Renunciar ao supérfluo coloca ainda mais em evidência o necessário e o indispensável. - Pierre Rabhi
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 81 · Dezembro-Fevereiro 2022/2023
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Arte e ambiente
14/12/2022 (Nº 81) AS ESCRITAS URBANAS NOS CENÁRIOS COMUNITÁRIOS PÓS-PANDÊMICOS
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AS ESCRITAS URBANAS NOS CENÁRIOS COMUNITÁRIOS PÓS-PANDÊMICOS



Cláudia Mariza Mattos Brandãoi

Wesley Padilha Blankeii



Resumo: O artigo versa sobre a reflexão acerca dos espaços urbanos como écrans para as escritas urbanas. A discussão propõe repensarmos a nossa relação com o espaço urbano, entendendo-o como uma casa coletiva, que necessita ser redescoberto no momento pós-pandêmico.

A potência estética de sentir, embora igual em direito às outras – potências de pensar filosoficamente, de conhecer cientificamente, de agir politicamente – talvez esteja em vias de ocupar uma posição privilegiada no seio dos agenciamentosiii coletivos de enunciação de nossa época. (GUATTARI, 1992, p. 130).

Com a recente experiência pandêmica e o consequente afastamento social, algumas pessoas – privilegiadas – recolheram-se a suas casas, seus receptáculos protetores, como diria Walter Benjamin; outras, ficaram expostas ao perigo eminente da doença, que rondava os espaços urbanos. Fomos temporariamente afastadas da dos agenciamentos estéticos que as escritas urbanas produzem.

Entendendo escritas urbanas como o conjunto das manifestações da arte urbana, assim como: o graffiti, o pixo, os lambes, os stencils, dentre outras, buscamos neste texto resgatar algumas discussões anteriormente abordadas nesta coluna. Na consideração do atual momento social e político em nosso país, ativar as percepções para tais manifestações, “uma dimensão de criação em estado nascente, perpetuamente acima de si mesma, potência de emergência” (id.) dos corpos e suas circunstâncias, é fundamental.

No que se refere ao graffiti, uma “estética marginal” (MORIYAMA; LOPEZ, 2009), temos “uma complexa rede de expressões plásticas, cuja individualidade e autenticidade são marcadas por um conjunto de fatores” (id., p. 12), pela poética de cada artista. E na retomada pós-pandêmica do transitar urbano, novamente tais escritas voltam a quebrar o ritmo dos deslocamentos, incitando olhares curiosos a dialogar com a vida comunitária.

Quando pensamos sobre a relação da arte urbana com os espaços públicos, provavelmente identificaremos um esvaziamento do real sentido da inserção de tais expressões criativas nas ruas. Os debates acerca do graffiti e do pixo, principalmente, muitas vezes assumem pautas éticas e/ou morais. Tratadas como “sujeira” e criminalizadas, são ignoradas como práticas comunicativas de vozes silenciadas, indicativas das relações sociais e políticas estabelecidas. Como diz o grafiteiro Nove (Figura 1): “Graffiti é um protesto, independentemente de ser considerado arte ou não” (id., p. 60). “Nove não crê na desassociação do graffiti de sua ilegalidade. Para ele, independentemente de sua estética ser abstrata, figurativa ou artística, sua ideologia ainda reflete a rebeldia e o protesto” (id., p. 69).

Figura 1: Nove, grafitagem em banca de revista, 2010.

Fonte: http://rickkubota.blogspot.com/2010/06/nove.html

Entretanto, à luz da ecosofia (GUATTARI, 1990), estruturada na associação entre a ecologia ambiental, a social e a mental, é possível refletir acerca da cidade como um écran para as escritas urbanas, não-verbais, e seus trânsitos entre a ética e a estética. Nesse sentido, emergem questões sobre a marginalização de populações que encontram em tais práticas a sua marca identitária, de presença no mundo, as quais se apropriam dos espaços através da arte.

A redefinição das relações entre o espaço construído, os territórios existenciais da humanidade (mas também da animalidade, das espécies vegetais, dos valores incorporais e dos sistemas maquínicos) tornar-se-á uma das principais questões da re-polarização política, que sucederá o desmoronamento do eixo esquerda-direita entre conservadores e progressistas. (GUATTARI, 1992, p. 164).

Considerando a pertinência das palavras de Guattari, acreditamos que a importância dessas “vozes dissonantes” independe de se gostar ou não do que se vê no muro da esquina, ou na mensagem estampada numa parede qualquer. A discussão abrange camadas mais profundas, intrínsecas à vida comunitária, à realidade social e política do país, aos “territórios existenciais da humanidade”.

Com o desenvolvimento das áreas urbanas, seus prédios e construções grandiosas demandando grandes investimentos, o trânsito caótico e seus engarrafamentos, o real sentido de pertencimento de quem habita a periferia das grandes e médias cidades não se efetiva. A importância histórica dos lugares, com o tempo se esvazia. A história vai sendo tragada pelos pilares das novíssimas edificações, “máquinas de sentido, de sensação” (GUATTARI, 1992, p. 158).

Neste sentido, as escritas urbanas dão visibilidade a uma parcela considerável da população, intervindo no processo de apagamento histórico. Elas afirmam a ocupação artística do espaço urbano como meio de (re)existência. Tais apropriações do écran urbano se aliam à democratização da arte, uma vez que, despidas de elitismo artístico, são processos de inclusão, aproximando a comunidade local das práticas artísticas.

Os muros e as paredes marcadas pelas escritas urbanas, nas suas diferentes técnicas, formas e mensagens políticas e sociais, integram os lugares às movimentações socioculturais das populações. A voz de qualquer pessoa é manifestada nas paredes, fruto de práticas “produtoras de heterogeneidade e de complexidade” (GUATTARI, 1992, p. 139) na apreensão do fenômeno urbano, o que geralmente incomoda o poder público.

Em 2017, a famosa parede de grafite, que existia na cidade de São Paulo, formada por obras de diversos artistas ao longo de vários anos, foi apagada e substituída por tinta cinza, sob ordens da prefeitura. A ação fez parte de um projeto chamado “Cidade Linda”. João Dória, o prefeito na época, chegou a declarar que “pichador não é artista, é agressor”. Posteriormente, a Justiça condenou Dória e a prefeitura pela remoção dos grafites. Fonte: VEJA e G1, 2017.