ISSN 1678-0701
Número 67, Ano XVII.
Março-Maio/2019.
Números  
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Uma crônica, um artigo e algumas histórias!     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Gestão Ambiental     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias
Educação e temas emergentes

13/03/2019MATEMÁTICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A ESTATÍSTICA COMO FERRAMENTA PARA CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O DESPERDÍCIO DE ÁGUA  
Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3567 
" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">

MATEMÁTICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: A ESTATÍSTICA COMO FERRAMENTA PARA CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O DESPERDÍCIO DE ÁGUA

Thomas Bersagui Milano1, Lucas Nunes Ogliari2, Luciana Fofonka3

1Pós-Graduando em Metodologias de Ensino de Matemática – UNIASSELVI. Graduado em Matemática, Licenciatura – Faculdade Inedi / Cesuca. E-mail: thomas_tbm@hotmail.com

2Pós-doutorado na área de Educação / UFRGS. Doutor em Educação. E-mail: lucasbass@yahoo.com.br

3Doutora em Análise Ambiental – Geografia / UFRGS. E-mail: lufofonka@yahoo.com.br

RESUMO

O presente artigo científico foi desenvolvido por meio da realização de intervenções pedagógicas em uma turma de sétimo ano do ensino fundamental, em uma escola estadual de ensino médio localizada no município de Gravataí/RS. Promover a educação ambiental e preservar o meio ambiente é um dever de todos os cidadãos, entretanto a realidade nos evidencia que não é sempre isto que ocorre; para formar sujeitos conscientes acerca das questões que envolvem a preservação ambiental, faz-se necessário estimular essa prática também dentro da escola. Tendo em vista tal necessidade, o objetivo desta pesquisa foi relatar uma proposta sobre a utilização da estatística como ferramenta para conscientizar os alunos sobre o desperdício de água, portanto, elaborou-se juntamente com os discentes uma atividade interdisciplinar que aludiu tal temática, envolvendo conhecimentos pertinentes as áreas de matemática e ciências. A metodologia utilizada caracteriza-se como pesquisa de campo e pesquisa participante, onde questionários aplicados com os alunos foram utilizados como instrumento para verificar se o objetivo proposto foi alcançado e, conjuntamente, para realizar a análise quantitativa e qualitativa dos dados coletados. Por meio da análise de dados concluiu-se que os alunos, de modo geral, apresentaram um comportamento consciente sobre o desperdício de água, vislumbrando-se como integrantes da sociedade, cientes que desempenham um papel fundamental na preservação deste recurso natural.

Palavras-chave: Matemática; Meio ambiente; Água.

1 INTRODUÇÃO

Articular a educação matemática, meio ambiente e a educação ambiental foi o tema de pesquisa abordado no presente artigo, delimitando-se as temáticas pertinentes à transversalidade e à interdisciplinaridade. Trabalhar com questões ambientais é de suma importância para contribuir na formação dos alunos, visando que eles se conscientizem acerca da preservação do meio ambiente, tornando-se cidadãos mais responsáveis e participativos.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (BRASIL, 1998) incentivam a transversalidade de temas e a interdisciplinaridade, e dentro das suas propostas apresentam os Temas Transversais. Incorporada nessas recomendações estão às questões relacionadas à educação ambiental, preservação do meio ambiente, evidenciando que a matemática pode e deve ser vinculada nesse processo, pois é sugerido que estes temas devem ser trabalhados de forma integradora por todas as disciplinas.

A problematização que norteou a pesquisa foi “Como a estatística pode ser utilizada para a conscientização dos alunos do 7º ano do ensino fundamental sobre o desperdício de água?” Com base na pergunta problematizadora, o objetivo geral que conduziu a elaboração do artigo foi relatar uma proposta sobre a utilização da estatística como ferramenta para conscientização do desperdício de água, relacionando conhecimentos presentes nas áreas da matemática e ciências, por meio de uma atividade caracterizada pela transversalidade e interdisciplinaridade. Já como objetivos específicos se definiram:

  • Elencar, através da pesquisa em materiais bibliográficos, embasamentos e suportes para articular a Educação Matemática e o Meio ambiente;

  • Elucidar a importância para a formação dos alunos de se trabalhar transversalmente e interdisciplinarmente;

  • Coletar dados através da realização de uma pesquisa de campo, para posteriormente analisar quantitativa e qualitativamente;

  • Utilizar os dados coletados para verificar se o objetivo geral foi alcançado.

A matemática dispõe de inúmeras aplicações, dentre as quais existem diversas relações que ela pode tecer com outras áreas. É importante salientar que a ideia em questão não é imergir em devaneios afirmando que todos os conhecimentos contemplados na disciplina de matemática possuem aplicações ou relações com atividades e situações existentes no cotidiano, mas sim apresentar que é possível articular a educação matemática, a educação ambiental com o meio ambiente e, também, trabalhar interdisciplinarmente.

A metodologia utilizada consiste em uma pesquisa de campo, na qual o método utilizado foi o quantitativo e qualitativo, através de um levantamento estatístico recorrendo a aplicações de questionários para a coleta de dados. A pesquisa também pode ser caracterizada como pesquisa participante, onde o professor/pesquisador e os alunos trabalham em conjunto durante a atividade elaborada para a conscientização sobre o desperdício de água. Ademais, materiais como livros e documentos de cunho legal foram analisados para fundamentar a revisão de literatura e proporcionar embasamentos para a análise.

O artigo foi estruturado em cinco seções. Após a introdução a literatura foi revisada a partir de materiais que aludem a temática sobre a educação matemática, educação ambiental e o meio ambiente, com o intuito de evidenciar articulações entre tais áreas, além de fundamentar as análises. A terceira seção se refere à metodologia utilizada, a qual foi caracterizada como pesquisa de campo e pesquisa participante, tendo como instrumento de coleta de dados questionários aplicados para análise quantitativa e qualitativa. Na quarta seção é apresentada a análise dos dados coletados durante a atividade realizada com os alunos, que foram a população alvo da pesquisa. Para finalizar, a última seção contempla as considerações formuladas com base na síntese dos resultados.

2 EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O MEIO AMBIENTE

Desvencilhar-se de paradigmas que envolvam a ideia de que a matemática é legitimada pela rigorosidade, memorização e falta de aplicabilidade em questões do cotidiano, não é uma prática que pode ser considerada fácil ou superficial, todavia não podemos criar barreiras invisíveis que ditam a obrigatoriedade de nos atermos aos métodos tradicionais de ensino, pois a realidade nos evidencia que este modelo que vigorou e vigora há um período demasiadamente longo já não satisfaz totalmente as necessidades da nossa sociedade.

No que tange as questões relacionadas à educação ambiental e ao meio ambiente, a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, estabelece no artigo 2º os objetivos da Política Nacional do Meio ambiente, e no inciso X deste artigo, traz que um dos princípios desta política é promover a “educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio ambiente” (BRASIL, 1981, n.p.). Diante de tal embasamento, incumbe-se também aos professores de matemática corroborar com a conscientização em relação ao Meio ambiente, concebendo métodos articuladores com a sua disciplina.

Com o intuito de relacionar questões sociais com a aprendizagem e a educação da cidadania, o Ministério da Educação (MEC) estabeleceu dentro dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) um conjunto de temas a serem trabalhados no currículo, o qual foi nomeado como “Temas Transversais”, que contemplam a Ética, o Meio ambiente, a Pluralidade Cultural, a Saúde e a Orientação Sexual.

No que diz respeito aos PCNs elaborados acerca do Tema Transversal Meio ambiente para o ensino fundamental (3º e 4º ciclos), temos que é necessário trabalhar com os alunos sobre os princípios dos seres humanos e estabelecer a importância do seu papel diante das questões ambientes, prezando pelo desenvolvimento de um cidadão ciente das suas responsabilidades sociais, pois:

A perspectiva ambiental deve remeter os alunos à reflexão sobre os problemas que afetam a sua vida, a de sua comunidade, a de seu país e a do planeta. Para que essas informações os sensibilizem e provoquem o início de um processo de mudança de comportamento, é preciso que o aprendizado seja significativo, isto é, os alunos possam estabelecer ligações entre o que aprendem e a sua realidade cotidiana, e o que já conhecem. (BRASIL, 1998b, p. 189 - 190)

Ao conceber a ideia de inserção dos Temas Transversais na proposta curricular, ficou definido nos PCNs (BRASIL, 1998a, p. 27) que essas questões não deveriam ser trabalhadas de modo estanque, ou seja, a ideia é que se trabalhe com transversalidade, onde as disciplinas tradicionais devem cooperar e se integrar, buscando contemplar os temas em suas aulas, trazendo à tona assuntos interligados a atualidade.

Juntamente com a ideia de se trabalhar com a transversalidade, os Temas Transversais no ensino fundamental encorajam as práticas interdisciplinares, reforçando a importância da união das disciplinas, desvinculando-se dessa segregação, uma vez que um dos objetivos mais importantes é que todas as disciplinas se unam em prol de uma educação com mais qualidade e significado.

Ambas — transversalidade e interdisciplinaridade — se fundamentam na crítica de uma concepção de conhecimento que toma a realidade como um conjunto de dados estáveis, sujeitos a um ato de conhecer isento e distanciado. Ambas apontam a complexidade do real e a necessidade de se considerar a teia de relações entre os seus diferentes e contraditórios aspectos. Mas diferem uma da outra, uma vez que a interdisciplinaridade refere-se a uma abordagem epistemológica dos objetos de conhecimento, enquanto a transversalidade diz respeito principalmente à dimensão da didática. (BRASIL, 1998a. 29 - 30)

Quando tratamos as disciplinas escolares como conhecimentos desconexos, ou seja, que não estão interligados ou inter-relacionados, estamos incentivando os alunos a pensarem de tal modo, contribuindo para uma formação que não permite aos discentes articular conhecimentos abrangidos em diversas disciplinas. Em outras palavras, essa prática de guardar cada disciplina em compartimentos separados, catalogadas por áreas e horários, prejudica principalmente os alunos, que acabam não desenvolvendo a habilidade de ver a educação como um todo, onde os conhecimentos podem e devem se articular, almejando dar um significado ao que se aprende em sala de aula.

De acordo com José (2008, p. 87) “Eliminar as barreiras entre as disciplinas é um gesto de ousadia, uma tentativa de romper com um ensino transmissivo e morto”. De tal modo, faz-se necessário que os professores se desvencilhem do comodismo de reproduzir sempre o mesmo conhecimento, sem inovações e/ou aplicações, portanto devem sempre buscar metodologias inovadoras que contribuam para a verdadeira construção do conhecimento.

Ao falar sobre construção do conhecimento, cabe ressaltar o discurso de Freire (1996, p. 52), que defende que “transferir conhecimento” não é uma prática docente incumbida aos professores, pois o verdadeiro papel deles é criar condições para que os próprios alunos produzam, construam e reconstruam o conhecimento, de forma crítica e autônoma.

Finalizando as questões sobre a temática da interdisciplinaridade escolar, destaca-se o apontamento de Fazenda (2008, p. 21), que reflete que a interdisciplinaridade deve ter como primórdio melhorar o processo de aprendizagem, sendo administrada de forma integradora e sempre respeitando o conhecimento que os alunos trazem de casa. Trabalhar interdisciplinarmente vai muito além de fazer uma atividade que envolva duas disciplinas distintas, então, engana-se quem realiza essas práticas apenas para a aquisição de um status de professor inovador, ou seja, não basta elaborar uma atividade e chamá-la de interdisciplinar porque nela há conteúdos contemplados em disciplinas diferentes e, depois do término dessa aula, voltar para as fatídicas disciplinas estanques e segregadas; para realmente conceber uma metodologia interdisciplinar faz-se necessário um planejamento bem elaborado, que tenha como motivos norteadores dar significado aos conhecimentos adquiridos na escola e melhorar o processo de aprendizagem.

A ideia referente à necessidade de respeitar os conhecimentos que os alunos adquirem fora da escola nos remete a concepção defendida por Sacristán (1985, p. 89 – 91), que reflete sobre a existência de dois currículos, sendo eles o currículo interno e o currículo externo. Os currículos internos são aqueles pré-estabelecidos para serem trabalhados em sala de aula, já os currículos externos, ou também denominados de “extraescolares” envolvem os acontecimentos de origem externa à escola e todos os conhecimentos que permeiam a vida dos estudantes, ou seja, a sua realidade social e cultural. Esses currículos extraescolares podem ser vinculados aos currículos internos, de forma que sejam vistos em uma perspectiva multicultural, vindo a contribuir no processo de aprendizagem.

O conceito de multiculturalismo em educação faz referência a acepções que supõem objetivos diversos, com fundamentos ideológicos cujas fronteiras nem sempre são claras e evidentes. A educação multicultural pode ser instrumentalizada a partir de uma cultura dominante para assimilar uma cultura minoritária em condições desiguais e com oportunidades menores no sistema social e educacional; emprega-se como instrumento para reproduzir os preconceitos de uma sociedade para com minorias étnicas; pode-se formulá-la como programas diferenciados para que diversos setores culturais de uma sociedade encontrem ambientes educativos apropriados a cada um, pode-se entende-la como uma visão não-etnocêntrica da cultura que acolha o pluralismo cultural sob qualquer faceta. (SACRISTÁN, 1985, p. 91)

A matemática tem um papel importante na vida dos estudantes, em virtude disso, articular a disciplina com questões vinculadas à realidade fortifica e valoriza o processo de ensino e aprendizagem, proporcionando significado aos conhecimentos vistos em sala de aula. Os PCNs criados para essa disciplina informam que ela deve visar à construção da cidadania, e para isso há uma lista de objetivos proposto no currículo para o ensino fundamental, dentre os quais se encontram:

Fazer observações sistemáticas de aspectos quantitativos e qualitativos da realidade, estabelecendo inter-relações entre eles, utilizando o conhecimento matemático (aritmético, geométrico, métrico, algébrico, estatístico, combinatório, probabilístico); (BRASIL, 1998c, p. 48)

Em relação à articulação da Educação Matemática com o Meio ambiente, os PCNs (BRASIL, 1998c, p. 29) trazem como fortes articuladores os conteúdos que envolvem o “Tratamento da Informação”, pois os consideram como uma eficaz ferramenta para organizar, interpretar, calcular, produzir argumentos e estabelecer conclusões sobre informações coletadas. Dentre os conhecimentos presente neste bloco de conteúdos, é possível abordar, por exemplo, a construção e análise de gráficos, a coleta de dados em pesquisas estatísticas, os cálculos de médias, etc.

Além dos PCNs, outro documento muito importante para a educação é a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que tem como objetivo orientar as propostas curriculares, contemplando as capacidades e conhecimentos que devem ser trabalhados em cada área dentro das etapas de formação.

A BNCC, cuja finalidade é orientar os sistemas na elaboração de suas propostas curriculares, tem como fundamento o direito à aprendizagem e ao desenvolvimento, em conformidade com o que preceituam o Plano Nacional de Educação (PNE) e a Conferência Nacional de Educação (CONAE). (BRASIL, 2016, p. 24)

Em meio aos objetivos gerais da matemática nos anos finais do ensino fundamental que foram elencados pela BNCC (BRASIL, 2016, p. 401), é indicado “Usar conhecimentos matemáticos para compreender o mundo à sua volta”, evidenciando que assim como os PCNs, ela também expõe que a matemática possui ligações com a realidade, as quais devem ser utilizadas a favor da educação.

3 MATERIAL E MÉTODOS

O artigo consiste em uma pesquisa de campo, onde o método utilizado é o quantitativo e qualitativo, através de um levantamento estatístico recorrendo à aplicação de questionários que, juntamente com a elaboração da atividade com os alunos, foram os instrumentos para coletar os dados a serem analisados. Além da pesquisa de campo, materiais como livros e documentos de cunho legal foram analisados para fundamentar a revisão de literatura e proporcionar embasamentos para a análise. Ademais, pode-se definir a pesquisa como pesquisa participante, uma vez que o professor/pesquisador participa do estudo, elaborando instrumentos a serem utilizados para coletar as informações e auxiliando os participantes no processo de realização das atividades.

Gianotten e Wit (1984) defendem, de acordo com a definição geral estabelecida em 1977 em uma reunião do Consejo Internacional de Educación de Adultos, que:

A pesquisa participante é um enfoque de investigação social por meio do qual se busca a plena participação da comunidade na análise de sua própria realidade com o objetivo de promover a participação social para o benefício dos participantes da investigação. Esses participantes são os oprimidos, os marginalizados, os explorados. Trata-se, portanto, de uma atividade educativa, de investigação e ação social (CONSEJO INTERNACIONAL DE EDUCACIÓN DE ADULTOS apud GIANOTTEN; WIT, p. 169).

Comparando a pesquisa tradicional com a pesquisa participante, Boterf (1984, p. 52), constata que,

Considerando as limitações da pesquisa tradicional, a pesquisa participante vai, ao contrário, procurar auxiliar a população envolvida a identificar por si mesma os seus problemas, a realizar a análise crítica destes e a buscar as soluções adequadas.

A população alvo da pesquisa realizada neste estudo compõe-se por alunos do sétimo ano do ensino fundamental de uma escola estadual de ensino médio, situada no município de Gravataí, no Rio Grande do Sul. Para a realização da coleta de dados, foi elaborada uma atividade com caráter transdisciplinar e interdisciplinar, onde se recorreu ao questionário como um instrumento para coletar as informações necessárias.

4 ANÁLISE DOS RESULTADOS COLETADOS POR MEIO DA ATIVIDADE TRANSDISCIPLINAR/INTERDISCIPLINAR

O intuito da atividade, a qual foi executada ao longo de intervenções pedagógicas, foi conscientizar os alunos acerca do desperdício de água, utilizando como ferramenta a estatística. Para tal, os alunos trabalharam em grupos pesquisando e apresentando sobre os temas “Ciclo da Água”, “Poluição da Água”, “Tratamento da Água” e “Como Preservar a Água”, os quais atuaram como articuladores, com a finalidade de se trabalhar a interdisciplinaridade.

A atividade também envolveu a realização de pesquisas estatísticas em turmas da escola por meio de questionários, com o intuito de coletar dados para contemplar o estudo e aplicação de conhecimentos pertencentes ao bloco sobre tratamento da informação, analisando dados coletados sobre o desperdício de água. Para mais, realizaram-se atividades comparando o consumo de água da família dos estudantes com o valor de consumo mensal máximo por pessoa recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU), com a finalidade de que as análises dos dados fortaleça a importância da preservação de tal recurso natural.

Como instrumento para coleta e analise de dados, aplicou-se com os alunos um questionário final, tendo também como desígnio verificar se a o objetivo geral do artigo foi exercido. A análise de dados ocorreu através da quantificação das respostas e da apreciação/qualificação dos ditos coletados.

É importante discorrer sobre o conteúdo escolhido para articular a educação matemática com o meio ambiente, mais especificamente no que diz respeito à preservação da água. A atividade foi desenvolvida concomitantemente com a abordagem dos conteúdos contemplados no bloco destinado ao “Tratamento da Informação”. A escolha desta área se deu pelo fato de que as pesquisas estatísticas são excelentes ferramentas para investigar questões vinculadas à realidade e, ademais, os PCNs relatam que ao trabalhar questões acerca do meio ambiente os alunos devem adquirir conhecimentos matemáticos, dentre os quais se encontram os procedimentos estatísticos, uma vez que:

O estudo detalhado das grandes questões do Meio ambiente - poluição, desmatamento, limites para uso dos recursos naturais, sustentabilidade, desperdício, camada de ozônio - pressupõe que o aluno tenha construído determinados conceitos matemáticos (áreas, volumes, proporcionalidade etc.) e procedimentos (coleta, organização, interpretação de dados estatísticos, formulação de hipóteses, realização de cálculos, modelização, prática da argumentação etc.). (BRASIL, 1998c, p. 31)

Outro fato que contribuiu para a escolha do conteúdo foi que a BNCC (BRASIL, 2016, p. 417) relata que “Não há dúvidas de que a Estatística está fortemente relacionada aos temas sociais emergentes, sobretudo aos integradores, permitindo promover a interdisciplinaridade”, o que vai ao encontro da proposta da atividade, que teve como intuito trabalhar transversalmente e interdisciplinarmente.

Em determinado momento da atividade, foi solicitado aos alunos que elaborassem, por meio de ferramentas estatísticas (gráficos), uma comparação entre o consumo de água da sua casa do mês anterior ao vigente (de acordo com a sua conta de água), com o consumo mensal máximo informado pela ONU (com base na quantidade de pessoas que moram em sua residência)”. Juntamente com a construção dos gráficos, foi solicitado que os discentes realizassem uma análise sobre o consumo de água da casa deles em relação ao gráfico construído. Dentre as análises apresentadas pelos alunos, alguns discursos se destacaram, quais sejam: “Para diminuir o consumo de água devemos reduzir o tempo de banho, reaproveitar a água da máquina para lavar pisos e calçados, não deixar a água pingando, não deixar nenhum vazamento hidráulico na residência, etc.”; “Não poupamos água esse mês e ainda gastamos mais água que devíamos isso é muito triste.”; “Nós desperdiçamos água, isso é uma coisa horrível, temos que começar a poupar água, porque daqui alguns anos não teremos água para beber. Vou começar a poupar água.”

Analisando os ditos dos alunos é possível constatar que o objetivo de conscientização acerca do desperdício de água foi colocado em prática, o qual pode ser evidenciado também no discurso onde o estudante apresentou sugestões de como a sua família poderia começar a poupar água. Essa conduta vai ao encontro com as capacidades, propostas pelos PCNs, que os alunos do ensino fundamental devem desenvolver ao trabalhar com o tema Meio ambiente, sendo uma delas “adotar posturas na escola, em casa e em sua comunidade que os levem a interações construtivas, justas e ambientalmente sustentáveis” (BRASIL, 1998b, p. 197). É importante que os professores elaborem suas aulas de forma que conduzam os alunos a se tornarem cidadãos responsáveis e conscientes, pois eles exercem um papel indispensável nas questões sociais e ambientais.

Em se tratando dos questionários aplicados pelos grupos de alunos nas demais turmas da escola, a finalidade consistiu em utilizar os conhecimentos estatísticos para que analisassem as informações obtidas na coleta de dados. As perguntas presentes no questionário questionavam quanto tempo os alunos demoravam no banho, se eles fecham o registro enquanto se ensaboam, se deixam a agua escorrendo ao escovar os dentes, se a família deixa a torneira aberta enquanto lava a louça e se eles têm consciência de que a água pode acabar no futuro. Dentre as análises realizadas pelos grupos, ressaltam-se as seguintes: “26% das pessoas não desperdiçam água enquanto tomam banho”; “A maioria dos alunos não fecham o registro durante o banho enquanto estão se ensaboando, se todos fechassem iria ajudar muito a poupar bastante água.”; “A maioria da turma não deixa a água escorrendo, isso deve ajudar a poupar água.”; “78% dos alunos economizam água fechando a água da pia enquanto escovam os dentes.”; “A maioria não deixa a torneira aberta enquanto lava a louça, isso é bom.”; “A maioria não aproveita a água da chuva, mas se eles aproveitassem iriam ajudar muito a economizar.”.

Por meio da atividade proposta aos alunos, teve-se como objetivo que eles visualizem mediante a pesquisa estatística que eles são parte integrante da sociedade e que exercem um papel fundamental na preservação do Meio ambiente, o que coincide mais uma vez com os objetivos que os PCNs indicam para as capacidades que devem ser desenvolvidas nos alunos do ensino fundamental, sendo elas: “perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente” (BRASIL, 1998a, p. 07).

A fim de caracterizar a atividade realmente como interdisciplinar evidenciou-se a desfragmentação das disciplinas, para que os alunos não separem erroneamente o trabalho em “partes distintas”, uma vez que o intuito é possibilitar compreensão de que os conhecimentos abordados em disciplinas distintas podem e devem ser articulados, rompendo estes paradigmas sobre os saberes escolares desconexos.

Ao finalizar a atividade, 26 alunos responderam um questionário com quatro perguntas, quais sejam: “Você gostou de realizar esta atividade?”; “Você conseguiu ver que a matemática pode ser aplicada em questões do dia a dia?”; “Em sua opinião, quando falamos de desperdício de água é possível afirmar que “Menos é Mais”?”; “Após a realização da atividade, o que você tem a dizer sobre o desperdício e a preservação da água? Você se conscientizou?”.

Em relação à primeira pergunta, a qual questionava se eles gostaram de realizar a atividade, todos responderam que “sim”, e dentre as respostas se encontraram as seguintes: “Gostei, porque pudemos ver a importância da água para a humanidade e para a natureza.”; “Sim. Porque não é sempre que fazemos algo assim.”; “Sim, porque pude ver o quanto desperdiço água.”; “Sim, porque vi que eu não estava economizando água.”.

Na pergunta número dois, que possuía a intenção de saber se eles conseguiram enxergar que a matemática pode ser aplicada em questões do dia a dia, 19 responderam que “sim”, 2 responderam que “não” e 5 responderam que “mais ou menos”. As respostas positivas nesta questão evidenciam que é possível desenvolver nos alunos a habilidade de articular a matemática com situações da realidade, dando significado ao aprendizado, uma vez que os PCNs elaborados para essa disciplina explanam que ela colabora com “a construção e a apropriação de um conhecimento pelo aluno, que se servirá dele para compreender e transformar sua realidade;”. (BRASIL, 1998c, p. 56)

Em se tratando da terceira pergunta, ao serem questionados sobre se é possível, ao falarmos de desperdício de água, afirmar que “Menos é Mais”, as seguintes justificativas foram utilizadas: “Se usarmos um pouco menos de água no futuro irá ser mais água para nós mesmos”; “Quanto menos água tu gastar melhor. Por isso menos é mais, eu tô consciente disso.”; “Porque quanto menos nós usarmos mais economizamos e ajudamos nosso planeta.”; “Porque quando economizar água, por mais que seja um pouco, podemos ajudar mais.”.

Na última pergunta, que questionava sobre o desperdício de água e se eles haviam se conscientizado, a resposta sobre a conscientização foi unanime, onde todos afirmaram estar conscientes sobre o desperdício de água. Dentre as respostas sobre o que eles tinham a dizer em relação ao assunto, algumas chamaram a atenção, como por exemplo: “Sim, porque tem muita gente que desperdiça água em vão.”; “Se as pessoas não se conscientizarem a água pode acabar. Eu me conscientizei sobre essa situação”; “Eu tenho a dizer é que a água é um dos nossos bens mais preciosos e um dia iremos ficar sem, então sim eu me conscientizo”; “Eu falo que as pessoas tem que economizar água, não ficar mil anos no banho, etc.”; “Sim, eu não sabia que desperdiçava muita água e agora eu sei”.

Em relação à água, os PCNs sobre o meio ambiente (BRASIL, 1998b, p. 222) relatam que ao trabalharmos com esta temática os alunos devem assimilar que este recurso natural não é renovável, fazendo com que eles se conscientizem da importância e do cuidado que devemos possuir com ele, uma vez que dependemos dele para sobreviver. Ao analisar os discursos dos alunos é possível notar que esse objetivo foi alcançado, pois em suma relatam que a experiência influenciou na conscientização sobre o desperdício de água.

Fazendo uma síntese em relação às análises realizadas a partir da atividade é possível concluir que trabalhar transversalmente e interdisciplinarmente pode contribuir para a formação de alunos mais responsáveis e mais conscientes acerca das questões que envolvem a realidade a qual estão inseridos. Além do mais, notou-se a motivação dos alunos em realizar um trabalho diferenciado, que se desvencilhou das aulas tradicionais, e que cooperou para dar significação aos conhecimentos matemáticos abordados em sala de aula.

Com a realização da pesquisa participante, onde o professor/pesquisador e os alunos trabalharam juntamente durante cada processo, foi possível notar a conscientização dos discentes sobre o fato de que eles podem contribuir no combate contra o desperdício de água, pois eles se enxergaram como parte da sociedade, onde cada um pode e deve fazer a sua parte para preservar o Meio ambiente.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta do artigo foi evidenciar que é possível articular a educação matemática com a educação ambiental. Para tanto, primeiramente foi realizada uma revisão de literatura em materiais que aludem tal temática. Para responder a problematização “Como a estatística pode ser utilizada para a conscientização dos alunos do 7º ano do ensino fundamental sobre o desperdício de água”? - foi desenvolvida uma atividade interdisciplinar com alunos do sétimo ano do ensino fundamental de uma escola estadual do município de Gravataí/RS. A proposta consistiu em utilizar a matemática, especificamente a estatística, para contribuir na conscientização dos alunos sobre o desperdício de água.

Para verificar a efetivação do objetivo proposto, aplicou-se com os alunos questionários. Com base nas respostas coletados em tal instrumento, e em conjunto com os privilégios proporcionados pela pesquisa participante, constatou-se que os alunos, de modo geral se conscientizaram sobre o desperdício de água, vislumbrando-se como integrantes da sociedade, onde cada indivíduo tem um papel fundamental na preservação deste recurso natural precioso.

Os conhecimentos adquiridos perante a elaboração do artigo contribuem principalmente para que se repense as metodologias empregadas em sala de aula, uma vez que revela as vantagens da transversalidade e da interdisciplinaridade como ferramentas no processo de significação e da construção do conhecimento dos alunos. Por conseguinte, considera-se que os dados apresentados na pesquisa podem influenciar e impulsionar a aspiração de docentes para que busquem práticas inovadoras, que sejam interdisciplinares dentro de um processo de educação ambiental e que tenham como fundamento o intento de quebrar as barreiras impostas pelo modelo tradicional de ensino.

REFERÊNCIAS

BOTERF, Guy Le. Pesquisa participante: propostas e reflexões metodológicas. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1984. 252p.

BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Institui a Política Nacional do Meio ambiente. Brasília, DF: Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 1981.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos, apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998a.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: meio ambiente. Brasília: MEC/SEF, 1998b.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: matemática. Brasília: MEC/SEF, 1998c.

______. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2016.

FAZENDA, Ivani Catarina. Interdisciplinaridade-transdisciplinaridade: Visões culturais e epistemológicas. In: FAZENDA, Ivani Catarina (org). O Que é interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, ed. 25, 1996.

GIANOTTEN, Vera; WIT, Ton de. Pesquisa participante em um contexto de economia camponesa. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1984. 252p.

JOSÉ, Mariana Aranha Moreira. Interdisciplinaridade: as disciplinas e a interdisciplinaridade brasileira. In: FAZENDA, Ivani Catarina (org). O Que é interdisciplinaridade? São Paulo: Cortez, 2008.

SACRISTÁN, J. Gimeno. Currículo e diversidade cultural. In: SILVA, Tomaz T. da; MOREIRA, Antonio F. (orgs.). Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 82-113.



" data-layout="standard" data-action="like" data-show-faces="true" data-share="true">
 
Início      Cadastre-se!      Procurar      Submeter artigo      Fazer doação      Contato     Apresentação     Normas de Publicação     Artigos     Dicas e Curiosidades     Reflexão     Para sensibilizar     Dinâmicas e recursos pedagógicos     Entrevistas     Divulgação de Eventos     O que fazer para melhorar o meio ambiente     Sugestões bibliográficas     Educação     Plantas medicinais     Práticas de Educação Ambiental     Uma crônica, um artigo e algumas histórias!     Educação e temas emergentes     Ações e projetos inspiradores     Gestão Ambiental     Cidadania Ambiental     Relatos de Experiências     Notícias