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Nossa entrevistada
desta edição comemorativa é a querida Ana Lúcia Tostes de Aquino Leite: um
nome de destaque na área da Educação Ambiental(EA)
do Brasil, pelo tanto que realizou, realiza e realizará pelas questões
educacionais e ambientalistas. Destacou-se no cargo de Diretora do PNEA
(Programa Nacional de Educação Ambiental) do MMA quando muito incentivou a
consolidação da EA através de diversos projetos, entre eles: o Curso Básico
de Educação Ambiental à Distância. Vamos saber um pouco mais da sua valiosa
experiência. -
A Educação Ambiental no Brasil tem-se fortalecido muito com as ações
propostas pelo MMA, principalmente através do Programa Nacional de Educação
Ambiental/PNEA do qual você foi diretora. Como foi o início do PNEA e quais as
ações por ele desenvolvidas que você destacaria? Bere
e demais companheiros e companheiras desse construir a Educação Ambiental,
antes de tudo eu gostaria de dizer que foi com enorme prazer que recebi o
convite para essa entrevista. É muito bom poder prestar contas do que se fez,
sobretudo se nesse fazer pudemos compartilhar com pessoas com as quais partilhávamos
dos mesmos propósitos. E foi muito assim trabalhar no Programa Nacional de
Educação Ambiental, primeiro como técnica e depois como Diretora. O
PNEA nasce no MMA praticamente ao mesmo tempo em que é votada a Lei 9795/99.
Esse início foi um grande laboratório, onde foram propostas várias ações,
que posteriormente vão se consolidando. Nesse
início foram delineadas as ações dos pólos, o sibea e, num momento posterior
o curso básico de educação ambiental à distância. Foram também retomadas
as articulações internacionais com a Red de Formación Ambiental para América
Latina y Caribe/PNUMA, com a qual desenvolvemos ações conjuntas. -
O Curso Básico de Educação Ambiental à Distância foi um importante feito no
período de sua gestão. Como aluna saliento que foi uma experiência
gratificante e desafiadora. Fale um pouco desta experiência, das expectativas e
dos resultados obtidos. O
Curso realmente foi, mais que um sucesso, um enorme desafio. Começou com a
produção do material – todo inédito e feito especialmente para o curso. O
grande mérito desse material é que se conseguiu reunir uma série de
documentos e conteúdos dispersos em um único material. Até enquanto estive no
ministério, em abril, depois de passado um ano desde a conclusão do último
curso, continuávamos recebendo solicitação de material, que estava sendo
usado por faculdades e universidades por todo o país, além de prefeituras,
ong’s e outros. Lembro-me de um pedido que veio de um grupo de estudos que
estava se reunindo em um parque e faziam uso do material de um funcionário que
estava se aposentando, e o grupo queria continuar o estudo e pedia que enviássemos
o material o quanto antes. Dias depois recebo um e-mail agradecendo e dizendo
que não foi interrompido nenhum encontro, que o material tinha chegado a tempo.
No
piloto, com um primeiro desenho para atender 1500 pessoas, foi ampliado para
4000. A avaliação desse piloto foi fantástica, 75% dos inscritos finalizaram
o trabalho final. Com esses resultados demos um grande passo, atendemos 15000
pessoas, que estavam distribuídas em quase três mil municípios, contemplando
todos os estados brasileiros. O
retorno que recebi, quer seja por e-mail, quer seja encontrando as pessoas dos
mais diferentes pontos do país, me dão a exata dimensão do que significou
esse curso a distância. Temos a certeza dos quase 19000 capacitados
diretamente, mas não temos a dimensão dos capacitados indiretamente nos grupos
de estudo de ong’s, de prefeituras, dos inúmeros cursos de graduação que
listaram o material como bibliografia de consulta, enfim, de todos que se
capacitaram de modo indireto. Tenho uma grande satisfação com esse trabalho. -
A Internet tem-se revelado como uma importante ferramenta para a consolidação
da Educação Ambiental. Como você vê esta questão? A Internet, cada vez mais democratizada, encurtou espaço e tempo e tem se mostrado uma grande ferramenta não só de comunicação como também de democratização da informação. A consolidação do Sibea se deu exatamente nesse contexto. Primeiro disponibilizando as informações disponíveis no âmbito do Ministério, depois possibilitando, via recursos do FNMA, a consolidação das redes de EA e a construção conjunta de diagnóstico da EA no pais, bem como a alimentação do sistema. -
Hoje temos fortes aliados que buscam a consolidação da Educação Ambiental no
Brasil. Quais nomes você poderia destacar pelas iniciativas e ações
realizadas? Morro de medo de fazer citações e cometer injustiças, ou pior ainda, esquecer as pessoas. Então vou citar em primeiro lugar a Nana, que tem um papel histórico na educação ambiental do país e que foi meu braço direito no MMA. Ainda como grande parceiro, e que tem desempenhado papel relevante está o Ibama, na figura do Professor Quintas. Nos governos estaduais, a implantação dos pólos de EA, com as Comissões Interinstitucionais, garantem a consolidação da EA nas unidades da federação, aí só para citar alguns, temos o exemplo de Minas Gerais, Tocantins, Rio Grande do Norte e Ceará, dentre outros tantos que têm levado esse trabalho muito a sério. Como experiência fora do âmbito governamental, é impossível não citar a sua Bere, que é toda coração. -
Qual é, na sua opinião, o maior problema que a Educação Ambiental
enfrenta? A necessidade premente de se consolidar. Como é uma dimensão nova, ainda em construção, com muitos olhares, e percepções diferentes, essa consolidação não tem sido fácil. Sair da dimensão da educação infantil, do projeto de reciclagem escolar para assumir uma dimensão maior, inserida no planejamento dos gestores governamentais ainda não é realidade consolidada. Caminhamos um pouco nessa direção, mas a trilha ainda é longa. As diferentes correntes da EA, muitas vezes competitivas ou contraditórias entre si, ainda precisam de muita reflexão. A todos nós não basta boa vontade e voluntarismo, temos que estudar muito. -
Para finalizar, qual é a importância da Educação Ambiental? Aproveite para
deixar uma mensagem aos/as leitores/as da Educação Ambiental em Ação. Falar
da importância da EA é falar do nosso compromisso ético com a vida, com o
planeta, com a cultura, com a humanidade... Ter instrumentos que nos ajude a
re-interpretar essas relações intrínsecas entre os seres, assumir essa ética
ambiental. Conviver e saber pactuar no conflito. EA para mim é isso tudo, além
de ser também um grande instrumento de gestão pública. Espero realmente ver a
educação ambiental consolidada, seja no âmbito formal, com cada escola tendo
a EA inserida no seu projeto político pedagógico, seja no âmbito da
comunidade, como instrumento de mediação de conflito e de apropriação do
meio, na consolidação de um desenvolvimento sustentável e sustentado. Aproveito
mais uma vez para agradecer a todos que foram parceiros
durante o meu tempo à frente do Programa Nacional de Educação
Ambiental. Tenho certeza que ainda temos uma longo caminho a trilhar , com muita
reflexão e revisão das nossas práticas, mas tenho certeza que o resultado
dessa nossa construção coletiva será muito bonito. Um
carinho muito grande a todos. Ana
Lucia Ana Lúcia! Agradecemos pela oportunidade da entrevista e por tudo o que você fez pela Educação Ambiental – e ainda fará. Muito obrigada! Berenice Gehlen Adams e Equipe da revista eletrônica Educação Ambiental em Ação |