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ARTIGO
Esforço público com recursos
privados
Marcos Sá Corrêa
UM CIDADÃO CONSEGUIU SOZINHO
DERRUBAR PROJETO DE HIDRELÉTRICA
Com tanto prefeito novo disputando
notícia em jornal, o País nem notou que um brasileiro chamado Germano Woehl
Júnior venceu a maior disputa municipal da semana.
Sem mandato nem verba pública,
ele levou às cordas um projeto da hidrelétrica que trocaria por 15 megawatts
a paisagem de Corupá, no norte de Santa Catarina, onde a cachoeira da Bruaca
desce da Serra do Mar, no meio da mata atlântica, com um salto de 96 metros.
Ele comprou a briga sozinho. Levou
o caso ao Ministério Público. Repetiu a história a todo repórter que
passou pela sua frente nas últimas semanas. Deu plantão nas seções de
cartas da imprensa local, rebatendo argumentos técnicos com a desenvoltura de
quem escreve em revistas acadêmicas sobre "laser de centro de cor
sintonizável no intervalo de 2,61 a 2,83 micrômetros". E andou muito no
mato, para ver de perto as reais dimensões de uma obra que parecia tão
simples no papel.
Ganhou o primeiro round. A Fundação
de Meio Ambiente do governo estadual cancelou a licença que ela mesma
concedeu meses atrás, reconhecendo que na ocasião se baseara num processo
deliberadamente turvo, poluído por informações incompletas. Blefar nesse
tipo de relatório é quase rotina. Mas engolir as mentiras de volta é uma
novidade e tanto na política ambiental brasileira.
Mas tudo isso aconteceu, na virada
do ano, quando os brasileiros não tinham tempo nem cabeça para gastar o réveillon
aprendendo onde fica Corupá e quem é Germano Woehl. Mas, passada a festa e
resolvida a parada, não custa saber que ele ganha a vida num laboratório de
fotônica do Instituto de Estudos Avançados no Centro Técnico Espacial, em São
José dos Campos.É lá que os pesquisadores de ponta tentam resolver agora os
problemas dos próximos 50 anos.
Trabalhando no interior de São
Paulo, ele há anos passa as horas vagas cuidando de bichos e florestas na
serra catarinense. Entre o emprego e o lazer, viaja de ônibus sempre que
pode. Aliás, economiza em tudo, da roupa às contas de restaurante. Com o que
poupa, compra matas em Santa Catarina, para conservar uma paisagem que
conheceu menino e, adulto, descobriu que ia perder.
Foi assim que criou o Instituto Rã-Bugio,
em Guaramirim. Era originalmente uma propriedade de 7 hectares, adquirida por
R$ 17 mil. Mas em seu terreno ele achou 41 espécies de sapos, rãs e
pererecas. E, ao classificá-las, encontrou um atalho para a educação
ambiental. Os anuros são o elo mais fraco da cadeira que nos liga à
natureza. Quem consegue gostar deles, gosta de tudo o que a mata tem para
mostrar.
Com essa fórmula, o Rã-Bugio
virou ONG. Cerca de 2.500 alunos da rede pública passam todo ano por sua sede
em Guaramirim, para aprender a céu aberto o bê-ábá da natureza. Guiá-los
ocupa em tempo integral a professora Elza Nishimura Woehl, mulher de Germano.
Como a entrada é franca, o orçamento continua curto.O jipe do instituto
dorme na sala de reuniões. Mas o casal acaba de criar outra reserva, em Itaiópolis.
Os construtores da Bruaca se
meteram com um brasileiro duro de roer. Órfão aos 11 anos, Germano cresceu
capinando roça e entregando leite de porta em porta. Mas botou na cabeça que
seria pesquisador. Só estudou em escola pública. Formou-se em Física em
1983, como o melhor aluno da Universidade Federal do Paraná.
E se doutorou com uma tese sobre o
congelamento do átomo. Não deve ter muito currículo como o seu sentado
neste momento numa cadeira de prefeito.
*Marcos Sá Corrêa é jornalista
e editor do site O Eco
(
www.oeco.com.br )
Fonte: O Estado de São Paulo (ESTADÃO), 06 de janeiro de 2005. |