ISSN 1678-0701
Número 63, Ano XVI.
Março-Junho/2018.
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10/03/2018A TIPOLOGIA DE CONTEÚDOS DE ZABALA, A MÚSICA, A ARTE E O DIÁLOGO NO ENSINO/APRENDIZAGEM DE TÓPICOS DE CIÊNCIAS AMBIENTAIS  
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A TIPOLOGIA DE CONTEÚDOS DE ZABALA, A MÚSICA, A ARTE E O DIÁLOGO NO ENSINO/APRENDIZAGEM DE TÓPICOS DE CIÊNCIAS AMBIENTAIS

Claudia de Vilhena Schayer Sabino1, Ana Maria Barbosa Damasceno2

1Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática, PUC Minas

2Escola Estadual Chiquinho de Paiva, Capela Nova

Resumo: A tipologia de conteúdos Zabala, a ciência, a música, a arte e o diálogo foram utilizados no ensino/aprendizagem de tópicos de educação ambiental. Os resultados sugerem que houve aprendizagem significativa e que existem maneiras muito especiais de fazer educação, contextualizando e vivenciando a alegria.

Palavras-chave: Tipologia de Zabala, Ciências ambientais, Ensino médio

Abstract: The Zabala content typology, science, music, art and dialogue were used in the teaching / learning of environmental education topics. The results suggest that there was significant learning and that there are very special ways of doing education, contextualizing, and experiencing joy.

Key-words: Zabala’ s Typology, Environmental Sciences, Secondary School.

Introdução

Fala-se muito sobre a importância da preservação do Meio Ambiente, da necessidade de mudanças de hábitos e de atitudes para a melhoria na qualidade de vida e reestabelecimento do equilíbrio ambiental. As políticas socioambientais adotadas no Brasil, mesmo divulgadas em grande escala, não têm, ainda, um respaldo da população em termos práticos e conscientes.

Uma das saídas para tal impasse é criar motivações diversas para um despertar consciente da sociedade, considerando o meio sociocultural e econômico de cada indivíduo, preparando-o para a participação por meio do respeito e da consciência crítica em relação ao consumo exacerbado, ao desmatamento indiscriminado e, principalmente, à economia dos bens naturais. Segundo os PCNs/Temas Transversais: (BRASIL,1998)

A principal função do trabalho com o tema Meio Ambiente é contribuir para a formação de cidadãos conscientes, aptos a decidir e atuar na realidade socioambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Para isso é necessário que, mais do que informações e conceitos, a escola se proponha a trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e aprendizagem de procedimentos. (BRASIL,1998, p. 187).

A Educação Ambiental passa a ser então uma das ferramentas com a qual é possível sensibilizar os cidadãos sobre o seu papel na sociedade e a importância da conservação dos recursos naturais.

Este artigo apresenta uma proposta de oficina, destinada a alunos do ensino médio, na qual foi utilizada a tipologia de conteúdos de Delors (2012) e Zabala (2010), no ensino/aprendizagem da cadeia alimentar e do fluxo de energia em ecossistemas. A ciência, a música, a arte e o diálogo foram utilizados na concretização da proposta. O uso da música contribui para fortalecer a socialização, possibilitando o respeito pelas diferenças, a alteridade, e contemplando a diversidade cultural existente. A música é útil no ensino médio, pois a adolescência pode ser considerada como uma das etapas da vida mais ativas quando se trata de música, que se constitui não apenas objeto de consumo, mas promotora de formas de ser e ver o mundo. (SEBBEN & SUBTIL, 2010)

Tipologia de conteúdos de Zabala

Os quatro pilares da educação são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser (DELORS, 2012), e os conteúdos factuais e conceituais, procedimentais e atitudinais estão neles incluídos (BERNINI, 2012). Os referidos pilares podem ser relacionados com os tipos de conteúdo em sua essência, como sendo: aprender a conhecer – objetivos factuais e conceituais, aprender a fazer - objetivos procedimentais e aprender a viver juntos e ser – atitudinais. (ZABALA, 2010). (Tabela 1)


Tabela 1 – Tipologia de conteúdos educacionais de acordo com ZABALA, 2010.

Conteúdos factuais

por conteúdos factuais se entende o conhecimento de fatos, acontecimentos, situações, dados e fenômenos concretos e singulares: a idade de uma pessoa a conquista de um território, a localização ou altura de uma montanha, os nomes, os códigos, os axiomas, um fato determinado num determinado momento, etc.” Por muitas vezes esse conteúdo tem caráter arbitrário, portanto não necessitam de uma compreensão, aprende-se pela cópia e memorização.( ZABALA, 2010, p.41),

Conceitos e princípios

os conceitos e os princípios são termos abstratos. Os conceitos se referem ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos que têm características comuns, e os princípios se referem às mudanças que produzem num fato, objeto ou situação em relação a outros fatos, objetos ou situações que normalmente descrevem relações de causa-efeito ou de correlação.” (ZABALA, p.42, 2010)


Conteúdos procedimentais

um conteúdo procedimental (...) é um conjunto de ações ordenadas e com um fim, quer dizer, dirigidas para a realização de um objetivo. São conteúdos procedimentais: ler, desenhar, observar, calcular, classificar, traduzir, recortar, saltar, inferir, espetar, etc.” (ZABALA, 1998, p.43)

Conteúdos atitudinais

O termo conteúdos atitudinais engloba valores, normas e atitudes. (ZABALA, 1998, p.43)

Os tipos de conteúdos estão geralmente associados a verbos que caracterizam habilidades e competências (BERNINI, 2012):

Conteúdos factuais e conceituais: identificar, reconhecer, classificar, descrever, comparar, conhecer, explicar, relacionar, situar (no espaço ou no tempo), lembrar, analisar, inferir, generalizar, comentar, interpretar, tirar conclusões, esboçar, indicar, enumerar, assinalar, resumir, distinguir, aplicar.

Conteúdos procedimentais: manejar, confeccionar, utilizar, construir, aplicar, coletar, representar, observar, experimentar, testar, elaborar, desenhar, simular, demonstrar, reconstruir, planejar e executar.

Conteúdos atitudinais: comportar-se (de acordo com), respeitar, tolerar, apreciar, ponderar (positiva ou negativamente), aceitar, praticar, ser consciente de, reagir a, conformar-se com, agir, conhecer, perceber, estar sensibilizado, sentir, prestar atenção à, interessar por, obedecer, permitir, preocupar-se com, deleitar-se com, recrear-se, preferir, inclinar-se a, ter autonomia, pesquisar, estudar.

Na área meio ambiente, todos os tipos de conteúdos são importantes, mas destacam-se os atitudinais. São necessárias a conscientização e mudança de postura em relação aos problemas ambientais. Existe a preocupação em promover o desenvolvimento de valores e atitudes em prol de uma sociedade pautada por novos patamares civilizacionais (LOUREIRO, 2009; GUIMARÃES, 2010).

Materiais e métodos

A pesquisa caracteriza-se como qualitativa. Entende-se que essa abordagem pressupõe o contato direto do pesquisador com a situação investigada, envolvendo a obtenção de dados descritivos e procurando compreender a perspectiva dos participantes, conforme Lüdke e André (1986):

a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto. O interesse do pesquisador ao estudar um determinado problema é verificar como ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas. (Lüdke; André, 1986, p. 12).

Foi desenvolvida uma oficina aplicada aos alunos do Ensino Médio da Escola Estadual “Chiquinho de Paiva” localizada em Capela Nova, Minas Gerais. O desenvolvimento do projeto envolveu as seguintes etapas: pesquisa bibliográfica; coleta de músicas cantadas na cidade de Capela Nova entre os anos de 1930 a 1990; seleção de músicas e fatos relacionados ao conteúdo que seria abordado; montagem da oficina; aplicação e avaliação. Para a oficina foram estabelecidos: duração; objetivo; conteúdos; materiais; procedimentos; escolha da canção; trabalhos a serem solicitados e perguntas-chave (avaliação). Para o estabelecimento dos procedimentos de cada etapa foram consultados os PCN’s (BRASIL, 1998) e o Projeto Pedagógico Escolar.

Foi sugerido, pela escola, que a oficina fosse realizada no salão paroquial devido ao espaço ser maior e o local ter um ambiente mais agradável. A oficina foi aplicada a 40 alunos voluntários, com idade entre 16 e 17 anos, que cursavam o 2º ou 3º ano do Ensino Médio.

Oficina: A cadeia alimentar e o fluxo de energia

Duração: 5 horas (2 sessões de 2,5 h)

Objetivo: Compreender o fluxo de energia e o papel das cadeias alimentares nos ecossistemas e a importância do equilíbrio ecológico no desenvolvimento e manutenção da vida.

Materiais utilizados: Letra da música dividida em versos, esquemas de cadeias alimentares e sobre o fluxo de energia.

Conteúdos abordados (Aula dialogada): Conhecer a cadeia alimentar e o fluxo de energia; a transferência de energia, o papel dos decompositores como agentes responsáveis pela ciclagem dos nutrientes e as causas e consequências dos desequilíbrios ecológicos. (Conteúdos factuais e conceituais).

A aula foi dialogada, o diálogo é um dos eixos principais e fundantes de toda a teoria freiriana, o diálogo, nascido na prática da liberdade, enraizado na existência, comprometido com a vida, que se historiciza no seu contexto. A respeito da metodologia da aula, Paulo Freire (2001) destaca o diálogo como a forma mais segura para a educação e a libertação de todos os homens e todas as mulheres, opressores e oprimidos. Assim “a dialogicidade é essência da educação como prática da liberdade”: (FREIRE, 2001, p.45)

...o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidariza o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca da, ideias a serem consumidas pelos permutantes.” (FREIRE, 2001, p.45)

Uma aula, na qual é aplicada tal metodologia permite a abordagem de conteúdos factuais, conceituais (citados) e atitudinais como: comportar-se de acordo com a ocasião; respeitar as opiniões dos colegas e do professor, ponderar sobre os diferentes temas, perceber a necessidade de intervir ou não, prestar atenção no que dizem os colegas e o professor, permitir que outros alunos expressem opiniões e mais. Todos os alunos participam e a discussão em grupo facilita a aprendizagem de conteúdos atitudinais:

Os integrantes do grupo não só aprendem a pensar, como também que a abertura da espiral permite que se aprenda a observar e escutar, a relacionar as próprias opiniões às alheias, a admitir que outros pensem de modo diferente e a formular hipóteses em uma tarefa de equipe” (BLEGER, 1998, p. 77).

A letra da canção foi escolhida por destacar o papel da cobra no equilíbrio ecológico. A oficina foi aplicada em uma região rural, nas qual o aparecimento de cobras é frequente e a maioria dos alunos já conhece os cuidados que devem ser tomados em relação a estas espécies. Mesmo assim, visando a segurança foram relembrados os tópicos sugeridos pela EMBRAPA, 2003, como:

Não ande descalço. Dê preferência às botas de cano alto. Segundo as estatísticas 80% das picadas são abaixo do joelho.

Não introduzir as mãos em buracos no chão como toca de tatu, cupinzeiros, montes de pedras ou madeiras, ter cuidado especial com troncos ocos, locais onde haja folhas secas, locais propícios de se encontrar cobras. Quase 20% dos acidentes ocorrem nas mãos;

Olhar com muita atenção o chão por onde caminha. (EMBRAPA, 2003, p.3)

Canção escolhida: A rolinha (Música folclórica)

A rolinha fez seu ninho/ Para seus ovos chocar/ Veio a cobra/ e a rolinha/ Pôs-se a chorar/ Cala boca minha rolinha/ Porque os ovos que ela comeu/ Cala a boca, minha rolinha/ Ela há de me pagar/ Oia rolinha, doce, doce./ Caiu no laço doce, doce./ Embaraçou doce, doce./ O meu amor/

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VZSHhHm29Z4&t=23s

A música é uma ferramenta facilitadora no ensino aprendizagem:

a música pode nos auxiliar no ensino de uma determinada disciplina, na medida em que, ela abre possibilidades para um segundo caminho que não é o verbal” (FERREIRA, 2002, p. 13),

A letra foi distribuída e a canção ouvida e cantada. Após, foi feita análise da letra por partes, destacando cada componente da cadeia alimentar, incluindo sua função e o fluxo de energia no caso particular. Foram discutidas as consequências de atitudes como as de matar um dos componentes da cadeia alimentar e os possíveis desequilíbrios ecológicos decorrentes. A principal atividade econômica do município Capela Nova é a agropecuária e devido ao manuseio do solo e eventuais desmatamentos o aparecimento de cobras é frequente na região. Matar cobras é uma pratica comum para grande parte da população.

A mensagem foi compreendida pelos estudantes por estar presente em sua realidade. “É importante contextualizar os conteúdos”. Freire”, (1970, p. 62) ensinou que a menos que a aprendizagem facilite uma mudança na percepção da realidade do aluno, o aprendizado não ocorreu.

...um dos princípios da pedagogia freiriana é sempre a necessidade de que os professores respeitem a consciência e a cultura de seus alunos, criando uma situação pedagógica em que os alunos possam articular a sua compreensão do mundo. “ (Weiler, 1988, p. 18)

Enquanto a música foi ouvida e cantada foram abordados: conteúdos conceituais e factuais: cadeia alimentar, espécie, nicho, ecossistema e mais; conteúdos procedimentais: cantar e atitudinais, semelhantes aos abordados na aula dialogada.

Trabalhos solicitados: Texto e desenho sobre a cadeia alimentar e/ou fluxo de energia e sua importância (Conteúdos procedimentais).

Perguntas-chave (Avaliação): 1) Quais os componentes de uma cadeia alimentar? 2). De que forma ocorre o fluxo de energia na cadeia alimentar? 3) Todas as espécies têm funções definidas na cadeia alimentar? 4). Quais as consequências do preconceito e de atitudes preconceituosas em relação a uma espécie animal?

Resultados e discussões

A análise das respostas formuladas para as perguntas chave mostraram que: 100% dos alunos conseguiram perceber os componentes da cadeia alimentar e suas funções (Pergunta 1).

A cadeia tem início com os seres que tem capacidade de produzir seu próprio alimento (são os seres autotróficos) que utilizam da luz solar para isso (são chamados também de fotossintetizantes) que serão consumidos pelos consumidores e a energia vai diminuindo à medida que alcança níveis mais elevados da cadeia alimentar por causa da utilização que cada nível trófico necessita para concluir suas atividades. (Aluno A)

Quanto ao fluxo de energia (Pergunta 2), 60% conseguiram perceber que a energia solar é transformada pelos produtores e, quando caminha pelos componentes das cadeias alimentares, se dissipa. 20%, não conseguiram relatar o fluxo de energia de forma completa, mas conseguiram relacionar a fotossíntese com o início do processo que envolve a transformação de energia nos seres vivos. 20%, dos que não acertaram completamente a resposta conseguiram identificar os produtores e decompositores e suas respectivas funções. Reconheceram o risco de desequilíbrio ecológico, como o proporcionado pela morte de um dos componentes da cadeia alimentar (Pergunta 3). 98% conseguiram destacar que qualquer atitude preconceituosa, para com algum animal: matar a cobra apenas por não gostar da espécie, sem conhecimento de seu papel no ecossistema, traz consequências que podem ser irreversíveis. A conscientização a respeito dos malefícios de um preconceito é um conteúdo atitudinal, pois este tipo:

têm em comum que cada um deles está configurado por componentes cognitivos (conhecimentos e crenças), afetivos (sentimentos e preferências) e condutuais (ações e declarações de intenção)” (ZABALA, 2010, p. 47).

Nos textos produzidos os alunos demonstraram ter compreendido as consequências de matar um animal desnecessariamente: Ao refletir sobre o preconceito e aversão pelas cobras existentes na região, em função de costumes e lendas, os alunos perceberam que todos os seres são importantes na cadeia alimentar e merecem respeito.

Caso um animal seja retirado do ambiente do qual faz parte, como a cobra que muitos matam atoa, pode resultar em desequilíbrio ecológico. (Aluno B).

Não devemos tomar atitudes desnecessárias como rejeitar um ser vivo, alterando um ciclo do qual também fazemos parte. (Aluno C)

As atitudes podem ser mudadas se reconhecermos que estamos errados para assim recuperar o que é nosso. (Aluno D)

A canção faz pensar sobre o ecossistema de Capela Nova e suas cadeias alimentares, onde o fluxo de energia flui a partir das plantas, ou seja, retrata fenômenos como os das cadeias alimentares focalizando que também fazemos parte das mesmas. (Aluno E)

As declarações dos alunos refletem mudança de atitude. Segundo Zabala, 2010, atitude:

Entendemos por valores os princípios ou as ideias éticas que permitem as pessoas emitirem juízo sobre as condutas e seus sentidos. (ZABALA, 2010, p. 46),

Os participantes se encantaram com a mensagem transmitida pela letra da canção. As manifestações musicais, como parte do trabalho pedagógico, podem promover a ampliação do universo cultural dos alunos (PENNA, 2006).

Os alunos se divertiram e riram bastante enquanto aprendiam a música e cantavam. Matraca et al., 2011, apresentam a dialogía do riso na prática da educação popular, destacando que a alegria facilita o aprendizado e que o riso é libertador (MATRACA et al., 2011). Estas atividades permitiram perceber como a música pode ser utilizada para contextualizar o ensino, dando maior significado aos conceitos ou conhecimentos por ela veiculados (SILVEIRA & KIOURANIS, 2008).

Neste trabalho foram buscados a emoção e o diálogo. Segundo Freire (1967, p. 114), quando a relação pedagógica é perpassada pela amorosidade e pela dialogicidade, oportuniza o desenvolvimento da educação como prática de liberdade e de humanização. Os alunos se mostraram mais conscientes em relação â necessidade de preservação do equilíbrio ecológico:

a consciência não se transforma através de cursos e discursos ou de pregações eloquentes, mas na prática sobre a realidade” (FREIRE, 2001, p. 126),

Alguns desenhos apresentados e que retrataram o tema e demonstraram a cadeia alimentar estudada estão apresentados na Figura 1.

Figura 1 - Exemplos dos desenhos dos alunos na Oficina A cadeia alimentar e o fluxo de energia

A letra da canção e os desenhos feitos pelos participantes foram úteis no ensino/aprendizagem do conteúdo. As linguagens artísticas, como a música e o desenho, são historicamente construídas, e essa construção histórica é contínua e constante, de modo que não se encontra apenas em algum momento passado, mas se processa também no presente. (FERREIRA, 2002). Uma canção folclórica e antiga, como a utilizada neste trabalho, pode trazer uma mensagem atual:

Expressar-se e comunicar-se pelos desenhos e textos são tipicamente conteúdos procedimentais: “...é importante distinguir os conteúdos procedimentais em: i) habilidades de investigação, ii) destrezas manuais e de iii) comunicação. ” (DE PRO BUENO,1998, p.25).

Também Pozo, 2009 considera conteúdo procdimental: a comunicação da informação (expressão oral, expressão escrita e outros tipos de expressão).

Os participantes se divertiram e até se emocionaram ao apresentar suas criações (Textos e desenhos). As atividades pedagógicas quando envolvem a afetividade, motivam e estimulam os alunos a formar novos esquemas e novas atitudes, tornando-os autônomos para solucionar os seus problemas. (GAMA et al., 2017)

Considerações finais

Diante dos inúmeros dilemas e problemas ambientais da atualidade, tendo o ser humano como ator único responsável por essas questões, torna-se cada vez mais necessário que as pessoas tenham verdadeiramente consciência da complexidade e significados que estão postos no dia-a-dia. Ter consciência ambiental é estar ciente do que de fato ocorre na área. É ter conhecimento da realidade, de sua condição, suas causas e consequências, e de suas diversas implicações e significados para o cotidiano. É saber que o meio ambiente é por inteiro (totalidade) e não pela metade ou parcialidades, e que o ser humano atua transformando-o continuamente, e esse, uma vez transformado, transforma o ser humano. Ter consciência ambiental é confrontar e superar a todo instante, as concepções e ações alienadas e alienantes que ofuscam a capacidade de percepção do real.

As atividades propostas permitiram desenvolver conteúdos factuais, conceituais, procedimentais e atitudinais. Possibilitaram o trabalho com os conteúdos factuais e conceituais na aula dialogada e durante as discussões; conteúdos procedimentais ao desenhar, cantar e redigir texto. Estes procedimentos exigiram criatividade, pois, cada situação era nova. Conteúdos atitudinais foram abordados ao incentivar o aluno a comportar-se de acordo com a ocasião; respeitar as opiniões dos colegas e do professor, ponderar sobre os diferentes temas, perceber a necessidade de intervir ou não, prestar atenção no que dizem os colegas e o professor, permitir que outros alunos expressem opiniões e outras.

Talvez seja possível afirmar que muitos dos conteúdos propostos foram aprendidos integralmente, não como mera memorização, mas revestidos de intensas emoções que chegaram ao mais recôndito dos sujeitos envolvidos.

Os resultados obtidos sugerem que existem maneiras muito especiais de fazer educação e que permitem uma maior vivência dos sentimentos, proporcionada pela música ouvida, interpretada e, ao mesmo tempo, transportada para o conteúdo didático. O trabalho priorizou a cultura, o ambiente e hábitos singulares da região, como recomendado sempre por Paulo Freire. Afinal, Freire é um dos grandes criadores da educação libertadora.

Referências

BERNINI, D. S. D.; COSTA NETO, P. L. O.; GARCIA, S.. Objetivos procedimentais, atitudinais e conceituais na avaliação da aprendizagem. In: Workshops do CBIE. Rio de Janeiro. Anais dos Workshops do Congresso Brasileiro de Informática na Educação. 2012.

BLEGER, José. Temas de Psicologia. Entrevistas e Grupos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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DE PRO BUENO, A. Se pueden enseñar contenidos procedimentales en las clases de ciencias? Enseñanza de las Ciencias, n. 1, vol.16, p.21-41, 1998.

DELORS, Jacques (org.). Educação um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Editora Cortez, 7ª edição, 2012.

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FREIRE, P. Educação como pratica da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 9 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

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MATRACA, M. V. C.; WIMMER, GERT; ARAUJO-JORGE, TC de. (2011) Dialogia do riso: um novo conceito que introduz alegria para a promoção da saúde apoiando-se no diálogo, no riso, na alegria e na arte da palhaçaria. Cienc Saude Colet, 16(10), 4127-38.

POZO, J. I.; CRESPO, M.A.G.A. Aprendizagem e o Ensino de Ciências: do conhecimento cotidiano ao conhecimento científico. Porto Alegre: Artmed. 2009.

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