ISSN 1678-0701
Número 63, Ano XVI.
Março-Junho/2018.
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10/03/2018ASPECTOS SOCIODEMOGRÁFICOS DOS COMERCIANTES DE PLANTAS MEDICINAIS DA FEIRA DE OEIRAS, PIAUÍ  
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ASPECTOS SOCIODEMOGRÁFICOS DOS COMERCIANTES DE PLANTAS MEDICINAIS DA FEIRA DE OEIRAS, PIAUÍ


Francisca Carla Silva de Oliveira1, Roseli Farias Melo de Barros2


1Especialista em Educação Ambiental pela FATEPI/FAESPI, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Piauí/UFPI, Doutorado em andamento em Desenvolvimento e Meio Ambiente (DDMA) pela UFPI. E-mail: carlaoliveira@ufpi.edu.br

2Mestre e Doutora em Botânica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, Curadora do Herbário Graziela Barroso/TEPB, docente na Universidade Federal do Piauí, Departamento de Biologia, Coordenadora do Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Av. Universitária, 1310, Campus Ministro Petrônio Portela, CEP: 64.049-550, Teresina-Piauí. E-mail: rbarros.ufpi@gmail.com



Resumo: Objetivou-se conhecer os comerciantes de plantas medicinais que trabalham na feira de Oeiras, Piauí. Foram realizadas entrevistas com aplicação de formulários semiestruturados. Verificou-se que os feirantes são reconhecidos como especialistas locais. A feira é um local de intercâmbios culturais e econômicos.

Palavras-chave: cidade, etnobotânica urbana, feirantes.


Abstract: This paper aims to oknowledge the medicinal plants merchants that work at the fair of Oeiras, Piauí. Interviews were conducted by the application of semistructured. It has been found that the marketers are recognized as local experts. The fair is a place of cultural and economic exchanges.

Keywords: city, urban ethnobotany, fair traders


Introdução


O uso de plantas medicinais esteve circunscrito às populações rurais e tradicionais. Com o processo de urbanização e adensamento populacional nas cidades, o acesso às etnoespécies se tornou mais difícil e o conhecimento restrito a um número cada vez menor de pessoas. Assim, as áreas urbanas emergiram como novos cenários e desafios para a etnobotânica (TRESVENZOL et al., 2006; PIERONI; VANDEBROEK, 2007; KUJAWSKA, 2011).

Neste contexto multicultural, destaca-se a figura dos erveiros, especialistas locais que possuem conhecimentos associados ao uso e preparo de plantas com finalidade terapêutica. Com este status, passaram a comercializá-las nas feiras, especialmente, para atendimento às necessidades materiais e simbólicas da população (MASCARENHAS; DOLZANI, 2008; KUJAWSKA, 2011).

A compreensão da interação entre os processos sociais, culturais, econômicos e ecológicos incluídos na atividade e complexidade do tema, tornaram as feiras livres verdadeiros sítios de resistência e de intercâmbios de conhecimentos, caracterizados, dentre outros aspectos, pela coexistência de diferentes universos simbólicos (LADIO; ALBUQUERQUE, 2014).

As espécies incluídas nas farmacopéias tradicionais e o conhecimento a elas associados, devem ser preservados e, para isso, é necessário que se faça a identificação dos atores sociais que detém estes saberes e a dinâmica que inclui os usos de plantas na terapia nos processos diários da comunidade (ALENCAR, 2012).

Assim sendo, a atividade econômica geradora de renda dos feirantes, o comércio de plantas medicinais, (re)produz culturas a partir de experiências vividas com o meio natural. A relevância dessa produção pode ser identificada em estudos que abordaram áreas urbanas dentro deste contexto e evidenciaram que podem gerar dados importantes para assistência à saúde da população local (BALIK et al., 2000).

A venda de plantas medicinais inclui trocas tanto de naturezas socioeconômicas como culturais, pois além do estabelecimento de relações comerciais, a atividade possibilita o atendimento das necessidades básicas de saúde das pessoas e, ainda, assegura a manutenção de saberes empíricos historicamente constituídos (AGRA, 1996; CARVALHEIRO, 2010; MONTEIRO et al., 2010; MACHADO, 2014).

Diversos trabalhos registraram a importância dos especialistas locais e evolução histórica da relação entre pessoas e plantas em espaços urbanos. Destacam-se as pesquisas desenvolvidas no Brasil por Parente e Rosa (2001), Dantas e Guimarães (2006), Tresvenzol et al. (2006), Alves, Silva e Alves (2008), Monteiro et al. (2010), Conceição et al. (2011), Ethur et al. (2011), Freitas (2012), Dantas e Ferreira (2013), Medeiros, Ladio e Albuquerque (2013), Rocha et al. (2013), Leitão et al. (2014), Lima, Coelho-Ferreira e Santos (2014), Alves et al. (2016) e Cajaíba et al (2016).

Diante da relevância econômica e cultural das plantas comercializadas em feiras livres para uso terapêutico, objetivou-se caracterizar os vendedores em seus aspectos sociodemográficos, visando responder as seguintes perguntas: (1) Qual perfil socioeconômico possuem? (2) Como se deu a apropriação dos conhecimentos acerca de plantas medicinais? (3) Qual a importância dos quintais das residências dentro deste sistema?(4)Como está estruturada a atividade de venda de plantas medicinais na feira? (5) Quais os agentes envolvidos na comercialização? (5) Qual a importância econômica e cultural da flora medicinal para os vendedores?


Materiais e métodos


Caracterização da área de estudo


Oeiras possui extensão territorial de 2.702,5 km², população estimada de 35.646, densidade demográfica de 13,19 hab./km² (IBGE, 2010), distando aproximadamente 300 km da capital Teresina, Piauí (Figura 1).


Figura 1. Localização do município de Oeiras, Piauí, Nordeste do Brasil.

Fonte: IBGE (2010), adaptado por Karoline Veloso.

A pesquisa foi desenvolvida na feira de Oeiras, Piauí, com sete signatários que comercializam plantas medicinais. Especificamente para este estudo, o termo feira é empregado como referência a um local permanente, situado no Centro Histórico do município de Oeiras, onde são comercializados, por um lado, produtos rurais vendidos in natura, sem nenhum processamento, onde estão incluídas as plantas medicinais; e, por outro, produtos industrializados, advindos do advindos do ambiente urbano (borracha para panela de pressão, sandálias, vassouras para vasculhar o teto das casas, chapéus de palha, condimentos, baladeiras, cd, dvd, dentre outros).

A feira municipal é, portanto, um espaço dinamizador do comércio local, com revenda de diveros produtos (frutas, verduras, produtos de artesanato, decoração, roupas, etc.), local onde estão os feirantes (doravante também denominados vendedores, erveiros, comerciantes e entrevistados), cuja atividade é regulamentada junto à Prefeitura Municipal de Oeiras. O termo etnoespécie está em conformidade com o proposto por Hanazaki et al. (2000).


Métodos e técnicas


O projeto de pesquisa fora apresentado à autoridade municipal local, para informação das intencionalidades da pesquisa. Posteriormente, foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí/UFPI (CAAE nº 38310014.1.0000.5214).

Para seleção dos entrevistados utilizou-se a metodologia “bola de neve” (ALBUQUERQUE et al., 2014). Participaram sete feirantes que comercializam plantas medicinais, após serem informados, individualmente, dos objetivos da pesquisa e obtenção de suas anuências formais no Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE). Adotou-se como critério de inclusão de participantes: serem comerciantes de plantas medicinais de forma contínua e assídua há mais de um ano, de forma exclusiva ou associada a outros produtos. Oito feirantes atendiam a este critério, apenas um deles recusou-se a participar da pesquisa.

A coleta de dados socioeconômicos, origens do conhecimento sobre o uso das etnoespécies, agentes envolvidos na atividade de venda de plantas medicinais, espécies presentes nos quintais das residências, origem biogeográfica das etnoespécies citadas (nativa, quando originária do Brasil; exótica, com origem em outros continentes) foram feitas mediante entrevistas, com aplicação de formulários semiestruturados (MARTIN, 1995; ALBUQUERQUE et al., 2014), no período compreendido entre os meses de janeiro e dezembro de 2016. Em seguida, os dados foram transcritos e analisados, em conjunto com as informações registradas em diário de campo.


Resultados e Discussão


Com relação à faixa etária dos entrevistados, a média é de 58 anos, variando entre as idades de 48 a 72, dados que corroboram com Alves, Silva e Alves (2008). Alencar, Ferreira Jr. e Albuquerque (2014) evidenciaram que o número de espécies conhecidas não apresenta relações significativas com o gênero e idade dos informantes. O tempo em que trabalham com o comércio de plantas medicinais variou entre 25 a 60 anos, obtendo-se a média aproximada de 29 anos, sendo o tempo de trabalho um aspecto que se sobrepõe à idade, no quesito reconhecimento local.

Para Soldati et al. (2011) o conhecimento concentrado apenas nas pessoas mais velhas e o não reconhecimento de outros indivíduos como portadores de conhecimento significativo, deve-se à ausência de ambientes ou eventos sociais importantes de socialização e difusão dos saberes. Em estudo em uma área de Caatinga, Arévalo-Marin et al. (2015) identificaram que a idade e gênero influenciam, positivamente, no conhecimento e usos de plantas nativas, constatando que onde os homens mais velhos conhecem uma quantidade maior de etnoespécies.

Quanto à escolaridade, 42,9% não são alfabetizados, 28,5% iniciou o ensino fundamental, 14,3% possui o ensino fundamental completo e 14,3% iniciou o ensino médio. A totalidade dos entrevistados são casados, católicos, tem filhos e netos e moram na zona urbana do município de Oeiras, Piauí. Destes, 57,1% nasceram na zona rural do município, 29% vieram de outros municípios piauienses ou de outros estados (14,3%). Afirmaram que mantém vínculos com o ambiente rural, por possuir propriedades e/ou mediante vínculos familiares, se deslocando para este espaço em feriados religiosos e/ou prolongados e/ou coleta de espécies medicinais.

A totalidade dos entrevistados são do gênero masculino, predomínio também evidenciado em pesquisas realizadas com vendedores de plantas medicinais em Lagoa Nova, Rio Grande do Norte (ROCHA et al., 2013), Belém, Pará (DANTAS; FERREIRA, 2013), Teresina, Piauí (ALVES; SILVA; ALVES, 2008; CONCEIÇÃO et al., 2011). Diferentemente, em Serra Leoa (África), Jusu e Sanchez (2014), verificaram que no comércio de plantas medicinais há maior participação do gênero feminino, situação relacionada promoção de igualdade de gênero, erradicação da pobreza extrema e da fome e, ainda, valorizando e instituindo o empoderamento das mulheres.

O fator determinante para o envolvimento no comércio de plantas medicinais foi a influência familiar. Dado este que se assemelha ao evidenciado por Lima, Coelho-Ferreira e Santos (2014). Ao serem perguntados quanto às formas de aquisição de conhecimento, 85,7% revelaram que o aprendizado foi adquirido pela transmissão oral com os antepassados (pais, avós e tios), como pelo trabalho na feira, referindo aos procedimentos de como dá o uso terapêutico das plantas; já 14,3% acumularam informações na experiência vivida no trabalho na feira livre, com outros vendedores e consumidores, bem como pelo intermédio de programas de televisão, sítios eletrônicos e/ou livros. Assim, ratifica-se que a transmissão do conhecimento relacionado às espécies vegetais medicinais se dá pela evolução cultural, que, segundo Marin (2014), resulta da combinação: transmissão horizontal (feita entre membros da mesma geração), transmissão vertical (repassado de pais para filhos) e transmissão oblíqua (saberes adquiridos ou transmitidos por diversas fontes), que embora diferentes não são excludentes.

Há uma maior participação das espécies nativas (82,8%) e em menor número de espécies exóticas (17,2%) na atividade comercial desenvolvida. Estudos desenvolvidos em áreas de Caatinga, por Freitas et al. (2012) em São Miguel, Rio Grande do Norte e Medeiros, Ladio e Albuquerque (2014) revelaram também o predomínio de espécies vegetais medicinais nativas sendo comercializadas no espaço urbano e que os padrões de uso são influenciados, predominantemente, pelo ecossistema de ocorrência e não pela urbanização. A inclusão de espécies exóticas nos sistemas médicos locais, de acordo com Alencar (2012), não representa perda do conhecimento nativo, pelo contrário, pode ser compreendida como ampliação dos repertórios medicinais, diversificando as opções terapêuticas e uso no combate às doenças em que as nativas não são eficazes.

A coexistência de espécies nativas e exóticas no repertório de uso, segundo Giraldi e Hanazaki (2010) pode refletir o histórico de miscigenação cultural, observado desde os tempos da colonização. Para Florentino, Araújo e Albuquerque (2007) o predomínio de espécies introduzidas, em detrimento das nativas, tornam os quintais áreas semelhante aos sistemas florestais naturais e, ainda, que a ocorrência de nativas reduz a pressão deste recurso no ambiente natural. Em Benin (África), Quiroz et al. (2014) identificou que uma espécie muito demandada localmente para uso medicinal e declarada extinta na natureza, devido a super exploração, permanece disponível nos quintais das residências.

A indicação de uso de preparados medicinais em associação com medicamento alopáticos é bem comum, o que pode indicar, segundo Giraldi e Hanazaki (2010), complementaridade entre as medicinas moderna e popular. Segundo Ladio e Albuquerque (2014) os sistemas simbólicos modernos são formados por um processo de hibridização, caracterizados pela sobreposição de fatores econômicos e culturais.

Em todas as residências dos homens entrevistados, as mulheres são responsáveis pela seleção de espécies vegetais presentes nos quintais para atendimento das necessidades da família (alimentação, ornamentação, mágico-religioso, terapia, etc.). Vários estudos evidenciam que estes espaços são áreas de domínio das mulheres em região de Caatinga, como demonstrado por Oliveira, Barros e Moita Neto (2010), Alencar (2012) e Alencar, Ferreira Jr. e Albuquerque (2014).

Situados no entorno das residências, as espécies vegetais medicinais presentes nos quintais (sendo citada a ocorrência de espécies nativas e exóticas), são compartilhadas por familiares, vizinhos e amigos. Os entrevistados revelaram que as trocas e pedidos de mudas são eventos comuns no contexto local e que as espécies não estão incluídas na atividade comercial da feira. Neste sentido, os quintais são considerados por Amorozo (2008) como espaços de usos múltiplos, influenciados pela vegetação natural e clima local, tendo por funções a domesticação e aclimatação de espécies e, ainda, conservação da agrobiodiversidade.

A cessão e o espaço para montagem das barracas pelos feirantes são regulamentados pela Prefeitura Municipal de Oeiras, Piauí, com a cobrança de tarifa para manutenção do local e coleta do lixo. Há 300 signatários na feira e o cadastro é realizado de acordo com o tipo de produto comercializado. A comercialização de plantas medicinais é considerada formal e em pequena escala, embora nenhum deles desenvolva como atividade exclusiva; apenas um comerciante como revenda de condimentos. Segundo os entrevistados, a venda de plantas medicinais é menos rentável que a dos outros produtos e, assim, é realizada como atividade secundária. Contrapõe-se aos comerciantes ambulantes, que negociam produtos e serviços, exceto plantas ou parte destas, por todo o espaço da feira e da cidade de Oeiras, transportando seus produtos, sem que haja um local fixo para permanência, como também evidenciado por Northe e Van Wyk (2015) nos mercados africanos e Ethur et al. (2011) em Itaqui/RS.

A feira livre é permanente e as atividades são desenvolvidas durante toda a semana com um fluxo da clientela variável, sendo mais intenso no sábado, regionalmente denomiando “Dia de Feira”. Há um incremento nas vendas nos dias do recebimento de aposentadoria e/ou benefícios sociais, quando os moradores de comunidades rurais e de municípios menores situadas no entorno, deslocam-se até a cidade para recebê-los. Estas remunerações, segundo os comerciantes, dinamizam a economia local, aumentando sobremaneira a demanda por produtos, inclusive de plantas medicinais e o incremento nas vendas representa uma maior lucratividade.

As barracas são construídas de madeira e cobertas de lona; são dispostas de forma setorizada, de acordo com os produtos vendidos, havendo um local onde se concentram os vendedores de ervas medicinais. As formas de exposição e dos produtos vegetais se relacionam a alguns fatores: maior demanda e preços mais elevados ficam expostos na frente da barraca; raízes e cascas situam-se na parte inferior; na frente são penduradas as ervas/órgãos frescos. A forma de apresentação dos produtos aos consumidores é semelhante á descrita por Silalahi et al. (2015), na Indonésia, o que pode evidenciar que a forma de exposição pode influenciar em uma maior visibilidade do produto, aumentando sua venda.

O espaço onde estão alocadas as barracas é mantido limpo pelos vendedores, embora o entorno da feira esteja descartado bastante lixo, uma vez que a coleta não é realizada diariamente. Embora os vendedores tenham revelado reduzidos anos de escolaridade, a limpeza constante do espaço da barraca, preocupação com a manutenção de condições sanitárias adequadas e menção à inadequação do consumo do material “estragado” e “mofado” demonstram conhecimento dos riscos de contaminação do material vegetal.

As plantas medicinais são acondicionadas, predominantemente, em cestos de palha e/ou embalagens e utensílios plásticos. A preferência foi associada à facilidade de transporte, custos reduzidos e como forma de evitar a proliferação de microorganismos: “Eu coloco nas vasilhas e sacos de plástico para não estragar, bicho não comer e nem mofar” (C., erveiro). Não há um órgão fiscalizador das condições fitossanitárias do local.

A venda de espécies medicinais tem o envolvimento de várias pessoas, com funções bem definidas: coletores (indivíduos que colhem as etnoespécies no ambiente natural e vendem para os atravessadores e/ou feirantes), atravessadores (pessoas que abastecem as barracas com as espécies vegetais), vendedores (indivíduos que vendem as espécies vegetais na feira para o consumidor final) e consumidores (pessoas que adquirem as espécies dos feirantes para uso). Os feirantes atuam predominantemente como vendedores de plantas medicinais e, de forma secundária, como coletores (Figura 2).


FIGURA 2 - Representação da cadeia produtiva do comércio de espécies vegetais para uso medicinal na feira de Oeiras, Piauí, Nordeste do Brasil.


Assim, há três formas de aquisição de etnoespécies: coleta, compra dos coletores ou aquisição por meio dos atravessadores. Os consumidores são, predominantemente, pessoas de menor poder aquisitivo, jovens do gênero feminino e idosos e, em menor número, turistas. Os raizeiros afirmaram que as plantas comercializadas por eles são compradas em Oeiras, Piauí e Picos, Piauí, extraídas localmente e/ou são originárias de outros municípios (Picos, Santa Rosa e Teresina) ou estados, como a Bahia (Juazeiro) e Pernambuco (Petrolina). Isto, segundo os feirantes, ocorre quando há dificuldade em encontrar as plantas de interesse nas regiões próximas a Oeiras, Piauí. O desmatamento ocasionado pela urbanização e/ou ampliação de áreas agrícolas e pastagens, são apontados por Tresvenzol et al. (2006) como fatores que dificultam o acesso as etnoespécies em espaços urbanos.

Os entrevistados relatam que ainda não participaram de curso com orientações voltadas para a comercialização de plantas, porém revelaram interesse, especialmente acerca dos cuidados com manuseio, secagem e armazenamento das partes vegetais, o que, segundo eles, minimizará as perdas e, com isso, aumentará a lucratividade. Ao se fazer uma analogia, é relevante considerar que em análise da qualidade das espécies comercializadas, no mercado Muti Faraday em Johannesburgo (África), Van Vuuren et al. (2014) constataram que eram baixos os níveis de patogenicidade dos 15 microrganismos identificados nas etnoespécies. Conforme Idu, Erhabor e Efijuemue (2010), a avaliação periódica das plantas empregadas na etnomedicina e comercializadas em mercados públicos é imprescindível para avaliação dos padrões fitossanitários e se estão adequadas para o consumo. O conhecimento insuficiente sobre as plantas comercializadas, risco de falsificações, falta de controle de qualidade do material vegetal e uso de plantas sem considerar as interações, são condições apresentadas por Tresvenzol et al. (2006) que aumentam os riscos para os consumidores de preparados a base de plantas na terapia.

Embora a feira seja permanente, os feirantes costumam se deslocar para feiras temporárias, sediadas em outros municípios, especialmente para comercialização de seus produtos. O deslocamento dos vendedores para outras localidades do entorno, também foi evidenciado Freitas et al.(2012) em São Miguel, Rio Grande do Norte, momentos que deixam a barraca aos cuidados de algum familiar ou terceiros.

A atividade da feira é a fonte de renda principal para 71,5% dos entrevistados. Porém, paralelamente, desenvolvem outras atividades paralelas (57,12%) e/ou recebem aposentadoria ou benefícios sociais do Governo Federal (85,68%). O exercício de atividades econômicas simultâneas ao trabalho na feira para complementar a renda familiar também ficou evidenciado na pesquisa desenvolvida por Lima, Coelho-Ferreira e Santos (2014).

Dentro deste sistema, além de vender seus produtos, os feirantes estabelecem outras formas de negociação entre si, a troca ou empréstimo de mercadoria entre os comerciantes. Quanto à renda mensal 85,5% afirmaram desconhecer o valor total arrecadado, pois não há registro ou controle de caixa; 14,3% revelam que o rendimento é de 1,5 a 2,5 salários mínimos/mês. A ausência de planejamento econômico e de conhecimentos técnicos adequados dos feirantes na venda de plantas medicinais, segundo Rocha (2015), pode ocasionar o desaparecimento da atividade a médio ou longo prazo.

O uso da vegetação é referenciado pelos entrevistados como primeira alternativa da população de cuidados com a saúde, seja para tratar doenças físicas e/ou espirituais. Para algumas espécies, há rituais de uso, sobrepondo-se os usos medicinais e mágico: “O moleque-duro é uma planta. A mãe faz o chá se a criança ainda está mole. Se a criança não anda, ele faz andar” (J., erveiro); “Os galhos de pinhão-roxo usa para benzer menino novo, com quebranto. Fica bonzim. Pode também plantar na frente da casa, que mau-olhado naõa entra”(C., erveiro).

Os entrevistados revelaram que na celebração em Louvor ao Bom Jesus dos Passos, realizada no período da Semana Santa, as pessoas carregam ramos de alecrim-dos-passos (Rosmarinus officinalis Linn) por todo o percurso, como parte de tradição secular.Após a procissão, colocam na decoração de suas casas, para trazer ”bons presságios”. Apenas neste período a planta é comercializada na feira para atendimento da demanda, especialmente de turistas. Consoante ao exposto, a eficácia das plantas medicinais é atribuída, pelos erveiros, na associação de três requisitos: fé, ritual no preparo e uso conforme a prescrição dos especialistas locais

Para o presente estudo, identificou-se que são comercializadas 64 espécies na feira de Oeiras para uso na terapia. Anteriormente, no município, foram registrados dois estudos com plantas medicinais: o primeiro deles, desenvolvido por Jenrich (1989), com registro de 40 espécies de ocorrência comum nas Chapadas do Piauí Central e por Oliveira, Barros e Moita Neto (2010), que identificaram as plantas medicinais utilizadas por moradores da zona rural, sendo 84,4% pertencentes à vegetação nativa. Do total comercializado na feira, 85,94% são nativas. Estes dados revelam que os usos associados das espécies documentadas em comunidades rurais foi incorporada pelas populações urbanas, o que pode favorece a permanência e propagação deste conhecimento (LEITÃO et al., 2014).


Considerações finais


Os feirantes são especialistas locais, cujos saberes são legitimados e no contexto local. A feira é um espaço onde converge etnoespécies de diferentes origens, com predomínio das nativas na atividade comercial. As formas de obtenção pressupõe ausência de pressão sobre os recursos nativos. Além da importância econômica para os vendedores, a comercialização de plantas medicinais apresenta-se como importante para a população local, apresentando-se como alternativa nos cuidados com a saúde e no tratamento de doenças físicas e espirituais.

A inserção dos feirantes em programas de educação sanitária consiste em um importante aspecto a ser considerado pelo poder público, especialmente destinado à orientação dos comerciantes quanto à adoção de medidas adequadas de manuseio e armazenamento das espécies. E, ainda, de educação financeira, com vistas a viabilidade econômica da atividade ao longo do tempo.


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