ISSN 1678-0701
Número 64, Ano XVII.
Junho-Agosto/2018.
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14/06/2018PRODUÇÃO DE CAL E IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS: DESAFIOS À SUSTENTABILIDADE  
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PRODUÇÃO DE CAL E IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS: DESAFIOS À SUSTENTABILIDADE

Maria do Socorro Lopes da Silva

Mestranda em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB.

Antônio Roberto Xavier

Doutor (UFC) e Pós-doutor em Educação (UFPB); Professor Permanente do Mestrado Acadêmico em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis (MASTS) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB.

Ana Célia Lopes Cavalcante

Mestranda em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB.

Edilberto Cavalcante Reis

Doutor em História Social (UECE); Professor Permanente do Mestrado Interdisciplinar em História e Letras da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC) da Universidade Estadual do Ceará – UECE.

RESUMO

Este artigo objetiva demonstrar os impactos socioambientais causados pela indústria da cal no município de Acarape, Macrorregião do Maciço de Baturité, Estado do Ceará. Trata-se de um estudo de caso com pesquisa descritiva e abordagem qualitativa.

Palavras-chave: Indústria de Cal. Impactos Socioambientais. Sustentabilidade.

ABSTRACT

This article aims to demonstrate the socioenvironmental impacts caused by the lime industry in the municipality of Acarape, Macroregion of the Baturité Massif, State of Ceará. It is a case study with descriptive research and qualitative approach.

Keywords: Calcium Industry. Socio-environmental Impacts. Sustainability.

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa foi procedida em localidades de Acarape. O município de Acarape, com aproximadamente 16.418 habitantes, localiza-se no Estado do Ceará, distante cerca de 56 km da Capital, com extremos ao Norte: Guaiuba, Sul: Barreira, Leste: Pacajus e ao Oeste: Redenção, composto por 15 localidades e um Distrito denominado Canta Galo, onde ocorre a maior produção de cal da cidade, gerando emprego, renda e sendo o principal setor de movimentação econômica. Contudo, observa-se que tal atividade tem interferido no equilíbrio natural, e esse aspecto merece nossa devida atenção (IBGE, 2016).

Para uma melhor compreensão, faz-se necessário refletirmos sobre o entendimento que temos sobre meio ambiente, onde este pode ser tratado como tudo que habita a Terra seja na forma viva ou não viva e que interfere na vida humana e no ecossistema. De acordo com a Lei 6.938/81 “omeio ambiente, é um conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

Nesse sentido, compreende-se que a ação exploratória do Cal no Município de Acarape tem influenciado nas interações no que se refere a sociobiodiversidade, pois sabe-se que a produção de cal é algo que movimenta a economia do município como um dos únicos meios para que as famílias tenha garantido o sustento, porém são vários os efeitos locais que causam impactos socioambientais dos quais podemos citar as emissões de material particulado e as mudanças na paisagem.

Cientes de tal realidade, este trabalho surge como uma proposta que visa demonstrar, identificar e debater sobre os impactos ao meio ambiente causados pela indústria de cal. A intenção é que a partir deste estudo possamos propor adoção de atitudes voltadas a minimização dos impactos negativos que tem transformado a realidade local pautando uma discussão com foco em um ambiente sustentável garantidor de qualidade de vida aos munícipes em alusão.

INDUSTRIALISMO E MEIO AMBIENTE: DILEMAS À SUSTENTABILIDADE

Atualmente observamos uma sustentabilidade do desenvolvimento capitalista industrial, pois o consumo de material ultrapassa todos os limites e coloca a vida em segundo plano, ou seja, uma insustentabilidade biótica. Certamente são forças opostas. Para se gerar um novo equilíbrio a prática socioambiental deve ser controlada através de uma redefinição e uma ressignificação da própria política, percepções e ações que valorizem os recursos naturais, valores éticos e morais.

O direito ao ambiente ecologicamente equilibrado deve ser assegurado a todos(as), de forma integrada e interdependente com os demais direitos, para se resguardar de riscos e ameaças que expõem o planeta ao desequilíbrio na qualidade de vida, invocando, assim, a equidade ambiental.

O grande desafio socioambiental hoje é, portanto, romper com a ideia de um pensamento único e unidimensional, orientado rumo a um “progresso sem limites”, que vem reduzindo, sufocando e superexplorando a natureza. E para isso não basta de firmarem acordos e convenções, que depois de colocados em prática vão ser regidos por essa mesma racionalidade instrumental e econômica que hoje questionamos, mas sim ir legitimando outras formas de compreensão da vida e da complexidade do mundo e uma nova ética da práxis no mundo. (LEFF, 2007, p. 9).

A agressão ambiental pode acarretar danos irreparáveis ao ecossistema, comprometendo o equilíbrio ambiental. O problema ambiental é responsabilidade de todos, porém muitos não têm consciência disso. Essa falta de compromisso amplia a complexidade do problema, necessitando de intervenções que envolvam a saúde ambiental, sendo importante refletir sobre esse assunto para ser alcançado o bem-estar humano e ecológico, bem como a finalidade de promover saúde e prevenir danos.

Ao insistir na temática do meio ambiente por certo sustenta-se que todo desenvolvimento social remete a qualidade da vida como uma totalidade. De certo modo, a perspectiva da consolidação de um ambiente com dignidade de vida e com destaque para o diálogo com a natureza remete uma postura ética e altruísta, oposta a apropriação privada que tem como primordial o detrimento da igualdade e envereda sem dor nem piedade para o sofrimento alheio. (RUSCHEINSKY, 2002, p. 68).

Uma análise da realidade, por meio da coleta de informações, é possível identificar as ameaças e ao mesmo tempo apresentar possibilidades de libertação para novos rumos que deverão ser tomados individual e coletivamente despertando para as ações conscientes e concretas, assumindo pensamento crítico e responsável diante as ações humanas e o ambiente natural.

Pensando assim, Rodriguez e Silva (2012) apontam para a problemática do meio ambiente e entendem que precisa ter um consciência crítica, para assim dispor de capacidade para capturar a gênese e a evolução dos problemas ambientais, sendo assim necessário desenvolvermos atitudes e comportamentos que levem a participação da sociedade em busca de um equilíbrio ambiental.

A industrialização traz grandes preocupações com agressões e riscos ambientais que vêm se construindo ao longo do processo histórico. As indústrias têm poluído o planeta e ameaçado os seres vivos de diversas formas. O capitalismo industrial e seu desenvolvimento ao tempo que proporcionou riquezas também trouxe riscos ao equilíbrio socioambiental (XAVIER, 2016).

Hoje, vemos o desenvolvimento capitalista industrial como algo sem limite, ou seja, uma insustentabilidade, com forças opostas à proposta de uma efetiva interação racional entre homem e ambiente natural. Como mostram Melo e Oliveira (2000, p.17) “A exploração do trabalho, a fome, a exclusão social e a degradação ambiental, são problemas recorrentes, dentro de um sistema cujas causas se misturam às consequências, pelo desordenamento econômico”.

O homem sempre buscou na natureza as condições necessárias para seu desenvolvimento. Esse processo se deu de forma desequilibrada sem considerar as limitações impostas às áreas de maior fragilidade ambiental. Os padrões e efeitos referentes às pressões sobre o meio ambiente gerados pelo consumidor são preocupantes uma vez que estes não fazem uso priorizando apenas as suas necessidades básicas e individuais de alimentação, habitação e outras, mas sim, de um processo exploratório que vai além da capacidade de suporte do planeta (FELDMANN, 2007).

Desta forma o homem se torna refém do capital, de tal forma que produz uma relação de poder, de desigualdade social a ponto de invisibilizar e valorar o meio ambiente de forma devida. Vale destacar que o crescimento econômico tem de se adequar na busca da sustentabilidade ambiental, da mesma forma que a equidade social deve ser fruto de uma adaptação por parte da sociedade na busca desta sustentabilidade.Nesse contexto competitivo as diferentes formas de organização ou desorganização, traz impactos significativos destrutivos com foco apenas no lucro.

O que a terra levou bilhões de anos em evolução biológica para formar o mais complexo sistema de vida do Universo, o homem destrói a uma velocidade nunca antes vista. Apenas um elemento da biodiversidade, a diversidade de espécies, desaparece 1.000 a 10.000 vezes maior que a taxa natural desse fenômeno. (CARVALHO, 2011, p. 116).

Assim é necessário uma conscientização e uma tomada de conhecimento por parte da comunidade para ações efetivas em defesa do ambiente para que as gerações do presente e do futuro, possam dispor dos recursos existentes no planeta.

MÉTODOS E PROCEDIMENTOS

A pesquisa é de cunho empírico, de abordagem qualitativa e descritivo-exploratória quanto ao seu objetivo. O estudo foi desenvolvido no distrito de Canta Galo, distante da sede do município de Acarape 5 km, e nas localidades de Carro atolado, 1km de distância de Canta Galo e Frades, 1km de distância de Carro Atolado. Sendo que os sujeitos perscrutados são moradores residentes somente da localidade de Canta Galo, as outras comunidades, foram somente visitadas e feita uma análise fisiográfica nas proximidades dos fornos de produção de cal.

As pessoas entrevistadas foram do sexo masculino e feminino acima de trinta anos, por meio da utilização de entrevistas para a coleta de dados como técnicas de pesquisa, partindo para uma análise dos dados por meio do discurso.

Descrição do lócus da pesquisa

Fonte PME de Acarape

O município de Acarape fica nas terras da região entre os sopés do Maciço de Baturité e a serra do Cantagalo; ao redor das margens do Rio Pacoti (Também conhecido com Rio Acarape).O município fica a cerca de 56 km da capital do estado do Ceará, percurso realizado pela rodovia CE 060. Apresenta como fonte de renda e de economia a produção de cal, esta deve priorizar a sustentabilidade do meio ambiente. As minas de calcário denominadas pedreiras, na cidade de Acarape, distrito de Canta Galo, são ao ar livre, com a remoção do capeamento, perfuração, desmonte por explosivos e transporte do material até a fábrica de processamento.

Cada uma das operações citadas anteriormente, representam o processo para obtenção do produto final sendo assim dividida: capacidade de produção, tamanho e forma do depósito, distância de transporte, estimativa da vida útil da mina, localização em relação e fatores socioeconômicos, a lavra seletiva, a catação manual, a britagem em estágio unitário e o peneiramento. No entanto, percebe-se que as etapas utilizadas até a finalização requer rígidos controles de especificações devido aos sérios riscos a agressão ao meio ambiente e a vida das pessoas, mas na realidade descrita não existe esse controle.

Quando buscamos o conceito sobre a cal, encontramos na definição de Falcão Bauer (1994) como sendo um nome genérico de um aglomerante simples, resultante da calcinação de rochas calcárias, que se apresenta sob diversas variedades, com características resultantes da natureza da matéria-prima empregada e do processamento conduzido (apud MACHADO Et. al, 2015).

Mostramos nesta sessão através da pesquisa de campo alguns fornos e indústrias do processo de produção de cal visitados no distrito de Canta Galo (foto1) e Frades (foto 2).

As figuras abaixo demonstram desmatamento e erosão. O estrago da indústria da cal em relação aos bicos de serras que se encontram um pouco mais distantes das residências ao lado da CE 354, entre o Município de Acarape e o Distrito de Canta Galo, é dilemático.

Figura 1 - Distrito de Canta Galo Figura 2 – localidade Frades

Fonte: Acervo dos autores (2017)

É visível a mudança da paisagem, ocorrida na retirada das árvores para remoção do capeamento, perfuração, desmonte por explosivos nas pedras para a produção da cal, essa mudança não é só pela sensibilidade do solo, mas pelo que é imposto a ele. A poluição visual é o primeiro efeito visível ao meio ambiente.

Segundo Bacci (2006), os efeitos ambientais estão associados, de modo geral, às diversas fases de exploração dos bens minerais, como à abertura da cava, (retirada da vegetação, escavações, movimentação de terra e modificação da paisagem local), ao uso de explosivos no desmonte de rocha (sobre pressão atmosférica, vibração do terreno, ultralançamento de fragmentos, fumaças, gases, poeira, ruído), ao transporte e beneficiamento do minério (geração de poeira e ruído), afetando a água, solo e ar, além de causar danos a população local.

O pó da pedra espalhado na estrada com no transporte da matéria prima(pedra) ou o pó quando processados nos moinhos, deixa rastro da poluição, como as emissões de material particulado e as mudanças na paisagem por causa da mineração de calcário.

Figura 3 – Moinho às margens da CE 354, entre o Município de Acarape e o Distrito de Canta Galo

Fonte: Acervo dos autores (2017)

Parte das etapas de produção podem ser descritas da seguinte maneira: após o cozimento da pedra nos fornos, o material resultante, passa para os moinhos. Nesse entremeio vários são as alterações no espaço natural local, dentre as quais citamos as emissões de material particulado e as mudanças na paisagem por causa da liberação de fuligem e poeira.

Outro problema ainda representa um agravante na produção de cal, haja vista que são os fornos, usados ainda de forma bem arcaica com a queima da madeira, contribuem para o desmatamento e a poluição do ar.

Figura 4 – Forno artesanal com a queima de madeira e o processo da quebra de forma manual.

Fonte: Acervo dos pesquisadores (2017)



RESULTADOS E DISCUSSÃO

A omissão na fiscalização e no controle de danos ambientais e a falta de tomada de providências por parte do Poder Público é um dos maiores motivos da contínua degradação ambiental.

No caso da produção da cal, a matéria prima, o calcário, é extraída da natureza (geralmente existente em serras e/ou chapadões), transportada para a fábrica, peneirada e moída, logo após o calcário (CaCO3) é submetido a elevadas temperaturas dentro de fornos industriais. Esse processo é chamado de calcinação requerendo temperaturas de aproximadamente 1.100 graus Celsius. Em um forno industrial rotatório esse processo demora cerca de 6 horas; já em forno de eixo a calcinação chega a demorar de 24 a 36 horas. O resultado é o óxido de cálcio, ou seja, a cal viva (CaO) que sai em grãos ou em pó. Os produtos derivados da cal viva são usados para o processo de fabricação de aço, metais, melhoramento de minério sulfurado, produção de pasta de papel, depuração de água potável e residuais e na depuração de gases de combustão nas usinas termelétricas a carvão (AMERICANO, 2002).

A emissão de dióxido de enxofre (SO2) e óxido de nitrogênio (NOx) contribui para a chuva ácida (GUTIÉRREZ et al., 2012). O processo produtivo da cal implica na emissão de grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2), ator principal nas mudanças climáticas, tendo em vista que a produção de 1 tonelada de cal implica na emissão de 1,2 toneladas de CO2 (OCHOA et al., 2010; COMISSÃO EUROPÉIA, 2001 apud GUTIÉRREZ et al., 2012).

As altas emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera se deve ao fato das indústrias atuarem com tecnologias ultrapassadas, resultando em alto consumo de combustível, baixa eficiências energéticas e grandes impactos ambientais. Para diminuir os danos ambientais causados pela indústria de cal e um ambiente sustentável é necessário o conhecimento do processo produtivo, das tecnologias empregadas e dos impactos ambientais.

A agressão ambiental pode acarretar danos irreparáveis ao ecossistema, comprometendo todo o equilíbrio dos ambientes. O problema ambiental é responsabilidade de todos, porém muitos não têm consciência disso. Essa falta de compromisso amplia a complexidade do problema, necessitando de intervenções que envolvam a saúde ambiental, sendo importante refletir sobre esse assunto para ser alcançado o bem-estar humano e ecológico, bem como a finalidade de promover saúde e prevenir danos.

Antes de darmos início as entrevistas, explicitamos aos entrevistados os objetivos do estudo, garantindo-lhes o direito do anonimato das informações fornecidas. Vale salientar que o perfil socioeconômico dos interpelados, enquadra-se em famílias de baixa renda dependentes dos serviços nas caieiras locais e dos programas sociais do governo federal. Seguimos um roteiro sobre: a) a descrição da produção da cal; b) a extração da madeira para queimação e a consequente desmatamento, e; c) se há notícias de pessoas que tenham adoecido em razão da poluição da cal.

Garantimos o anonimato dos entrevistados/as por questões éticas e de exigências destes. Porém, utilizamos para as devidas distinções das falas dos entrevistados as letras alfabéticas em maiúsculo A, B, e C referente ao primeiro, segundo e ao terceiro entrevistado, respectivamente.

Em relação a primeira pergunta a resposta dada foi:

Não sou contra a produção de cal não, eles não deve parar o serviço deles, mais era bom que eles vissem um meio de evitar essa poeira, porque ela se espalha e não é só aqui não, ela se espalha por todo canto e faz mal a todo mundo porque isso prega no pulmão. (MORADOR A).

É bom para todo mundo porque todos precisam ganhar o seu dinheiro. Mas a poeira da fumaça é ruim. Passa até carro com carrada descoberta e isso faz mal pra quem tem alergia.” (MORADOR B).

Na nossa região é precária da questão do acompanhamento técnico produtivo, era um processo de produção que era muito arcaico era feito o forno em forma de bojo bem artesanal e mesmo com a necessidade de aumentar a produção, ainda vem acompanhado do sentimento anterior, muita coisa ainda é feita no sentimento anterior. (MORADOR C).

Sobre essa descrição, vale retomar que a poluição do ar causa uma resposta inflamatória no aparelho respiratório induzida pela ação de substâncias oxidantes, as quais acarretam aumento da produção, da acidez, da viscosidade e da consistência do muco produzido pelas vias aéreas, levando, consequentemente, à diminuição da resposta e/ou eficácia do sistema mucociliar.(BASCOM et al,1996).

Conforme as palavras do entrevistado A, percebe uma visão socioambiental, pois este reconhece que o homem precisa do trabalho e de produzir para o seu sustento, no entanto, mostra uma preocupação no que se refere a poluição, e classifica como um agravante a saúde na vida dos habitantes da comunidade.

O entrevistado B mediante a mesma pergunta reforça com outras palavras a mesma percepção anterior. Corroborando, com a questão da produção, a importância da mão de obra como meio de sobrevivência mesmo reconhecendo os riscos, porém há a necessidade de trabalhar.

No ambiente produtivo do capitalismo, tem uma relação clara com o poder de gerenciamento da mão de obra. E, mais uma vez, como o capital organiza a sua exploração apresentando-se como “capital fixo” contra a mão de obra viva, no momento em que o componente principal do capital fixo passa a ser o “próprio homem”, seu “conhecimento social geral”, o próprio alicerce social da exploração capitalista, é minado e o papel do capital se torna puramente parasitário (ZIZÉK, 2011, p. 118).

De acordo com as falas supracitadas, mesmo diante da pouca escolaridade os entrevistados demonstram firmeza em reconhecer a necessidade e a exploração da mão de obra.

A vulnerabilidade fica clara no sentimento vivido pelos entrevistados. O sentimento de pertencimento, elemento fundamental para a definição de uma Comunidade, desencaixa-se da localização: é possível pertencer à distância. Evidentemente, isso não implica a pura e simples substituição de um tipo de relação (face a face) por outro (a distância), mas possibilita a coexistência de ambas as formas, com o sentimento de pertencimento sendo comum às duas (PALÁCIOS, 2001, p.7).

No tocante a mudança da paisagem na retirada das madeiras para produção do cal explicitada na segunda pergunta, os entrevistados se posicionaram da seguinte forma:

É vão acabando as mata e nós também vamos acabando, porque não vai mais ter oxigênio para as pessoa. Porque se cortasse a mata e plantasse outro pé de árvore era bom, mais não faz isso, aí fica difícil. (MORADOR A e B).

A indústria não vive mais tanto desse combustível primário. Hoje não é mais usado tanto como no passado o combustível vegetal, mas no passado isso foi muito forte. O que é forte mesmo é essa poluição sonora, poeira e fumaça mesmo que se espalha. Ainda acrescenta sobre a possibilidade de algum morador ter tido complicações de saúde e possivelmente ter vindo a óbito, mais que não houve nunca nenhuma comprovação e amplia, o que falta mesmo é fiscalização para o acompanhamento técnico produtivo. (MORADOR C).

A poluição ambiental vem sendo sentida por várias ocorrências as vezes visíveis e grande parte de forma invisíveis. A revigoração dos espaços verdes garantem ao ambiente a renovação e a purificação do ar, hidratando a atmosfera por meio dos processos da fotossíntese e da transpiração vegetal (SABBAGH, 2011).Com relação ao cerne da mesma pergunta o morador se posiciona de maneira conhecedora e segura sobre os males causados pela exploração desenfreada e sem uma perspectiva sustentável da matéria prima na produção de cal.

O desenvolvimento sustentável utiliza os recursos naturais com a intenção de atender às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades, com recursos em abundância (PEREIRA et. al, 2016).

É imperioso ressaltar que para se gerar um novo equilíbrio, principalmente na redução do desmatamento, deve-se efetivar a fiscalização e uma redefinição da própria política e ações que valorizem os recursos naturais um direito de todos se resguardar dos riscos e ameaças que expõem o planeta ao desequilíbrio na qualidade de vida, invocando, assim, a equidade ambiental.

Tendo em vista a conjuntura da administração pública e da temática ambiental no país, há grande preocupação com a capacidade de os entes federativos exercerem essas competências ambientais que lhes foi descentralizada (MACHADO, 2002).

Os riscos socioambientais, podem ser um caminho para a realização de planejamento com vistas a incentivar, com urgência, uma postura ambiental responsável por parte dos empresários, comunidade, sem esquecer as políticas públicas e o rigor na aplicabilidade das leis para termos desenvolvimento sustentável sem comprometer o habitat natural e a diversidade biológica.

O avanço e o crescimento exagerados da população do planeta, associado a degradação e destruição do sistema de sustentabilidade da vida, necessita com urgência uma mudança radical de uma sociedade que não vise apenas o lucro, mas que enxergue no presente e no futuro a necessidade de qualidade de vida. A crença de que a sustentabilidade não tem cunho econômico restringindo-se a fins ambientais, perdurou por muito tempo. Contudo, o que se observa nos dias atuais é a necessidade imperiosa pelo trabalho com desenvolvimento sustentável. Esta deve ser a bandeira do presente para não comprometer o futuro das gerações vindouras (OLIVEIRA, et al. 2016).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considera-se assim que a comunidade corre sérios riscos, ficando vulneráveis a diversos problemas que poderão sofrer e ou sofrem sem a consciência de onde se derivam as complicações. Dessa forma a população deve estar atenta ao desenvolvimento sustentável, principalmente buscando soluções e atitudes conscientes que não causem impactos ambientais prejudicando toda sociedade.

Devemos lutar para que aconteçam ações sociopolíticas que preservem o meio ambiente, mesmo sabendo que é questão de sobrevivência, pois há uma interligação entre economia, sociedade e política. Toda a comunidade deve ter uma postura de comprometimento consigo, com o outro e com o meio ao qual está inserido, visando o reconhecimento da transformação de processos sociais, contribuindo, portanto, para o processo de construção de uma nova sociedade pautada por novos princípios civilizacionais e societários distintos dos atuais, na qual a sustentabilidade da vida, a intervenção política consciente e a construção de uma ética que se firme como ecológica sejam sua essência (LOUREIRO et al.,2002)

Para tanto, o estudo contribui de forma direta na realidade com as informações mostrando os instrumentos ameaçadores e ao mesmo tempo representando possibilidades de libertação para novos rumos que deverão ser tomados individualmente e coletivamente e despertando para as ações conscientes, assumindo pensamento crítico e responsável, mudando o contexto o qual está inserido o município de Acarape, pois acreditamos que a pesquisa deixou de ser algo subjetivo e ou especulativo trazendo informações concretas sobre o referido tema.

Por fim, concluímos que o industrialismo desmedido para a exploração da cal nas comunidades estudadas causam sérios impactos ao ambiente, bem como põe em risco à saúde dos habitantes locais.

REFERÊNCIAS

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BACCI, Denise de La Corte; LANDIM, Paulo Milton Barbosa; ESTON, Sérgio Médici de. Aspectos e impactos ambientais de pedreira em área urbana. Rem: Rev. Esc. Minas., Ouro Preto, v. 59, n. 1, 2006. Disponível em: http://www.scielo.br.Acesso em: 29 Nov 2017.

BASCOM, R., BROMBERG, P. A., COSTA, D. A., DEVLIN, R., DOCKERY, D. W., FRAMPTON, M. W., UTELL, M. (1996). Health effects of outdoor air pollution. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine153(1), 3-50.

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FELDMANN, Fábio Apud MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente: a Gestão Ambiental em Foco -doutrina, jurisprudência, glossário. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.

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LEFF, Enrique. Discursos sustentáveis.São Paulo: Cortez editora, 2007, p. 9.

LOUREIRO, Carlos Frederico B. Trajetória e fundamentos da educação ambiental. 4.ed.São Paulo:Cortez,2012.

MACHADO, Francisco Pessoa; PESSOA, Antônia de Castro Côrtes; SABADIA José Antonio Beltrão, Aproveitamento de Rejeitos de Caieiras na Melhora Significativa da Resistência dos Índices de Pavimentação de Estradas e Mitigação de Dano Ambiental, Revista de Geologia, Vol. 28, nº 1, 53 - 70, 2015.

MELO, Francisco Carlos Carvalho de; OLIVEIRA, Maurício de. Desenvolvimento sustentável: origens e noções conceituais. Mossoró-RN: Fundação Vingt-Un Rosado, 2000, p.17.

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ZIZÉK, S. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011, p.118.

FONTES ORAIS

ENTREVISTADO A: A.S.O. Entrevistadora: Maria do Socorro Lopes da Silva. Comunidade Canta Galo, Acarape-Ce, 25 de out. de 2017, Celular, 15 min, disponível no acervo pessoal da autora.

ENTREVISTADO B: C.A.S. Entrevistadora: Maria do Socorro Lopes da Silva. Comunidade Canta Galo, Acarape-Ce, 25 de out. de 2017, Celular, 15 min, disponível no acervo pessoal da autora.

ENTREVISTADO C: B.P.S. Entrevistadora: Maria do Socorro Lopes da Silva. Comunidade Canta Galo, Acarape-Ce, 25 de out. de 2017, Celular, 15 min, disponível no acervo pessoal da autora.



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