ISSN 1678-0701
Número 63, Ano XVI.
Março-Junho/2018.
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10/03/2018DIAGNÓSTICO PARA UTILIZAÇÃO DE RESÍDUOS DE CONSTRUÇÃO E DEMOLIÇÃO (RCD) COMO AGREGADO PARA PRODUÇÃO DE BLOCOS NÃO ESTRUTURAIS NO MUNICÍPIO DE CACOAL/RO  
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DIAGNÓSTICO PARA UTILIZAÇÃO DE RESÍDUOS DE CONSTRUÇÃO E DEMOLIÇÃO (RCD) COMO AGREGADO PARA PRODUÇÃO DE BLOCOS NÃO ESTRUTURAIS NO MUNICÍPIO DE CACOAL/RO

SOUZA1, Wemerson Soares de; PEREIRA1, Wesley Gonçalves; OLIVEIRA1, Guilherme Marques de; CARVALHO2, André Grecco.

1- Graduando em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Rondônia - Campus Cacoal

2- Engenheiro Químico, Professor Mestre, Universidade Federal de Rondônia - Campus Cacoal.

RESUMO

A necessidade de preservação ambiental e a tendência de escassez dos recursos naturais fazem com que a construção civil procure reduzir o consumo e minimizar os impactos gerados, passando a adquirir novos conceitos e buscando soluções técnicas que vise à sustentabilidade de suas atividades. Assim este trabalho surge com a proposta de contribuir com a minimização dos impactos gerados pela atividade de construção e demolição, gerenciando os resíduos de construção e demolição (RCD) aplicando-os para a fabricação de blocos não estruturais e sendo utilizando como base, as normas técnicas e leis nacionais, estaduais e municipais vigentes. Tendo como objetivos específicos, identificar a viabilidade ecológica e determinar o processo de beneficiamento dos RCD e do processo de fabricação dos blocos não estruturais com agregados de RCD. A pesquisa foi realizada de forma exploratória utilizando de procedimentos técnicos bibliográficos e pesquisa de campo em empresas que recolhem RCD em empresas que fabricam blocos não estruturais no município de Cacoal/RO. Por fim, os resultados da utilização de resíduo de construção e demolição como agregado para fabricação de blocos não estruturais no município se mostrou uma alternativa eficiente no contexto ecológico, abrindo caminho para uma estrada, rumo ao desenvolvimento sustentável da construção civil local.

Palavras-chave: Resíduos de Construção e Demolição (RCD). Gerenciamento de Resíduos. Bloco não estrutural. Sustentabilidade.

ABSTRACT

A need for environmental preservation and tendency of scarcity of natural resources, with construction, reduce consumption and minimize the impacts generated, passing an acquisition of new concepts and seeking technical solutions for the sustainability of its activities. Thus, this work appears with the proposal of contributing with the minimization of the impacts generated by the construction and demolition activity, managing construction and demolition wastes (CDW) by applying them to the manufacture of non-structural blocks and using as basis the current national, state and municipal technical standards and laws. The research has specific objectives that identify the ecological viability, determine the beneficiation process of the CDW and the manufacturing process of the non-structural blocks with CDW aggregates. The research was conducted in an exploratory, technical, bibliographic and field research in companies that collect CDW in companies that manufacture non - structural blocks in the municipality of Cacoal / RO. Finally, the results of the use of construction and demolition waste as an aggregate for the manufacture of non-structural blocks in the municipality proved to be an efficient alternative in ecological context, opening the way for a road towards the sustainable development of local construction.

Keywords: Construction and Demolition Waste (CDW). Waste management. Non-structural block. Sustainability.

1 INTRODUÇÃO

A necessidade de preservação ambiental e a tendência de escassez dos recursos naturais fazem com que a construção civil passe a adquirir novos conceitos, buscando soluções técnicas que visem à sustentabilidade de suas atividades (PINTO, 1999). Na procura contínua por materiais e técnicas construtivas que minimizem os impactos ambientais ocasionados pelas construções civis e demolições, onde não existe construção que não gere impactos ambientais, é indispensável o estudo de novos métodos sustentáveis, tendo em vista que os recursos do planeta são finitos e o crescimento da população e de suas atividades tem ocasionado um aumento na agressão ao meio ambiente (PISANI, 2005). A utilização de materiais reutilizáveis em obras de engenharia, como borracha de pneu, fibra de bambu, resíduos de construção e demolição (RCD), dentre outros, representa um grande avanço nas tecnologias sustentáveis. A utilização destes materiais tem uma grande importância não só pela possibilidade de gerenciamento sustentável dos resíduos sólidos como também pela capacidade da melhoria na qualidade das obras e na captação de investimentos na área (LOURENÇO E CAVALCANTE, 2015).

A resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 448/12 altera critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil estabelecidos pela resolução 307/02. Dentre as alterações destacam-se aqueles referentes a adequações nos processos de licenciamento para as áreas de beneficiamento e preservação de resíduos e de disposição final de rejeitos. A reutilização dos materiais passa a ser um novo objetivo secundário dos geradores de resíduos, fica expressamente proibido a disposição dos RCD em aterros de resíduos domiciliares, devendo ser destinados para aterros de resíduos sólidos urbanos, adequando-se a lei 12.305/2010. O artigo 4º da resolução n° 448/12 do CONAMA definir as ações adequadas para os geradores, das quais os geradores deverão ter como objetivo prioritário a não geração de resíduos e, secundariamente, a redução, a reutilização, a reciclagem, o tratamento dos resíduos sólidos e a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

No âmbito estadual a gestão dos resíduos sólidos no estado de Rondônia é baseada pela Lei Estadual nº 1.145 de 13 de dezembro de 2002, que cria o Sistema de Gerenciamento de Resíduos Sólidos do Estado de Rondônia. O Estado objetiva tornar a gestão dos resíduos sólidos em seu território mais eficiente, por meio da atuação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA e da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental – SEDAM. A Lei nº 547/93 regulamentada pelo Decreto nº 7.903, de 01/07/97, que dispõe sobre a criação do Sistema Estadual de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia - SEDAR e seus instrumentos estabelecem medidas de proteção e melhoria da qualidade de meio ambiente, define a Política Estadual de Desenvolvimento Ambiental e é caracterizado por três fases distintas, sendo elas: LP - Licença Prévia; LI - Licença de Instalação; LO - Licença de Operação.

Quanto ao âmbito municipal a Lei nº 3.099/PMC/12 que institui a Política Municipal de Resíduos Sólidos – PMRS, define diretrizes e normas de prevenção da poluição, proteção e recuperação da qualidade do meio ambiente e da saúde pública da municipalidade, assegurando o uso adequado dos recursos naturais no município de Cacoal, dispondo sobre a política municipal de resíduos sólidos e serviço de limpeza urbana.

Paiva e Ribeiro (2011) descreve que para conseguir um Desenvolvimento Sustentável as empresas têm que adotar em seus meios de produção medidas de eficiência e de melhor aproveitamento de todos os recursos usados em sua produção. Tendo como base que dentro de uma obra da construção civil há muito desperdício, como: sobras e quebra de materiais, que podem ter um melhor reaproveitamento com a adoção de novas tecnologias para reutilização destas sobras como a reciclagem destes materiais. Paiva e Ribeiro (2011) ainda citam que só é possível conseguir uma economia de custos nas produções quando consegue-se diminuir os gastos com os materiais que compõem a construção de uma obra, sendo a partir do melhor aproveitamento das matérias-primas como a eliminação das perdas durante o seu processo.

O RCD está entre os resíduos sólidos urbanos que causam grande impacto ambiental. Este tipo de resíduo é gerado em grandes quantidades e portanto ocupa um volume extenso, tornando-se inviável o descarte em aterros, além da logística que em face do volume torna-se onerosa (Lima e Chenna, 2009). Os resíduos que são depositados ilegalmente contribuem em sua maioria para o surgimento de problemas urbanos, surgimento de aterros clandestinos, entupimento de sistemas de drenagem, assoreamento de rios, e ainda causam enchentes, o que faz ainda com que surja a proliferação de mosquitos e também outros vetores, causando assim um custo socioeconômico imensurável.

Diniz et al (2015) considera os impactos do descarte irregular de RCDs tendo como consequências a facilitação de focos e proliferadores de vetores de doenças, bem como a poluição visual com o comprometimento da paisagem, esta compromete também o trânsito de pedestres e veículos.

A reciclagem dos RCD pela indústria da construção civil vem se consolidando como uma prática importante para a sustentabilidade, seja atenuando o impacto ambiental gerado pelo setor, seja reduzindo os custos (JOHN, 2000). A reciclagem do RCD reduz a extração de recursos naturais como pedras e areia e seus respectivos impactos ambientais devido a essa exploração, fora os próprios impactos do RCD devido a destinação incorreta.

Quanto a sua aplicabilidade John e Rocha (2003) demonstram as várias possibilidades na utilização dos RCD com foco em suas características ambientais e socioeconômicas. Pinto (1999) complementa que os RCD podem ser aplicados como: aterro, camadas de base e sub-base para pavimentação, coberturas primárias de vias, fabricação de argamassas de assentamento e revestimento, fabricação de concretos, fabricação de pré-moldados (blocos não estruturais) e etc.

Em relação aos parâmetros avaliativos a serem aplicados, Hood (2006), cita que para os blocos não estruturais, os parâmetros a serem analisadas são a resistência à compressão, a taxa de absorção de água e a resistência à escoriação. A substituição do agregado natural por agregado de resíduos de construção e demolição pode-se até uma taxa de 50% em massa na produção dos blocos não estruturais sendo que esta proporção não resulta em uma diminuição expressiva da resistência à compressão dos blocos e que a durabilidade foi satisfatória.

Estudos desenvolvidos por Carneiro (2005) também comprovaram a viabilidade técnica da utilização de resíduos de construção e demolição na produção de blocos não estruturais, sendo que esses blocos foram produzidos com um percentual de até 60% da substituição do agregado natural para o agregado reciclado.

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 Área de estudo

A pesquisa foi realizada em empresas de construção, transportadora de RCD e fabricantes de blocos não estruturais no município de Cacoal/RO.

2.2 Natureza do estudo

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de métodos científicos, a fim de alcançar seus objetivos através dos métodos exploratórios, tendo em vista que a utilização de construção e demolição (RCD) como agregado para produção de blocos não estruturais é um problema pouco conhecido e explorado, sendo necessário haver mais conhecimento sobre o assunto.

Segundo Gil (2002) uma pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Em relação à abordagem utilizada, a presente pesquisa está inserida em duas abordagens, no âmbito qualitativo e quantitativo.

Conforme Spratt, Walker e Robison (2004), afirma que utilizar múltiplas abordagens pode contribuir mutuamente para as potencialidades de cada uma delas, além de suprir as deficiências de cada uma. Segundo Fonseca (2002) múltiplas abordagens proporcionam também respostas com maior abrangência às questões de pesquisa.

2.3 Levantamento e análise de dados

Foram realizadas visitas, entrevista e aplicação do formulário nas empresas que coletam, transportam e descartam os resíduos de construção civil e demolição, para identificar a capacidade de matéria-prima disponível no município. E também foram realizadas visitas técnicas, entrevista e aplicação do formulário nas empresas que fabricam blocos não estruturais no município, para identificar o potencial de fabricação do bloco não estrutural.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram levantados e avaliados os destinos que são dados aos RCD no município de Cacoal bem como a sua possibilidade de seu reuso mediante aplicação em blocos não estruturais tais como ladrilhos e bloquetes. Em relação aos parâmetros avaliativos a serem aplicados. Para que se houvesse um bom aproveitamento e conscientização dos RCD foi analisado juntamente com a Lei nº 3.099/PMC/12 que institui a Política Municipal de Resíduos Sólidos – PMRS, definindo diretrizes e normas de prevenção da poluição, proteção e recuperação da qualidade do meio ambiente e da saúde pública da municipalidade, assegurando o uso adequado dos recursos naturais no município de Cacoal, dispondo sobre a política municipal de resíduos sólidos e serviço de limpeza urbana.

Figura 1 - Resíduos de Construção e Demolição

Fonte: Autores (2017).

O município de Cacoal/RO possui 3 (três) empresas que coletam entulhos, para essas empresas foram estabelecidos nomes fictícios com empresa A, B e C. As informações recolhidas foram baseadas nos dados dos últimos 12 meses, conforme análise dos proprietários, nas três empresas analisadas todos os resíduos de construção civil e demolição coletado denominado “limpo” (figura 1. A) (sem a presença de materiais como: plásticos, vidros, madeiras, ferros e orgânicos), proveniente de reformas (figura 1. C) e demolições (figura 1. D), são vendidos para terceiros com finalidades como: para aterros na área urbana e rural, camadas de base e sub-base para pavimentação, nivelamento de estradas rurais e coberturas primárias de vias (figura 1. B).

Em todas as empresas não há um controle específico quanto à quantidade de resíduos de construção civil e demolição coletados, somente possuem planilhas com a quantidade total de caçambas coletadas mensalmente e o conhecimento empírico dos proprietários quanto a porcentagem de RCD recolhido. As características de cada empresa que coletam entulhos no município de Cacoal/RO estudadas estão dispostas na figura 2 (A-B).



Figura 2 - Proporções dos RCD

1 m³ de RCD = 1500 kg (PRODETEC, 2016).

Fonte: Autores (2017).



Quanto às quantidades médias de RCD coletadas por mês observa-se que a empresa C recolhe em média 70% em volume de RCD por mês com uma quantidade média de 50 caçambas por mês coletando aproximadamente 262,5 ton/mês de RCD; seguida de 60% pela empresa A com uma quantidade média de 80 caçambas por mês com 300 ton/mês; e 50% pela empresa B com uma quantidade média de 200 caçambas por mês com 900 ton/mês. Nas 3 (três) empresas analisadas não foram constatadas nenhum tipo de preferência em relação a utilização das caçambas alugadas pelos clientes, estando a critério do locatário decidir quais os materiais serão descartados. As caçambas são preenchidas com materiais aleatoriamente, não possuem uma forma eficiente de qualificar o tipo e quantificar a quantidade de cada material presente em cada caçamba. Nota-se a carência das autoridades competentes para fiscalizar o cumprimento das normativas e a fiscalização periódica deste serviço no município. Para se atingir os objetivos da resolução CONAMA nº 307/02 os materiais coletados devem passar por uma triagem por tipo ou classe de resíduo no seu local de origem, como exemplo em caçambas, sendo que estas serão distintas entre si quanto a destinação.

A utilização de RCD como matéria-prima para a obtenção de agregado para produção de blocos não estruturais, se mostra uma excelente fórmula para o descarte apropriado destes resíduos de forma a diminuir a necessidade de matéria prima em natura de forma a impactar de forma benéfica para o setor de construção civil local, bem como em outras localidades do país.

Um dos diversos formatos de blocos não estruturais é o formato hexagonal, disponíveis em três espessuras: 4 cm, 6 cm ou 8 cm. Que segundo a Norma Brasileira 9.781 estes blocos se diferem em duas categorias de resistência à compressão, sendo o de 35 MPA onde é indicado para tráfego de veículos comerciais de rotina e de carga eventual se enquadra nesse quesito os blocos de 4 cm e 6 cm, conhecidos como ladrilhos (figura 3. A), e de resistência de 50 MPA sendo adequado para altas cargas, se enquadra nesse quesito os blocos de 8 cm ou mais, conhecidos como bloquetes (figura 3. B).

Figura 3 - (A) Ladrilhos; (B) Bloquetes