ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018REFLEXÕES ACERCA DA COMPLEXIDADE NO PROCESSO EDUCATIVO: A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ESCOLAR EM QUESTÃO  
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Reflexões acerca da complexidade no processo educativo: a Educação Ambiental escolar em questão

João Paulo Schultz1, Marília Andrade Torales Campos2

1Mestrando do Programa de Pós-graduação em Educação: Teoria e Prática de Ensino da Universidade Federal do Paraná.

2Professora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná.

Resumo

Este artigo busca refletir sobre o Pensamento Complexo no contexto da educação básica bem como tratar das suas relações com a pesquisa em educação ambiental. A partir de uma perspectiva teórica, o texto apresenta, inicialmente, um panorama crítico referente à educação ambiental no âmbito escolar e discorre sobre a essência do Pensamento Complexo sob a ótica do filósofo contemporâneo Edgar Morin. Na sequência, associa os elementos constituintes do Pensamento Complexo com a pesquisa acerca da educação ambiental escolar. Em seus resultados, avalia e considera as possibilidades e os limites desta associação no processo educativo e na pesquisa em questão.

Palavras-chave: educação básica, educação ambiental, pensamento complexo.

Abstract

This article seeks to reflect on Complex Thinking in the context of basic education as well as to deal with its relationships with research on environmental education. From a theoretical perspective, the text presents, initially, a critical panorama regarding environmental education in the school context and it discusses on the essence of the Complex Thinking from the perspective of the contemporary philosopher Edgar Morin. Following, it associates the constituent elements from the Complex Thinking with the research on school environmental education. In its results, it evaluates and considers the possibilities and the limits of this association in the educational process and in the research in question.

Key words: basic education, environmental education, complex thinking.

A educação ambiental no âmbito escolar

Para que possamos compreender o contexto da educação ambiental escolar bem como a trajetória que nos levou às crises ambientais e, consequentemente, aos questionamentos referentes à relação sociedade-natureza, faz-se necessário um breve histórico acerca da evolução do sistema capitalista e a sua influência na sociedade.

É notável que, a partir de meados do século XVIII, com a Revolução Industrial, a natureza passou a ser explorada de forma cada vez mais intensa e predatória, sob a errônea concepção de que os bens naturais seriam inesgotáveis. Nesse cenário, destaca-se o avanço do sistema capitalista que permitiu um aumento crescente da produção e, por conseguinte, a expansão do consumo. Junto ao consumismo, as atividades econômicas tornaram-se mais intensas exigindo maior exploração dos bens naturais a fim de obtenção de matérias-primas, o que resultou numa maior interferência humana sobre a natureza.

Diante disso, lançam-se alguns questionamentos acerca da relação sociedade-natureza: Até que ponto o Sistema Terra suportará esse desenfreado modelo econômico que parece ir contra ao desenvolvimento sustentável? O que a atual sociedade está fazendo para amenizar tais conflitos? Educação Ambiental: de que forma, para que e para quem? Qual o papel da escola na formação de cidadãos críticos em relação as suas atitudes e consciência ambiental?

Guimarães (2007) ressalta que apesar da difusão crescente da educação ambiental no processo educacional, essa ação educativa geralmente se apresenta fragilizada em suas práticas pedagógicas, na medida em que tais práticas não se inserem em processos que gerem transformações significativas da realidade vivenciada. Sobre esta realidade inúmeros fatores corroboram e precisam ser analisados de forma crítica e contextualizada, pois a instituição escolar, como qualquer outra instituição social, está permeada por interesses e poderes nem sempre explícitos ou fáceis de ser identificados.

Desse modo e considerando que as práticas de educação ambiental apresentam-se muitas vezes desconectadas das propostas curriculares nos processos educativos, seria importante indagar-se de que forma as ações ambientais na escola podem sensibilizar os estudantes na mudança de hábitos, valores e comportamentos em relação ao meio ambiente. Para tentar responder a esta indagação seria importante identificar as maneiras pelas quais se pode contribuir para o desenvolvimento de ações que resultem na mudança de atitudes dos estudantes. Também vale sublinhar que não se assume aqui uma perspectiva Behaviorista, mas como estratégia de compreensão da realidade, se lança um olhar sobre o comportamento dos sujeitos como indicador de elementos subjetivos.

Em termos conceituais, segundo a Lei nº 9795/99, entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

Em conformidade com a Lei nº 9795/99, a Educação Ambiental deve estar presente, de forma articulada, nos níveis e modalidades da Educação Básica e ser desenvolvida como uma prática educativa integrada e interdisciplinar objetivando a compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações a fim de fomentar novas práticas sociais. (BRASIL, 2012).

Neste sentido, a educação é uma ferramenta essencial na relação entre o estudante e a natureza no sentido de possibilitar a contextualização e a reflexão dessas relações que são multidimensionais e produtoras de cultura. Conforme Carvalho (2004), a educação produz cultura e transforma a natureza, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o campo da compreensão e da experiência humana. Acrescenta ainda, que a interação com o ambiente ganha o caráter de inter-relação, pois fazemos parte de um contexto onde somos envolvidos pelas condições ambientais, construindo percepções, leituras e interpretações do ambiente que nos cerca.

Paulo Freire (1981) também se preocupou em compreender a mediação entre natureza e cultura como condição para o processo de aprendizagem:

O conceito antropológico de cultura, isto é, a distinção entre estes dois mundos: o da natureza e o da cultura; o papel ativo do homem na sua realidade e com a sua realidade; o sentido de mediação que tem a natureza para as relações e a comunicação do homem; a cultura como o acréscimo que o homem faz ao mundo que não criou; a cultura como resultado de seu trabalho, de seu esforço criador e recriador. (FREIRE, 1981, p.70).

Segundo a concepção de aprendizagem descrita a partir de Paulo Freire, pode-se dizer que o anseio de uma formação ambiental está vinculada a uma leitura de mundo que considere as relações multidimensionais (natureza, sociedade, cultura, economia, política) que compreendem o ser humano.

Baseando-se na percepção e na sensibilização ambiental, Carvalho (2004) diz que a educação ambiental promove sensibilidades afetivas e capacidades cognitivas para uma leitura do mundo do ponto de vista ambiental. Esse processo de aprendizagem por via dessa perspectiva da leitura dá-se particularmente pela ação do educador como intérprete das relações entre sociedade e ambiente e da educação ambiental como mediadora na construção social de novas sensibilidades e posturas éticas diante do mundo. Desse modo, o papel da escola e do professor torna-se imprescindível na formação de estudantes ativos e responsáveis em relação ao meio em que vivem.

Ainda com a preocupação de marcar posição em relação ao que se pode compreender por educação ambiental, recorre-se a Leff (2001) para assumir que a educação ambiental tem um papel fundamental e estratégico na condução do processo de transição para uma sociedade pautada nos princípios da sustentabilidade. De acordo com os pressupostos da complexidade, as ações ambientais na escola possibilitam o desenvolvimento de uma educação ambiental efetiva desde que estejam voltadas à realidade local-global-local a fim de contribuir no processo de formação dos estudantes em relação aos seus espaços de vivência e ao meio ambiente como um todo.



O Pensamento Complexo no contexto da educação sob a ótica de Edgar Morin

Afinal, o que é o Pensamento Complexo? A palavra Complexo provém do latim – complexus – que significa um conjunto de coisas, fatos, circunstâncias, eventos que possuem ligação e são interdependentes. Esses conjuntos integram um todo e esse todo se torna uma unidade complexa. A partir desta definição, destaca-se o conceito afim, o da Complexidade ou Teoria da Complexidade, que pode ser compreendida como a ligação dos acontecimentos, das ações, das interações, das retroações, das determinações, dos acasos, que constituem o nosso mundo. (MORIN, CIURANA, MOTTA, 2003).

Edgar Morin nasceu em Paris (França) no ano de 1921. É um intelectual contemporâneo com ampla formação e influência em diversas áreas do conhecimento como Filosofia, Sociologia, Antropologia, Educação, Direito, História, Geografia, entre outras.

A partir dos anos 50, com base no diálogo, Edgar Morin vem defendendo a tese da religação dos saberes por meio de argumentos e fundamentos a favor de uma “ciência nova” a qual, segundo ele, consiste numa “reforma do pensamento”. Para Morin, esta reforma é necessária e tem como objetivo religar os saberes e promover o diálogo entre as diversas disciplinas e/ou áreas do conhecimento que foram, ao longo do tempo, fragmentadas/compartimentadas pela ciência e pelo pensamento simplificador/disjuntor.

Pensando na sociedade, nos indivíduos e na escola como um espaço educacional, o escrito acima evidencia-se pelo fato de que as pessoas, neste caso os estudantes, estão acostumados, culturalmente, ao pensamento simplificado e fragmentado dos fenômenos do mundo e influenciados pelo paradigma cartesiano que separa o sujeito do objeto. Neste sentido, a complexidade possibilita a reconstrução do pensar e do conhecer sobre os diversos fatos, ações e visões do mundo, pois o conhecimento perpassa o real e o imaginário.

O conhecimento surge a partir das relações entre o mundo interno e o mundo externo que compreende o sujeito. Conforme Morin (2000, p. 19) “todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão e a educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão.” O problema do conhecimento é de todos e explorar as possibilidades de erros e ilusões torna-se essencial para a compreensão da realidade que nos cerca. Surgem aí grandes interrogações sobre as possibilidades de conhecer, e a educação necessita entender essas inúmeras possibilidades de conhecer.

Considerando as inúmeras formas ou possibilidades de conhecimento, bem como, os diversos problemas e realidades multidimensionais que assolam a humanidade, a educação detém um papel fundamental na organização e articulação dos conhecimentos visando à promoção da chamada reforma do pensamento, tornando evidente o contexto, o global, o multidimensional e o complexo a fim de promover a “inteligência geral” dos indivíduos. (MORIN, 2000).

A educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva durante a infância e a adolescência, que com frequência a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar. (MORIN, 2000, p. 39).

Morin nos chama a atenção para esta situação-problema: “o novo saber, por não ter sido religado, não é assimilado nem integrado. Paradoxalmente assiste-se ao agravamento da ignorância do todo, enquanto avança o conhecimento das partes”. (MORIN, 2000, p. 48). Dada à realidade em que o conhecimento é transmitido ou contextualizado nos bancos escolares, caracterizado geralmente pela divisão/fragmentação/disjunção, as mentes formadas a partir desta fragmentação não aprendem as habilidades necessárias para contextualizar os diversos saberes.

A educação deveria evidenciar o destino da humanidade (individual, social, histórico) no sentido de promover o estudo da complexidade e da multidimensionalidade da condição humana. Eis aí um dos saberes necessários à educação do futuro, uma educação que esteja voltada ao ser humano e suas relações com o mundo.

Para isso, torna-se relevante uma concepção ou “método” que enfrente as situações complexas e estudos sobre complexidade que compreendam o ser humano, a vida e, neste caso, a educação. Para Morin, Ciurana e Motta (2003) o método configura-se como um caminho a ser percorrido, são as estratégias oriundas a partir do pensamento. O método é considerado uma atividade pensante do sujeito que é capaz de aprender e inventar durante o seu caminho. (MORIN, CIURANA, MOTTA, 2003, p. 18). Esse caminho, denominado método, emerge a partir da experiência e pode resultar num novo caminho.

Se pensarmos a concepção do método como um caminho e consideramos os princípios/fundamentos que sustentam o Pensamento Complexo, a escola se destaca como um sistema que possui partes que interagem entre si caracterizando o princípio sistêmico/organizacional. A escola defronta-se com inúmeros problemas do ponto de vista organizacional, porém, a partir das experiências resultantes das interações entre as partes é que emergem as novas possibilidades ou novos caminhos para enfrentar as situações-problemas no âmbito escolar. Os fundamentos do Pensamento Complexo são essenciais para (re) pensarmos os aspectos multidimensionais da vida cotidiana, mas pensa-se que estes representam e embasam, também, a defesa de uma nova pedagogia a ser construída no sentido de (re) pensar a educação e seus caminhos.

Conforme Morin, Ciurana e Motta (2003, p. 59) “uma educação que tem por objetivo uma concepção complexa da realidade e que efetivamente conduzisse a ela estaria colaborando com os esforços que visam atenuar a crueldade do mundo”.

Educar para a era planetária é, certamente, uma emergência e um desafio para todos e todas, e a educação possuí um papel essencial no contexto. Para isso, torna-se necessário a realização de formações e diálogos pautados nos princípios da complexidade às partes que compõem o sistema organizacional da escola bem como aos órgãos responsáveis pelas políticas educacionais.

A educação contemporânea, neste caso específico a educação brasileira, atravessa um momento histórico onde o descaso com as políticas educacionais são constantes. Por conseguinte, os reflexos são inúmeros e atingem tanto os profissionais docentes quanto os discentes e, consequentemente, de algum modo afetam a esperança de uma educação, de uma sociedade e de um mundo melhor.

Aplica-se aqui uma das máximas do Pensamento Complexo, a da ordem-desordem-organização/reordenamento. Se considerarmos os caminhos e rumos em que a educação vem tomando, o momento é o de (re) pensar a educação que se almeja visando à formação de cidadãos críticos, éticos e compromissados nas relações com o mundo. Na ótica do Pensamento Complexo isso exige uma postura aberta dos indivíduos frente às situações multidimensionais da vida cotidiana e do trabalho. No caso particular da educação escolar, se poderia considerar que,

O ensino tem de deixar de ser apenas uma função, uma especialização, uma profissão e voltar a se tornar uma tarefa política por excelência, uma missão de transmissão de estratégias para a vida. A transmissão necessita, evidentemente, da competência, mas, além disso, requer uma técnica e uma arte. (MORIN, CIURANA, MOTTA, 2003, p. 98)

Pensar a profissionalidade docente no contexto da educação e no papel que os educadores possuem na sociedade é considerar os caminhos, as experiências, a crítica e a autocrítica para uma profissão e um futuro melhor. Educar vai além de uma “simples profissão”, é uma missão dotada de princípios como a fé e o amor que visa à contribuição para uma educação mais cidadã e que corresponda as emergências do ser humano, da vida e do mundo na sua complexidade.

Relacionando o Pensamento Complexo com a pesquisa em educação ambiental escolar

No sentido de refletir-se sobre o Pensamento Complexo no âmbito da educação ambiental faz-se necessário contextualizar as relações entre a sociedade, o meio ambiente e a educação como um princípio próprio da complexidade. O Planeta Terra é um sistema vivo que apresenta uma dinâmica evolutiva própria. Para elucidar essa dinâmica, Cordani e Taioli (2000) citam os processos cíclicos que ocorrem naturalmente, como o surgimento de montanhas e oceanos que crescem e desaparecem ao longo do tempo geológico, a dinâmica interna da Terra que propicia o surgimento das rochas e, consequentemente, seu desgaste a partir da dinâmica externa por meio da ação das águas, dos ventos e das geleiras. Rios mudam seus cursos obedecendo à dinâmica hídrica e o clima altera periodicamente as condições de vida e o equilíbrio entre as espécies.

Com a evolução da Terra ao longo dos 4.6 bilhões de anos, desde a sua origem, é que se criaram as condições básicas para o desenvolvimento e manutenção da vida – a biosfera. É nela que vivemos, construímos e extraímos os bens vitais para a vida e para o desenvolvimento da sociedade. No entanto, é neste mesmo espaço que despejamos nossos resíduos diversos desde o advento do homem na Terra. Com a origem da humanidade, diversas técnicas foram surgindo a fim de se apropriar da natureza. Neste contexto, cabe ressaltar as reflexões de Oliveira e Peloggia sobre a relação sociedade e meio ambiente:

O homem tem sido caracterizado filosoficamente como um ser que escolhe entre alternativas. É, portanto, um ser natural que se diferencia da natureza, que sofre suas influências, mas que também age sobre ela, que interage e transforma o meio, mas que também se transforma em decorrência dessa interação que se dá na busca de seus meios de produção de existência. (OLIVEIRA; PELOGGIA, 2005, p. 05).

A reflexão dos autores acima nos indica que os processos a partir da ação humana sobre o meio ambiente devem ser analisados sob uma perspectiva histórica. Considerando as alterações ambientais a partir da Revolução Industrial e suas influências na dinâmica do espaço geográfico mundial, sobre tudo os fenômenos da industrialização, agropecuária e urbanização, é perceptível nas paisagens terrestres que apesar do período de existência do homem ser insignificante em relação à história da Terra, pode-se observar que o mesmo pode e frequentemente supera os equivalentes naturais.

Caride e Meira (2004, p.28) destacam que “na base desta filosofia ecossistêmica residem muitas das controvérsias que surgem nos binários dinâmicos: recursos naturais/população, meio ambiente/desenvolvimento socioeconômico, produção/consumo, etc.”

Cordani e Taioli (2000) indicam que qualquer modelo de desenvolvimento deve se pautar em padrões éticos que objetivem um melhor equilíbrio nos padrões de consumo entre os povos, de forma a garantir um bem estar mínimo a toda a população, sem ultrapassar a capacidade do meio ambiente de se regenerar.

É fato que no debate ambiental contemporâneo considera-se a existência de uma “crise ambiental” que é decorrente do colapso entre o crescimento econômico e a base finita dos bens naturais. A esse respeito, Caride e Meira (2004) mencionam a possibilidade de ocorrência de crises cada vez mais profundas, as quais denominam de crises de civilização. Para eles:

É possível, inclusivamente, que necessitemos de aprender a viver num permanente estado de crise, como sugeria Savater, de contínuos processos de organização e de desorganização, de ordem e de desordem, dentro dos quais só possamos aspirar a amortizar os efeitos que possam considerar-se como os mais negativos para o homem. (CARIDE; MEIRA, 2004, p.41)

Este pensamento, influenciado pelo paradigma da complexidade do filósofo contemporâneo Edgar Morin, faz referência à crise como consequência da “ausência de solução”, ao menos que aceitemos estabelecer novas regras que implicam em mudanças profundas na estrutura do sistema vigente. (CARIDE; MEIRA, 2004).

Para Morin (2015) as “soluções” existem, ideias diferentes e originais surgem por todo o planeta, geralmente em pequena escala, mas sempre com a finalidade de promover um verdadeiro movimento de transformação das sociedades. Neste sentido, a educação é considerada uma área essencial para o desenvolvimento humano, cultural e intelectual dos sujeitos e pode servir como palco para as transformações sociais almejadas.

Com o propósito de relacionar esta crise ambiental com a educação no sentido de amenizar tais conflitos, insere-se no contexto o seguinte questionamento: o que a escola e o professor podem fazer para promover uma educação ambiental que desperte nos estudantes uma consciência que os levem a mudança de hábitos, valores e tomada de decisões em relação ao meio ambiente?

Para tentar responder a esta questão é necessário ter-se claro a concepção de educação ambiental que nos referimos e defendemos no âmbito da pesquisa acadêmico-científica. A Educação Ambiental equivale a um processo educativo, aberto e permanente, pessoal e coletivo, de orientação teórico-prática, mediante o qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência de sua realidade físico-social e cultural, objetivando adquirir e transmitir os valores e atitudes necessárias para a compreensão e transformação do mundo, atendendo aos supostos básicos da qualidade ambiental. (CARIDE GÓMEZ, 1991 apud TORALES, 2006). Assim, a educação é, indubitavelmente, o local apropriado para discutir e tratar das relações sociedade-ambiente visando um futuro melhor.

O campo conceitual e as correntes que compreendem as pesquisas em educação ambiental são vastos e polissêmicos e têm evoluído ao longo da história de acordo com as conjunturas políticas, ambientais e socioculturais nas diferentes escalas geográficas. Em relação ao Pensamento Complexo, a maioria das correntes ambientais se inter-relacionam e vinculam pressupostos teórico-metodológicos com fundamentos a partir do paradigma da complexidade que podem servir de bases para a pesquisa em educação ambiental. O esquema a seguir contempla algumas dessas correntes.

Figura 1 – Correntes da Educação Ambiental.

Fonte: Adaptado de Sauvé, 2005.



Exemplificações das correntes nas pesquisas em educação ambiental:

a) “A análise sistêmica possibilita identificar os diferente componentes de um sistema ambiental e salientar as relações entre seus componentes, como as relações entre os elementos biofísicos e os sociais de uma situação ambiental.” (SAUVÉ, 2005, p.22).

b) Na corrente holística, “é preciso levar em conta não apenas o conjunto das múltiplas dimensões das realidades socioambientais, mas também das diversas dimensões da pessoa que entra em relação com estas realidades, da globalidade e da complexidade de seu “ser-no-mundo”. Aqui a globalidade é considerada no sentido holístico, referindo-se à totalidade de cada ser.” (SAUVÉ, 2005, p. 27). Pereira (2016) também considera o ser humano na sua totalidade e nas suas multidimensões definindo-o como um ser biopsicosocioambiespiritual. Este termo é próprio do autor o qual considera o ser humano na perspectiva multidimensional.

As demais correntes ambientais, de uma forma ou de outra, também possuem caráter de inter-relação e/ou de interação entre os componentes que constituem as pesquisa em educação ambiental. O princípio dialógico é, também, um princípio gerativo e estratégico do método de Edgar Morin enquanto caminho a ser percorrido.

Quanto aos caminhos das pesquisas em educação ambiental, Ferraro Junior (2011) utiliza uma interessante metáfora de Edgar Morin em relação aos projetos de educação ambiental. Utilizando-se da máxima: “É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certezas” Ferraro Junior (2011) nos diz que para que a viagem nas pesquisas em educação ambiental continue, precisamos navegar nos distanciando dos recifes da psicologização, da prescrição, do preconceito, da redução, da ausência de interpretação e da convalidação, e que devemos pensar em faróis a serem postos sobre as ilhas da Dialética, da Hermenêutica e da Complexidade. Assim, talvez possamos minimizar as fragilidades acerca das pesquisas em educação ambiental.

Considerações finais

Ao analisar os relevantes aspectos referentes ao Pensamento Complexo sob a ótica de Edgar Morin acerca do processo educativo, e considerando a educação ambiental no contexto escolar e na pesquisa acadêmica, podemos levantar uma série de observações relativas às relações que acontecem no âmbito educacional.

O atual modelo de ensino, sem sombra de dúvidas, encontra-se em pleno desgaste devido à carência de políticas por parte do poder público que atendam as reais necessidades do campo da educação, bem como, da concepção de ciência que a universidade possui, resultando muitas vezes num processo educativo fragilizado em suas práticas pedagógicas.

Essa fragilidade do ensino não se fundamenta apenas no contexto das políticas educacionais e na forma como elas acontecem. Ao longo da história, a partir dos avanços da ciência, o conhecimento passou a ser cada vez mais fragmentado dando origem as especialidades por meio das diversas áreas do conhecimento.

Com a fragmentação do conhecimento, a herança histórica que alcançamos nos processos de ensino é a cultura do “não pensar”, do pensar isolado, sem estabelecer as devidas conexões entre as áreas do conhecimento. Assim, torna-se indispensável à discussão de tudo que diz respeito ao ensino e o que dele se espera.

O Pensamento Complexo reflete numa concepção que pode possibilitar a superação/minimização dos atuais problemas que a educação contemporânea enfrenta. Para isso, surge a necessidade de tomada de decisão e, conforme defende Edgar Morin, a “reforma do pensamento” emerge como uma luz em meio à escuridão.

Considerando o conhecimento como uma produção humana passível de erros, ilusões e contradições, as reflexões a partir dos princípios da complexidade representam possibilidades para (re) pensar a escola, o processo de ensino, a educação ambiental e as formas de apreensão do conhecimento por meio de métodos/caminhos baseados no diálogo e na interação entre o todo e as partes.

Conforme já mencionado, um dos grandes desafios da docência é ensinar para a era planetária, ainda mais quando se tem uma cultura de ensino baseada no conhecimento compartimentado. A partir dos escritos de Edgar Morin sobre o Pensamento Complexo, reconhecemos que a almejada reforma do pensamento não é uma tarefa tão simples, pois exige, a priori, uma desconstrução de conceitos e da forma como enxergamos o mundo ao nosso entorno. Porém, considerando as diversas situações-problemas que abarcam o ser humano na sua multidimensionalidade, em algum momento precisa-se começar a trilhar novos caminhos no sentido de conhecer e compreender as relações que acontecem a todo o momento envolvendo as multidimensões do ser, da vida, do meio ambiente, do planeta e do universo como partes que se integram e interagem.

No que tange a educação ambiental, o paradigma da complexidade também promove importantes contribuições tendo em vista as multidimensões que compreendem o ambiente e o ser humano como parte integrante dele. As pesquisas em educação ambiental devem considerar as relações local-global e global-local sem perder as especificidades do local e as propriedades do global. Na relação sociedade-natureza nada ocorre isoladamente, tudo se inter-relaciona. Trabalhar a educação ambiental com os estudantes, a partir do princípio dialógico/interacionista, é uma possibilidade considerável para formar cidadãos responsáveis com as questões ambientais visando uma sociedade sustentável.

Para encerrar as reflexões, ressalta-se que a tese de Edgar Morin não se trata de reinventar a roda, mas sim de religar os saberes historicamente fragmentados e que agora emerge a luz do Pensamento Complexo. Neste sentido, a docência como detentora de uma função essencialmente social, por meio da crítica e da autocrítica, deve atender as necessidades dos estudantes e a relação desses com o mundo (vida, natureza, sociedade, trabalho,) visando à formação de cidadãos aptos e dotados de valores éticos e morais para exercerem seus papéis na sociedade por meio de uma nova pedagogia que considere os princípios da complexidade em relação ao meio ambiente e, especialmente, em relação à educação ambiental.

Referências

BRASIL. Lei n° 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, Política Nacional de Educação Ambiental. Diário Oficial Da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 abr. 1999.

_______. Resolução nº 02, de 15 de junho de 2012. Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental. Ministério da Educação, Conselho Nacional da Educação, Brasília, DF, 15 jun. 2012.

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