A responsabilidade social e a preservação ambiental significa um compromisso com a vida. - João Bosco da Silva
ISSN 1678-0701 · Volume XXI, Número 85 · Dezembro-Fevereiro 2023/2024
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O que fazer para melhorar o meio ambiente
15/12/2023 (Nº 85) REFLITA SOBRE A SUA PEGADA ALIMENTAR DE CARBONO
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REFLITA SOBRE A SUA PEGADA ALIMENTAR DE CARBONO

Por Michaela Haas

De todas as soluções para as mudanças climáticas, dos carros eléctricos às turbinas eólicas, tem uma que está sempre na nossa frente – no café da manhã, almoço e jantar: repensar a nossa alimentação. Segundo os especialistas, o que comemos não afeta apenas a nossa saúde, como também a do planeta.

Algumas estimativas indicam que um terço de todas as emissões dos gases de efeito estufa causadas pelo homem provêm dos sistemas alimentares mundiais, estando uma grande parte disso ligada à pecuária. Como resultado, o que escolhemos colocar no prato pode ter um grande impacto. De acordo com um estudo da Universidade de Oxford, as pessoas que seguem dietas baseadas em vegetais, por exemplo, produzem 75% a menos de emissões dos gases de efeito estufa do que aquelas que consomem diariamente uma porção de carne.

Até pouco tempo atrás, eu não fazia ideia de que o que comíamos tinha a ver com o clima ou o meio ambiente”, disse a professora aposentada Kris Cameron, de Wenatchee, EUA. “Sempre tivemos o poder de mitigar os efeitos das alterações climáticas; só precisamos aplicá-lo.” 

Kris faz parte do Grupo Rotary em Ação pela Sustentabilidade Ambiental e da sua força-tarefa focada em dietas ricas em vegetais. Esta força-tarefa visa conscientizar as pessoas ao redor do mundo sobre seu poder individual, e as escolhas de alimentos que podemos fazer coletivamente para reduzir as emissões que aumentam a temperatura no planeta.

Niels Lund, do Rotary Club de Solana Beach Eco, EUA, coleta produtos não vendidos de um mercado agrícola para entregar em uma despensa de mantimentos. Reduzir o desperdício de alimentos é uma das soluções climáticas mais impactantes.

O interesse em dietas à base de plantas está crescendo, em grande parte, devido às preocupações com as mudanças climáticas, outros impactos ambientais, bem-estar dos animais e a saúde em geral. Como o nome sugere, essas dietas incluem frutas e vegetais, além de nozes, sementes, óleos, grãos integrais, legumes e feijões. E elas envolvem menos produtos de origem animal, como carne, laticínios, ovos, peixe e frutos do mar. 

O Rotary Club de Wenatchee Confluence, do qual Kris é associada, conscientiza a comunidade organizando uma festa mensal à base de plantas que atrai multidões à Associação Cristã Feminina local. Numa quinta-feira à noite, em junho, a cozinha comunitária ficou repleta de risadas descontraídas e do aroma intrigante de uma dúzia de pratos, incluindo uma paella vegetariana com alcachofra em vez de frutos do mar, um picante prato tailandês de vegetais crus e saladas coloridas. 

Agricultura e uso da terra são as atividades que mais emitem gases oriundos da produção de alimentos, incluindo o metano proveniente da flatulência do gado, o óxido nitroso dos fertilizantes e o dióxido de carbono liberado pelo desmatamento de florestas para explorações agrícolas e pastagens. O desperdício de alimentos, juntamente com o metano gerado nos aterros, é outro agravante. 

Uma mudança mundial para dietas baseadas em vegetais até 2050 poderá levar à remoção de dióxido de carbono suficiente da atmosfera para manter o aquecimento global em 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, de acordo com um estudo publicado em 2021 pela Nature Sustainability. Por outro lado, se não houver nenhuma mudança neste sentido, o consumo global de alimentos poderá acrescentar quase 1 grau Celsius de aquecimento até 2100, concluiu um estudo publicado na revista Nature Climate Change. 

O estudo da Oxford, realizado no Reino Unido, constatou que se os britânicos que comem mais de 100 g de carne por dia reduzissem o seu consumo para menos de 50 g, isso seria o equivalente a tirar 8 milhões de carros das estradas. 

Para materializar esse potencial, os ativistas do clima estão pressionando pela adoção de um Tratado Baseado em Plantas, que vem a ser um compromisso centrado na alimentação para mitigar as alterações climáticas, como complemento ao Acordo de Paris, de 2015. E o Project Drawdown, um grupo investigativo que estuda soluções climáticas, considera a adoção em larga escala de dietas ricas em vegetais como a segunda forma mais eficaz de manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius até 2100.

Em números

1/3

é a parcela das emissões dos gases de efeito estufa causada pelo homem proveniente dos sistemas alimentares

+1°

Celsius de aquecimento que o atual consumo alimentar pode adicionar entre agora e 2100

-75%

de diferença entre as emissões geradas por uma dieta vegana e uma com pelo menos 100 g de carne por dia

Kris cresceu na área rural do estado de Washington, em meio à criação de gado. “Se você não comia carne todos os dias, havia algo errado com você”, disse ela.  

Sua mudança para vegetariana começou há dois anos, depois que ela trouxe para casa quatro pintinhos. À medida que pesquisava a melhor forma de cuidar deles, e quanto mais lia sobre agricultura, menos ela queria comer a carne de animais criados em fazendas industriais. Em 2022, quando passou a integrar a força-tarefa do Grupo Rotary em Ação pela Sustentabilidade Ambiental, Kris soube que no ano anterior quase 600 pessoas em todo o mundo haviam participado do desafio on-line de dieta rica em vegetais de 15 dias organizado pelo grupo.  

Visando ampliar o sucesso do desafio, Kris criou uma versão que pessoas e comunidades inteiras poderiam seguir a qualquer momento, a qual é oferecida on-line pelo Grupo Rotary em Ação. Dezenas de pessoas, organizações e clubes inteiros participam, incluindo o Rotary Club de Singapura, com cerca de 200 associados.  

Além dos benefícios para a saúde, ela também gosta de sair para comprar alimentos. “Quando estou na mercearia, sinto como se estivesse numa caça ao tesouro. Comer ficou bem mais divertido.”

Kris organiza apresentações no museu municipal, incentiva a educação culinária baseada em vegetais em um banco de alimentos e colabora com uma organização de saúde que presta serviços clínicos na região. Ela também ajudou a elaborar um guia de recursos regionais que lista as opções à base de plantas em restaurantes e mercearias da região. “Fui à nossa câmara de comércio perguntar se eles queriam usar o guia e eles aceitaram de imediato, dizendo que eram sempre contatados por pessoas querendo saber onde poderiam encontrar este tipo de restaurante.”

A informação é fundamental. Na Alemanha, quando os alunos dos refeitórios universitários foram informados do custo ambiental de cada prato, escolheram aqueles que reduziriam a sua pegada de carbono em quase 10%. A Greener by Default organização americana sem fins lucrativos, trabalha com instituições para tornar os alimentos à base de plantas a opção padrão dos cardápios, uma abordagem que está aumentando significativamente o consumo de refeições à base de plantas e, assim, reduzindo as emissões de carbono. 

Para Kris e seus companheiros de clube, cortar a carne foi apenas o primeiro passo. “A partir daí, você passa a pensar mais em todo o desperdício, especialmente o de alimentos, e na reciclagem”, diz ela. De acordo com o Project Drawdown, a redução do desperdício alimentar é a solução climática que teria o maior impacto no sentido de limitar o aquecimento global a não mais do que 2 graus Celsius até 2100. 

O Grupo Rotary em Ação publicou recentemente um manual de eventos verdes para ajudar os rotarianos a organizar encontros em que os próprios convidados levam os comes e bebes (chamados de potluck), reduzindo o uso de materiais e de energia, e minimizando a poluição. O manual incentiva os associados do Rotary a implementarem melhores práticas na seleção de locais, eliminação de resíduos, reciclagem, transporte, energia e compensação de carbono.

Globalmente, desperdiçamos entre um terço e um quarto dos alimentos, ao passo que 25% da população sofre de insegurança alimentar”, diz Amelie Catheline, associada do Rotary Club de Solana Beach Eco, EUA, e presidente da força-tarefa de combate ao desperdício de alimentos do Grupo Rotary em Ação. 

À medida que os resíduos alimentares se decompõem, eles produzem metano – um gás com efeito estufa ainda mais potente que o CO2 em curto prazo. Globalmente, os aterros sanitários e as águas residuais emitem 70 milhões de toneladas métricas de metano, cerca de um quinto de todas as emissões deste gás causadas pela humanidade, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

O clube da Catheline oferece suporte para eventos locais, incluindo uma feira onde os associados do Rotary coletam alimentos não vendidos para doar a uma despensa e festivais no parque, durante os quais o clube fornece estações de triagem de resíduos, rotuladas com o objetivo da iniciativa: “Desperdício Zero”.

Uma coisa que estas mudanças de hábito não fazem é diminuir a diversão. Os encontros potluck do clube de Wenatchee Confluence foram iniciados pela presidente de 2022-23, Wendy DalPez. “Especialmente no início, quando a pessoa quer passar a cozinhar mais comidas à base de plantas, é desmotivador e caro comprar todos os ingredientes para novos pratos que a gente nem sabe se vai gostar.” Assim, os encontros potluck oferecem a oportunidade de provar novos sabores e texturas, trocar ideias e receitas. E eles estão abertos a todos, não apenas a quem é do Rotary.

O evento de junho foi ainda mais delicioso graças ao bufê de sundae, com sorvetes feitos de leite de noz, de aveia e de coco. “Eu achava impossível deixar de comer queijo, mas nem foi difícil”, lembra DalPez, que trouxe um cheesecake vegano feito com creme de coco. Em lugar de derivados de leite, ela usou manteiga de leite de aveia e queijo feito de caju. 

Artigo originalmente publicado na edição de dezembro de 2023 da revista Rotary.

Fonte: Reflita sobre a sua pegada alimentar de carbono | Rotary International

Ilustrações: Silvana Santos