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ISSN 1678-0701 · Volume XXII, Número 87 · Junho-Agosto/2024
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Arte e Ambiente
30/05/2023 (Nº 83) ARTE & AMBIENTE NOS ENREDAMENTOS DE UM “MARCO TEMPORAL”
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ARTE & AMBIENTE NOS ENREDAMENTOS DE UM “MARCO TEMPORAL”

Cláudia Mariza Mattos Brandãoi



Resumo: O texto aborda questões relativas a mentalidades e comportamentos destrutivos das relações sociais e da natureza, utilizando a fotografia como elemento simbólico que (re)apresenta aos leitores/as recortes/sínteses capturadas nos trajetos cotidianos. Além disso, dialogo com Ailton Krenak e suas “Ideias para adiar o fim do mundo”.



No momento da escrita deste texto, o Congresso Nacional está mobilizado para a votação do Marco Temporal. Essa é uma tese jurídica que tramita no parlamento há quase 20 anos, segundo a qual os povos indígenas têm direito à demarcação de terras as quais já ocupavam ou disputavam na data de promulgação da Constituição, ou seja, 5 de outubro de 1988.

Habitamos um território que foi roubado dos povos originários pelos colonizadores portugueses. São terras que continuam a ser incessantemente saqueadas em suas riquezas naturais. Não fizemos delas um lugar melhor. Ao contrário, a destruição granjeia cotidianamente.

O tema proposto para esta edição da nossa revista é “Educação Ambiental para repensar valores”. A frase sugerida para orientar as discussões é de Dean William Inge: “O importante da educação é o conhecimento, não dos fatos, mas dos valores”. E esta frase, frente ao que testemunhamos acontecer no nosso Congresso, me faz questionar: quais são os valores do povo brasileiro?

Se os posicionamentos manifestados pelos políticos representam o pensamento da maioria, me resta chamar Aylton Krenak para esclarecer:

A ideia de nós, humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua. (KRENAK, 2019, p. 22-23).

Passados mais de 500 anos da chegada dos portugueses, seguimos à risca o “modelito” civilizatório imposto: morte e degradação. Ódio e violência. Exclusão da maioria da população, riquezas para poucas pessoas. E neste caminho só conseguiremos destruir mais rápido as nossas condições de sobrevivência sobre o planeta. Sim, o planeta sobreviverá. Mais do que isso, Gaia se recuperará, com a diferença que a espécie humana não estará mais impedindo que a vida brote. Afinal,

O que é feito de nossos rios, nossas florestas, nossas paisagens? Nós ficamos tão perturbados com o desarranjo regional que vivemos, ficamos tão fora do sério com a falta de perspectiva política, que não conseguimos nos erguer e respirar, ver o que importa mesmo para as pessoas, os coletivos e as comunidades nas suas ecologias. (KRENAK, 2019, p. 23).

Figura 1

Neste contexto resta perguntar: em que mundo queremos projetar a nossa imagem/sombra? Será que estamos realmente decididos a substituir a vitalidade da natureza pela impermeabilidade do asfalto e do concreto? (Figura 1)ii

Creio que respostas certeiras para tais indagações não são possíveis. É preciso lembrar que um alto percentual da população brasileira está envolvido com a manutenção da própria vida, lutando por alimentação. Nessa perspectiva, reflexões críticas, isentas, sobre os direitos dos povos originários e a preservação da natureza são inviabilizadas.

A emergência de tais pautas não conquista muitos corações e mentes. De um lado temos uma parcela significativa de pessoas envolvidas com problemas básicos, cotidianos, do outro, uma minoria detentora de grandes poderes defendendo interesses nefastos, vinculados ao mercado, ao capital. A discussão é complexa e não tenho a pretensão de realizar tal análise.

Busco neste texto colaborar para a problematização acerca de mentalidades e comportamentos destrutivos das relações sociais e da natureza. Nesse sentido, utilizo a fotografia como elemento simbólico que (re)apresenta aos leitores/as recortes/sínteses capturadas nos trajetos cotidianos. Tais imagens destacam detalhes que muitas vezes se perdem na dinâmica dos deslocamentos diários, assim como os discursos da arte urbana.

Refiro-me a intervenções como a do artista Xadalu (Figura 2), no centro de Porto Alegre (RS), ou como as intervenções realizadas em 2019 num tapume, na frente do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (Pelotas, RS) (Figura 3).

Figura 2

Picture 1



Figura 3



São discursos que revelam pensamentos críticos, posicionamentos políticos claros frente à realidade vigente. Nós, habitantes das cidades, não podemos esquecer a nossa dívida impagável com os povos das florestas, que lutam pela sua existência física e cultural há mais de 500 anos:

Essa tensão (entre o Estado brasileiro e os povos indígenas) não é de agora, mas se agravou com as recentes mudanças políticas introduzidas na vida do povo brasileiro, que estão atingindo de forma intensa centenas de comunidades indígenas que nas últimas décadas vêm insistindo para que o governo cumpra seu dever constitucional de assegurar os direitos desses grupos nos seus locais de origem, identificados no arranjo jurídico do país como terras indígenas. (KRENAK, 2019, p. 37-38).

Figura 4