Nós nunca sabemos o valor da água até que o poço está seco. (Thomas Fuller)
ISSN 1678-0701
Volume XIX, Número 74
Março-Maio/2021
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31/03/2021 (Nº 74) INTERFACES ENTRE A LITERATURA INFANTO-JUVENIL E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA
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INTERFACES ENTRE A LITERATURA INFANTO-JUVENIL E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA

INTERFACES BETWEEN CHILDREN-YOUTH’S LITERATURE AND THE ENVIRONMENTAL EDUCATION: A PEDAGOGICAL PROPOSAL

Nathana Pizzolato Minuzzi1; Cisnara Pires Amaral2

1Graduada Curso de Ciências Biológicas, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Santiago, RS. E-mail: nathanaaminuzzi@gmail.com

2Docente Curso de Ciências Biológicas, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Santiago, RS. E-mail: cisnara@yahoo.com.br



RESUMO



A atividade está relacionada a utilização de história infanto-junvenil para auxiliar os alunos no desenvolvimento da criticidade, o desenvolvimento da curiosidade, a percepção em relações as questões ambientais e o entendimento das relações entre os seres vivos. Dessa forma, compreendemos que a imaginação, a leitura e a ludicidade poderão ser ferramentas didáticas capazes de estimular a prática de Educação Ambiental nas escolas. Assim, essa atividade foi realizada com o auxílio de 12 regentes que atuam no ensino de Ciências, no 7º ano do Ensino Fundamental, situadas na cidade de Santiago/ RS. Para tal, utilizou-se livro de literatura produzido pelos acadêmicos do IV semestre do curso de Ciências Biológicas da URI/Santiago, intitulado “Uma história nada comum: viaje no mundo dos vertebrados”. Notou-se que os discentes compreendem a importância de diferentes metodologias para o ensino de Ciências e a eficácia da utilização do livro infantil para tornar as aulas prazerosas e significativas; reconhecem a Educação Ambiental como ferramenta para desenvolver os conceitos de cidadania, o respeito pela biodiversidade e a preservação ambiental.

Palavras-Chave: Educação Ambiental; Literatura; Cidadania.



ABSTRACT

The activity is related to the use of children-youth’s story books to assist students in the development of criticality, the development of curiosity, the perception in relations with environmental issues and the understanding of the relationships between living beings Thus, we understand that imagination, reading and ludicity can be didactic tools capable of stimulating the practice of Environmental Education in schools. So, this activity was developed with the help of 12 regents who work in Science teaching, in the 7th year of Elementary School, located in the city of Santiago/RS. For this, we used a book of literature produced by the academics of the IV semester of the Course of Biological Sciences of URI/Santiago, entitled "A story not common: Travel in the world of vertebrates". It was noted that the students can understand the importance of different methodologies for the teaching of Sciences and the effectiveness of the use of the children's books to make the classes pleasurable and meaningful; recognizing Environmental Education as a tool to develop the concepts of citizenship, respect for biodiversity and environmental preservation.

Keywords: Environmental Education; Literature; Citizenship.



1 INTRODUÇÃO

Espalha-se entre os professores, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental e Médio, uma crescente sensação de desassossego, de frustração, ao comprovar o limitado sucesso de seus esforços docentes. Aparentemente, os alunos aprendem cada vez menos e têm menos interesse pelo que aprendem (POZO; CRESPO, 2009).

Diante desse panorama surgem as metodologias ativas na educação como uma forma de solução. Dos conceitos especialmente poderosos para a aprendizagem hoje temos a aprendizagem ativa e a híbrida. As metodologias ativas dão ênfase ao papel protagonista do aluno, ao seu envolvimento direto, participativo, reflexivo em todas as etapas do processo, experimentando, desenhando, criando com a orientação do professor (BACICH; MORAN, 2018).

Um exemplo de novas estratégias, classificadas como metodologias ativas, são as histórias infantis, pouco trabalhadas em sala de aula. Compreendemos que, nos primeiros anos da escolaridade, o recurso da literatura infantil poderá ser uma ferramenta relevante para o ensino de Ciências e o desenvolvimento da Educação Ambiental (EA).

De acordo com esta concepção, Knorst, Resende e Goldim (2010, p. 132) faz a seguinte perquisição: “A EA nos leva a pensar em novas formas de ações em relação ao meio ambiente. Constitui uma educação ampla e abrangente, preparada para reagir às constantes mudanças do planeta”.

Assim, o presente trabalho tem como foco principal investigar se a literatura infantil será capaz de auxiliar a criticidade, o desenvolvimento da curiosidade, a percepção em relações as questões ambientais e o entendimento das relações entre os seres vivos. Dessa forma, propõe-se analisar, junto aos professores de Ciências das escolas estaduais e municipais, se a literatura infantil proposta será capaz de proporcionar entretenimento, curiosidade, imaginação; oportunizando conhecimento científico sobre temas relacionados com a Educação Ambiental.



2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Ensino de Ciências e as novas ferramentas

Sabemos que a disciplina de Ciências se constitui por inúmeras palavras de difícil entendimento, que acabam fazendo parte da vida do aluno desde o 4º ano do ensino fundamental. Compreendemos a dificuldade que possuem os discentes em realizar as conexões necessárias com as palavras utilizadas nessa disciplina, tornando-as vocabulários compreensíveis e não fardos científicos. Assim, nos questionamos quanto a esses vocábulos, buscando estratégias didático-pedagógicas capazes de auxiliar essas conexões, proporcionando o conhecimento científico de forma prazerosa.

Na atualidade, a educação ainda apresenta inúmeras características de um ensino tradicional, onde o professor é visto como detentor do saber, enquanto os alunos são considerados sujeitos passivos no processo de ensino e aprendizagem. (NICOLA; PANIZ, 2016, p. 2)

Nesse sentido, o aluno perde o interesse pelo ensino de Ciências, pois as aulas se tornam desmotivadoras diante de tantos conceitos e vocábulos, os recursos mais utilizados são quadro e giz, contribuindo para dificuldade de atribuir significados aos conceitos vivenciados em seu cotidiano.

Corrobora Antunes (2015) que as crianças não vão à escola para aprender e pronto, mas para construir conhecimentos em um sentido de aproximar-se do culturalmente estabelecido. Nunca é demais destacar que o aluno constrói seu conhecimento; o professor ajuda nessa tarefa, intermedia a relação, partindo de suas possibilidades.

O mais provável é que o professor, esmagado pela quantidade enorme de aulas a ministrar, prisioneiro de uma rotina que acredita difícil vencer, angustiado pelos diários de classe infinitos e pilhas de provas que se acumulam, atire para o fundo da gaveta as pílulas adquiridas no novo milênio e das mesmas lembre-se somente ao preparar sua “declaração de princípios” (ANTUNES, 2015).

A ciência aproxima a curiosidade humana do conhecimento científico, através do entendimento da realidade, desafiando a busca por respostas e soluções. Logo, a Ciência deve ser ensinada não apenas para que conceitos sejam repassados, mas para que possa ser um dos agentes que possibilitem a transformação da realidade vivida pelos indivíduos que integram nossa sociedade. Caregnato e colaboradores, (2010, p. 41) definem “aprendemos Ciências para viver e conviver, para nos conhecermos melhor e melhor compreender o outro”.

Amaral e colaboradores, (2019 p. 3) observam a importância da leitura para a formação da criticidade:

Em tempos em que nossos alunos são instigados apenas pela tecnologia, pelos diferentes celulares e jogos eletrônicos, a leitura acaba perdendo espaço, ficando restrita apenas aos momentos em que os mesmos se encontram nas escolas. Compreendendo a importância desse processo no desenvolvimento cognitivo, é mister que consigamos proporcionar aos discentes momentos de leitura, aprendizado e analogias com os conteúdos, tornando significativos e relacionados ao seu cotidiano.

Para que tudo isso aconteça, todo o ambiente escolar precisa ser acolhedor, aberto, criativo e empreendedor. Além disso, o professor precisa ajudar os alunos a irem além em seus conhecimentos, motivando, questionando, orientando. Estudos revelam que, quando o professor fala menos, orienta mais e o aluno participa de forma ativa, a aprendizagem é mais significativa (DOLAN; COLLINS,2015).

O sucesso de uma metodologia se dá a partir do momento em que o aluno está sujeito a resolver problemas reais. Assim, o desafio torna-se motivador e, consequentemente, o envolvimento ocorre de forma natural. (HAUSCHILD; VIVIAN, 2017, p. 4).



2.2 Literatura infantil e Educação Ambiental

A literatura infantil é utilizada como ferramenta de metodologia ativa, porém ainda é pouco trabalhada em sala de aula. Ceia (2012) relata que aliar ciências e literatura permite, em tempo e espaço, a elaboração do conhecimento “individual e coletivo, subjetivo e objetivo, e que se estabelece como uma nova visão sobre a verdade do mundo e do homem.

Consequentemente, a contação de histórias será uma estratégia pedagógica que poderá favorecer significativamente a prática docente na Educação Infantil e Ensino Fundamental. A literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. (SÓ ESCOLA, 2019). De acordo com Abramovich (2009, p. 14), “escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo”.

De acordo com Coelho (2010, p. 15):

A literatura, em especial a infantil, tem uma tarefa fundamental, a de cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.

A utilização do livro de literatura infantil estabelece uma conexão entre o conhecimento e as situações do cotidiano, contribuindo para a aprendizagem significativa. Conforme relata Moreira (2011), exige desafios e situações-problema vinculados aos conhecimentos prévios, estimulando, assim, a busca de novos saberes.

Consequentemente, a inserção de novas práticas no ensino tem a finalidade de aliar teoria à prática, buscando a sensibilização em relação ao meio ambiente, desenvolvendo a criticidade diante de desastres ambientais. Compreendemos a dificuldade de trabalhar a Educação Ambiental (EA) crítica. Desse modo, buscaremos valorizar o cotidiano, as relações ecológicas, a homeostase do meio.

De acordo com Almeida e Strecht-Ribeiro (2013) a literatura para a infância ajuda a incorporar valores ambientalistas que transpassam perspectivas diversas da forma do ser humano olhar a natureza.

A Lei Nº 9795 de 1999, que versa sobre EA traz no seu Art. 2°:

A educação ambiental é um componente essencial e permanente da Educação Nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal”.

Nesta perspectiva, a EA apresenta um caráter interdisciplinar, com abordagem integrada e contínua. É um componente importante para se repensar as teorias e práticas que fundamentam as ações educativas, quer nos contextos formais ou informais.

Deve ser interdisciplinar, orientada para solução dos problemas voltados para realidade local, adequando-os ao público alvo e a realidade dos mesmos. Farias e Knechtel (2019, p. 68) salientam:

Os tempos que vivemos exigem esta postura de inconformidade, demandando medidas e transformações profundas e, por que não, uma ruptura com a ordem econômica vigente? A crise climática mundial, a exploração exaurível do ambiente natural, físico-biológico, a poluição dos oceanos, os desastres ecológicos e humanos em escala sem precedentes, ou seja, o fato de estarmos erodindo as bases de nossa economia, nossos meios de sobrevivência, já deveriam ser considerados imperativos para esta ruptura. No entanto, algo nos escapa aí, pois não há consenso sobre o real estado do mundo em relação às condições e exigências para a vida em comum no planeta, ou melhor, não há um consenso sobre a crise ambiental em que estamos imersos.

Faz-se necessário integrar nos currículos uma abordagem de EA “conectada com os sentidos e os valores do ser-humano, baseados em concepções individuais e coletivas, vivenciadas e construídas durante a história de vida de cada um” (MOTA, 2016, p. 3).

Observa-se que refletir e compreender sobre o sentido do lugar no mundo contemporâneo não se constitui em uma tarefa simples, haja vista uma vastidão de significados que podem ser atribuídos ao termo (MOTA; KITZMANN, 2018).

Desse modo, deve-se acreditar que a EA poderá contribuir como instrumento de transformação e de desenvolvimento de uma perspectiva crítica em relação ao meio ambiente, envolvendo a sociedade em um compromisso de responsabilidade com a natureza.



4 MATERIAIS E MÉTODOS

O projeto foi realizado com o auxílio de 12 regentes de escolas que atuam no ensino de Ciências, no 7º ano do ensino fundamental, situadas na cidade de Santiago/ RS. Importante salientar que foram convidadas a participar da pesquisa 19 regentes, porém obtivemos retorno de 10 regentes de escolas estaduais e 2 regentes de escolas municipais.

Para a realização da atividade, utilizou-se um livro de literatura produzido pelos acadêmicos do IV semestre do curso de Ciências Biológicas da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI/Santiago, intitulado “Uma história nada comum: viaje no mundo dos vertebrados”, com ISBN 978-85-5808-052-1.

O livro conta a história de um grupo de alunos que, coordenados pela professora de Ciências, realizam uma visita à Floresta Nacional (FLONA) e a praia de Cassino em Rio Grande/RS, tendo contato com a flora e fauna local; enfatiza conceitos relacionados aos Cordados, conteúdo curricular inserido dentro do Reino Animal, enfatizando o nicho, desequilíbrios ecológicos e as relações que se estabelecem nas cadeias alimentares.

Dessa forma, entrou-se em contato com as regentes, disponibilizando um exemplar do livro para que, no prazo de 15 dias, realizassem a leitura do mesmo, analisando sua eficácia como recurso pedagógico em relação ao desenvolvimento de conceitos científicos e criticidade em relação aos desequilíbrios ambientais e suas consequências para os seres vivos.

A abordagem utilizada para a pesquisa foi qualitativa, na qual foi utilizado um questionário semiestruturado, online, confeccionado no Google Forms. No questionário, constavam os seguintes questionamentos: Você acredita que a metodologia utilizada (livro de literatura infantil) será capaz de auxiliar o discente a compreender os equilíbrios que existem entre fauna e flora? O livro de literatura utilizado será capaz de despertar a curiosidade em relação aos conceitos científicos abordados? Esse recurso poderá tornar as aulas de ciências mais atraentes, despertando curiosidade, criticidade e investigação? O livro poderá proporcionar conhecimento em relação ao nicho ecológico de certos animais, enfatizando os desequilíbrios na cadeia alimentar? O livro é capaz de estabelecer a relação entre as ações capazes de ocasionar desequilíbrios ambientais? Você acredita que o livro infantil, os desenhos apresentados e o vocabulário utilizado poderão aumentar o interesse do discente pelo ensino de Ciências e para a Educação Ambiental?

Após, ocorreu a produção de gráficos com a planilha Microsoft Excel para análise das respostas. O projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) para avaliação, obtendo aprovação através do CAAE 36685820.2.0000.5353.



4 RESULTADO E DISCUSSÃO

Seguem os resultados obtidos através do preenchimento do questionário online, sendo 10 regentes de escolas estaduais e 2 de escolas municipais. Importante salientar que tivemos 2 escolas estaduais e 5 escolas municipais que não participaram da pesquisa, pois não obtivemos retorno de suas regentes.

Em relação a participação dos docentes, nos questionamos que o atual cenário obrigou os professores a mudarem suas estratégias de ensino, a se tornarem tecnológicos, a assumirem postura de aprendizado diante do novo; seja realizando cursos para administrar essa situação; seja investindo economicamente em materiais para utilizar em suas aulas. Observamos que esses profissionais se sentem cansados e extremamente estressados com essa situação, talvez seja essa uma das explicações para que 8 docentes não participassem de nossa pesquisa.

A figura 1 demonstra a importância da escolha da metodologia utilizada para auxiliar o trabalho docente. Ela está relacionada ao seguinte questionamento: Você acredita que a metodologia utilizada (livro de literatura infantil) será capaz de auxiliar o discente a compreender os equilíbrios que existem entre fauna e flora?

Figura 1 – Literatura infantil como proposta pedagógica

Percebe-se que 100% dos docentes compreendem a importância da utilização de diferentes metodologias para que o ensino de Ciências se torne significativo e proporcione novas descobertas, além de conhecimento científico. Faz-se necessária uma mudança na transmissão cultural para que os discentes compreendam a importância da leitura no desenvolvimento da cognição e da escrita; além do despertar da curiosidade, instigando a imaginação e o conhecimento científico.

O poder da transmissão cultural está, consequentemente, embebido em criatividade cognitiva centrada em um processo sociocolaboracional e intergeracional. Esse poder especial da cognição humana vem do fato de que qualquer ser humano só pode aprender através do outro, mas, para isso, tem de se identificar com ele (FONSECA, 2018).

Compreendemos a importância de trabalhar o equilíbrio do ecossistema, buscando, na escola, ferramentas que auxiliem mudanças de hábitos e atitudes. A escola, sendo um espaço de convivência complexa que reúne sujeitos múltiplos, é o espaço onde se dão tantos encontros com o mundo científico, precisa estar aberta à multiplicidade de visões de mundo e contribuir com uma formação humana para a vida (CALIXTO; MARUJO, 2019).

Sendo assim, qualquer professor pode encontrar exemplos dessas ideias em seu trabalho cotidiano, se utilizar as metodologias adequadas (POZO; CRESPO, 2009).

A figura 2 faz a correlação entre a eficácia do livro infantil e o desenvolvimento do conhecimento científico, está relacionado ao questionamento: “O livro de literatura infantil será capaz de despertar a curiosidade em relação aos conceitos científicos abordados?”

Figura 2- Literatura infantil e o desenvolvimento de conhecimento científico

Observa-se que 100% dos docentes acreditam na eficácia do livro infantil para a construção do conhecimento científico e da informação, pois compreendem a importância das ferramentas didáticas no ensino. Outro ponto a considerar é que as ferramentas de apoio didático são amplamente divulgadas nas redes sociais, e, comprovadamente, contribuem para a eficácia da aprendizagem. Compreendemos a relevância do discente conhecer o nicho ecológico, as interações que estabelecem com o meio ambiente, atrelando a sua realidade, pois, assim, será mais fácil compreender a importância da preservação do meio. Pensamos que, há necessidade da reformulação do Ensino de Ciências, para que se promova a formação crítica, reflexiva e autônoma dos educandos.

A Base Nacional Comum Curricular pede especial atenção para que o ensino de Ciências não seja um apanhado de conceitos sem significado para os alunos e valoriza o letramento científico. Deixa claro que, mais que conhecer conceitos, os alunos precisam estar habilitados a compreender e interpretar o mundo, bem como transformá-lo, interferindo nele de forma consciente (BNCC, 2017).

Entendemos que, no ensino de Ciências, os conhecimentos prévios dos alunos são importantes, assim como o pensamento científico e a apropriação da linguagem científica. Sendo o conhecimento científico um conhecimento socialmente construído na escola, seu ensino deve pautar-se nas investigações científicas, no diálogo, na reflexão e no contexto em que estão inseridos esses alunos. Acredita-se que o conhecimento científico passa pelo fazer ciência e pelo aprender ciência, completando, assim, o processo de ensino-aprendizagem na escola (SEIXAS, CALABRÓ, SOUSA, 2017).

Assim sendo, a busca de alternativas que superem o conflito do ensino fragmentado de Ciências visa à formação de cidadãos capazes de interpretar os conceitos científicos no seu dia a dia e aplicá-los em sua realidade (VERGÉS, 2018).

A figura 3 considera o uso de metodologias ativas para tornar as aulas de Ciências mais prazerosas e atraentes. Está relacionada ao seguinte questionamento: “Este recurso poderá tornar as aulas de Ciências mais atraente, despertando curiosidade, criticidade e interação?”

Figura 3 – Livro infantil e o despertar da curiosidade e criticidade

Verifica-se que 91,7% dos professores acreditam que o livro de literatura em questão poderá desenvolver criticidade, curiosidade e interação em relação às questões ambientais. Sabemos que a escola é local de incentivo da leitura, desde o Ensino Fundamental (anos iniciais) os discentes são estimulados a ler, contar histórias, viajar no conhecimento. A Literatura Infantil, como instrumento metodológico para o ensino de Ciências, mostra-se como potencializador da aprendizagem e de conceitos científicos, pois contribuiu para a ampliação da consciência sobre o mundo, auxiliando na reconstrução de conceitos.

A introdução das novas metodologias na educação deve ocorrer de tal forma que possa ser utilizada no processo de ensino-aprendizagem, trabalhando o conhecimento através de programas que possibilitem ao aluno a construção do conhecimento (BACICH; MORAN, 2018).

A figura 4 relaciona a utilização do livro didático e sua relação com a EA. Faz referência à seguinte pergunta: “O livro poderá proporcionar conhecimento em relação ao nicho ecológico de certos animais, enfatizando os desequilíbrios na cadeia alimentar?”

Figura 4 -Educação Ambiental através da Literatura Infantil

Nota-se que 100% dos professores, acreditam na eficácia do livro infantil para trabalhar conceitos relacionados à Ecologia, enfatizando a EA como ferramenta metodológica. Acreditamos veementemente que as formas de conscientização poderão ter mais resultados se trabalharmos com a criticidade das crianças. As mudanças de hábitos e atitudes iniciam na vida infantil e poderão fazer parte da formação de cidadãos conscientes e críticos em relação às questões ambientais. Compreende-se que o respeito pela biodiversidade está relacionado com o conhecimento, por isso o intuito da obra literária é relatar a fauna gaúcha, discutindo informações, conhecendo as características, facilitando o entendimento da relação entre equilíbrio ecológico, extinção e desastres ambientais antrópicos.

Quando se aborda a sensibilização ambiental, fala-se de um instrumento valioso para o desenvolvimento da EA. Segundo Dias; Leal e Carpi Junior (2016, p.12) “trabalhar com EA significa pensar num futuro melhor para nosso mundo e para as pessoas que aqui vivem, colocando em prática uma ação transformadora das nossas consciências e de nossa qualidade de vida”.

Quando estamos trabalhando esse tema no cotidiano escolar, explorando todas as disciplinas é possível “amenizar” a preocupação quanto à preservação do meio ambiente (MEDEIROS; OLIVEIRA e MENDONÇA, 2011).

A figura 5 faz referência aos desequilíbrios ambientais. Relaciona-se à pergunta: “O livro é capaz de estabelecer a relação entre as ações capazes de ocasionar desequilíbrios ambientais?”

Figura 5 – Livro infanto-juvenil e os desequilíbrios ambientais

Observa-se que 91,7% acreditam que o material pedagógico pode relacionar os desequilíbrios ambientais. O livro infantil foi produzido por acadêmicos do Curso de Licenciatura de Ciências Biológicas. Nele, encontramos conceitos explícitos de ecologia, como: hábitat, nicho ecológico, relações harmônicas e desarmônicas, extinção de espécies e desequilíbrios. Enfatiza a importância do equilíbrio do meio para a manutenção da cadeia alimentar, agrega valores em relação ao respeito e conservação da biodiversidade.

O equilíbrio do meio ambiente ocorre devido à interação fauna e flora, assim, quando um animal desaparece, toda a cadeia fica alterada, afetando o equilíbrio do meio ambiente. Embora este fenômeno seja comum na natureza, a extinção de grande número de espécies é consequência da atividade humana. O Brasil contabiliza atualmente 1.173 espécies da fauna com sua perpetuidade sob risco. Outras 318, embora não estejam prestes a desaparecer, também têm a existência ameaçada (AGÊNCIA BRASIL,2019).

O que podemos compreender é que, ao longo do tempo, o homem vem explorando o meio ambiente de maneira desordenada. O que encontramos, hoje, em grande parte do RS e do mundo, são ambientes fragmentados e alterados. A sobrevivência em sociedade exige dos indivíduos que sacrifiquem boa parte de seus instintos em favor da segurança, da proteção e do bem comum (CASALI, 2015).

Assim, a criança deve perceber-se integrante, dependente e agente transformadora do ambiente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente (PEREIRA, 2015).

A Figura 6 relaciona o livro infanto-juvenil, a disciplina de Ciências e a EA. Está relacionada ao seguinte questionamento: “Você acredita que o livro, os desenhos apresentados e o vocábulo utilizado poderão aumentar o interesse do discente pelo ensino de Ciências e para a EA?”

Figura 6 – Livro de Ciências, ensino de Ciências e a Educação Ambiental



Nota-se que 83,3% dos professores compreendem que o livro, os desenhos apresentados e o vocábulo utilizado poderão aumentar o interesse do discente pelo ensino de Ciências e para a EA. Acreditamos que essa relação surge pelo fato de que os alunos do Ensino Fundamental chegam à escola ansiosos para frequentarem as aulas de Ciências, disciplina relacionada aos conhecimentos sobre plantas, animais e meio ambiente; porém, em sua grande maioria, perdem o ânimo pela disciplina, pois, muitas vezes, possuem como único recurso um livro didático.

Se unirmos a literatura com as experiências vividas com animais, descrevendo suas características típicas, seu comportamento e importância na cadeia alimentar, poderemos estimular o respeito, o apropriar-se do conhecimento científico, a desmistificação de ideias errôneas em relação a alguns animais e o conhecimento da fauna que compõe nosso Bioma.

As interações do ser humano com a natureza ocorrem constantemente de forma direta ou indireta, gerando consequências que podem causar benefícios ou não para o meio ambiente. Diferentes impactos ambientais ocorrem principalmente em função do tipo de relação que o ser humano estabelece com o meio ambiente. (OLIVEIRA; VARGAS, 2009).

Desse modo, a problemática ambiental se torna importante para a aprendizagem e a formação do cidadão, vinculando com a realidade do meio em que o aluno está inserido (MENEZES, 2017).

A questão 7 faz referência a opinião das docentes em relação ao material analisado. Seguem relatos encontrados nos questionários: “Toda pesquisa científica que se propõe a melhoria da qualidade de vida, do ensino e de entender a relação entre todos seres vivos é de suma importância para toda comunidade”; “O livro revela a interação correta do homem com o meio, estabelecendo uma vivência interativa com a natureza. Processos de correlação são necessários para despertar o interesse do homem e a natureza”; “Muito relevante e de fundamental importância no ensino de Ciências”; “Através do livro infantil o discente consegue de forma ampla apreender elementos e/ou características de determinado universo.”; “Essa pesquisa/ atividade é de grande valia para o ensino de ciências pois através de histórias desperta no aluno sua imaginação, curiosidade e criticidade em relação a ecologia”; “Atividade maravilhosa pois contempla os dois universos dos discentes”; “Eu acho esse tipo de atividade muito interessante, pois o vocabulário e as ilustrações utilizadas despertam o interesse e a curiosidade, tornando o ensino de ciências mais envolvente, atrativo e proveitoso”; “ Foi muito bom participar dessa atividade, pois não tinha conhecimento sobre o material que é muito rico em detalhes e explicações. Parabéns pela iniciativa!”;

Atividade interessante! Gostei de participar e contribuir. Parabéns a todos os envolvidos!”; “Muito bom questionar sobre a obra indicada porque dentro da minha percepção os nossos discentes estão precisando de estímulos a leitura, e melhor entendimento sobre seu ecossistema de convívio, sugiro mais desenhos e até gravuras para colorir pode não parecer mas eles gostam de pintar, e ficará mais atrativo para eles”; “Muito válido ter participado desta pesquisa, primeiro porque é uma satisfação enorme ter trabalhado com estes livros e importante ressaltar que o livros traz leituras para nossas crianças em modelo de diálogo popular, mesmo que com foco formal e científico, mas resgatando aquele momento lúdico onde a crianças se divertem e ao mesmo tempo aprendem, tornando um momento de exploração, não só do livro, mas também de ensino-aprendizagem”; “ A literatura sempre é válida para o ensino. Este tipo de atividade em campo para o discente de Biologia e o relatório em forma de livro para ser levado até a sala de aula das crianças é maravilhoso pois contempla os dois universos”.



5 CONCLUSÃO

Observa-se que o atual cenário educacional deixa claro que a busca por novas ferramentas didáticas se torna imprescindível para que o discente adquira o papel de protagonista de sua aprendizagem; que a interdisciplinaridade entre Ciências e Literatura será capaz de proporcionar conhecimento científico, criticidade e conscientização em relação as questões ambientais.

Quanto à pesquisa percebe-se que 100% das discentes compreendem a importância da utilização de diferentes metodologias para que o ensino de Ciências se torne significativo e proporcione novas descobertas; acreditam na eficácia do livro infantil para a construção do conhecimento científico e da informação; 91,7% acreditam que o livro de literatura em questão poderá desenvolver criticidade, curiosidade e interação em relação às questões ambientais; 100% acreditam na eficácia do livro em relação ao desenvolvimento de conceitos relacionados à Educação Ambiental e 91,7% acreditam que o material pedagógico pode relacionar os desequilíbrios ambientais; além de compreendem que o livro, os desenhos apresentados e o vocábulo utilizado poderão aumentar o interesse do discente pelo ensino de Ciências e para a EA.

Compreendemos que os conceitos e práticas adquiridas na Educação Fundamental têm grande importância para o desenvolvimento da personalidade humana. O desenvolvimento infantil se dá num processo criado pela própria criança a partir das interações que vivencia. Sendo assim, a literatura contribuirá para o desenvolvimento da criticidade, conscientização, protagonismo e mudança de hábitos e atitudes.

Reconhecemos a importância da leitura na vida escolar, ferramenta capaz de desenvolver a escrita e o entretenimento. A literatura infantil será capaz de relacionar a temática ambiental e as questões relativas à preservação, estimulando atitudes de respeito à fauna e flora, elencando a importância do equilíbrio do meio para a preservação das espécies.



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Ilustrações: Silvana Santos