ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
Números anteriores 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Resultado do prêmio     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Educação     Você sabia que...     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Ações e projetos inspiradores     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias
Artigos

14/06/2018ASPECTOS SOCIOAMBIENTAIS RELACIONADOS AO TRABALHO E À SAÚDE DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS DAS COOPERATIVAS DE NATAL-RN  
Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3217 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

ASPECTOS SOCIOAMBIENTAIS RELACIONADOS AO TRABALHO E À SAÚDE DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS DAS COOPERATIVAS DE NATAL-RN

Regina de Fátima dos Santos Braz1, Ciliana Regina Colombo2, Marjorie Fonseca Silva Medeiros3, Paulo Roberto Medeiros de Azevedo4, Marciano Furukava5, Maria de Fátima de Souza6



1Doutora em Imunologia, Departamento de Microbiologia e Parasitologia, Centro de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN, Natal (RN),santosbraz@gmail.com.

2Doutora em Engenharia de Produção, Departamento de Engenharia de Produção, Centro de Tecnologia, UFRN, cilianacolombo@gmail.com.

3Mestre em Educação, Superintendência de Infraestrutura, UFRN, marjoriefsm@gmail.com.

4Doutor em Ciências da Saúde, Departamento de Estatística, Centro de Ciências Exatas e da Terra, UFRN, pmra@ccet.ufrn.br.

5Doutor em Ciência e Engenharia de Materiais, Departamento de Engenharia de Materiais, Centro de Tecnologia, UFRN, furukava2010@yahoo.com.br.

6Doutora em Parasitologia, Departamento de Microbiologia e Parasitologia, Centro de Biociências, UFRN, mfsouza@cb.ufrn.br.

Autora para correspondência: santosbraz@gmail.com

RESUMO

O modelo econômico capitalista baseado no consumo e crescimento econômico tem conduzido à geração de grande volume de resíduos sólidos, o que deu origem à atividade de catador de recicláveis. O objetivo deste trabalho foi avaliar alguns riscos socioambientais e a repercussão destes na saúde dos catadores de recicláveis das cooperativas de Natal-RN. Foi aplicado um instrumento com questões sobre aspectos socioeconômicos, ambientais e da saúde dos catadores. Os resultados mostraram que dentre as variáveis referentes às condições das moradias, a destinação das águas cinzas foi significativamente associada à frequência de diarreia (p=0,04). A disponibilização de EPIs foi insuficiente e deve estar associada com a frequência de 38,6% de acidentes do tipo corte. As doenças mais frequentemente relatadas foram dor de cabeça, problemas de coluna, de visão, diarreia e varizes, com as respectivas frequências de 71,0%; 67,1%; 37,7%; 34,3% e 24,3%. Os problemas de visão, coluna e varizes foram significativamente mais frequentes nas mulheres do que entre os homens (p=0,02, p=0,03 e p=0,001, respectivamente). As condições insalubres da atividade de catador predispõem ao surgimento e/ou agravamento de problemas de saúde desses trabalhadores.

PALAVRAS-CHAVE: Condições de moradia, Condições do trabalho, Doenças ocupacionais.

ABSTRACT

The capitalist economic model based on consumption and economic growth has led to the generation of large volume of solid waste, that gave rise to the activity of recyclable waste picker. The objective of this study was to evaluate some environmental and social risks and their repercussion on the health of recyclable waste pickers from Natal-RN cooperatives. An instrument was applied with questions about socioeconomic, environmental and health aspects of the collectors. The results showed that housing conditions related to gray water disposal were significantly associated with the frequency of diarrhea (p=0.04). The availability of PPE was considered insufficient and should be associated with a frequency of 38.6% of cut-type accidents. The most frequently reported diseases were headache, spinal problems, vision problems, diarrhea and varicose veins, with respective frequencies of 71.0%; 67.1%; 37.7%; 34.3% and 24.3%. The vision and spinal problems and varicose veins were significantly more frequent in women than in men (p=0.02, p=0.03 e p=0.001, respectively). The unhealthy conditions of this activity, predispose to the appearance and / or worsening of health problems of these workers.

KEYWORDS: Residence conditions, Work conditions, Occupational diseases.

introdução

O ambiente, o trabalho e a organização deste podem causar efeitos diferenciais na saúde do trabalhador (LAURELL, NORIEGA, 1989). Nesse sentido, a saúde ocupacional envolve a relação entre trabalho e ambiente, e resulta da interação entre os agentes patogênicos e o organismo do trabalhador. Esses agentes patogênicos podem ser físicos, mecânicos, químicos e biológicos, além dos psicológicos (SATO; BERNARDO; BERNARDO, 2006).

A qualidade de vida do trabalhador também é agravada pela qualidade dos serviços públicos oferecidos, tais como, saúde, transporte, segurança e educação. Com relação a este, o baixo nível de escolaridade tem sido verificado entre os catadores das cooperativas de várias cidades brasileiras (BRAZ et al, 2014; KIRCHNER; SANDELLES; STUM, 2009; MEDEIROS; MACEDO, 2006), o que contribui para a exclusão, dessa parcela da população, do acesso ao mercado de trabalho formal e de uma melhor qualidade de vida. Sendo assim, a saúde do trabalhador encontra problemas não só a nível institucional, mas também no modelo de crescimento econômico, que exclui parte da população do acesso aos bens e serviços, acentuando assim a desigualdade na sociedade brasileira (GOMES; CARVALHO, 1993).

A Constituição Federal (CF) de 1988, nos artigos 6° e 196, determina que a educação, a saúde, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados, são direitos sociais. A CF determina ainda quea saúde é direito de todos e dever do Estado, o qual deve garantir mediante políticas sociais e econômicas a redução do risco de doença e de outros agravos, bem como o acesso universal e igualitário aos serviços, para sua promoção, proteção e recuperação”. A CF também estabelece no artigo 200 que o Sistema Único de Saúde (SUS), tem como uma de suas atribuições executar ações relacionadas com a manutenção da saúde do trabalhador (BRASIL,1988).

A saúde humana envolve múltiplos fatores, dentre os quais podem ser citados: as condições de habitação e de trabalho, a alimentação, o ambiente, o acesso aos serviços de saúde, níveis de escolarização e renda, liberdade, segurança e lazer. Em resumo, a saúde é resultante das condições de vida e do ambiente. O crescimento populacional com a consequente urbanização de áreas rurais e destruição de matas, que deveriam ser preservadas, também contribuem com impactos negativos ao meio ambiente e à saúde humana. De modo similar, a industrialização e o modelo econômico capitalista, que são baseados no consumo e crescimento econômico não sustentável, conduzem ao esgotamento dos recursos naturais e à geração de resíduos, que juntos impõem consequências desastrosas ao meio ambiente, incluindo à saúde humana, pois o homem é parte do ambiente (CAPRA, 2002; AUGUSTO, 2003).

No Brasil a quantidade de resíduos sólidos domiciliares e públicos, coletados e recebidos nos vários tipos de destinos finais, alcançou a marca de 259.547 toneladas/dia, no ano de 2008 (IBGE, 2008). No contexto do aumento da quantidade de resíduos gerados pela indústria e pelo consumismo, surgiram os catadores de resíduos recicláveis, cujo número vem crescendo no Brasil. Em 1999, a população de catadores de recicláveis no Brasil foi estimada em 300 mil e esse número aumentou em dez anos, para um milhão (BOSI, 2008; MEDEIROS; MACEDO, 2006).

A importância do trabalho dos catadores de materiais recicláveis é inquestionável sob a ótica social, econômica e ambiental. Porém, existem evidências de que a maioria desses trabalhadores das cidades brasileiras, não tem acesso aos direitos trabalhistas, como licença remunerada por doença, licença maternidade, seguro desemprego, décimo terceiro salário, férias e aposentadoria, conforme mostrado no relato sobre os catadores de Goiânia (MEDEIROS; MACEDO, 2006).

Falhas nas questões trabalhistas, associadas à baixa renda, às condições insalubres deste tipo de trabalho e às condições de moradia, podem levar ao surgimento e/ou agravamento de problemas na saúde do catador. Portanto, é necessário que esses trabalhadores possam exercer sua atividade de maneira que haja proteção a sua saúde (MEDEIROS et al, 2013) .

A lei 12.690/2012, que dispõe sobre a organização e funcionamento das cooperativas, institui que os salários dos cooperados não sejam inferiores ao piso da categoria profissional e na ausência deste, que não seja inferior ao salário mínimo. Essa lei também determina carga horária de oito horas diárias de trabalho e 44 horas semanais; descanso anual remunerado, seguro de acidente de trabalho, além de outros direitos (BRASIL, 2012). No entanto, entre os cooperados do município de Natal/RN, observou-se que a remuneração percebida por 47,1% dos cooperados era inferior ao salário mínimo nacional. De modo semelhante, os demais direitos trabalhistas acima citados e previstos na lei não são seguidos (BRAZ et al, 2014) .

Dessa forma, é imprescindível que sejam assegurados os direitos trabalhistas, assim como a melhoria das condições de trabalho, qualidade de vida e de renda dos catadores. Contudo, o acesso a determinados direitos trabalhistas como afastamento remunerado em caso de doenças ocupacionais ou outras, requer a contribuição com o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Acredita-se que a maioria dos catadores autônomos ou inseridos em cooperativas, como aqueles das cooperativas de Natal/RN, que declararam não contribuir com o INSS, não recebem os rendimentos quando afastados do trabalho por razões de saúde (SOUZA et al, 2014) .

O presente trabalho vem mostrar alguns riscos ambientais e sociais e a repercussão destes na saúde dos catadores de materiais recicláveis inseridos em cooperativas de Natal-RN.

metodologia

Neste estudo foram entrevistados os catadores de materiais recicláveis organizados em duas cooperativas na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. As cooperativas denominadas COOPCICLA (Cooperativa de Materiais Recicláveis da Cidade de Natal) e COOCAMAR (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis e Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do Norte) encontram-se instaladas e em funcionamento no bairro Cidade Nova, em uma área onde funcionou, de 1972 a 2004, o antigo lixão da cidade. Atualmente essa área funciona como espaço de transbordo dos resíduos sólidos (RS) domésticos coletados na capital e no município de Parnamirim, para o posterior transporte até o aterro sanitário, localizado no município de Ceará-Mirim.

Os catadores atuam em três das quatro zonas administrativas da cidade do Natal, embora não atuem na totalidade dos bairros dessas três zonas. O trabalho dos catadores se divide em duas fases principais, a de coleta dos materiais no sistema porta a porta e nos grandes geradores, como por exemplo, os hoteis. O transporte dos catadores das cooperativas até os bairros é feito em caminhões, onde parte da equipe é transportada na carroceria, sem qualquer observância às normas de segurança no trânsito. Os catadores caminham longos trajetos pelas ruas para a coleta dos materiais nas residências, acumulando os mesmos em pontos do trajeto e daí estes são entregues para outros catadores que permanecem na carroceria do caminhão, para organizá-los em bags.

A outra fase do trabalho se refere à separação dos materiais na área interna da cooperativa. Atualmente, ambas as cooperativas funcionam em galpões, com estrutura física inadequada, onde os resíduos contidos em bags são dispostos no chão e separados manualmente. Não existe qualquer estrutura física, tal como bancada, esteira e assentos que proporcione uma condição de conforto ergonômico para os trabalhadores. Observa-se que o ambiente apresenta muito material em suspensão, presença de insetos e roedores, além de odor característico de material em decomposição, seja em virtude da presença de restos de matéria orgânica nos resíduos recicláveis, seja pela proximidade do local de transbordo dos RS oriundos da coleta domiciliar (Figura 1 e 2).

Figura 1: Foto da área interna de uma cooperativa de catadores de recicláveis de Natal/RN



Figura 2: Foto da área externa de uma cooperativa de catadores de recicláveis de Natal/RN, mostrando proximidade com os RS da estação de transbordo

Os indicadores de saúde dos catadores de materiais recicláveis foram avaliados através de um instrumento elaborado por uma equipe multiprofissional da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e aplicado entre 2012 e 2013. Essa equipe era composta por docentes de diferentes departamentos, técnicos de nível superior e discentes de diversos cursos de graduação e pós-graduação. O instrumento continha questões objetivas sobre aspectos socioambientais e da saúde dos catadores. Um termo de consentimento livre e esclarecido que fazia parte do instrumento foi lido, sanadas as dúvidas e então assinado por cada cooperado, antes da entrevista.

Foram abordadas questões relativas à infraestrutura das moradias (tipo de moradia, sistema de água e esgoto, presença de vetores de doenças nas residências), condições de trabalho (ocorrência de acidentes no trabalho, cobertura vacinal e uso de equipamentos de proteção individual - EPIs) e ocorrência de doenças.

A análise estatística dos dados foi realizada utilizando-se o teste qui-quadrado (software SPSS, versão 24.0), admitindo-se nível de significância de 0,05.

resultados

O instrumento foi aplicado a 70 catadores ativos naquele momento nas duas cooperativas, dos quais 58,6% eram mulheres e 41,4% eram homens. As residências dos catadores de recicláveis inseridos nas duas cooperativas da cidade de Natal eram todas de alvenaria, de acordo com as declarações dos mesmos. Esses catadores residiam principalmente em três bairros (Cidade Nova, Felipe Camarão e Planalto), localizados próximos à área de transbordo dos RS.

A respeito do abastecimento de água, 97,1% declararam ter acesso à água tratada pela empresa de águas e esgoto e apenas 2,9% recebiam água de outra fonte, provavelmente obtida de poços. O armazenamento da água nas residências de 55,7% dos catadores era feito em caixas d’água ou cisternas e 44,3% armazenavam em outros recipientes, que podiam ser baldes e tambores, ou não armazenavam.

Com relação à limpeza das caixas d’água, 34,4% declararam que faziam a limpeza com periodicidade de seis meses a um ano. Aqueles que armazenavam a água em cisternas declararam não fazer a limpeza das mesmas, ou faziam com intervalo maior do que um ano.

As doenças mais frequentemente relatadas pelos cooperados foram dor de cabeça, problemas de coluna, problemas de visão, diarreia e varizes, com as respectivas frequências de 71,0%, 67,1%, 37,7%, 34,3% e 24,3% (figura 3). Os problemas de visão, coluna e varizes foram significativamente mais frequentes nas mulheres do que entre os homens (p=0,02, p=0,03 e p=0,001, respectivamente).

Figura 3: Frequência das doenças relatadas pelos catadores de cooperativas de materiais recicláveis, de Natal/RN

Nos bairros onde residiam os catadores, as águas negras de 48,6% das residências eram destinadas às fossas. Quanto ao descarte das águas cinzas, 50,0% das residências descartavam nas fossas e 50,0% a céu aberto. A análise estatística não mostrou associação significativa entre águas cinzas e problemas de pele (p=0,06); mas a associação foi significativa com diarreia (p=0,04).

A diarreia que foi uma das doenças mais frequentemente relatadas pelos catadores não mostrou associação significativa com a variável limpeza dos recipientes de armazenamento de água (p=0,07). A presença de insetos e/ou roedores nas residências de 81,4% dos catadores também não mostrou associação significativa com diarreia (0,067), assim como a variável nível de escolaridade (p=0,102).

Entre os acidentes, corte foi o tipo mais frequente, relatado por 38,6% dos catadores. A elevada frequência de cortes pode ser justificada pela baixa oferta de EPIs pelas cooperativas. Embora os catadores tenham declarado que luvas, botas e óculos eram disponibilizados, 62,9% declararam não ter recebido qualquer tipo de EPI.

Outro aspecto de grande importância para os catadores é a cobertura vacinal contra o tétano, devido ao tipo de material que manipulam e pelo consequente risco de cortes. Um percentual de 24,3% dos catadores das cooperativas de Natal relatou não ter sido vacinado contra o tétano. Outras vacinas recebidas mais frequentemente relatadas foram contra rubéola, gripe e raiva, com as respectivas frequências de 32,9%, 30,0% e 11,4%. Essas informações foram obtidas por relato dos catadores e não pela consulta ao cartão de vacinação. A despeito da alta exposição dos catadores aos agentes biológicos patogênicos, apenas 4,3% reconheceram as infecções como risco da profissão.

O stress é um dos fatores que está relacionado com o estado geral de saúde de qualquer pessoa, independente da profissão. No entanto, entre os trabalhadores das cooperativas de catadores de Natal, 81,5% declararam sentir-se bem na profissão. Esse resultado indica que o stress causado pela profissão e pelo ambiente de trabalho, pode não estar interferindo nas doenças ora relatadas.

DISCUSSÃO

Entre os catadores de materiais recicláveis engajados nas duas cooperativas de Natal, quase a totalidade tinha acesso à água tratada, em comparação a 58,4% dos catadores do lixão do Distrito Federal (DF) (HOEFEL et al, 2013). Todavia, essa água pode ter contaminações pelo tipo de armazenamento e periodicidade de limpeza dos reservatórios em suas residências. Em se tratando de saúde desse grupo de trabalhadores, também deve ser considerada a qualidade da água e alimentos consumidos durante a jornada de trabalho, tanto pelas ruas coletando resíduos, como na nos galpões durante a etapa de segregação.

Vale salientar que a localização física das cooperativas se constitui um fator de alto risco para a contaminação de água e alimentos consumidos no âmbito da cooperativa, devido à proximidade desta com a estação de transbordo de RS provenientes de Natal e municípios adjacentes. Em virtude disso, outros problemas de saúde também podem ocorrer, seja pela toxicidade dos odores exalados ou presença de vetores de patógenos causadores de doenças infecciosas.

Na cidade de Natal, as águas servidas ainda são descartadas prioritariamente em fossas, visto que a cobertura de rede de esgoto documentada é de 31,8% (DA HORA; MEDEIROS; CAPISTRANO, 2013). Felizmente essa rede encontra-se em processo de ampliação. Para a população incluída nesse estudo, a deficiência de rede de esgoto nos bairros era agravada pelo fato de haver descarte das águas servidas a céu aberto, o que ocorreu na metade das residências dos catadores. Essa água acumulada em valas e terrenos, associada aos RS descartados próximo às residências, propiciavam um local adequado à proliferação de insetos (mosquitos, baratas, formigas) e roedores. Esse ambiente insalubre pode ser fonte de infecções por bactérias, parasitas e vírus, agentes de diarreias e outras doenças transmissíveis por água e alimentos contaminados.

A associação entre a destinação das águas servidas e a ocorrência de infecções foi significativamente confirmada através da alta frequência de diarreia. Esta doença que foi muito frequentemente relatada pelos catadores pode também estar relacionada à excessiva exposição ao calor, à baixa ingestão de água e à alimentação consumida sem a devida higienização, durante o trabalho nas ruas e nas cooperativas. A ingestão de alimentos indevidamente higienizados foi relatada pelos catadores do lixão do DF, dentre os quais 55,8% declararam ter consumido alimentos encontrados no lixo e 50,0% não tinham a devida higiene alimentar nas residências (HOEFEL et al, 2013).

O baixo nível de escolaridade pode ter influência sobre a ocorrência de diarreia. A despeito disso, a associação estatística entre essas varáveis não foi significativa no presente estudo. É importante ressaltar que 10,0% dos catadores eram analfabetos e 72,9% tem o nível fundamental incompleto (BRAZ et al, 2014). O baixo nível de escolaridade pode estar associado à falta de conhecimento sobre os agentes patogênicos, sua forma de transmissão e as práticas de higienização adequadas para prevenir as doenças infecciosas, cuja ocorrência é frequente nesse grupo de trabalhadores (SOUZA et al., 2016). A frequência de diarreia relatada pelos catadores das cooperativas de Natal foi maior que aquela relatada pelos catadores do lixão do DF (21,6%). Considerando-se que as condições de higiene nos lixões são inferiores às das cooperativas, a incidência menor de diarreia entre os catadores do lixão, provavelmente foi devido ao período de apenas três meses abordado naquele trabalho (HOEFEL et al, 2013).

O tipo de atividade exercida pelos catadores de materiais recicláveis é insalubre por sua natureza e predispõe a alguns riscos óbvios, como a ocorrência de cortes. Este tipo de acidente acontece, principalmente, em decorrência da segregação dos materiais feita de forma inadequada, por parte da população (FERREIRA; ANJOS, 2001). Isso significa que materiais perfurocortantes podem estar presentes entre os resíduos recicláveis, sem qualquer sinalização para a proteção do trabalhador, levando a uma elevada frequência de acidentes entre os catadores de lixões e de cooperativas (PORTO et al, 2004).

De acordo com Norma Regulamentadora n° 6 (NR-6), item 6.3 “A empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI adequado ao risco, em perfeito estado de conservação e funcionamento...” (BRASIL, 2007). A falha no uso de EPIs pode ser devida ao fornecimento insuficiente para os catadores ou pela baixa adesão ao uso, em função de possíveis desconfortos. Tal falha no uso de EPIs foi semelhante tanto por parte das cooperativas de Natal, como pela empresa de limpeza pública do DF. Neste caso 51,7% dos catadores do lixão declararam não receber EPIs, 10,4% recebiam, mas não utilizavam e 55,0% tinham sofrido acidentes, o que pode ser justificado pela carência de EPIs (HOEFEL et al, 2013).

Considerando a elevada ocorrência de acidentes do tipo corte entre os catadores de materiais recicláveis, faz-se necessário que a vacinação antitetânica atinja a totalidade desses trabalhadores. No entanto, cerca de um quarto dos catadores de Natal declararam não estar imunizados contra o tétano. Além disso, apenas um pequeno número desses catadores percebia as infecções como risco à profissão. Provavelmente este achado deve-se à falta de conhecimento dos catadores a respeito da morbidade e letalidade do tétano, e da relação deste com o tipo de trabalho que executam.

A conscientização da população de modo geral, e mais intensamente a dos catadores, deve ser realizada de forma a assegurar que o reforço da vacina antitetânica seja feito a cada dez anos (TOSCANO; KOSIM, 2003). É importante ressaltar que, embora a incidência de tétano na população brasileira venha decaindo anualmente, 60 óbitos foram notificados em 2017 no Brasil por essa doença (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2017). Dessa forma, é importante que os gestores das cooperativas estejam cientes da necessidade da administração de dose de reforço da vacina antitetânica, e com esse intuito realizem campanhas de vacinação contra o tétano ou incentivem aos cooperados para o seguimento das imunizações feitas em unidades de saúde.

Dentre as doenças mais relatadas pelos catadores de Natal encontram-se dor de cabeça, dor nas costas e varizes, as quais também foram citadas por catadores de outras cidades (ALENCAR; CARDOSO; ANTUNES, 2009; PORTO et al, 2004). A alta frequência de dor de cabeça e de problemas de visão, relatadas por catadores de ambos os sexos das cooperativas de Natal, pode estar relacionada à contínua exposição ao sol, durante a coleta pelo sistema porta a porta. O índice de raios ultravioleta (UV) em Natal é muito alto (SILVA; MARINHO, 2008) e tem sido relacionado com várias doenças, tais como, câncer de pele e catarata. A carência de EPI adequado, como óculos com proteção contra raios UV, pode estar contribuindo para os problemas de visão referidos pelos catadores. As dores de cabeça podem estar associadas também à exposição ao forte odor exalado pelos resíduos depositados na área de transbordo.

Os problemas de coluna e varizes entre os catadores de Natal podem estar relacionados com a estrutura inadequada dos galpões das cooperativas, onde a segregação do material coletado é feita de forma manual, sendo realizada principalmente pelas mulheres e sem a devida estrutura que propicie conforto ergonômico. Exposição a este tipo de risco também foi observada entre os catadores de Campina Grande (PB), sendo que as condições de trabalho mais precarizadas dos catadores informais propiciam um risco maior que aos catadores organizados em associação (CAVALCANTE; LIMA; SILVA, 2014). Entre os catadores do extinto aterro de Gramacho, Rio de Janeiro, a ocorrência de varizes foi relatada por 20,2% (PORTO et al, 2004). Os dados observados a respeito da presença de varizes nos catadores de materiais recicláveis corroboram com aqueles encontrados em pacientes submetidos à cirurgia de varizes. Entre estes, 87,1% eram do sexo feminino e o ortostatismo prolongado no trabalho foi relatado por 82,1% desses pacientes (LINS et al, 2012).

As respostas dos catadores das cooperativas de Natal, a respeito de como se sentem nessa profissão, mostrou que a maioria declarava sentir-se bem. No entanto, nas entrelinhas das entrevistas foram demonstradas insatisfações relacionadas à inexistência de direitos trabalhistas; além das desigualdades advindas do não cumprimento de algumas normas que regem uma cooperativa, tais como, alternância para o cargo de presidente através de processo eletivo (BRASIL, 2012). Entre os catadores de uma cooperativa de Salvador, foi observado que a satisfação na profissão era maior na faixa etária mais elevada; sendo esse sentimento inversamente proporcional às queixas de dores, que foram mais frequentemente relatadas pelos jovens (OLIVEIRA, 2011). A satisfação com a profissão de catador também se diferencia entre os gêneros, sendo mais elevada entre as mulheres das cooperativas de Natal (SOUZA et al, 2014). O baixo grau de satisfação pode estar relacionado com os motivos para o ingresso na profissão, quais sejam, a exclusão desses trabalhadores do mercado formal, baixa escolaridade ou outros eventos indesejáveis ocorridos no percurso da vida.

CONCLUSÕES

A quase a totalidade dos catadores tinha acesso à água tratada, mas os cuidados com a limpeza dos reservatórios de água eram insuficientes.

A destinação a céu aberto das águas servidas, na metade das residências dos catadores, foi relacionada com a frequência de diarreia.

A disponibilidade e a adesão ao uso de EPIs ocorreram em frequência menor que o necessário ao exercício da profissão de catador.

Os cortes foram o tipo de acidente mais frequente entre os catadores. Apesar disso, cerca de um quarto deles declarou não estar vacinados contra o tétano.

Os problemas de coluna e varizes foram os tipos de doenças mais frequentemente relatadas pelos catadores e afetaram de forma significativa as mulheres.

A maioria dos catadores das cooperativas de Natal declarou sentir-se bem nessa profissão, tendo sido essa satisfação maior entre as mulheres.

referências

ALENCAR, M.C.B.; CARDOSO, C.C.O.; ANTUNES, M.C. Condições de trabalho e sintomas relacionados à saúde de catadores de materiais recicláveis em Curitiba. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v. 20, n. 1, p. 36-42, 2009.

AUGUSTO, L.G.S. Saúde e vigilância ambiental: um tema em construção. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 12, n. 4, p. 177-187, 2003.

BOSI, P.B. A organização capitalista do trabalho “informal”. O caso dos catadores de recicláveis. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, n. 67, p. 101-191, 2008.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 19 abr. 2018.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 6 - Equipamento de Proteção Individual - EPI. 2007. Disponível em: <http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/NR/NR6.pdf>. Acesso em 19 abr. 2018.

BRASIL. Lei 12.690, de 19 de julho de 2012. Institui o Programa Nacional de Fomento às Cooperativas de Trabalho - PRONACOOP; e revoga o parágrafo único do art. 442 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12690.htm>. Acesso em: 19 abr. 2018.

BRAZ, R.F.S.; BISPO, C.S.; COLOMBO, C.R.; MEDEIROS, M.F.S.; SILVA, J.C.S.; TEIXEIRA, M.T.C.; SARTHOU, S.A.; SOUZA, M.F. Estudos sobre os aspectos socioeconômicos dos catadores de resíduos recicláveis organizados em cooperativas na cidade de Natal-RN. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, Ed. Especial Impressa - Dossiê Educação Ambiental, p. 147-159, 2014.

CAPRA, F. 2002. O ponto de mutação. 23a ed. São Paulo, Cultrix, 432 p.

CAVALCANTE, L.P.S.; SILVA, M.M.P.; LIMA, V.L.A. Análise comparativa de riscos ergonômicos e de acidentes que envolvem catadores de materiais recicláveis organizados informais. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GESTÃO AMBIENTAL, 5, 2014, Belo Horizonte, MG. Anais eletrônicos..., 2014. Disponível em: <http://www.ibeas.org.br/congresso/Trabalhos2014/III-038.pdf>. Acesso em 19 abr. 2018.

DA HORA, C.E.P.; MEDEIROS, F.A.C.; CAPISTRANO, L.F.D. Anuário Natal 2013. Natal: SEMURB, 2013. 400 p. Disponível em: <http://www.natal.rn.gov.br/bvn/publicacoes/Anuario_2013.pdf>. Acesso em 19 abr. 2018.

FERREIRA, J.A.; ANJOS, L.A. Aspectos de saúde coletiva e ocupacional associados à gestão dos resíduos sólidos municipais. Cadernos de Saúde Pública, v.17, n. 3, p. 689-696, 2001.

GOMES, C.M.; CARVALHO, S.M.T.M. Social inequalities, labor and health. Cad. Saúde Públ., v. 9, n. 4, p. 498-503, 1993.

HOEFELL, M.G.; CARNEIRO, F.F.; SANTOS, L.M.P.; GUBERT, M.B.; AMATE, E.M.; SANTOS, W. Accidents at work and living conditions among solid waste segregators in the open dump of Distrito Federal, Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 16, n. 3, p. 764-785, 2013.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico - 2008. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb2008>. Acesso em 19 abr. 2018.

KIRCHNER, R.M.; SANDELLES, A.P.F.; STUM, E.M.F. Percepção e perfil dos catadores de materiais recicláveis de uma cidade do RS. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, v. 5, n. 3, p. 221-232, 2009.

LAURELL, A.C.; NORIEGA, M. Processo de produção e saúde: trabalho e desgaste operário. São Paulo: Hucitec, 1989. 333p.

LINS, E.M.; BARROS, J.W.; APPOLÔNIO, F.; LIMA, E.C.; BARBOSA JUNIOR, M.; ANACLETO, E. Perfil epidemiológico de pacientes submetidos a tratamento cirúrgico de varizes de membros inferiores. Jornal Vascular Brasileiro, v. 11, n. 4, p. 301-304, 2012.

MEDEIROS, L.F.R.; MACEDO, K.B. Catador de material reciclável: uma profissão para além da sobrevivência? Psicologia e Sociedade, v.18, n. 2, p. 62-71, 2006.

MEDEIROS, M.F.S.; COLOMBO, C.R.; SOUZA, M.F.; TEIXEIRA, M.T.C.; OLIVEIRA S.K.R. Educação como instrumento para melhoria das condições laborais dos catadores de materiais recicláveis da cidade de Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. In: Seminário de Educação 2013. Educação e (Des)colonialidades dos saberes, práticas e poderes, 21, Cuiabá, Mato Grosso. (CD-ROM).

Ministério da saúde. Situação epidemiológica – dados. 2018. Disponível em: <http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/tetano-acidental/11473-situacao-epidemiologica-dados>. Acesso em: 19 abr. 2018.

OLIVEIRA, D.A.M. Percepção de riscos ocupacionais em catadores de materiais recicláveis: estudo em uma cooperativa em Salvador- Bahia. 2011. 168 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho, Faculdade de Medicina da Bahia, Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, 2011.

PORTO, M.F.S.; JUNCÁ, D.C.M.; GONÇALVES, R.S.; FILHOTE, M.I.F. Lixo, trabalho e saúde: um estudo de caso com catadores em um aterro metropolitano no Rio de Janeiro, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 20, n. 6, p. 1503-1514, 2004.

SATO, L.; BERNARDO, F.A.C.; BERNARDO, M.H. Psicologia e saúde do trabalhador: práticas e investigações na Saúde Pública de São Paulo. Estudos de Psicologia, v. 11, n. 3, p. 281-288, 2006.

SILVA, F.R.; MARINHO, G.S. Estudo da radiação ultravioleta em Natal – RN. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOFÍSICA ESPACIAL E AERONOMIA, 2, Campina Grande, PB. Anais eletrônicos... 2008. Disponível em: <http://www.crn2.inpe.br/lavat/publicacoes/radiacao/SBGEA2008-EstudodaRUVemNatal.pdf>. Acesso em 19 abr. 2018.

SOUZA, M.F.; COLOMBO, C.R.; MEDEIROS, M.F.S.; BISPO, C.S.; FURUKAVA, M.; BRAZ, R.F.S.; Censo dos catadores de materiais recicláveis de Natal, RN. Revista Eletrônica Extensão & Sociedade - PROEX/UFRN, v. 1, ano 7, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufrn.br/extensaoesociedade/article/view/5526>. Acesso em 19 abr. 2018.

SOUZA, M. F.; SILVA, R. O.; ARIMATEIA, D. S.; SILVA, R. M.; CALHEIROS, M. E. A. Indicadores de saúde de catadores de materiais recicláveis: elementos para reflexões sobre a temática dos resíduos sólidos. Rev. Elet. Extensão & Sociedade, v. 7, n. 1, p. 15-31, 2016. Disponível em: <https://periodicos.ufrn.br/extensaoesociedade/article/view/12572/pdf>. Acesso em: 14 out. 2017.

TOSCANO, C.; KOSIM, L. 2003. Cartilha de vacinas: para quem quer mesmo saber das coisas. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 40 p. Disponível em: <http://www6.ensp.fiocruz.br/visa/files/Vacinas_OPAS.pdf>. Acesso em 19 abr. 2018.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos alunos bolsistas e voluntários do programa de extensão universitária AFOTEC-RESOL que participaram na aplicação do instrumento e aos catadores das cooperativas COCAMAR E COOPCICLA, pela disponibilidade para responder às entrevistas.





" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">
 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Resultado do prêmio     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Entrevistas     Culinária     Arte e ambiente     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Educação     Você sabia que...     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Ações e projetos inspiradores     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias