manutenção e a conservação do plantio favoreceram a recuperação da área degradada da escola e a formação do Arboreto, um laboratório vivo de caráter permanente e espaço de práticas pedagógicas extraclasse para a abordagem de temas ambientais locais; uma área voltada para contemplação, sensibilização e educação ambiental, que também provê serviços ecossistêmicos essenciais à qualidade de vida.

Palavras-chave: Parque Estadual de Porto Ferreira, Biodiversidade, Cerrado e Práticas Pedagógicas.

ABSTRACT

The development with multidisciplinary participation in environmental education (EE) projects can promote students’ sensitization of changes about environment and contribute to the adoption of practices that minimize environmental impacts. Thus, in commemoration of the 2016 Environment Week, tree species was planted at EMEF Prof. José Gonso through a participatory and collaborative process between different actors in society and the school community. The maintenance and conservation of the plantation advantaged the recovery of the degraded in school and the formation of the Arboretum, a permanent living laboratory used for outdoor pedagogical practices and space for the approach of local environmental issues; an area for contemplation, sensitization and environmental education, that also provides essential ecosystem services for quality of life.

Keywords: Porto Ferreira State Park, Biodiversity, Brazilian Savanna and Pedagogical Practices.



INTRODUÇÃO



A educação ambiental (EA) surge no Brasil na década de 80, como um campo de saberes e práticas voltados à conservação da natureza. No entanto, sua consolidação se dá apenas em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Rio 92 (OTERO e NEIMAN, 2015), tornando-se política específica em 1999, sob a Lei n° 9.795, que a define como sendo o processo pelo qual, o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente (BRASIL, 1999).

Trata-se de um componente essencial e permanente da educação, necessita estar presente de forma articulada e continuada em todos os níveis e modalidades de ensino formal e não-formal, tal como nos processos de gestão ambiental, devendo ser cidadã, responsável, crítica, participativa, integrativa para a construção de uma cidadania voltada para a sustentabilidade socioambiental (SÃO PAULO, 2007; BRASIL, 2013).

Nesta linha de reflexão, é possível compreender a escola como parte integrante do meio ambiente, responsável por formar cidadãos críticos e conscientes; onde a EA pode sensibilizar o educando de acordo com a sua realidade local, abordar problemas concretos, ter caráter interdisciplinar e propiciar reflexões sobre as ações imediatas e futuras em relação à conservação do meio ambiente (UNESCO, 1997).

No âmbito escolar, diversas são as estratégias utilizadas nos diferentes projetos de EA, como por exemplo as oficinas de reciclagem, hortas (FONSECA et al., 2017), plantios de mudas em datas comemorativas (SILVA et al., 2021), a formação de arboretos (SGAMATE e MORAIS, 2015) e as visitas a museus e parques (SOUZA-EVANGELISTA et al., 2018). Quando desenvolvidos com a participação multidisciplinar, projetos de educação ambiental (EA) podem promover a sensibilização dos alunos para mudanças em relação ao ambiente e contribuir com a adoção de práticas que minimizem impactos ambientais.

No contexto dos Parques, o Parque Estadual de Porto Ferreira (PEPF) é uma unidade de conservação da natureza (UC) gerenciada pela Fundação Florestal que desenvolve ao longo do ano letivo e em datas comemorativas, atividades de EA em sua área de uso público e em unidades escolares do município de Porto Ferreira (SILVA et al., 2021) conforme previsto em seu Plano de Manejo.

Entre os diversos espaços pedagógicos utilizados em projetos de EA, destacam-se também os formados para conservação da natureza, como os arboretos, que são coleções vivas de árvores, arbustos, plantas medicinais, ornamentais e outras, documentadas e identificadas com finalidades diversas, principalmente científica e educativa (BAZARETTI et al., 2011).

SOUZA et al. (2015) verificaram que os arboretos formados com a participação da comunidade favorecem a recuperação de áreas degradadas, o desenvolvimento de processos educativos, a conservação da biodiversidade e a provisão de serviços ecossistêmicos além de serem espaços de vivências e contemplação da natureza.

Nesse sentido, o presente trabalho teve o objetivo de recuperar uma área degradada no interior da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Prof. José Gonso, no município de Porto Ferreira – SP, em comemoração à Semana do Meio Ambiente, sob a perspectiva de promover a sensibilização e a EA de alunos de 6º a 9º ano, apresentar as diferentes fases de implantação e manutenção de um arboreto, bem como compartilhar as práticas pedagógicas desenvolvidas nesse espaço educador.



MATERIAIS E MÉTODOS



O primeiro contato para execução do presente projeto, deu-se por parte da diretoria da EMEF Prof. José Gonso, que convidou o PEPF para realizar atividades em comemoração à Semana do Meio Ambiente, no ano de 2016, entre elas, o plantio de árvores para recuperar uma área livre sem vegetação e sem prédios.

A área da EMEF Prof. José Gonso, localizada no município de Porto Ferreira – SP, já fora ocupada por vegetação de Cerrado e após intensos processos de urbanização, deu lugar a um depósito de resíduos de cerâmica, matéria-prima básica que há décadas movimenta a economia local. No entanto, o município apresentava originalmente áreas não somente de Cerrado, mas também de Floresta Estacional Semidecidual ou Mata Atlântica de Interior e vegetação ciliar (SÃO PAULO, 2003).

Assim, a equipe do PEPF elaborou uma lista com espécies das diferentes formações vegetais do município e outras duas espécies exóticas (Calicarpa e Ipê-de-El-Salvador), cujas mudas foram providenciadas e adquiridas pela empresa BRK Ambiental – Serviços de Água e Esgoto.

A limpeza da área ficou a cargo da Prefeitura Municipal de Porto Ferreira e equipe operacional do PEPF. Em seguida, os técnicos do Parque providenciaram com arranjo espacial amplo, os berços de 30cm x 40cm, aplicaram calcário como corretivo de ph do solo, fertilizaram com NPK (adubo químico) em pequena proporção e com cama de galinha (adubo orgânico) em maior proporção, uma vez que, o terreno encontrava-se bastante impactado e degradado.



RESULTADOS E DISCUSSÃO



No dia 06 de junho de 2016, foram plantadas 64 mudas de 21 espécies pertencentes a 11 famílias botânicas na EMEF Prof. José Gonso (Quadro 1) com a participação e colaboração de professores, alunos do 6º ao 9ºano e demais atores da escola em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente. O evento contou com a participação da Diretora do Departamento Municipal de Educação de Porto Ferreira, representantes do PEPF e da BRK Ambiental.

Quadro 1. Lista das espécies escolhidas para compor o Arboreto da EMEF Prof. José Gonso.

Família/Espécie

Nome popular

Anarcadiaceae


Tapirira guianensis Aubl.

Peito-de-pombo

Apocynaceae


Aspidosperma polyneuron Müll.Arg.

Peroba-rosa

Arecaceae


Syagrus romanzoffiana (Cham) Glassman

Jerivá

Bignoniaceae


Handroanthus sp.

Ipê-amarelo

Handroanthus chrysotrichus (Mart. ex DC.) Mattos

Ipê-amarelo-cascudo

Handroanthus vellosoi (Toledo) Mattos

Ipê-tabaco

Handroanthus roseoalbus (Ridl.) Mattos

Ipê-branco

Cybistax antisyphilitica (Mart.) Mart.

Ipê-verde

Tabebuia pentaphylla (Linn.) Hemsl.

Ipê-de-El-Salvador*

Fabaceae


Myroxylon peruiferum L.f.

Cabreúva

Anadenanthera falcata (Benth.) Speg.

Angico-do-Cerrado

Peltophorum dubium (Spreng.) Taub.

Canafístula

Inga edulis Martius

Ingá-de-metro

Clitoria fairchildiana R.A.Howard

Sombreiro

Malvaceae


Apeiba tibourbou Aubl.

Escova-de-macaco

Melastomataceae


Tibouchina granulosa (Desr.) Cogn.

Quaresmeira

Myrsinaceae


Rapanea ferruginea (Ruiz & Pav.) Mez.

Capororoca

Myrtaceae


Campomanesia schlechtendaliana (O.Berg) Nied.

Gabiroba

Rubiaceae


Tocoyena formosa (Cham. & Schltdl.) K.Schum

Jenipapo-bravo

Genipa americana L.

Jenipapo

Verbenaceae


Callicarpa reevesii Wall.

Calicarpa*

*Espécies vegetais não nativas do Brasil.



As espécies Callicarpa reevesii ou calicarpa, e Tabebuia pentaphylla ou Ipê-de-El Salvador, embora não sejam nativas, foram utilizadas no plantio por serem de rápido crescimento e favorecerem o sombreamento da área, além de serem extremamente ornamentais e fornecerem recursos alimentares para a fauna ali presente.

A cooperação entre equipe do PEPF, Escola e Prefeitura resultaram na limpeza e preparo da área, na abertura dos berços, tal como no plantio de mudas realizado pelos estudantes, conforme consta na Figura 1.