ISSN 1678-0701
Número 66, Ano XVII.
Dezembro/2018-Fevereiro/2019.
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Relatos de Experiências

04/12/2018PRAGAS URBANAS: O CARAMUJO AFRICANO E SUAS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS NO ENSINO FUNDAMENTAL  
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PRAGAS URBANAS: O CARAMUJO AFRICANO E SUAS IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS NO ENSINO FUNDAMENTAL

Adevane da Silva Pinto1, Aline Rodrigues da Silva Moreira2, Amanda Madalena de Faria2, Fabiana Silva Lourenço de Sá2, Geralda Aparecida de Carvalho2, Hortência Matias de Castro2, Iraci Ferreira Barbosa de Andrade2, Loredana Marcelino Costa2, Luciene Romeiro da Silva2, Tawane Grasiely Marques Correia Belo2, Márcio Leite de Bessa3, Solange Xavier-Santos4

1Docente do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus Jaraguá, Mestrando do PPG em Ensino de Ciências,UEG/Campus de Ciências Exatas e Tecnológicas (CCET) (e-mail: adevane47@gmail.com)

2 Graduanda do curso de Pedagogia, UEG, Campus Jaraguá.

3Docente UEG – EAD, Anápolis

4Docente Orientadora, PPG em Ensino de Ciências, UEG/CCET.

RESUMO

Introduzido no Brasil em 1988, para ser produzido como escargot, o caramujo africano se tornou praga urbana, representando sérios riscos à saúde e ao ambiente. Este trabalho relata uma experiência em Educação Ambiental, que objetivou desenvolver ações para conscientizar a comunidade escolar e circunvizinha quanto aos problemas decorrentes dessa praga. Os atores foram acadêmicos de Pedagogia da UEG/Jaraguá, na disciplina Processos e Conteúdos de Ensino de Ciências e como público alunos do 3º ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede municipal. O tema foi eleito devido ao grande número de caramujos habitando as dependências da escola. A execução do projeto envolveu: 1) Busca por orientações junto à Secretaria municipal de Saúde e outras fontes fidedignas sobre o caramujo; 2) Elaboração de proposta de intervenção na escola; 3) Atividade investigativa para levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos. 4) Entrevista realizada pelos alunos com seus familiares sobre seus conhecimentos e consequências desses moluscos; 5) Apresentação em sala de aula dos resultados das entrevistas realizadas com familiares. 6) Aula expositiva sobre a biologia do caramujo, histórico dele no Brasil, riscos à saúde e ao ambiente, formas de combatê-lo, culminando em debate em sala; 7) Coleta e eliminação dos caramujos na escola e observação de todos. 8) Discussão e avaliação do projeto. Considera-se o projeto exitoso por ter oportunizado ensino-aprendizagem significativa, participação ativa dos alunos e comunidade, culminando em construção coletiva do conhecimento por meio de estratégias pedagógicas que conduziram à mudança de atitudes. A iniciativa reacendeu discussões de domínios da saúde e meio ambiente, despertando a consciência de que ambos coexistem e são interdependentes. O estudo foi divulgado em uma rádio local e esse espaço utilizado para o esclarecimento de dúvidas da população sobre a temática em questão. A equipe foi convidada a reproduzir o projeto em escolas, outras esferas da sociedade, dentro e fora do município.

Palavras-chave: Ensino de Ciências; Educação Ambiental; Sequência didática; Caramujo Africano.

ABSTRACT

Introduced in Brazil in 1988, to be produced as escargot, the African snail became an urban pest, posing serious risks to health and the environment. This work reports an experience in Environmental Education, which aimed to develop actions to raise awareness in the school community and surrounding the problems arising from this pest. The actors were academics of Pedagogy of UEG / Jaraguá, in the discipline Processes and Contents of Science Teaching and as public students of the 3rd year of Elementary School of a school of the municipal network. The subject was elected due to the large number of snails inhabiting the school premises. The execution of the project involved: 1) Search for guidelines with the Municipal Health Department and other reliable sources about the snail; 2) Elaboration of intervention proposal in the school; 3) Investigative activity to collect students' previous knowledge. 4) Interview made by students with their relatives about their knowledge and consequences of these molluscs; 5) Presentation in the classroom of the results of interviews with family members. 6) Lectures on the biology of the snail, his history in Brazil, risks to health and the environment, ways to combat it, culminating in debate in the room; 7) Collection and elimination of snails at school and observation of all. 8) Project discussion and evaluation. The successful project is considered to have provided significant teaching-learning, active participation of students and community, culminating in collective construction of knowledge through pedagogical strategies that led to the change of attitudes. The initiative has rekindled discussions of health and environment issues, raising awareness that they coexist and are interdependent. The study was released on a local radio and this space used to clarify the population's doubts about the subject matter. The team was invited to replicate the project in schools, other spheres of society, inside and outside the municipality.

Keywords: Science Teaching; Environmental education; Following teaching.

INTRODUÇÃO

Nativo do leste e nordeste da África, o Achatina fulica, popularmente conhecido como caramujo-gigante-africano foi introduzido ilegalmente no Brasil em 1988, visando o seu cultivo e comercialização como substituto do escargot. Os criadores consideravam a criação destes moluscos uma possibilidade econômica viável em função do rápido e intenso processo reprodutivo. Assim as matrizes foram espalhadas durante os cursos de cultura desses animais

No entanto, os consumidores não aprovaram o sabor e a textura da carne deste molusco. Com isso, tornou-se inviável aos proprietários a criação desses animais, pois sua proliferação era muito acelerada, levando-os a gastos excessivos. Então, desconhecendo a biologia dos caracóis, lançaram estes caramujos na natureza, de forma inconseqüente.

Adaptados ao clima brasileiro, onde também não há predadores naturais, esse animais não encontraram dificuldades para manter seu ciclo reprodutivo. De hábito generalista, eles podem se alimentar de uma infinidade de espécies vegetais, tais como mandioca, tomate, verduras, plantas ornamentais, folhas, frutos, caule, devastando totalmente a planta. Sua população uma vez constituída pode alcançar números altíssimos (FISCHER e COLLEY, 2004). Dados do Instituto Hórus (2006) mostram que eles são extremamente velozes na proliferação, atingindo a maturação sexual aos 4 ou 5 meses e a fecundação acontece reciprocamente, pois os indivíduos são hermafroditas; podendo conseguir até 5 posturas por ano e alcançam de cinquenta a quatrocentos ovos por postura. Eles geralmente se escondem durante o dia, e à noite saem para se nutrir e se reproduzir, durante as chuvas ou logo após a ela.

Com isso, atualmente, esse caramujo é considerado entre as cem piores espécies exóticas invasoras de episódio mundial (GARCIA, 2011; ALOWE; BROWNE; BOUDJELAS, 2004). Como se não bastasse os problemas ambientais que acarretam no espaço de uso comum e para a economia, eles também são de interesse em saúde pública, pois oferecem riscos à saúde humana, podendo ser transmissor de doenças sérias, já que são potenciais hospedeiros das larvas de dois importantes parasitas humanos, a Angiostrongylus costaricensis, responsável pela angiostrongilose abdominal, doença que provoca perfuração intestinal, de sintomas semelhantes aos da apendicite; e a Angiostrongylus cantonensis: responsável pela angiostrongilíase meningoencefálica, de sintomas variáveis, mas muitas vezes fatal.Ambas as doenças ocorrem pela ingestão do parasita, seja pelo manuseio dos caramujos, ou ingestão destes animais sem prévio cozimento, ou de alimentos contaminados por seu muco, como hortaliças e verduras (SANTANA, 1997; TELES e FONTES, 2002; Zanol et al, 2010; Araguaia, 2018).

No entanto, muitas pessoas não tem o devido conhecimento destes riscos, razão pela qual é muito importante que este assunto seja tratado em um espaço adepto à aprendizagem, como é o caso da sala de aula. Segundo Gutberlet (1998) por meio da efetiva participação, a educação ambiental é um importante instrumento no processo de fortalecimento da cidadania em busca de uma sociedade sustentável, pois amplia a consciência por meio do conhecimento e acerca da situação socioambiental local, tornando o sujeito um ator responsável e comprometido. Assim sendo, pode-se entender a importância da participação como um indicativo ético basilar para a sustentabilidade de projetos de educação ambiental envolvendo as crianças na problemática local.

As crianças têm a capacidade de transformar o ambiente em que vivem desde que tenham conhecimento para tal. Uma boa parcela das crianças sabe da presença desse molusco e de algumas de suas características, mas muito pouco sabe sobre sua procedência ou dos danos que os moluscos podem provocar, tanto para os seres humanos, quanto para o meio ambiente. É na escola que as crianças têm contato com o meio social e compartilham seu aprendizado, por isso, esse espaço é considerado privilegiado na produção de conhecimento. Colaço (2004) reforça essa ideia ao esclarecer que,

As relações sociais que estão na base da construção do conhecimento e do desenvolvimento da humanidade se materializam nas redes de interações, que acontecem nos cenários culturais particulares. Nesses cenários são viabilizadas as micro-relações, são tecidos os significados e os processos de construção compartilhada, possibilitando avanços e transformações, que repercutirão direta ou indiretamente nos níveis mais amplos das relações sociais (COLAÇO, 2004, pp.333-340).

Desse modo, levando em consideração os avanços e transformações que as interações sociais alcançam, este trabalho objetivou proporcionar mais conhecimentos acerca do caramujo africano para as crianças, valorizando os conhecimentos prévios e, promovendo a propagação desse conhecimento para outras esferas da sociedade.

METODOLOGIA

O trabalho foi desenvolvido no âmbito da disciplina de Conteúdos e Processos de Ensino de Ciências II, do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Goiás, Campus de Jaraguá, como atividade de intervenção prática em uma escola da rede municipal de ensino. Dessa forma, o projeto teve como executores nove graduandas do 7º período do curso de Pedagogia, e como público estudantes de duas turmas do 3º ano do Ensino Fundamental.

O tema do projeto surgiu a partir dessas aulas de Conteúdos e Processos de Ensino de Ciências II, nas quais os acadêmicos eram instigados e orientados a buscarem contextos que fossem relevantes para a comunidade escolar e passível de ser executado como projeto de intervenção pedagógica pelos acadêmicos. A partir destas provocações em sala, foi ressaltado por uma graduanda, que é professora na escola em questão, o grande número de caramujos africanos que habitavam as dependências da instituição. Preocupada com a situação, a graduanda/professora apresentou a proposta ao grupo, que imediatamente acolheu a ideia, iniciando-se as discussões e a elaboração da proposta.

O projeto, então, foi desenvolvido em oito etapas. Na primeira, buscou-se orientações junto à Secretaria Municipal da Saúde e outras fontes fidedignas sobre o caramujo africano.

Na segunda etapa foi delineada a proposta de intervenção na escola. Orientados e instigados pelo professor da disciplina, as graduandas planejaram as ações a serem desenvolvidas numa perspectiva crítica, contextualizada e problematizadora.

Na terceira etapa foi proposta aos escolares uma atividade investigativa no pátio da escola, com o objetivo principal de promover o levantamento dos conhecimentos prévios dos estudantes e o despertar da curiosidade para o contexto por meio de suas observações (Figura 11A). Almeida et. al. (2004, p. 129) afirmam que é essencial “desenvolver a curiosidade dos alunos”. Da mesma forma, Buchweitz (2001, p.134) afirma que “Não havendo interação entre a nova informação e a estrutura conceitual já existente, a aprendizagem não é significativa”.

Na quarta etapa foi solicitado aos alunos que fizessem uma pesquisa com seus pais, ou outros adultos do seu núcleo familiar, sobre seus conhecimentos e comportamentos diante desses moluscos. Momento que oportunizou o desenvolvimento das relações interpessoais por meio do contato com seus pais e vizinhos em um contexto intencional de busca da aprendizagem. Isso ressalta a importância de valorizar o conhecimento que o aluno traz, bem como estimular e mostrar caminhos para ampliar seus conhecimentos.

Na quinta etapa, as crianças apresentaram os resultados da pesquisa em sala de aula, por meio de leituras das entrevistas realizadas com seus pais e explicações de situações observadas por elas (Figura 12B). Esta atividade foi mediada pelas executoras do projeto, que procuraram dinamizar a aula com objetivo de proporcionar aos estudantes momentos de expressar tudo que haviam coletado na atividade proposta, bem como formar multiplicadores de conhecimentos com suas respectivas famílias.

Na sexta etapa, em uma aula expositiva, as graduandas fizeram uma abordagem sobre as características biológicas do caramujo africano, o histórico da sua chegada ao Brasil, abordando sua origem, as doenças transmitidas, os riscos ambientais que acarretam e as formas de combatê-lo. Esse último item foi apresentado por meio de um vídeo informativo disponibilizado por agentes de saúde do município, que apresentava a maneira adequada de eliminação do caramujo (Figura 12B). Esclareceu-se ainda que, deve-se coletar o caramujo usando luvas ou sacos plásticos nas mãos, nunca tocar no molusco sem proteção.

Na sétima etapa, os alunos foram encaminhados ao pátio da escola para a coleta e eliminação do caramujo, bem como a equipe escolar que também participou ativamente nas ações. Enquanto foram distribuídas luvas aos estudantes e certificado de que eles as tinham calçado adequadamente em ambas as mãos, orientou-se novamente sobre a importância do uso desse material de proteção durante a coleta dos animais. Os alunos, então, coletaram parte dos caramujos encontrados no pátio da escola, os quais foram colocados em sacos de lixo para a devida eliminação. Para finalizar essa atividade, foi cavada uma cova de 80 cm de diâmetro e 50 cm de profundidade no pátio da escola, na qual foi depositada cal virgem e em seguida os caramujos que tiveram as conchas quebradas com o auxílio de uma enxada. Na seqüência foi depositada outra camada de cal e por fim a terra cobrindo todos os moluscos (Figura 11B, C, E, F e 12A).

Na oitava etapa foi realizada uma discussão sobre os desdobramentos e avaliação das ações do projeto com os alunos e equipe escolar, por meio de um diálogo mediado pelas acadêmicas, analisando-se as contribuições que as ações puderam trazer para o processo ensino-aprendizagem (figura 2B).

A ação foi relatada em um programa jornalístico de uma rádio do município, no qual membros da equipe foram entrevistados e puderam atender as dúvidas da população, por intermédio de ligações telefônicas durante a programação, bem como, em outros momentos fora da rádio, por meio de ligações e mensagens.

Figura 11- Momentos de uma ação interventiva de Educação Ambiental em uma escola da rede municipal de ensino de Jaraguá-Goiás, 2017, envolvendo o caramujo africano.

Fonte: Acervo da pesquisa.

Figura 12: Etapa final do projeto de intervenção caramujo africano e suas implicações pedagógicas em uma escola da rede municipal de ensino de Jaraguá-Goiás, 2017.

Fonte: Acervo da pesquisa.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante a aula investigativa no pátio da escola, os estudantes perceberam espontaneamente o acúmulo de lixo, bem como a presença do caramujo africano naquele ambiente. Nessa atividade, percebeu-se que boa parte deles tinha conhecimento da existência desses moluscos em suas residências, porém não sabiam dos malefícios à saúde e ao meio ambiente e, não tinham conhecimento da forma correta de combatê-los. O fato dos alunos já apresentar conhecimento da existência do caramujo, terem percebido sua presença em suas casas, na escola, na vizinhança, foi útil para criar situações de aprendizagem e ampliação de seus saberes, uma vez que não sabiam de onde vieram, porque vieram e os malefícios ocasionados por esse molusco. As discussões, então contribuíram para o processo ensino-aprendizagem permitindo que as crianças encontrassem sentido e significado neste contexto.

Ao solicitar aos estudantes realizassem a pesquisa com seus familiares e após proferir a abordagem expositiva, foi observado grande interesse e curiosidade dos alunos, ao fazerem perguntas buscando entender o contexto envolvendo o molusco, bem como relacionando situações que haviam observado. Eles se mostraram motivados por serem os responsáveis pela busca informações, e posteriormente por terem oportunidade de apresentar os resultados de suas pesquisas. Este processo de socialização da aprendizagem é defendido por Libâneo (1986), pois para ele é preciso que se dê ênfase às relações interpessoais e ao ensino centrado no aluno, sendo este considerado um processo contínuo de seu próprio ser.

Neste sentido, ao pesquisar, o aluno tem a necessidade, por meio da investigação, de interagir com seus pares e outros membros da sociedade, ampliando seu universo de aprendizagem, bem como as relações interpessoais. O aluno traz consigo um saber que ele precisa, apenas, de um suporte por meio do processo ensino-aprendizagem trazer à consciência os conhecimentos prévios, organizar, ou ainda, rechear de conteúdo (BECKER, 2001). Ao avaliar o resultado das pesquisas dos alunos com seus familiares, foi verificado que todos faziam a eliminação de forma incorreta. Entre os casos citados, foram relatados casos em que jogavam cerveja sobre os animais, ou mesmo sal, sabão e água quente, ou ainda de esmagá-los. Isso m mostra que as pessoas são levadas prioritariamente pelo senso comum. Essas formas inadequadas de eliminação do molusco, podem não ser efetivas, permitindo a sobrevivência de ovos que resultarão em novos caramujos algum tempo depois, ou então prejudicando ao saúde humana, ao facilitar o contato com possíveis parasitas presentes no corpo do caramujo.

Durante a atividade de coleta dos caramujos, foi observada certa resistência dos alunos para a tarefa, em decorrência da aparência do molusco, e segundo eles, do mal cheiro. No entanto, quando os professores tomaram frente na coleta, as crianças ficaram mais seguras e participativas e se envolveram de tal maneira que foi difícil voltar à sala de aula, tamanho era o entusiasmo. A quantidade de caramujo coletada foi de aproximadamente uns quatrocentos, contou-se uma porção e fez-se se uma estimativa pelo volume dos demais. Segundo Rego (1995), é papel do professor criar um ambiente democrático e participativo ao aluno e, desse modo, proporcionar um contexto favorável ao processo ensino-aprendizagem, onde não há hierarquia e que busca estabelecer uma relação de simetria e igualdade com o grupo de alunos. Cabe lembrar que foi salientado aos participantes que a maneira adotada para coletar e descartar os caramujos se deu em função de não causar riscos à saúde e à natureza.

O resultado dessa intervenção aponta caminhos pedagógicos instigadores com ricas possibilidades didáticas, pois se trabalhou de maneira instigadora, problematizadora e contextualizada, principalmente, porque todos os participantes (professores estagiários, professores regentes de sala e alunos) exerceram papéis fundamentais como sujeitos ativos no processo ensino-aprendizagem. Nesse sentido, ALMEIDA; BICUDO e BORGES (2004, p.122) afirmam que “a Educação Ambiental nas escolas deve sensibilizar o professor e o aluno para que construam coletivamente o conhecimento por meio de estratégias pedagógicas de mudança de mentalidade”.

Desse modo, mesmo depois de finalizado o projeto, constatou-se que o olhar das crianças sobre o caramujo africano mudou. Sendo essas mudanças observadas e relatadas por pais na escola, professores e até funcionários da higiene escolar, preocupados com mais cuidados em relação ao lixo da escola, de suas residências e com a eliminação desse molusco. Além disso, os participantes adultos dessa iniciativa, constituídos da equipe escolar também foram despertados e se sensibilizaram para a gravidade da disseminação desse molusco em seus próprios quintais e ambientes que frequentam. Os conhecimentos apropriados pelas crianças foram multiplicados por elas aos seus pais e familiares, enaltecendo suas habilidades de análise crítica e compreensão sobre o tema em suas interações sociais.

Colaço (2004) chama atenção para que:

As atividades discursivas no contexto de sala de aula são construções coletivas, nas quais os significados vão sendo produzidos e apropriados pelos que delas participam. Muitas vozes se entrecruzam na sua produção, vozes presentes no campo da enunciação (falante-ouvinte, numa relação transitória e mutante) e também aquelas de personagens ausentes, próximos ou distantes, que povoam o imaginário de cada um e que remetem à multiplicidade de outros contextos influentes nessa produção: familiar, institucional, cultural e social (COLAÇO, 2004, p.339).

Com isso, considera-se que o projeto foi exitoso, tendo promovido por meio de atividades expositivas e práticas instigadoras e contextualizadas a participação ativa dos alunos.

O espaço na emissora de rádio foi uma ferramenta valorosa para informar, disseminar os conhecimentos e tirar dúvidas para um público além da escola. Esta iniciativa reacendeu discussões de domínios da saúde e do meio ambiente, despertando a consciência para o fato de que ambos coexistem, são interdependentes e necessitam de atenção.

Os resultados alcançados apontaram para a capacidade que um professor tem de despertar o interesse da comunidade escolar e sociedade sobre a temática, uma vez que a realização desse projeto deixou rastros de como manejar ações capazes de sensibilizar a sociedade como um todo, quando se trata de uma Educação Ambiental efetiva, especialmente, em se tratando de pragas urbanas, motivo de grandes preocupações envolvendo saúde pública e preservação do meio ambiente.

Nesta direção foi entregue à Secretária Municipal da Saúde de Jaraguá um relatório informando sobre as atividades desenvolvidas, a fim de que possa subsidiar a continuidade deste projeto em outras escolas e outras esferas do município. Sendo que o grupo se colocou à disposição para contribuir nesta perspectiva, tendo, desde então recebido convites para reproduzir o projeto em outras escolas e esferas da sociedade, dentro e fora do município.

Assim sendo, percebeu-se que a proposta pedagógica envolvendo todas as etapas do projeto, contribuiu para o processo ensino-aprendizagem, pois a partir da conduta dos alunos, observados pelos graduandos e pelos professores, e ainda pelos relatos deles em relação à execução do projeto. Através do contexto mediado pelas executoras do projeto, por meio de perguntas instigadoras e questionamentos aguçando a curiosidade, os aprendizes foram expressando de forma descontraída o que já sabiam sobre o caramujo. Deste modo, entendeu-se que houve aprendizagem e mudanças de atitudes em relação ao caramujo africano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A escola desempenha um dos papéis mais relevantes para a humanidade, pois a ela cabe facilitar a construção do conhecimento e formar indivíduos conscientes, inclusive das questões ambientais, uma vez que o homem é agente transformador do ambiente em que vive.

Para Monteiro (2010), trabalhar a alfabetização ecológica no Ensino Fundamental leva o estudante a visualizar a complexa rede de inter-relações e, a partir daí, entender o funcionamento de tais processos, para depois refletir sobre eles, sensibilizando-se com os problemas ambientais a sua volta. Por isso, munir nossos estudantes desta sensibilização ecológica é proporcionar oportunidades de transformá-los de sujeitos passivos de conhecimento a sujeitos ativos na sociedade, conscientes de sua responsabilidade enquanto sujeito ecológico.

Diante dos resultados apresentados, considera-se que uma iniciativa de Educação Ambiental como esta, dinamizada por meio de ações investigativas, instigadoras, contextualizadas e participativas, voltadas para uma problemática local dos envolvidos é capaz de informar, instigar e conscientizar de forma significativa. Isso se confirma pelo fato de que a proposta contribuiu para informar e conscientizar não apenas os estudantes envolvidos, mas também toda a equipe escolar, seus pais e a comunidade em geral para as conseqüências provenientes do caramujo africano.

Em se tratando de pragas urbanas, a sociedade necessita de informações seguras e precisas, sem as quais a tomada de decisão em busca de soluções para o problema pode ser desastrosa e ocasionar conseqüências indesejadas. Sendo assim, entende-se que projetos educacionais podem se contribuir de uma das maneiras mais eficientes para informar e modificar a comunidade .

Neste sentido, considera-se que o projeto teve êxito por ter ocasionado uma oportunidade de ensino-aprendizagem significativa, despertando para “possibilidades” didático-pedagógicas multidisciplinares e interdisciplinares, promovendo a participação ativa dos alunos e da comunidade, alcançando a construção coletiva do conhecimento por meio de estratégias pedagógicas que conduziram à mudança de mentalidade e de atitudes. A iniciativa provocou debates na esfera da saúde pública, sociedade e meio ambiente, acordaando a consciência para o fato de que ambos coexistem e são interdependentes.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, L. F. R.; BICUDO, L. R. H.; BORGES, G. L. A. Educação Ambiental em praça pública: relato de experiência com oficinas pedagógicas. Ciência & Educação, V. 10, n. 1, p. 121-132, 2004. Disponível em:  http://www.scielo.br/pdf/ciedu/v10n1/09.pdf.  Acesso em: 20 Jul. 2017.

ALOWE, S. BROWNE, M. BOUDJELAS, S. Of the word´s worst invasive alien species. A selection from the global invasive species database.

Disponível em: WWW.issg.org/database 2004.

ARAGUAIA, Mariana. "Caramujo-gigante-africano: transmissor de doenças"; Brasil Escola. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/doencas/caramujo-transmissor-doencas.htm. Acesso em 16 de setembro de 2018.

BECKER, F. Educação e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artmed Editora, p. 85-95, 2001.

BUCHWEITZ, B. Aprendizagem Significativa: idéias de estudantes concluintes de curso superior. Investigações em Ensino de Ciências – V.6(2), p. 133-141, 2001. Disponível em: www.if.ufrgs.br/cref/ojs/index.php/ienci/article/viewFile/581/374. Acesso em: 20 Jul. 2017.

COLAÇO, V. F. R. Psicologia: Reflexão e Crítica, V.17(3), pp.333-340, 2004 Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/prc/v17n3/a06v17n3.pdf. Acesso em: 23. JUL.2017.

COLLEY, E.; FISCHER, M.L. Análise preliminar da fauna associada ao sítio de repouso de Achatina fulica Bowdich, 1822 (Mollusca; Achatinidae). Cadernos de Resumos do V Ciclo de Estudos de Biologia - Biocec. Curitiba, p. 12, 2004.

FISCHER, M. L.; COLLEY, E. Diagnóstico da ocorrência do Caramujo Gigante Africano Achatina fulica Bowdich, 1822 na APA de Guaraqueçaba, Paraná, Brasil. Revista Estudos de Biologia, V. 26, n. 54, p. 43-50. 2004.

GARCIA, A. N. A invasão perigosa do caramujo africano: desafios da educação ambiental diante do desequilíbrio ambiental II SEAT – Simpósio de Educação Ambiental e Transdisciplinaridade UFG / IESA / NUPEAT - Goiânia, maio de 2011.

GUTBERLET, J. : Desenvolvimento desigual: impasses para a sustentabilidade. SP: Korad – Adenauer – Stiftung. Pesquisas n° 14, 1998.

INSTITUTO HÓRUS DE DESENVOLVIMENTO E CONSERVAÇÃO AMBIENTAL. Base de dados de espécies exóticas invasoras. Acesso em 25 de janeiro de 2017, disponível em www.institutohorus.org.br. 2013.

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REGO, T. C. VYGOTSKY: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

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ZANOL, J., FERNANDEZ, M.A., OLIVEIRA, A.P.M. & THIENGO, S.C., The exotic invasive snail Achatina fulica (Stylommatophora, Mollusca) in the State of Rio de Janeiro (Brazil): current status. Biota Neotrop., 10(3):, 2010.









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